terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: As Duas Coroas e o Deserto

 

Por Yuri Schein  

O casamento aconteceu no que restava do templo de Valeth, sob um teto parcialmente desabado e entre colunas que ainda cheiravam a fumaça.


Não houve luxo. Não houve dias de celebração. Houve necessidade, sangue antigo e a decisão de três pessoas que já haviam perdido demais para recusar o que as águas haviam mostrado. Raella vestia o que sobrara de um manto cerimonial de Lenória, rasgado nas bordas, mas ainda reconhecível. Gillian usava a armadura consertada de forma improvisada, o braço finalmente imobilizado de maneira decente, o olhar firme como se estivesse entrando em mais uma batalha. Ikarus permanecia entre as duas, a aura azul-dourada contida, mas impossível de ignorar.


A antiga conselheira de Oberon conduziu o rito com as palavras que ainda restavam das leis antigas. Primeiro a união com Raella — o sangue antigo de Lenória reconhecido em voz alta pela primeira vez em décadas. Depois, na mesma cerimônia, a união com Gillian. Não houve protestos entre os sobreviventes reunidos. Havia exaustão demais. Havia necessidade demais de qualquer estrutura que pudesse se erguer sobre as cinzas. Quando os votos terminaram, Raella era rainha. Ikarus era rei por direito de casamento. E Gillian, ligada a ambos por escolha e por profecia, carregava consigo o futuro que as águas haviam nomeado.


Nos meses seguintes, Lenória Imperial começou a se levantar.


Não foi milagre. Foi trabalho. Ikarus usava o domínio das águas para limpar as áreas contaminadas por residual necromântico e o residual de Ranur para organizar as linhas de defesa. Raella governava com a legitimidade do sangue antigo, reunindo o que restava de conselheiros, sacerdotes e capitães. Gillian assumia a organização militar direta, treinando os sobreviventes capazes de segurar uma arma e transformando barricadas improvisadas em muralhas provisórias. Thomas permaneceu o tempo suficiente para ver as primeiras torres serem reerguidas e os primeiros campos ao redor da cidade voltarem a ser cultivados sob proteção constante.


Mas o meio-dragão não ficou.


Uma noite, após uma reunião em que os mapas de Ad’Heim mostravam Aldora ainda marcada como território em disputa, Thomas anunciou a decisão.


— Rickson era de lá. Aldora. O deserto. A triarquia. A cidade dele está em guerra desde que os ataques começaram — e, pelo que os últimos mensageiros disseram, piorou. Facções se digladiam entre os mortos-vivos e o que restou das casas nobres. Eu vou.


Ikarus não tentou impedi-lo.


— Você volta?


— Se conseguir o que pretendo… volto como rei. Ou não volto.


Thomas partiu antes do amanhecer, sozinho, as asas cortando o céu na direção oeste. A jornada através das terras devastadas durou semanas. Ele evitou as estradas principais, voou sobre campos de batalha abandonados e sobrevilas que já não existiam. Quando finalmente alcançou as bordas do deserto de Aldora, a cidade de Thirssh ergue-se à sua frente como um espelho rachado do que Lenória havia sido: muralhas parcialmente destruídas, fumaça constante, e o som distante de combate.


Aldora estava dividida.


Três facções principais ainda lutavam pelo que restava do poder da antiga triarquia, enquanto hordas de mortos-vivos e criaturas sombrias atacavam todas elas sem distinção. Thomas não chegou como diplomata. Chegou como força. O meio-dragão que um dia fora rejeitado pelos próprios parentes agora descia sobre o deserto com montantes em mãos e fúria acumulada. Ele não escolheu lado de imediato. Primeiro quebrou o cerco necromântico que sufocava o oásis principal. Depois enfrentou os capitães das facções que tentaram usá-lo como arma. Um a um, os que se recusaram a se unir caíram ou se renderam.


A conquista não foi limpa.  


Houve sangue. Houve traições. Houve noites em que Thomas voava sozinho sobre as dunas, as asas cortando o vento quente, perguntando-se se Rickson teria aprovado o caminho que ele escolhera. Mas, ao final de três meses de guerra interna e externa, as facções restantes se ajoelharam. O deserto reconheceu a força. E Thirssh, a cidade central de Aldora, ergueu um novo estandarte — não o das antigas casas, mas o de um meio-dragão que havia imposto ordem onde só existia fratura.


