sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Finale

 A tempestade terminou antes do amanhecer.


Quando os primeiros raios de sol atravessaram as nuvens sobre Baltamus, ninguém sabia exatamente como a guerra havia terminado.


Os mortos-vivos haviam parado.


Não porque alguém os tivesse derrotado em batalha.


Eles simplesmente pararam.


Sem o Necromante, não havia mais voz comandando as hordas.


Nas muralhas, soldados dos doze reinos observavam o exército inimigo permanecer imóvel. Alguns mortos simplesmente caíram. Outros permaneceram de pé, imóveis, como estátuas abandonadas.


Então alguém gritou:


— VENCEMOS!


Outro respondeu.


E outro.


Até que o grito percorreu todo o campo de batalha.


— VENCEMOS!


Os soldados se abraçaram.


Homens que haviam chegado ali acreditando que morreriam naquela noite choravam.


Elfos erguiam seus arcos.


Anões batiam seus machados contra os escudos.


Os estandartes dos doze reinos foram levantados juntos sobre as muralhas de Baltamus.


Mas, dentro do palácio, Ikarus não comemorava.


Ele estava sentado diante de uma janela.


Seus filhos estavam ao seu lado.


Eiran havia crescido naquela noite.


Não em idade.


Mas em tudo aquilo que uma pessoa aprende quando percebe que o próprio pai quase morreu diante de seus olhos.


Lyra segurava a mão de Ikarus.


— Pai?


Ikarus olhou para ela.


— Sim?


— Acabou?


Ikarus observou a cidade.


Depois os exércitos.


Depois os doze estandartes.


— Esta guerra acabou.


Lyra sorriu.


— Então podemos voltar para casa?


Ikarus sorriu.


— Podemos.


E pela primeira vez em muitos anos, Ikarus não tinha uma missão.


Não havia fragmento para procurar.


Não havia Guardião para enfrentar.


Não havia reino para atravessar.


Não havia inimigo esperando no fim da estrada.


Havia apenas casa.


---


A festa começou três dias depois.


Não foi uma comemoração pequena.


Durante semanas, os povos dos doze reinos celebraram.


Música tomou as cidades.


As tavernas ficaram cheias.


As praças foram iluminadas.


As bandeiras dos antigos Guardiões foram colocadas lado a lado.


Na grande praça de Baltamus, ergueram-se doze estátuas.


Lenória.


Sefrion.


Setra.


Gallen.


Valeth.


Kallon.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Aldora.


E, diante delas, havia uma décima terceira estátua.


Ikarus.


Ele não gostou.


— Eu não quero isso.


Eiran riu.


— Tarde demais.


Ikarus olhou para a estátua.


— Está muito bonita.


Lyra respondeu:


— Está parecida com você.


Ikarus estreitou os olhos.


— Eu sou mais bonito.


Lyra começou a rir.


Eiran também.


Ikarus olhou para os dois.


Durante alguns segundos, não disse nada.


Então os abraçou.


Naquela noite, ele finalmente entendeu algo que havia levado a vida inteira para aprender.


Ele não precisava mais correr.


---


Os anos passaram.


Eiran cresceu.


Tornou-se um guerreiro.


Não porque seu pai tivesse ordenado.


Porque escolheu.


Lyra cresceu também.


E aquilo que havia despertado nela naquela noite jamais foi completamente compreendido.


Ela estudou os registros dos antigos Hunens.


Aprendeu línguas esquecidas.


Estudou magia.


História.


Os fragmentos.


E, principalmente, aquilo que havia acontecido antes da Guerra dos Duzentos Anos.


Ikarus nunca lhe contou tudo.


Talvez porque ele próprio ainda não soubesse.


Talvez porque algumas respostas fossem perigosas demais.


Os anos transformaram os três.


Eiran tornou-se um homem.


Lyra tornou-se uma mulher.


E Ikarus...


começou a envelhecer.


Seu corpo havia sobrevivido àquilo que nenhum homem deveria ter sobrevivido.


O poder dos doze fragmentos havia cobrado seu preço.


Os antigos Guardiões haviam colocado suas forças dentro dele.


E Ikarus havia usado tudo.


Na batalha de Baltamus, ultrapassara várias vezes os limites do próprio corpo.


Os médicos diziam que seu coração estava cansado.


Os magos diziam que sua energia vital havia sido consumida.


Ikarus simplesmente dizia:


— Eu já tive mais tempo do que merecia.


---


Vinte anos depois da queda do Necromante, Baltamus estava diferente.


As muralhas haviam sido reconstruídas.


As cidades haviam prosperado.


Os doze reinos mantinham alianças que pareciam impossíveis antes da guerra.


A história de Ikarus havia se tornado uma lenda.


As crianças aprendiam seu nome.


Os bardos cantavam suas batalhas.


Alguns exageravam.


Outros inventavam.


E Ikarus odiava todos eles.


— Eu nunca fiz isso.


Eiran ria.


— Deixe as pessoas contarem histórias.


— Mas eu não atravessei um dragão com uma mão.


Lyra respondeu:


— Agora você atravessaria.


Ikarus olhou para ela.


— Não zombem de um velho.


Era a primeira vez que ele aceitava a palavra.


Velho.


Naquela noite, os três estavam juntos em uma pequena casa afastada da cidade.


Não havia exército.


Não havia trono.


Não havia armadura.


Apenas uma mesa.


Três pessoas.


E uma velha espada encostada na parede.


Ikarus olhou para os filhos.


— Vocês cresceram rápido demais.


Eiran sorriu.


— Você demorou muito para perceber.


Ikarus riu.


Depois ficou em silêncio.


Olhou pela janela.


O céu estava limpo.


Duas luas brilhavam sobre Baltamus.


Por alguns segundos, ele parecia procurar alguma coisa entre as estrelas.


Lyra percebeu.


— O que foi?


— Nada.


Ele sorriu.


— Só estava lembrando.


— De quê?


Ikarus pensou.


De Gillian.


De Raella.


Dos Guardiões.


De Thomas.


Dos fragmentos.


Da primeira vez que segurou uma espada.


Da última vez que viu Angarkor.


De tudo.


— De uma estrada.


Lyra segurou sua mão.


— Você ainda quer viajar?


Ikarus sorriu.


— Talvez.


Foi a última palavra que disse naquela noite.


Na manhã seguinte, Eiran encontrou o pai sentado diante da janela.


Imóvel.


Tranquilo.


Como se estivesse apenas dormindo.


Mas Ikarus havia partido.


