Durante séculos, os reis de Ad’Heim acreditaram que seus exércitos eram a última linha de defesa de seus reinos.
Estavam errados.
Espadas, muralhas, catapultas, magos e milhares de soldados podiam proteger uma cidade.
Mas havia coisas contra as quais um exército inteiro não seria suficiente.
Para essas coisas existiam os Guardiões.
Doze homens.
Doze armaduras.
Doze torres.
Doze mantos.
E, acima de tudo, doze criaturas.
Os Guardiões não eram reis.
Não eram generais.
Não obedeciam aos governantes.
Sua lealdade pertencia ao reino.
Cada um havia sido escolhido para proteger uma das terras ligadas aos antigos Hunens.
Suas armaduras eram feitas de um metal dourado cuja origem ninguém conhecia. Não eram simplesmente armaduras de guerra. Eram relíquias.
Diziam que o ouro não refletia a luz.
Refletia aquilo que existia dentro daquele que o vestia.
Por isso nenhum Guardião podia ser escolhido apenas por sua força.
Era necessário possuir algo que correspondia ao próprio espírito do reino.
Cada Guardião também carregava um manto cuja cor representava seu domínio.
E cada um possuía uma torre.
Torres isoladas, construídas em locais onde ninguém além dos Guardiões tinha permissão para entrar.
Ali permaneciam.
Dormindo.
Observando.
Esperando.
Porque um Guardião não precisava aparecer todos os dias.
Na verdade, a maioria dos habitantes jamais havia visto o próprio Guardião.
Eles eram lendas vivas.
Histórias contadas às crianças.
Sombras vistas no alto das montanhas.
Uma silhueta dourada observada durante uma tempestade.
Um homem que aparecia quando tudo já parecia perdido.
E, entre todos eles, existia um que havia se tornado quase uma superstição em Lenória.
Seu nome era Ranur.
Ranur, o Guardião de Lenória
No centro de Lenória existia uma torre.
Era impossível dizer quando havia sido construída.
Nenhum rei possuía registros sobre sua fundação.
Nenhum arquiteto reivindicava sua construção.
E nenhum exército jamais havia conseguido entrar nela.
A torre era alta, estreita e completamente dourada.
Não dourada como ouro.
Dourada como se o próprio sol tivesse sido transformado em pedra.
No topo havia uma única janela.
E atrás dela vivia Ranur.
O Guardião de Lenória.
Diziam que Ranur podia passar anos sem deixar sua torre.
Alguns afirmavam que ele dormia.
Outros diziam que meditava.
Havia ainda aqueles que juravam que ele simplesmente observava o reino através da janela, esperando.
Esperando pelo momento em que Lenória realmente precisasse dele.
Porque havia uma regra antiga:
Ranur só descia da torre quando a coisa fede em Lenória.
Era uma expressão popular.
Os soldados riam dela.
Os nobres fingiam desprezo.
Mas todos conheciam seu significado.
Enquanto Ranur permanecesse na torre, o problema ainda podia ser resolvido pelos homens.
Quando Ranur descia...
significava que o problema havia deixado de ser humano.
Naquela noite, porém, algo estava diferente.
Ranur abriu os olhos.
Sentou-se lentamente.
Durante anos, não havia escutado nada além dos ventos batendo contra as paredes da torre.
Naquela noite, ouviu um som.
Um grito.
Não vinha de uma pessoa.
Vinha de muito longe.
Ranur caminhou até a janela.
Lá embaixo, Lenória permanecia iluminada pelas tochas.
As ruas estavam tranquilas.
As muralhas estavam intactas.
Os soldados patrulhavam.
Os sinos não tocavam.
Nenhum rei havia enviado mensageiros.
Nenhuma bandeira inimiga aparecia no horizonte.
Mas Ranur sabia.
Alguma coisa havia mudado.
Ele colocou a mão sobre a armadura dourada.
As placas começaram a emitir uma luz fraca.
O Guardião respirou profundamente.
— Então chegou a hora.
Ranur desceu.
Pela primeira vez em muitos anos, a porta da torre se abriu.