Thomas Walker foi proclamado Rei de Aldora sob o sol escaldante do deserto.


A notícia chegou a Lenória semanas depois, carregada por um mensageiro exausto que atravessara terras ainda hostis. Ikarus leu o pergaminho em silêncio, a aura azul-dourada pulsando uma única vez com algo que parecia aprovação. Raella, já consolidada como rainha, apenas assentiu. Gillian, com o braço finalmente curado e a mão firme na empunhadura da espada, permitiu-se um raro meio sorriso.


— Ele conseguiu.


— Conseguiu — confirmou Ikarus. — Aldora tem um rei. Lenória tem uma rainha… e um rei. E o que as águas mostraram… continua se cumprindo.


Longe dali, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi recebeu a mesma notícia através de um dos seus espelhos de osso. O sorriso discreto que habitualmente carregava não apareceu desta vez. Angarkor, ao lado dele, apenas observou em silêncio.


Duas coroas haviam se erguido das cinzas.  


Um meio-dragão governava o deserto.  


E a profecia que Kallon revelara — o filho que um dia nasceria de Gillian e se tornaria a queda do Necromante — ainda esperava, quieta, no futuro.


Mas o presente de Ad’Heim, pela primeira vez em muito tempo, começava a ter nomes capazes de se opor ao que vinha das profundezas.


Ad’Heim: A Coroa entre as Cinzas

 

Por Yuri Schein  

Lenória Imperial não os recebeu com trumpetas nem com portas abertas.


Recebeu-os com fumaça, com o cheiro persistente de magia necromântica e com o olhar desconfiado de sobreviventes que já haviam aprendido a não confiar em quase nada que se aproximasse das muralhas quebradas. Thomas voou à frente em trechos curtos, mapeando os caminhos ainda transitáveis. Ikarus caminhava no centro do grupo, a aura azul-dourada discreta, mas visível o suficiente para fazer os poucos soldados que ainda montavam guarda baixarem as armas por um instante de hesitação. Gillian e Raella fechavam a formação.


Eles foram reconhecidos antes de alcançarem o que restava da praça central.


Um sargento de rosto queimado — o mesmo que os havia visto partir dias antes — emergiu de detrás de uma barricada de carroças carbonizadas. Os olhos dele se arregalaram ao notar a mudança em Ikarus.


— Vocês… voltaram. E ele… — o homem apontou com o queixo para a aura. — O que aconteceu com você?


— Sobrevivi — respondeu Ikarus apenas. — Onde está o regente Oberon?


O sargento baixou o olhar. O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente.


— Morto. Há três dias. Um portal se abriu dentro do próprio salão do trono. Mortos-vivos e uma daquelas criaturas sombrias. Ele segurou a linha com o que restava da guarda pessoal. Não foi suficiente. O corpo… o que restou dele… está no que sobrou do templo de Valeth. Tentamos dar um enterro digno. Foi o máximo que conseguimos.


Gillian soltou um xingamento baixo. Thomas fechou as asas com um estalo seco. Raella permaneceu imóvel, mas os dedos dela apertaram a borda da capa até os nós ficarem brancos.


O sargento ergueu o olhar novamente, desta vez fixando-se em Raella.


— Tem mais. O povo… o que restou dele… já está falando. Oberon não deixou herdeiro direto. A linha antiga de Lenória está quase extinta. Mas há rumores. Rumores antigos. Sobre sangue. Sobre linhagem que nunca foi anunciada em voz alta, mas que nunca desapareceu por completo.


Ele fez uma pausa, como se pesasse as palavras seguintes.


— Estão dizendo o seu nome, minha senhora. Raella. Dizem que o sangue antigo corre em você. Dizem que, se alguém ainda pode levantar um estandarte que o povo reconheça… é você. Já tem gente se reunindo no que restou da praça do grifo. Não é um exército. É só sobreviventes. Mas eles querem uma rainha. E o nome que estão pronunciando… é o seu.


Raella sentiu o peso de todos os olhares sobre ela. O de Ikarus. O de Gillian. O de Thomas. O do sargento. E, atrás deles, o de dezenas de rostos sujos e exaustos que começavam a se aproximar ao perceber a comoção.


— Eu nunca pedi por isso — disse ela, a voz baixa, mas firme.