Sem batalha.


Sem inimigo.


Sem sangue.


Sem gritos.


Depois de uma vida inteira lutando para voltar para casa...


ele morreu em casa.


---


Seu funeral aconteceu em Lenória.


Milhares foram até lá.


Os doze reinos enviaram seus representantes.


As bandeiras dos antigos Guardiões foram colocadas sobre seu túmulo.


Eiran permaneceu diante da sepultura durante muito tempo.


Lyra estava ao lado dele.


Nenhum dos dois chorava.


Até que Eiran finalmente colocou a espada do pai sobre a lápide.


— Você voltou.


Lyra fechou os olhos.


— Finalmente.


O vento passou entre as árvores.


E, naquele instante, uma pequena luz surgiu no céu.


Lyra abriu os olhos.


— Eiran...


Ele olhou.


Por apenas um segundo, alguma coisa atravessou as nuvens.


Uma estrela.


Não.


Uma coisa que parecia uma estrela.


E desapareceu.


---


Cinquenta anos se passaram.


Ad’Heim mudou novamente.


Os nomes de Ikarus e dos doze Guardiões haviam se tornado lendas.


Novos reis governavam os antigos reinos.


Novas cidades haviam surgido.


Novas gerações nasceram sem conhecer a guerra que havia quase destruído o mundo.


Mas algumas histórias nunca morreram.


Nos arquivos de Lenória, Lyra, agora uma anciã, estudava um antigo manuscrito.


Era um dos registros recuperados do palácio do Necromante.


Ela passou os dedos pela página.


Havia apenas uma frase.


“Quando Ragnarok retornar ao Limbo, os três desertores não serão mais três.”


Lyra franziu a testa.


Virou a página.


Nada.


Outra.


Nada.


Até encontrar um desenho.


Um símbolo que ela jamais havia visto.


O mesmo símbolo que aparecera naquela noite em Baltamus.


Ela ficou imóvel.


Então ouviu passos.


Um jovem entrou na biblioteca.


— Senhora Lyra?


Ela fechou o livro.


— Sim?


— Encontramos algo nas ruínas ao norte.


— O quê?


O jovem colocou um pequeno objeto sobre a mesa.


Um fragmento de metal negro.


Lyra tocou nele.


A sala inteira estremeceu.


As velas se apagaram.


E uma voz muito distante pareceu sussurrar através das paredes:


— Ikarus...


Lyra abriu os olhos.


O jovem recuou.


— O que foi isso?


Lyra olhou para o fragmento.


E sorriu.


Não era um sorriso de felicidade.


Era o sorriso de alguém que acabara de descobrir que uma história que julgava encerrada...


nunca havia realmente terminado.


Muito longe dali, além das fronteiras conhecidas de Ad’Heim, alguma coisa abriu os olhos.


No Limbo dos Hunens.


E, pela primeira vez em cinquenta anos, duas palavras ecoaram naquele lugar:


— Ele voltou.


A história de Ikarus havia terminado.


Mas a história de Ad’Heim...


não.


FIM DA PRIMEIRA SAGA.

Ad'Heim: Vazio

 O salão inteiro parecia desabar.


Neutro e Ordekh avançavam juntos.


Angarkor estava ferido, mas ainda permanecia de pé.


Os três se encaravam entre as colunas quebradas, enquanto a tempestade rugia do lado de fora.


Neutro foi o primeiro.


— RAGNAROK!


Ele avançou com toda a força.


Angarkor desviou da primeira lâmina, girou o corpo e cravou uma das katares contra o peito de Neutro.


O golpe foi tão rápido que Neutro sequer conseguiu reagir.


Ordekh gritou:


— NEUTRO!


Neutro cambaleou.


Angarkor retirou a katar.


— Você ainda é lento.


Ordekh atacou.


As duas armas se chocaram.


Uma.


Duas.


Três vezes.


Ordekh conseguiu atingir Angarkor no ombro.


Sangue escorreu.


Angarkor olhou para o ferimento.


Depois para Ordekh.


— Finalmente.


Ordekh preparou outro golpe.


Angarkor desapareceu.


Surgiu atrás dele.


As duas katares atravessaram sua defesa.


Ordekh caiu de joelhos.


Angarkor segurou-o pelo ombro.


— Vocês dois deveriam ter ficado no passado.


Ordekh levantou os olhos.


— E você... deveria ter morrido com ele.


Angarkor permaneceu em silêncio.


Então desferiu o golpe final.


Uma energia negra envolveu o corpo de Ordekh.


O espaço atrás dele se abriu.


Não era uma porta.


Era uma ruptura.


Um vazio.


O Limbo dos Hunens.


Ordekh foi lançado para dentro.


Antes de desaparecer, seus olhos encontraram os de Neutro.


E os dois compreenderam.


Não haviam sido mortos.


Haviam sido banidos.


O portal se fechou.


Angarkor ficou sozinho.


Quase.


Seu corpo estava coberto de ferimentos.


Sangue escorria por seu rosto, pelo peito e pelos braços.


A respiração estava pesada.


Ele havia vencido.


Mas havia pago caro.


Do outro lado do salão, o Necromante observava as crianças.


Uma delas estava cercada por aquela luz estranha.


A chave.


Aquela que a profecia havia indicado.


Aquela que poderia um dia destruir o Necromante.


Ele finalmente compreendeu.


— Então é você.


A criança recuou.


Ikarus tentou avançar.


— Não toque nela!


O corpo não respondeu.


Ele caiu sobre um joelho.


O Necromante caminhou até a criança.


— Durante todos esses anos...


Ele estendeu a mão.


— Eu procurei a chave.


Ikarus tentou levantar.


— Pare!


Nada.


O Necromante segurou a criança.


A luz aumentou.


— Seu pai não sabe o que você é.


A criança chorava.


— Mas eu sei.


O Necromante ergueu a mão.


Ikarus gritou:


— NÃO!


Angarkor virou o rosto.


Algo havia mudado.


A respiração de Angarkor ficou irregular.


Ele levou uma das mãos ao peito.


As veias negras começaram a se espalhar por seu corpo.


Seu rosto se contorceu.


— Não...


O Necromante olhou para ele.


— O que está acontecendo?


Angarkor caiu sobre um joelho.


As mãos tremiam.


Uma voz diferente ecoou em sua cabeça.


Uma voz antiga.


Uma memória.


Uma mulher.


Violet.


Angarkor fechou os olhos.


E viu.


Não o campo de batalha.


Não os Guardiões.