E quando os habitantes de Lenória viram o homem caminhando pelas ruas com sua armadura dourada e seu enorme manto dourado arrastando-se atrás dele, ninguém precisou perguntar o que estava acontecendo.
Os sinos começaram a tocar.
Não para anunciar uma invasão.
Mas para anunciar que o Guardião havia despertado.
Ranur caminhou até o centro da praça.
Ergueu a mão.
O ar mudou.
O céu escureceu.
Uma sombra gigantesca atravessou as nuvens.
Então veio o rugido.
Um rugido tão poderoso que os cavalos fugiram, as janelas tremeram e centenas de soldados caíram de joelhos.
As nuvens se abriram.
E o Grifo de Lenória desceu.
Era colossal.
Suas asas cobriam o céu.
As garras eram maiores que espadas.
Seu corpo possuía a força de uma fera e a majestade de uma criatura celestial.
Ranur não precisava montá-lo.
Não precisava controlá-lo.
O Grifo reconhecia o Guardião.
Reconhecia Lenória.
Reconhecia o chamado.
E, naquele momento, todos entenderam por que os antigos diziam que os Guardiões não lutavam sozinhos.
Cada um possuía uma criatura.
Cada criatura era uma manifestação do domínio do Hunen.
Cada Guardião era a ponte entre o reino e aquela força.
E Ranur era apenas o primeiro.
Porque existiam outros onze.
Os Doze
Em Aldora, muito além das dunas, existia uma torre enterrada parcialmente na areia.
Ali vivia Aldren, o Guardião do Deserto.
Seu manto era vermelho-escuro, como o céu durante o pôr do sol sobre as dunas.
Quando Aldren despertava, o deserto se movia.
E das areias surgia o Dragão de Aldora.
Uma criatura gigantesca, coberta por escamas que pareciam ter sido moldadas pela própria areia.
Em Sefrion estava Seyron, o Guardião da Magia.
Sua torre era construída no interior de uma montanha e não possuía portas.
Seu manto era violeta.
Diziam que Seyron não precisava de armas.
Bastava-lhe pronunciar uma palavra.
Quando invocava seu poder, uma Fênix surgia envolta em fogo, e as próprias runas da torre começavam a brilhar.
Em Kallon vivia Kael, o Guardião do Mar.
Sua torre ficava sobre um penhasco cercado pelo oceano.
Seu manto era azul profundo.
Durante tempestades, podia permanecer imóvel diante das ondas enquanto navios inteiros desapareciam no horizonte.
Quando o reino era ameaçado, Kael chamava pelo mar.
E das profundezas surgia a Serpente Marinha de Kallon.
Em Baltamus estava Balther, o Guardião da Criação.
Sua torre era diferente das demais.
Não parecia uma fortaleza.
Parecia uma máquina.
Engrenagens antigas giravam em seu interior sem que ninguém soubesse quem as movia.
Balther vestia um manto branco.
Diziam que conseguia compreender qualquer mecanismo depois de observá-lo uma única vez.
Quando invocava seu poder, o chão estremecia.
E o Golem de Baltamus despertava.
Uma montanha de pedra e metal.
Uma criatura criada para fazer aquilo que nenhuma máquina humana conseguiria fazer.
Em Valeth existia Valerian, o Guardião da Coragem.
Sua torre ficava no alto de uma montanha.
Seu manto era verde.
Ele era conhecido por nunca recuar.
Nem diante de monstros.
Nem diante de exércitos.
Nem diante da morte.
Quando Valerian invocava seu poder, os céus se abriam.
E o Pégaso de Valeth descia.
Em Khsandra vivia Kassian, o Guardião da Floresta.
Sua torre estava escondida entre árvores tão antigas que nenhum lenhador ousava aproximar-se.
Seu manto era verde-escuro.
Diziam que ele conseguia ouvir as árvores.
Quando Kassian chamava seu companheiro, as raízes começavam a se mover.
E a Árvore Ancestral de Kassandra despertava.
Não era simplesmente uma árvore.