— Ninguém pediu por nenhuma das coisas que aconteceram nas últimas semanas — respondeu o sargento. — Mas Oberon está morto. As muralhas estão caídas. Os mortos-vivos ainda atacam todas as noites. E o povo precisa de um nome para não se desfazer por completo. O seu nome é o único que ainda carrega algo antigo o suficiente para eles se segurarem.


Ikarus deu um passo à frente. A aura azul-dourada se expandiu levemente, o suficiente para fazer os mais próximos recuarem meio passo em respeito — ou em medo.


— Se o povo quer Raella… então o povo terá voz. Mas não aqui. Não no meio da fumaça e dos corpos. Leve-nos até onde os sobreviventes estão reunidos. Eu quero ouvir o que eles têm a dizer. E ela também.


O sargento assentiu.  


Guiou o grupo através de vielas parcialmente desabadas até o que restava da praça do grifo. O grande símbolo de pedra que um dia ornava o centro estava rachado ao meio. Ao redor, cerca de duzentas pessoas — soldados feridos, civis, sacerdotes de várias ordens, crianças que já não choravam — se amontoavam em silêncio tenso. Quando viram Raella, um murmúrio percorreu a multidão. Quando viram a aura de Ikarus, o murmúrio se transformou em algo mais próximo de esperança contida.


Uma mulher idosa, com as vestes de uma antiga conselheira de Oberon, avançou. A voz dela era rouca, mas carregava autoridade residual.


— Raella. O sangue antigo de Lenória corre em você. Oberon sabia. Poucos sabiam. Agora o regente está morto. A cidade está de joelhos. E nós… nós precisamos de uma rainha. Não de um símbolo vazio. De alguém que ainda carregue o nome da terra que estamos tentando não deixar morrer.


Raella olhou para a multidão. Depois para Ikarus. Depois para Gillian, que mantinha o rosto impassível, embora os olhos revelassem o peso da conversa que haviam tido no barco.


Ela respirou fundo.


— Se eu aceitar… não aceito sozinha. Lenória não será reconstruída por uma única pessoa. E o que vem pela frente… exigirá mais do que um título.


A conselheira inclinou a cabeça.


— Então diga o que exige.


Raella olhou novamente para Ikarus. A aura azul-dourada refletia a luz pálida do sol sobre as ruínas.


— Depois — disse ela apenas. — Primeiro… enterremos os mortos que ainda não foram enterrados. Depois organizamos a defesa do que restou. E então… falaremos de coroas.


A multidão não protestou.  


Havia exaustão demais para protestos. Havia necessidade demais de qualquer estrutura que ainda pudesse ser erguida. O nome de Raella já estava sendo murmurado como um estandarte. E, ao lado dela, o homem que carregava o azul de Kallon e o ouro de Ranur já estava sendo olhado como alguém que não era apenas mais um guerreiro.


Oberon estava morto.  


Lenória Imperial, ou o que restava dela, começava a se voltar para uma nova rainha.  


E o destino que as águas haviam mostrado a Ikarus — duas uniões, uma coroa, um filho que ainda não existia — começava, lentamente, a deixar de ser apenas um sonho no meio do Mar Divisor.


Ad’Heim: O Peso da Corrente


Por Yuri Schein  


Ikarus não voltou a dormir.


Permaneceu sentado na proa do barco até que o primeiro clarão do sol maior começasse a empurrar a escuridão do Mar Divisor. A aura azul-dourada ao redor do corpo pulsava de forma irregular, como se os dois domínios dentro dele também estivessem reagindo às palavras de Kallon. Guerra e mar. Ouro e azul. E agora… um destino que incluía duas mulheres, uma coroa e um filho que ainda não existia.


Gillian foi a primeira a notar que ele estava diferente.


— Você está quieto demais — disse ela, a voz rouca de cansaço. O braço quebrado ainda estava imobilizado, mas os olhos permaneciam afiados. — O que aconteceu?


Ikarus demorou a responder. Olhou para o horizonte leste, onde a fumaça de Lenória já era visível como uma mancha escura contra o céu que clareava.


— Kallon veio novamente. Em sonho.


Raella se aproximou, a capa envolta ao redor dos ombros. Thomas acordou com o movimento e se sentou, as asas se ajustando por instinto.


— E o que ele disse desta vez? — perguntou Thomas.