Não a guerra.


Viu Violet.


Seu rosto.


Seus olhos.


Aquela lembrança que havia sido enterrada tão profundamente que quase parecia pertencer a outra vida.


Então abriu os olhos.


E viu a criança.


Por um instante, não enxergou um descendente de Ikarus.


Viu outra coisa.


Uma lembrança.


A fragilidade.


O medo.


Aquela mesma expressão que ele conhecera um dia.


A mesma que havia visto nos olhos de Violet.


Angarkor ficou imóvel.


— Violet...


O Necromante não compreendeu.


— O que disse?


Angarkor levantou lentamente a cabeça.


Mas já não era completamente Angarkor quem olhava para ele.


Ragnarok havia despertado.


Não como uma criatura separada.


Não como outro corpo.


Mas como aquilo que sempre estivera escondido dentro daquele avatar.


A consciência antiga.


O Algoz.


O nome que Neutro e Ordekh haviam pronunciado.


Ragnarok.


Ele olhou para a criança.


Depois para o Necromante.


— Você não vai tocar nela.


O Necromante recuou.


— Angarkor?


Ragnarok avançou.


O Necromante tentou reagir.


Tarde demais.


O choque foi brutal.


A energia dos dois atravessou o salão.


Ragnarok atingiu o Necromante antes que ele pudesse completar o ataque.


O impacto o lançou contra o trono.


O Necromante tentou se levantar.


Ragnarok apareceu diante dele.


— Eu já perdi alguém assim uma vez.


O Necromante tentou falar.


Ragnarok o atingiu novamente.


O poder atravessou o corpo do Necromante.


Ele caiu.


Silêncio.


O Necromante estava morto.


Ragnarok permaneceu diante dele.


Mas seu próprio corpo estava chegando ao limite.


Os ferimentos provocados por Neutro e Ordekh haviam sido profundos.


Seu corpo começou a perder estabilidade.


A forma de Angarkor oscilava.


Por um instante, parecia que ele desapareceria.


Ikarus observava, ainda incapaz de compreender o que havia acabado de acontecer.


— Angarkor...


Ragnarok olhou para ele.


Por alguns segundos, os olhos vermelhos encontraram os olhos de Ikarus.


Não havia mais o mesmo ódio.


Havia algo diferente.


Talvez lembrança.


Talvez arrependimento.


Talvez apenas cansaço.


Ragnarok olhou novamente para a criança.


Depois para o corpo de Ikarus.


— Proteja-os.


Ikarus arregalou os olhos.


— O quê?


Ragnarok não respondeu.


Seu corpo começou a se desfazer em partículas negras.


A forma física de Angarkor permaneceu por mais alguns segundos.


Então ele olhou para o alto.


— Este corpo já cumpriu sua função.


Uma abertura surgiu atrás dele.


O mesmo vazio que havia engolido Neutro e Ordekh.


O Limbo.


Ragnarok deu um último passo.


Antes de desaparecer, voltou os olhos para Ikarus.


— Ainda não acabou.


Então atravessou.


O portal se fechou.


Angarkor havia deixado seu avatar.


E retornado ao Limbo dos Hunens.


No salão destruído, restaram apenas Ikarus, seus filhos...


e o corpo do Necromante.


Lá fora, a chuva continuava caindo.


Mas, pela primeira vez desde o início daquela guerra, não havia mais ninguém dando ordens aos mortos.


O exército do Necromante havia perdido seu mestre.


E, muito longe dali, no Limbo dos Hunens...


duas figuras caíram sobre um chão que não pertencia ao mundo dos vivos.


Neutro abriu os olhos.


Ordekh também.


Os dois estavam feridos.


Mas vivos.


E, em algum lugar muito mais profundo daquele lugar impossível, alguma coisa os observava.


Uma presença que havia sentido o retorno de Ragnarok.


E que agora sabia que Angarkor havia voltado ao Limbo.


A guerra em Ad’Heim havia terminado.


Mas a história dos Hunens...


estava apenas começando.

Ad'Heim: Ragnarok

 O brilho que havia surgido nos fragmentos de Ikarus aumentou.


Mas não foi Ikarus quem se levantou.


Foi Angarkor quem recuou.


Um som profundo atravessou o salão.


Como se alguma coisa muito antiga tivesse acabado de despertar sob o palácio.


O Necromante olhou para as paredes.


— Não...


Então uma voz surgiu atrás de Angarkor.


— Já chega.


Angarkor parou.


Outra voz respondeu, vindo do lado oposto:


— Você foi longe demais.


Ikarus ergueu os olhos.


Duas silhuetas estavam surgindo das sombras.


A primeira caminhava lentamente pelo salão.


A segunda vinha pelo corredor lateral.


Angarkor permaneceu imóvel.


Então seus olhos se estreitaram.


— Vocês...


O primeiro homem parou.


Neutro.


O segundo aproximou-se.


Ordekh.


Os dois encaravam Angarkor.


Por alguns segundos, ninguém falou.


Então Neutro ergueu sua arma.


— Você não deveria mais existir.


Ordekh completou:


— Mas sempre foi assim com você.


Angarkor abaixou a cabeça.


Um sorriso surgiu em seu rosto.


— Quanto tempo.


Neutro respondeu:


— Tempo demais.


Ikarus tentou se levantar.


— Quem...


Sua voz falhou.


Ordekh olhou para ele.


— Fique no chão.


Ikarus tentou protestar.


— Eles...


— Depois.


Ordekh voltou os olhos para Angarkor.


— Agora temos outro assunto.


Angarkor desembainhou lentamente as duas katares.


O som metálico atravessou o salão.


Neutro apertou a própria arma.


— Ragnarok.


Ikarus olhou para ele.


A palavra pareceu estranha.


Ordekh repetiu:


— Ragnarok.


Angarkor ficou completamente imóvel.


— Não me chamem assim.


Neutro deu um passo.


— Esse foi o nome que recebeu quando deixou de ser apenas Angarkor.


Ordekh avançou.


— O nome daquele que não deveria voltar.


Angarkor levantou o rosto.


Os olhos vermelhos brilhavam.


— Vocês ainda acreditam que podem me impedir?


Neutro respondeu:


— Não.


Ordekh completou:


— Mas podemos tentar.


Angarkor desapareceu.


O choque seguinte quase derrubou o salão.


CLANG!


Neutro bloqueou a primeira katar.


Ordekh interceptou a segunda.


Angarkor girou.


Os três desapareceram em uma sucessão de movimentos rápidos demais para Ikarus acompanhar.