Era uma criatura.
Uma entidade gigantesca, cujas raízes podiam atravessar quilômetros de floresta.
Em Gallen estava Rhaegon, o Guardião dos Céus.
Sua torre era construída no ponto mais alto das montanhas.
Seu manto era branco.
Ele passava grande parte do tempo observando as nuvens.
Mas quando a ameaça chegava, Rhaegon erguia sua espada.
O vento respondia.
Os trovões começavam.
E o Roc de Rhaegor surgia acima das nuvens.
Em Irdos vivia Damarion, o Guardião da Terra.
Sua torre estava parcialmente enterrada numa montanha.
Seu manto era marrom.
Damarion raramente falava.
Não precisava.
Quando colocava a mão sobre o chão, as pedras respondiam.
E quando invocava seu companheiro, surgia o Titã de Pedra de Damaris.
Uma criatura tão grande que parecia uma montanha caminhando.
Em Setra estava Elyon, o Guardião da Vida.
Sua torre ficava no centro de um vale onde nenhuma planta morria.
Seu manto era branco com detalhes verdes.
Elyon era conhecido por ser capaz de curar ferimentos que nenhum médico conseguia tratar.
Mas seu verdadeiro poder aparecia quando invocava o Cervo Branco de Elyndra.
A criatura não precisava atacar.
Sua simples presença fazia a vida florescer ao redor.
Em Thimos vivia Morvian, o Guardião do Tempo.
Sua torre era a única que não parecia envelhecer.
Enquanto cidades desapareciam, reis morriam e impérios surgiam, a torre permanecia exatamente igual.
Seu manto era cinza.
Morvian raramente aparecia.
Talvez porque soubesse que, para ele, um século não significava mais do que um instante.
Quando finalmente invocava seu companheiro, surgia o Dragão Cronarca de Morvahn.
Uma criatura que parecia existir simultaneamente em diferentes momentos.
E, finalmente...
Arteph.
A terra dos mortos.
Ali estava o último dos Guardiões.
Seu nome era Artheon.
Ninguém sabia há quanto tempo ele estava vivo.
Ou se ainda estava vivo.
Sua torre era negra.
Seu manto era igualmente negro.
E, ao contrário dos demais Guardiões, ninguém jamais o vira caminhar entre os homens.
Havia apenas histórias.
Diziam que sua torre não possuía portas.
Diziam que sua armadura dourada estava coberta por marcas antigas.
Diziam que Artheon permanecia diante de uma passagem que ninguém deveria atravessar.
E que, quando finalmente chamasse seu companheiro...
Cerberus surgiria.
Não para defender os vivos.
Mas para impedir que os mortos retornassem.
A Ordem dos Guardiões
Os doze nunca se reuniam.
Essa era uma das leis mais antigas de Ad’Heim.
Cada Guardião deveria permanecer em seu próprio reino.
Porque enquanto um Guardião protegesse sua terra, os demais poderiam permanecer adormecidos.
Era assim que funcionava.
Uma torre.
Um homem.
Uma armadura.
Um manto.
Uma criatura.
Um reino.
E um Hunen.
Os reis governavam os homens.
Os exércitos defendiam as fronteiras.
Os magos protegiam os conhecimentos.
Mas os Guardiões protegiam aquilo que existia antes dos próprios reis.
A essência do reino.
Durante séculos, isso foi suficiente.
Até aquela noite.
Na torre dourada de Lenória, Ranur observava o horizonte.
O Grifo estava atrás dele.
As asas abertas.
Os olhos fixos na escuridão.
Ranur apertou o punho.
— Algo está errado.
O Grifo soltou um rugido baixo.
Ranur olhou para o céu.
Havia duas luas.
Dois sóis ainda estavam abaixo do horizonte.
Mas, entre as estrelas, uma delas havia desaparecido.
E então Ranur percebeu.
Aquilo não era uma invasão.
Não era um exército.
Não era um monstro.
Era algo muito pior.
Era um chamado.
E, em algum lugar de Ad’Heim...
outras onze torres acabavam de despertar.