Por Yuri Schein
Há momentos na história em que a máscara cai.
Os discursos sobre amor, misericórdia, tradição e autoridade desaparecem, e o que resta é a face nua de um sistema disposto a matar para preservar seu poder.
Um desses momentos ocorreu em 18 de julho de 1556, na ilha de Guernsey.
Três mulheres protestantes — Catherine Cauchès, Guillemine Gilbert e Perotine Massey — foram condenadas à morte por heresia. Não por assassinato. Não por estupro. Não por traição. Não por qualquer crime violento.
Seu crime era crer no Evangelho da Reforma.
Seu crime era rejeitar a autoridade papal.
Seu crime era acreditar que a Escritura possui autoridade superior às tradições humanas.
Os acusadores retiraram as acusações originais de roubo. Mas isso não significou liberdade. Significou algo pior.
Quando descobriram que eram protestantes, o tribunal religioso assumiu o caso.
A sentença foi rápida.
Fogueira.
Eis a famosa "caridade" romana em ação.
Os defensores modernos do catolicismo frequentemente tentam minimizar episódios como esse, alegando que eram "outros tempos", que "todos perseguiam" ou que a Igreja não seria a principal responsável. Entretanto, o fato permanece inalterado: homens que alegavam representar Cristo condenaram mulheres à morte por discordarem de suas doutrinas.
Mas a tragédia ainda não havia alcançado seu ápice.
Segundo o procedimento habitual, as condenadas deveriam ser estranguladas antes que as chamas consumissem seus corpos.
A corda utilizada para executar Perotine rompeu-se.
Qualquer observador minimamente humano poderia imaginar que a execução seria interrompida.
Não foi.
A solução encontrada foi simplesmente queimá-la viva.
Perotine estava grávida.
Enquanto o fogo consumia seu corpo, a dor do suplício desencadeou o parto.
Subitamente, um bebê nasceu e caiu para fora das chamas.
Vivo.
Respirando.
Chorando.
Um homem da multidão correu até ele e o retirou do fogo.
Por um breve instante, parecia que a humanidade prevaleceria.
Mas então veio a pergunta.
"O que fazer com a criança?"
O oficial responsável consultou os religiosos presentes.
A resposta foi imediata.
O bebê deveria morrer.
Por quê?
Porque, segundo eles, a criança compartilhava a culpa da mãe.
Observe a perversidade da situação.
O menino não havia falado.
Não havia caminhado.
Não havia cometido qualquer ato.
Não havia sequer respirado por muitos minutos.
Mas a sua ligação com uma protestante foi considerada motivo suficiente para sua execução.
E assim o recém-nascido foi lançado de volta às chamas.
Não porque fosse culpado.
Não porque fosse perigoso.
Mas porque um sistema religioso julgou necessário queimar um bebê para defender sua autoridade.
A ironia é devastadora.
Os mesmos homens que afirmavam ser sucessores dos apóstolos ignoraram completamente as palavras do Senhor Jesus:
"Deixai vir a mim os pequeninos."
Ao invés disso, decidiram enviá-lo para a fogueira.
A história da Reforma está repleta de episódios semelhantes.
Milhares foram torturados.
Milhares foram executados.
Milhares perderam seus bens, famílias e vidas.
Tudo porque ousaram afirmar que a Palavra de Deus está acima das tradições dos homens.
E aqui encontramos uma lição importante.
Ideias possuem consequências.
Doutrinas possuem consequências.
Instituições possuem consequências.
Quando uma organização reivindica autoridade infalível sobre a consciência humana, inevitavelmente surgirá a perseguição contra aqueles que discordam.
A Reforma não nasceu porque alguns teólogos queriam discutir detalhes acadêmicos.
A Reforma nasceu porque homens e mulheres estavam sendo presos, torturados e mortos por desejarem ler, pregar e acreditar na Palavra de Deus.
O pequeno bebê de Guernsey jamais escreveu um livro.
Jamais pregou um sermão.
Jamais debateu um teólogo.
Mas sua morte permanece como testemunha silenciosa de uma época em que a fidelidade ao Evangelho era considerada crime.
E toda vez que alguém tenta romantizar aquele sistema religioso ou apresentar sua história como uma sucessão ininterrupta de santidade e compaixão, o choro daquele recém-nascido ecoa através dos séculos.
Um choro que termina nas chamas.
E uma pergunta permanece:
Que tipo de instituição precisa queimar mulheres grávidas e recém-nascidos para defender suas doutrinas?