As lâminas colidiam.


O chão rachava.


As colunas tremiam.


Ikarus observava, ainda ajoelhado.


Mas então ouviu uma voz.


— Eiran.


O garoto virou-se.


O Necromante estava atrás dele.


Eiran imediatamente levantou a espada.


— Não chegue perto da minha irmã.


Lyra segurou o braço do irmão.


O Necromante não atacou.


Apenas os observou.


— Vocês não deveriam ter vindo.


Eiran respondeu:


— Viemos pelo nosso pai.


— Eu sei.


O menino hesitou.


O Necromante olhou para Lyra.


Depois para Eiran.


— Vocês sabem quem são?


Eiran franziu a testa.


— Somos filhos de Ikarus.


— Não foi isso que perguntei.


O silêncio caiu entre os três.


O Necromante aproximou-se lentamente.


Eiran levantou a espada.


— Pare.


O Necromante parou.


— Seu pai passou anos procurando respostas.


Ele olhou para Ikarus, caído no centro do salão.


— E nunca percebeu que algumas delas estavam diante dele.


Lyra perguntou:


— Que respostas?


O Necromante não respondeu.


Seus olhos estavam fixos nela.


Então alguma coisa aconteceu.


Uma pequena luz surgiu na mão de Lyra.


Ela recuou assustada.


— O que é isso?


Eiran olhou para a mão da irmã.


— Lyra...


A luz aumentou.


Ao mesmo tempo, um dos fragmentos de Ikarus brilhou novamente.


Depois outro.


Angarkor percebeu.


Mesmo lutando contra Neutro e Ordekh, virou o rosto.


Seus olhos encontraram Lyra.


E, pela primeira vez, sua expressão mudou completamente.


— Não.


Neutro aproveitou a distração e atingiu Angarkor.


Ragnarok foi lançado contra uma coluna.


A pedra explodiu.


Ordekh avançou.


— Olhe para nós!


Angarkor levantou-se.


Mas continuava olhando para Lyra.


— Então era ela...


Eiran se colocou diante da irmã.


— Não sei do que você está falando.


O Necromante aproximou-se da menina.


Eiran apontou a espada.


— Eu disse para não chegar perto!


O Necromante parou novamente.


— Eiran.


O garoto congelou.


— Como sabe meu nome?


O Necromante não respondeu.


Em vez disso, olhou para os dois como se estivesse diante de algo que havia esperado durante muito tempo.


— Um deles carrega a chave.


Eiran apertou a espada.


— Chave para quê?


O Necromante finalmente respondeu:


— Para aquilo que o seu pai jamais deveria encontrar.


Atrás deles, um estrondo sacudiu o palácio.


Angarkor havia atravessado uma parede.


Neutro e Ordekh avançaram juntos.


— RAGNAROK!


Angarkor surgiu dos escombros.


Sangue escorria pelo rosto.


Ele sorriu.


— Vocês ainda têm esse nome na boca...


Então ergueu as duas katares.


— ...mas esqueceram o que ele significa.


Os três se lançaram novamente um contra o outro.


Enquanto isso, a luz na mão de Lyra crescia.


Eiran olhou para a irmã.


— Lyra... o que está acontecendo?


Ela começou a chorar.


— Eu não sei.


O Necromante aproximou-se mais uma vez.


Dessa vez, não para atacá-los.


Ele estendeu a mão.


— Venha comigo.


Eiran imediatamente ficou entre os dois.


— Não.


O Necromante olhou para ele.


— Se permanecer aqui, seu pai poderá morrer.


Eiran hesitou.


O Necromante então acrescentou:


— E se vier comigo...


Ele olhou para Lyra.


— talvez eu consiga impedir que ela descubra o que realmente é.


E, naquele instante, Ikarus ouviu a voz.


Mesmo quase inconsciente.


— Não...


Ele tentou se levantar.


— Não toque nos meus filhos.


O Necromante virou lentamente o rosto.


Ikarus estava de pé novamente.


Mal conseguia permanecer equilibrado.


Mas estava de pé.


Os doze fragmentos brilhavam ao redor dele.


E Ikarus encarava o Necromante.


— Se quiser chegar até eles...


Ele ergueu a espada.


— ...vai ter que passar por mim.


O Necromante sorriu pela primeira vez.


— Finalmente.


E atrás dele, a luz que envolvia Lyra explodiu.

Ad'Heim: Pai

 Ikarus não respondeu.


As palavras de Angarkor ainda ecoavam em sua mente.


O quarto.


Os três desertores.


A história que ele acreditava conhecer parecia, de repente, apenas a superfície de algo muito maior.


Mas naquele momento Ikarus não queria respostas.


Não queria história.


Não queria compreender.


Queria matar.


Ele avançou.


O poder dos doze fragmentos explodiu ao redor de seu corpo.


As paredes do salão estremeceram.


O chão rachou sob seus pés.


Angarkor levantou as duas katares.


Ikarus atacou.


O primeiro golpe foi bloqueado.


O segundo também.


O terceiro passou a poucos centímetros do rosto de Angarkor.


Então Ikarus desapareceu.


Surgiu acima dele.


Desceu com a espada.


Angarkor cruzou as duas katares.


O impacto abriu uma cratera no chão.


— Você ainda está lutando com raiva — disse Angarkor.


Ikarus rugiu.


— CALA A BOCA!


Ele liberou ainda mais poder.


As doze forças responderam simultaneamente.


Por um instante, parecia que o próprio salão havia se tornado pequeno demais para conter aquilo.


O poder de Lenória.


Sefrion.


Setra.


Gallen.


Valeth.


Kallon.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Aldora.


Tudo aquilo convergiu para um único ponto.


Ikarus ergueu a espada.


Angarkor percebeu.


Pela primeira vez, seus olhos se abriram um pouco mais.


Ikarus atacou.


O golpe atravessou a defesa.


Uma das katares de Angarkor foi desviada.


A espada de Ikarus atingiu seu corpo.


Silêncio.


A lâmina entrou.


Angarkor ficou imóvel.


Ikarus também.


Um fio de sangue escorreu.


Depois outro.


Angarkor olhou para o ferimento.


Tocou-o com os dedos.


Sangue.


Ikarus respirava com dificuldade.


Havia colocado tudo naquele golpe.


Tudo.


Os doze fragmentos começaram a perder o brilho.


Ikarus cambaleou.


Angarkor ergueu lentamente os olhos.


— Finalmente.