Ikarus respirou fundo. A água ao redor do barco reagiu levemente à tensão que emanava dele.


— Que eu devo me casar. Com as duas. Com você, Gillian. E com você, Raella.


O silêncio que caiu sobre a embarcação foi quase físico.


Gillian piscou uma vez, lentamente.


— Casar.


— Com as duas — repetiu Ikarus, a voz baixa, mas firme. — Kallon disse que Raella carrega sangue antigo o suficiente de Lenória para que o casamento me torne rei por direito de união. E que… no futuro… Gillian gerará um filho. Um filho que será a queda de Vaelthas Levi.


Raella abriu a boca, depois a fechou. A capa mágica tremeu sobre os ombros dela.


— Isso é…


— Loucura — completou Gillian, mas a voz não carregava a rejeição imediata que Ikarus esperava. Havia choque. Havia peso. Mas também uma avaliação silenciosa, típica de quem havia sobrevivido a demais coisas para descartar uma revelação dessas sem pensar.


Thomas passou a mão pelo rosto.


— O Hunen das Águas está pedindo que você se case com as duas únicas mulheres que restaram do nosso grupo… e que uma delas gere o futuro destruidor do Necromante.


— Não pediu — corrigiu Ikarus. — Revelou. Disse que as águas já viram esse caminho. Que se eu rejeitar, o fortalecimento que recebi no Templo terá sido apenas metade do que poderia ser. E que Levi continuará escrevendo o fim de Ad’Heim sem oposição verdadeira.


O barco avançou em silêncio por vários minutos. A corrente azul ainda os empurrava, mas parecia mais contida, como se o próprio domínio de Kallon estivesse aguardando a resposta.


Raella foi a primeira a falar novamente. A voz saiu controlada, mas havia um tremor sob as palavras.


— Eu carrego sangue antigo. Isso é verdade. Minha linhagem… nunca foi anunciada em voz alta, mas existe. Se Lenória ainda tiver leis depois de tudo isso… o casamento poderia, de fato, legitimar um novo reinado. Mas casar por necessidade de profecia…


— E eu — disse Gillian, interrompendo, o olhar fixo em Ikarus —, eu deveria aceitar gerar uma criança que nem existe ainda, só porque um Hunen disse que ela será a queda de um Necromante?


Ikarus não desviou o olhar de nenhuma das duas.


— Eu não estou ordenando nada. Nem Kallon ordenou. Ele revelou. A decisão… a decisão é nossa. De todos nós. Porque se isso for real, não afeta só a mim. Afeta o que restou de Lenória. Afeta o que ainda pode ser salvo. E afeta o que Vaelthas Levi ainda não sabe que está vindo contra ele.


Thomas soltou um longo suspiro e olhou para a fumaça distante de Lenória.


— Estamos voltando para uma cidade em ruínas. O mundo está sob ataque. Mortos-vivos, dragões corrompidos, feitiçaria negra. E agora… casamento duplo e uma profecia de filho.


Ele deu um meio sorriso cansado, sem humor.


— Ad’Heim nunca foi simples.


A costa de Lenória começou a se definir no horizonte. Muralhas quebradas. Torres parcialmente desabadas. Fumaça contínua. O porto ainda estava tomado, mas a corrente azul os guiava para a mesma enseada protegida que haviam usado na saída.


Ikarus ergueu a mão. A água ao redor do barco respondeu, elevando-se levemente como se reconhecesse o sangue do Hunen.


— Quando chegarmos… não precisamos decidir tudo de imediato. Mas precisamos sobreviver o suficiente para que a decisão ainda importe. Lenória precisa de alguém que se levante. O povo que restou precisa de um nome. E Vaelthas Levi… precisa descobrir que a Costura que ele abriu também deixou entrar algo que ele não previu.


Gillian olhou para a própria mão livre, depois para Ikarus.


— Eu não vou dizer sim agora. Nem não. Mas… eu ouvi. E não vou fingir que não ouvi.


Raella assentiu lentamente, os olhos ainda fixos no homem que carregava o azul de Kallon e o ouro de Ranur.


— Eu também ouvi.


O barco atingiu a areia preta da enseada pouco depois.  


A fumaça de Lenória Imperial os envolvia novamente. O cheiro de magia necromântica e de madeira queimada voltava a preencher o ar. Longe, um dragão corrompido soltou um rugido distante.


