Por Yuri Schein
Falar em múltiplos princÃpios primeiros é, no mÃnimo, um erro filosófico grave e, no máximo, uma contradição explÃcita. Um princÃpio primeiro, por definição, é aquilo que não depende de nada além de si mesmo; é o ponto final da justificação, o fundamento absoluto sobre o qual todo o restante repousa. Se você introduz dois ou mais “últimos”, você já destruiu o conceito de “último”. Dois absolutos não coexistem; eles entram em conflito imediatamente, porque autoridade absoluta não se compartilha. E quando há conflito, surge a pergunta inevitável: qual deles tem autoridade final? Se você responde “os dois”, você não respondeu nada; se precisa de um terceiro critério para decidir entre eles, então esse terceiro já é o verdadeiro princÃpio primeiro, e o seu sistema colapsou. Essa é a falha central: múltiplos fundamentos não resolvem o problema da base, apenas o deslocam para uma regressão infinita. Você diz que um princÃpio se apoia em outro, mas então precisa justificar essa relação, e depois justificar a justificativa, e assim sucessivamente, sem nunca chegar a um ponto verdadeiramente absoluto. O resultado não é um sistema sofisticado, mas uma estrutura circular disfarçada de complexidade. Pensadores como Gordon Haddon Clark e Vincent Cheung expõem esse problema ao afirmar que o conhecimento só pode ser consistente quando tem uma única fonte última de verdade, e essa fonte, para eles, é a revelação proposicional de Deus nas Escrituras. A razão é simples: se a verdade está fragmentada em múltiplas origens, nenhuma delas é verdadeiramente última, e o sistema perde sua unidade interna. E sem unidade, não há conhecimento, apenas opinião organizada. O apelo moderno por múltiplos fundamentos parece sofisticado, mas é apenas uma tentativa de evitar a necessidade de compromisso com um ponto absoluto. No entanto, isso não elimina o problema, apenas o mascara. No momento em que esses fundamentos entram em conflito, o sistema revela sua fragilidade: ele não possui um critério último para decidir nada. Assim, o que parecia ser equilÃbrio é, na verdade, instabilidade estrutural. No fim, a realidade é simples e implacável: ou existe um fundamento último que sustenta tudo, ou não existe fundamento algum, e, portanto, não existe conhecimento verdadeiro. Múltiplos princÃpios primeiros não representam maturidade filosófica, mas a incapacidade de sustentar uma posição coerente.
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