Ikarus tentou levantar a espada novamente.


Não conseguiu.


Seu braço tremia.


As pernas falharam.


Ele caiu sobre um joelho.


Angarkor retirou a espada do próprio corpo e observou o sangue na mão.


— Você conseguiu.


Ikarus respirou pesadamente.


— Eu... vou... matar você.


Angarkor olhou para ele.


— Não.


Ikarus tentou se levantar.


— Eu ainda...


Angarkor apareceu diante dele.


Um golpe.


Ikarus foi lançado contra uma das colunas.


A pedra explodiu.


Ele caiu no chão.


Tentou se levantar.


Nada.


Os doze fragmentos estavam apagados.


Seu corpo havia chegado ao limite.


Angarkor caminhou lentamente até ele.


Ikarus levantou a cabeça.


Sangue escorria pelo canto de sua boca.


— Vamos...


Ele tentou sorrir.


— Termina.


Angarkor parou.


Ikarus abriu os braços.


— Você queria isso.


Angarkor permaneceu em silêncio.


— Então termina!


Angarkor ergueu uma das katares.


A ponta da lâmina ficou diante do rosto de Ikarus.


— Você realmente não entende.


Ikarus fechou os olhos.


— Eu não quero entender.


— Esse é o seu problema.


Angarkor preparou o golpe.


Ikarus não tinha mais forças.


Não havia fragmento para liberar.


Não havia espada para erguer.


Não havia poder para lutar.


Pela primeira vez desde que começara aquela jornada, Ikarus estava completamente indefeso.


Angarkor baixou a lâmina.


Então—


— PAI!


A voz atravessou o salão.


Angarkor parou.


Ikarus abriu os olhos.


Seu rosto mudou imediatamente.


Aquela voz.


Ele conhecia aquela voz.


Virou lentamente a cabeça.


No alto da escadaria, sob a luz dos relâmpagos que entrava pelas janelas, havia duas pequenas figuras.


Eiran.


E Lyra.


Os dois estavam encharcados.


Eiran segurava sua pequena espada com as duas mãos.


Lyra estava atrás dele, assustada, mas não recuava.


Ikarus ficou completamente imóvel.


— Eiran...?


O menino desceu um degrau.


— Pai.


Ikarus olhou para Lyra.


Ela chorava.


— Pai...


Por alguns segundos, Ikarus simplesmente não conseguiu falar.


— O que vocês estão fazendo aqui?


Eiran respondeu:


— Viemos atrás de você.


Ikarus tentou se levantar.


— Vocês não deveriam estar aqui!


Eiran continuou descendo.


— Você também não deveria estar sozinho.


— Eiran!


— Você sempre vai embora!


A voz do garoto tremeu.


— Sempre.


Ikarus ficou em silêncio.


Eiran apertou a espada.


— Dessa vez nós viemos junto.


Angarkor observava os dois.


Seu olhar passou de Eiran para Lyra.


Depois voltou para Ikarus.


A katar ainda estava em sua mão.


O Necromante, até então imóvel, também se levantou lentamente.


Angarkor abaixou a arma.


Ikarus olhou para ele.


— Mate-me.


Angarkor não respondeu.


— Eu disse para matar a mim!


Angarkor continuou olhando para as crianças.


Então disse:


— Não.


Ikarus franziu a testa.


— Por quê?


Angarkor finalmente olhou para ele.


— Porque agora...


Seus olhos vermelhos voltaram-se para Eiran e Lyra.


— ...a história mudou.


E, naquele instante, um dos doze fragmentos apagados no corpo de Ikarus voltou a brilhar.


Depois outro.


E outro.


Até que uma luz começou a pulsar dentro do salão.


Eiran olhou para o pai.


Lyra olhou para o irmão.


O Necromante deu um passo para trás.


E Angarkor, pela primeira vez desde que chegara àquele palácio, pareceu verdadeiramente preocupado.


— Não...


Ele olhou para as crianças.


— Não era para acontecer agora.

Ad'Heim: O quarto

 Angarkor não respondeu imediatamente.


O sorriso desapareceu de seu rosto.


Ikarus permanecia diante dele, encharcado, coberto pelo sangue dos inimigos que havia atravessado para chegar até ali. A água escorria de seus cabelos e pingava da ponta de sua espada sobre o chão de pedra.


Atrás de Angarkor, o Necromante permanecia sentado.


Observando.


Esperando.


Ikarus deu um passo.


— Você matou Raella.


Angarkor sustentou seu olhar.


— Matei.


— Por quê?


Silêncio.


Um relâmpago iluminou as enormes janelas do salão.


Angarkor caminhou lentamente para o lado, deixando o trono para trás.


— Antes que eu responda...


Ele parou.


— Você se lembra dos três desertores?


Ikarus franziu a testa.


— Neutro. Ordekh. E você.


Angarkor assentiu.


— Exatamente.


Ikarus apertou a empunhadura da espada.


— Eu conheço essa história.


— Conhece?


Angarkor olhou para ele.


— Ou conhece aquilo que restou dela?


Ikarus não respondeu.


Angarkor caminhou até uma das janelas.


Lá fora, a tempestade continuava destruindo o céu.


— Durante a Guerra dos Duzentos Anos, três irmãos abandonaram aquilo que o mundo esperava deles.


— Os três desertaram.


— Foi assim que passaram a ser chamados.


Angarkor olhou novamente para Ikarus.


— Desertores.


Ele pronunciou a palavra lentamente.


— Mas ninguém perguntou por que eles desertaram.


Ikarus permaneceu imóvel.


— Neutro, Ordekh e eu lutamos juntos durante anos. Vimos homens morrerem. Vimos cidades desaparecerem. Vimos reis mandarem milhares para a morte enquanto permaneciam atrás de muralhas.


Angarkor fechou os olhos por um instante.


— E então percebemos uma coisa.


— O quê?


— A guerra nunca termina para quem aprende a viver através dela.


Ikarus estreitou os olhos.


— E vocês abandonaram tudo.


— Não.


Angarkor abriu os olhos.


— Nós abandonamos aqueles que acreditavam que poderiam controlar o resultado.


Um trovão explodiu do lado de fora.


— Cada um dos três seguiu um caminho diferente. Cada um acreditava possuir uma resposta.


Angarkor tocou levemente o próprio peito.


— Eu escolhi a espada.


Então apontou para o chão.


— Outros escolheram conhecimento.


E finalmente olhou para o Necromante.


— Outros escolheram a morte.


O Necromante não reagiu.