Ikarus foi o primeiro a saltar na água rasa. A aura azul-dourada se expandiu ao redor dele como um manto vivo. Quando olhou para trás, para as duas mulheres e para o meio-dragão que ainda restavam, a expressão era a de alguém que carregava não apenas poder… mas o peso de um futuro que as águas já haviam começado a escrever.


— Então vamos. Uma cidade de cada vez. Uma decisão de cada vez.


E, juntos, os quatro começaram a subir novamente em direção às ruínas de Lenória Imperial — onde o povo que ainda respirava talvez estivesse prestes a conhecer não apenas um guerreiro que voltara mais forte, mas o início de uma linhagem que um dia quebraria o Necromante.


Ad’Heim: O Sonho nas Águas do Retorno


Por Yuri Schein  

O barco cortava o Mar Divisor sob a proteção renovada da corrente azul.  

Ikarus estava acordado a maior parte do tempo agora. A aura azul-dourada ao redor do corpo permanecia estável, controlada, como se os dois domínios finalmente tivessem encontrado um equilíbrio interno. Thomas dormia em turnos curtos, as asas recolhidas. Gillian, mesmo com o braço quebrado, insistia em ajudar com os remos quando a corrente enfraquecia. Raella observava o horizonte leste, onde a fumaça de Lenória Imperial ainda manchava o céu distante.


Foi no meio da segunda noite de retorno que o cansaço venceu Ikarus.


Ele adormeceu no fundo do barco, a cabeça apoiada contra a madeira úmida. O sono veio pesado, profundo — e imediatamente se transformou em outra coisa.


A água o envolveu novamente.  


Mas desta vez não era o fundo escuro e silencioso do primeiro transe. Era uma extensão aberta do domínio de Kallon: um oceano infinito sob um céu de duas luas, a superfície brilhando com luz azul própria. Kallon estava ali, materializado de forma mais nítida do que no Templo. Os cabelos azuis flutuavam como se ainda estivesse submerso. Os olhos profundos fixavam o filho sem o sorriso sereno de antes. Havia gravidade no olhar.


— Você despertou — disse o Hunen. — E está voltando para uma terra que arde.


Ikarus deu um passo sobre a água. A superfície o sustentou como se fosse pedra.


— Eu sei o que preciso fazer. Enfrentar o que Vaelthas Levi e Angarkor soltaram. Proteger o que ainda resta.


— Não — interrompeu Kallon, a voz baixa, mas firme. — Isso é apenas a superfície. O que você carrega agora… o sangue meu e o poder residual de Ranur… não pode se limitar a ser uma arma. Ad’Heim precisa de mais do que um guerreiro. Precisa de continuidade. De linhagem. De um futuro que ainda não foi escrito pelo Necromante.


Ikarus franziu o cenho.


— O que você está dizendo?


Kallon se aproximou. A água ao redor dos dois tremeu.


— Você deve se casar. Com as duas.


O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer pressão de profundidade.


— Gillian e Raella — continuou Kallon. — As duas que restaram ao seu lado. As duas que carregaram seu corpo até o Templo. As duas que ainda respiram enquanto Derek, Rickson e Jetto já não estão.


Ikarus sentiu a aura azul-dourada reagir dentro do sonho, inquieta.


— Casar com as duas? Isso…


— É possível. E necessário. Raella carrega sangue antigo de Lenória. Linha próxima o suficiente da antiga realeza para que, sob as leis que ainda restam, o casamento a torne rainha — e a você, rei por direito de união. Lenória Imperial está em ruínas, mas o título ainda existe. O povo que sobrou precisará de um nome para seguir. O seu. O dela. Juntos.


Kallon fez uma pausa. O olhar se tornou ainda mais antigo.


— Gillian… Gillian gerará um filho. Não agora. Não neste ciclo imediato. Mas no futuro. Um filho que nascerá da união entre o sangue de um Hunen e a força de uma guerreira que sobreviveu a tudo. Esse filho será a queda de Vaelthas Levi. A lâmina que o Necromante não preverá. A rachadura final na obra que ele construiu desde as geleiras de Baltamus.


Ikarus abriu a boca, depois a fechou. A água sob seus pés parecia mais densa.