Ikarus percebeu.


Havia algo naquela história que ainda não lhe havia sido contado.


— E onde Raella entra nisso?


Angarkor ficou em silêncio.


Ikarus deu outro passo.


— Eu perguntei por que você a matou.


— Porque ela era a última corrente.


— Corrente?


— Sim.


Angarkor voltou-se completamente para ele.


— Você passou anos procurando poder. Os fragmentos. Os Guardiões. Os reinos. Tudo isso tinha um objetivo.


— Chegar até você.


— Não.


A resposta veio imediatamente.


— Seu objetivo era voltar.


Ikarus congelou.


Angarkor continuou:


— Voltar para Lenória. Voltar para seus filhos. Voltar para Raella. Voltar para a vida que havia deixado para trás.


Ele caminhou lentamente em direção a Ikarus.


— Toda vez que você avançava, havia alguma coisa esperando por você no fim da estrada.


Ikarus cerrou os dentes.


— E daí?


— Daí que você nunca lutou até o fim.


— Eu matei doze Guardiões.


— Porque precisava.


— Atravessei continentes.


— Porque precisava.


— Reuni os doze fragmentos!


— Porque precisava.


Angarkor parou diante dele.


— Mas quando chegou diante de mim...


Silêncio.


— Você ainda queria voltar.


Ikarus abaixou ligeiramente a espada.


Não por fraqueza.


Por reconhecimento.


Angarkor continuou:


— Quando lutei contra você em Aldora, você tinha tudo.


Os olhos vermelhos se fixaram nos dele.


— Os doze fragmentos.


— O poder dos Guardiões.


— A força que procurou durante anos.


— E ainda assim havia alguma coisa faltando.


Ikarus levantou os olhos.


— Então você matou Raella.


— Sim.


— Para me fazer sofrer.


— Não.


Angarkor respondeu calmamente.


— Para tirar de você a última razão para voltar.


Ikarus ficou imóvel.


— Você queria que eu não tivesse mais nada.


— Não.


Angarkor balançou a cabeça.


— Eu queria descobrir o que você faria quando não tivesse mais nada.


A mão de Ikarus começou a tremer.


A espada subiu lentamente.


— Você não sabe nada sobre mim.


Angarkor olhou para a lâmina.


— Sei mais do que você imagina.


— Então sabe que vou matar você.


Angarkor sorriu.


— Agora eu sei.


Ikarus avançou.


Angarkor desapareceu.


O golpe de Ikarus cortou apenas o ar.


Um segundo depois, Angarkor surgiu atrás dele.


Ikarus girou.


As duas katares foram desembainhadas.


O primeiro choque fez o salão inteiro estremecer.


CLANG!


Ikarus recuou um passo.


Angarkor permaneceu imóvel.


CLANG!


Outro golpe.


Ikarus atacou novamente.


Angarkor bloqueou.


CLANG!


Mais uma vez.


Os dois se afastaram.


A chuva batia contra as janelas.


O Necromante observava em silêncio.


Ikarus respirou profundamente.


Então percebeu algo.


Angarkor não estava atacando.


Estava esperando.


— O que você está fazendo?


Angarkor ergueu uma das katares.


— Contando uma história.


Ikarus franziu o rosto.


— Enquanto lutamos?


— É a única maneira de você entender.


Angarkor avançou.


Ikarus bloqueou.


Os dois desapareceram em um borrão.


As lâminas se chocaram repetidamente.


Então Angarkor falou entre os golpes:


— Três irmãos...


CLANG!


— ...três caminhos...


CLANG!


— ...três desertores...


CLANG!


Ikarus conseguiu afastá-lo.


— E qual deles você era?


Angarkor parou.


Por um instante, o sorriso desapareceu.


— Essa...


Ele baixou lentamente as katares.


— ...é a pergunta errada.


Ikarus ergueu a espada.


— Então qual é a certa?


Angarkor olhou para ele.


— O que aconteceu com o quarto?


Ikarus congelou.


O salão ficou em silêncio.


Até o Necromante levantou lentamente os olhos.


Angarkor encarou Ikarus.


— Porque a história dos três desertores começa muito antes de existirem três.


Um relâmpago iluminou o palácio.


E, pela primeira vez naquela noite, Ikarus percebeu que talvez tivesse entrado naquele palácio acreditando que estava perseguindo Angarkor...


quando, na verdade, Angarkor estava esperando que ele finalmente fizesse a pergunta certa.

Ad'Heim: Última Batalha

 A chuva caía violentamente sobre Baltamus.


Não era uma chuva comum.


Era uma tempestade.


O céu inteiro parecia tomado por nuvens negras, e os relâmpagos iluminavam o campo de batalha em flashes brancos. O trovão fazia as muralhas do palácio tremerem.


Diante delas, os exércitos dos doze reinos haviam chegado.


Homens, elfos, anões, guerreiros de Aldora, soldados de Lenória, arqueiros de Sefrion, tropas de Kallon, Valeth, Setra, Gallen, Khsandra, Arteph, Okhus, Thimos e Baltamus.


Todos lutavam.


E no centro daquela tempestade estava Ikarus.


Sua espada atravessou o peito de um morto-vivo.


Ele o derrubou.


Outro veio pela direita.


Ikarus girou e o atingiu.


Um terceiro saltou sobre ele.


Ikarus bloqueou o golpe e o lançou contra outros inimigos.


Mas não havia fim.


As hordas continuavam surgindo dos portões do palácio.


Centenas.


Milhares.


Os mortos avançavam sob a chuva, misturando-se aos soldados do Necromante.


Ikarus respirou profundamente.


Ergueu a espada.


E gritou:


— ANGARKOR!


Sua voz atravessou o campo de batalha.


Por um instante, até os soldados próximos pareceram ouvir.


Do alto do palácio, nenhuma resposta.


Ikarus avançou.


— ANGARKOR!


Outro inimigo caiu.


Ele continuou.


— ANGARKOR!


A cada grito, sua voz parecia atravessar a tempestade.


Ele não estava chamando um homem.


Estava desafiando um monstro.


Estava chamando aquele que havia arrancado Raella de sua vida.


Aquele que havia derrotado os doze fragmentos.


Aquele que havia esperado por ele.


Ikarus avançou contra a multidão.


Seu exército avançava junto.


Os soldados abriam caminho entre as hordas enquanto Ikarus seguia diretamente para as enormes escadarias que levavam ao palácio.


Então ele as viu.


A escadaria.


Centenas de degraus de pedra subindo até a entrada principal.


Guardas estavam posicionados por toda a extensão.


Ikarus ergueu a espada.


— ANGARKOR!


E começou a subir.


O primeiro inimigo veio.


Ikarus o derrubou.


Segundo.


Golpe.


Terceiro.


Quarto.


Ele continuava subindo.


A chuva escorria por seu rosto.


O sangue dos inimigos misturava-se à água que descia pelos degraus.


Mais mortos-vivos surgiam das laterais.


Ikarus avançava contra eles.


— ANGARKOR!


Um guerreiro desceu correndo.


Ikarus desviou.


Outro tentou acertá-lo pelas costas.


Ele girou e o derrubou.


Mais três vieram.


Ikarus não parou.


— ANGARKOR!


Seu grito ecoou pelas paredes do palácio.


Lá embaixo, os exércitos continuavam lutando.


Mas Ikarus já estava sozinho na escadaria.


Subindo.


Um degrau.


Outro.


Outro.


Os inimigos não paravam.


Um enorme guerreiro coberto por uma armadura negra surgiu no meio da escadaria.


Ikarus parou diante dele.


O guerreiro levantou a espada.


Ikarus também.


Os dois avançaram.


O choque das lâminas produziu uma faísca que desapareceu imediatamente sob a chuva.


Ikarus venceu.


Continuou subindo.


— ANGARKOR!


Um relâmpago iluminou o céu.


Ikarus estava quase no topo.


Mas então as portas do palácio se abriram.


Uma nova onda de inimigos surgiu.


Ikarus olhou para eles.


Seu rosto estava completamente diferente agora.


Não havia medo.


Não havia dúvida.


Não havia hesitação.


Só ódio.


Ele segurou a espada com as duas mãos.


— ANGARKOR!


E avançou.


Os inimigos vieram ao seu encontro.


Ikarus atravessou a formação.


Um caiu.


Outro.


Outro.


Ele subiu o último lance de escadas.


Um último guerreiro tentou impedi-lo.


Ikarus o derrotou.


Silêncio.


Por alguns segundos, só a chuva podia ser ouvida.


Ikarus ficou parado diante das enormes portas do palácio.


Respirou.


Então abriu.


As portas rangeram.


Do outro lado havia um salão imenso.


Escuro.


Frio.


E, no fundo dele...


Angarkor estava esperando.


De pé.


Imóvel.


Os cabelos brancos caíam sobre o rosto.


Os olhos vermelhos estavam fixos em Ikarus.


As duas katares permaneciam junto ao seu corpo.


Atrás dele, nas sombras, estava o Necromante.


Ikarus entrou.


As portas se fecharam lentamente atrás dele.


Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.


A tempestade continuava do lado de fora.


Angarkor finalmente ergueu os olhos.


— Você finalmente chegou.


Ikarus apertou a espada.


— ANGARKOR!


Dessa vez não foi um chamado.


Foi uma sentença.


Angarkor sorriu.


— Agora podemos conversar.

Ad'Heim: Reunindo exército

 Ikarus deixou Lenória sem olhar para trás.


Não porque não amasse aquele lugar.


Mas porque, se olhasse novamente para o túmulo de Raella, talvez não conseguisse partir.


Os doze fragmentos estavam completos.


E com eles havia vindo algo que Ikarus ainda não compreendia completamente.


Uma autoridade.


Desde que tomara o último fragmento, todos os antigos símbolos dos Guardiões haviam respondido a ele. Não eram apenas lembranças. Não eram apenas poderes. Eram marcas de um juramento antigo, uma autoridade que durante milhares de anos havia pertencido aos doze protetores dos reinos.


Agora os doze estavam dentro dele.


E Ikarus compreendeu que não precisava enfrentar Baltamus sozinho.


Ele parou diante das muralhas de Lenória.


Centenas de soldados observavam.


Reis.


Generais.


Cavaleiros.


Magos.


Dragões.


Elfos.


Anões.


Homens que haviam passado anos lutando contra os mortos.


Ikarus ergueu a mão.


Os doze fragmentos apareceram ao seu redor.


Um círculo de luz se formou no céu.


E, naquele instante, algo aconteceu.


Em Kallon, os grandes sinos do mar começaram a tocar.


Em Sefrion, as torres dos magos acenderam-se.


Em Setra, os antigos templos ouviram uma voz que não vinha de nenhuma garganta.


Em Valeth, os grandes pássaros abandonaram os céus e voaram em direção ao sul.


Em Gallen, os exércitos começaram a se reunir.


Em Khsandra, as árvores antigas estremeceram.


Em Arteph, os mortos permaneceram em silêncio.


Em Okhus, os vigias das muralhas ergueram os olhos.


Em Thimos, cavaleiros montados em Pégasos receberam o chamado.


Em Baltamus...


o Necromante também ouviu.


Ikarus falou.


Sua voz não era particularmente alta.


Mas chegou a todos.


— Eu sou Ikarus de Lenória.


O vento parou.


— Durante anos, cada reino lutou sozinho.


As imagens dos onze antigos Guardiões surgiram no céu.


Ranur.


Sahrion.


Eryon.


Darven.


Aren.


Kaeron.


Serenya.


Arenos.


Dhaeron.


Asterion.


Baltar.


E então apareceu Thomas.


Ikarus fechou os olhos por um instante.


— Eles morreram protegendo seus povos.


A imagem de Thomas desapareceu por último.


— E eu não permitirei que suas mortes sejam esquecidas.


Os exércitos começaram a se reunir.


Ikarus continuou:


— O inimigo não está mais escondido.


A voz tornou-se mais firme.


— O Necromante está em Baltamus.


Silêncio.


— Angarkor está com ele.


Alguns soldados começaram a murmurar.


Muitos conheciam o nome.


Outros apenas haviam ouvido histórias.


O homem que aparecia do nada.


O guerreiro de cabelos brancos.


Aquele que destruía cidades e desaparecia.


Aquele que ninguém conseguia prever.


Ikarus levantou a espada.


— Durante anos vocês construíram muralhas para impedir que os mortos chegassem até suas casas.


Os doze fragmentos brilharam.


— Agora nós vamos derrubar as muralhas.


Um dos generais de Lenória aproximou-se.


— Para onde marcharemos?


Ikarus respondeu:


— Baltamus.


O general hesitou.


— É o extremo norte.


— Eu sei.


— É uma distância enorme.


— Eu sei.


— E as forças do Necromante...


Ikarus interrompeu:


— Não estou pedindo que venham comigo porque será fácil.