— Você está me pedindo para…


— Estou lhe revelando o caminho que as águas já viram — corrigiu Kallon. — Eu não ordeno o coração de ninguém. Mas o sangue que corre em você agora é meu. E o poder que Ranur deixou também exige continuidade. Duas esposas. Uma coroa. Um filho que ainda não existe, mas que um dia quebrará o Necromante. Essa é a corrente que as águas me mostraram.


O Hunen ergueu a mão e tocou, pela primeira vez de forma quase tangível, o ombro do filho.


— Quando acordar, a decisão será sua. Mas saiba disto: se você rejeitar o que as águas revelaram, o fortalecimento que recebeu no Templo terá sido apenas metade do que poderia ser. E Levi… Levi continuará escrevendo o fim de Ad’Heim sem oposição verdadeira.


A imagem de Kallon começou a se dissolver em luz azul.


— Pense. Sinta. E escolha. O mar não força. Mas o mar lembra.


Ikarus acordou com um sobressalto.


O barco balançava suavemente sob a corrente azul. As duas luas ainda estavam altas. Thomas dormia com a cabeça apoiada no ombro. Gillian estava acordada, observando o mar com a expressão cansada de sempre. Raella olhava o horizonte, a capa envolta ao redor do corpo.


Nenhum deles havia notado o sonho.


Ikarus ficou sentado em silêncio por um longo tempo, a aura azul-dourada pulsando de forma mais inquieta do que antes. As palavras de Kallon ainda ecoavam dentro dele — pesadas, claras, impossíveis de ignorar.


Duas mulheres.  

Uma coroa.  

Um filho que ainda não existia, mas que um dia seria a queda de Vaelthas Levi.


O Mar Divisor continuava a empurrá-los em direção a Lenória.  


E, pela primeira vez desde que despertara no Templo, Ikarus não sabia se o poder que carregava era uma bênção… ou o início de um destino muito maior e mais complicado do que qualquer batalha.



Ad’Heim: O Despertar no Templo


Por Yuri Schein  


O primeiro raio de sol atravessou o teto parcial do Templo exatamente quando a água da bacia parou de se mover.


A luz azul-dourada ao redor de Ikarus atingiu um pico de intensidade tão forte que Thomas, Gillian e Raella precisaram desviar o olhar por um instante. Quando voltaram a enxergar, a água luminosa estava descendo lentamente, retornando ao nível normal da bacia. O corpo de Ikarus, que até então flutuara sustentado pela magia, agora repousava sobre a pedra rasa, completamente imóvel.


Depois, ele abriu os olhos.


Não eram mais apenas os olhos do guerreiro que haviam conhecido. O azul profundo de Kallon dominava as íris, mas fios dourados residuais de Ranur ainda atravessavam o olhar como veios de luz. A ferida no peito havia desaparecido por completo, deixando apenas uma cicatriz fina e luminosa que brilhava com as duas cores fundidas. A aura ao redor do corpo se estabilizou em um brilho constante e controlado — azul-dourado, denso, vivo.


Ikarus sentou-se devagar dentro da bacia. A água escorreu pelos ombros e pelo peito. Ele olhou para as próprias mãos, depois para os três companheiros que o observavam em silêncio absoluto.


— Eu… ouvi tudo — disse ele, a voz rouca, mas firme. — Kallon. O Templo. O que eu sou.


Thomas deu um passo à frente, ainda segurando os montantes, como se não tivesse certeza se o homem à frente era completamente o mesmo.


— Você está… diferente.


— Estou — confirmou Ikarus. Ele se levantou. A água não o segurou. A aura se moveu com ele, como uma segunda pele. — O poder de Ranur não desapareceu. O sangue de Kallon não está mais adormecido. Os dois se acomodaram. Eu consigo sentir o mar… e consigo sentir a guerra. Ao mesmo tempo.


Gillian engoliu em seco, o braço quebrado ainda pressionado contra o peito.


— E agora? O que você pretende fazer?


Ikarus olhou para a entrada do Templo, na direção leste, onde, além do Mar Divisor, Lenória Imperial ainda ardia em algum lugar distante.


— Agora eu volto. Kallon disse que o fortalecimento que recebi aqui seria o suficiente para eu retornar a Lenória. Então é isso que vou fazer. Vaelthas Levi abriu a Costura. Angarkor ainda está solto. As cidades estão caindo. Eu não posso permanecer na ilha enquanto o resto de Ad’Heim sangra.