Olhou para os soldados.


— Estou pedindo porque, se continuarmos esperando que alguém faça isso por nós, não haverá mais reinos para defender.


Ninguém respondeu.


Então um soldado ajoelhou.


Depois outro.


Depois dezenas.


Até que centenas de homens estavam ajoelhados diante de Ikarus.


Um rei perguntou:


— E quem comandará essa guerra?


Ikarus olhou para os doze fragmentos.


— Eu.


Não houve coroação.


Não houve trono.


Não houve cerimônia.


Apenas silêncio.


E então os estandartes começaram a surgir.


Lenória.


Kallon.


Aldora.


Setra.


Valeth.


Sefrion.


Gallen.


Irdos.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Todos os povos começaram a mobilizar suas forças.


Pela primeira vez em gerações, os exércitos dos reinos marchariam sob uma mesma bandeira.


A bandeira dos Doze.


---


Os navios começaram a partir.


Centenas deles.


Navios de guerra.


Navios de transporte.


Navios mercantes adaptados.


Embarcações élficas.


Navios de Kallon capazes de atravessar o Mar Divisor mesmo sob tempestades.


A frota crescia a cada dia.


Ikarus havia compreendido uma coisa.


Baltamus era distante demais para uma marcha convencional.


Precisavam atravessar o mar.


E depois enfrentar o continente do Norte.


A guerra seria gigantesca.


Talvez a maior que Ad'Heim já tivesse conhecido.


No maior porto de Lenória, Ikarus caminhava entre soldados.


Todos olhavam para ele.


Alguns com admiração.


Outros com medo.


Alguns apenas queriam acreditar que aquela guerra seria diferente das anteriores.


Ikarus não prometeu vitória.


Não prometeu sobrevivência.


Apenas disse:


— Nós vamos até o fim.


E entrou no navio principal.


A embarcação começou a deixar o porto.


Ikarus ficou na proa.


O vento batia em seus cabelos.


O horizonte se estendia diante dele.


Baltamus.


Angarkor.


O Necromante.


E uma guerra que poderia decidir o destino de todo o mundo.


Mas ninguém percebeu duas pequenas sombras escondidas entre os barris no convés inferior.


Eiran estava agachado.


Lyra estava ao lado dele.


Os dois estavam em absoluto silêncio.


Eiran segurava uma pequena espada.


Lyra carregava uma mochila.


Ela sussurrou:


— Você acha que ele vai descobrir?


Eiran respondeu:


— Se descobrir, vai mandar a gente voltar.


— Então não deixa ele descobrir.


— Era exatamente o plano.


Lyra sorriu.


— Você acha que a mãe teria deixado?


Eiran ficou em silêncio.


A pergunta apagou o sorriso dos dois.


Ele abaixou os olhos.


— Não sei.


Lyra também ficou quieta.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.


Então Eiran apertou a espada.


— Mas eu vou com ele.


— Eu também.


— Ele não pode enfrentar isso sozinho.


Lyra assentiu.


Lá em cima, Ikarus continuava olhando para o horizonte.


Ele não fazia ideia de que seus filhos estavam naquele mesmo navio.


Não sabia que Eiran havia decidido seguir seus passos.


Não sabia que Lyra também estava ali.


E muito menos sabia que aquela viagem não seria apenas a marcha de um exército contra o Necromante.


Seria o começo de algo que havia sido anunciado muito antes de qualquer um deles compreender seu significado.


Muito antes da morte de Raella.


Muito antes dos doze fragmentos.


Muito antes de Ikarus sequer saber que era parte de algo maior.


Em algum lugar nas profundezas de Kallon, uma antiga memória ainda permanecia.


Uma profecia.


Uma voz.


E uma frase que ninguém havia conseguido compreender completamente.


Um dos filhos de Ikarus... ou talvez os dois...


A memória terminou antes que o restante pudesse ser ouvido.


Por enquanto.


---


No convés superior, Ikarus sentiu uma presença.


Virou-se.


Nada.


Apenas soldados.


O mar.


E o vento.


Ele franziu a testa.


Por um instante, teve a impressão de ter ouvido uma voz conhecida.


— Pai...


Ikarus olhou para trás.


Nada.


Ele voltou os olhos para o horizonte.


Talvez fosse apenas o vento.


Talvez fosse sua própria mente.


Talvez fosse o peso de tudo aquilo que havia perdido.


No convés inferior, Eiran e Lyra permaneceram escondidos.


A frota avançava.


Milhares de homens estavam a caminho de Baltamus.


E pela primeira vez desde o início da guerra contra os mortos...


os vivos estavam marchando em direção ao inimigo.


Não fugindo.


Não esperando.


Não se defendendo.


Marchando.


No extremo norte do mundo, as enormes muralhas de Baltamus começaram a aparecer no horizonte.


Acima delas...


milhares de mortos aguardavam.


E, no ponto mais alto da fortaleza do Necromante, Angarkor observava o mar.


Ao longe, uma frota inteira se aproximava.


Ele sorriu.


— Então você trouxe todos eles.


Atrás dele, uma presença permaneceu imóvel.


O Necromante.


Angarkor não olhou para trás.


— Ikarus finalmente entendeu.


A voz do Necromante respondeu:


— Entendeu o quê?


Angarkor observou os navios.


— Que não pode lutar sozinho.


O Necromante permaneceu em silêncio.


Angarkor então sorriu.


— Mas ainda não entendeu a parte mais importante.


— Qual?


Angarkor finalmente virou o rosto.


— Essa guerra nunca foi sobre os exércitos.


Lá fora, os sinos de Baltamus começaram a tocar.


Um.


Dois.


Três.


Depois todos ao mesmo tempo.


Ikarus levantou os olhos.


As tropas começaram a se preparar.


Eiran e Lyra permaneceram escondidos.


A frota continuou avançando.


E, no alto da fortaleza, Angarkor pegou suas duas katares.


— Venha, Ikarus.


Os olhos vermelhos brilharam.


— Traga seus doze fragmentos.


Uma pausa.


— Traga seus exércitos.


Ele sorriu.


— Traga seus filhos.


No convés inferior, Lyra abriu os olhos.


Por um instante, teve a estranha sensação de que alguém havia pronunciado seu nome.


Mas não havia ninguém ali.


Apenas o som do mar.


E o navio continuava avançando rumo a Baltamus.


Rumo à guerra.


Rumo ao Necromante.


E rumo ao destino que nenhum dos três ainda compreendia.