Raella se aproximou, a capa finalmente recuperando um brilho mais estável.


— Você acabou de acordar de algo que quase te matou. Tem certeza de que já está pronto?


Ikarus ergueu a mão. A água da bacia respondeu imediatamente, elevando-se em um filamento fluido que orbitou ao redor de seus dedos antes de voltar a cair. Em seguida, a aura dourada residual se concentrou na mesma mão, formando por um instante a silhueta de uma lâmina de luz.


— Eu não estou completo. Ainda preciso aprender a usar o que carrego. Mas estou vivo. E estou mais forte do que quando caí diante de Angarkor. Isso vai ter que ser o suficiente por enquanto.


Ele saiu da bacia. A pedra sob seus pés não ecoou como antes. Cada passo parecia mais firme, mais consciente. Quando passou pela entrada do Templo, a poça luminosa do pátio reagiu, enviando ondulações azuis em sua direção como se o próprio domínio de Kallon o reconhecesse e o abençoasse uma última vez.


Thomas trocou um olhar com as outras duas.


— Então vamos. Se ele está voltando para Lenória… nós também.


Gillian assentiu, mesmo exausta.


— Não vamos deixá-lo ir sozinho.


Raella ajustou a capa nos ombros.


— Nunca deixamos.


Ikarus parou na beira dos penhascos e olhou para o Mar Divisor. As águas ainda estavam escuras em muitos pontos, mas a corrente azul que os havia trazido agora parecia responder à sua presença, formando um caminho luminoso e estreito que apontava de volta para o leste.


— Kallon ainda está protegendo a travessia — murmurou ele. — Pelo menos até chegarmos perto da costa de Lenória.


Ele olhou para os três companheiros — os únicos que restavam do grupo que um dia havia entrado na Clareira da Árvore Negra.


— Obrigado. Por me carregarem até aqui. Por não desistirem.


Thomas deu um meio sorriso cansado.


— Não foi por favor. Foi porque ainda precisamos de você.


Ikarus assentiu uma única vez. Depois, sem mais palavras, começou a descer a trilha em direção à praia onde o barco ainda os esperava. A aura azul-dourada se movia com ele, discreta, mas inegável.


Atrás deles, o Templo de Kallon permaneceu em silêncio.  


A água da bacia sagrada voltou a ficar imóvel.  


E, em algum lugar nas profundezas do domínio das águas, o Hunen observava o filho partir — não mais como um mortal ferido, mas como o único ser em Ad’Heim que carregava, ao mesmo tempo, o ouro de um Guardião e o azul de um senhor dos mares.


A volta para Lenória havia começado.



Ad’Heim: A Noite no Templo


Por Yuri Schein  

A primeira criatura apareceu pouco depois da meia-noite.


Thomas ouviu antes de ver. Um som pesado, arrastado, vindo da trilha que subia dos penhascos. Não era o passo de um morto-vivo comum. Era algo maior. Algo que quebrava galhos e fazia pedras rolarem. Ele ergueu os montantes e deu um passo para fora da entrada do Templo, as asas se abrindo parcialmente sob a luz das duas luas.


Gillian se posicionou ao lado dele, a espada na mão boa, o rosto tenso de dor e determinação. Raella permaneceu mais atrás, perto da bacia onde Ikarus ainda flutuava na água luminosa, a capa mágica finalmente respondendo com um brilho azul-prateado mais estável.


A criatura emergiu da escuridão da trilha.


Era um dragão corrompido de tamanho médio, escamas pretas e opacas, olhos esverdeados brilhando com residual necromântico. As asas estavam parcialmente dilaceradas, como se tivesse lutado contra a própria ilha para chegar até ali. O vapor metálico saía de suas narinas a cada respiração. Ao vê-los, a besta rugiu e avançou, a boca se abrindo para soltar um sopro de fogo negro.


Thomas não esperou.


Ele saltou para o ar e desceu em um arco rápido, os montantes cortando a asa já danificada da criatura. O dragão gritou e tentou atingi-lo com as garras. Gillian aproveitou a abertura e avançou, cravando a espada na pata dianteira esquerda. A lâmina penetrou entre as escamas corrompidas. A besta se contorceu e soltou o sopro negro na direção dela.


Raella ergueu as mãos.


A capa respondeu. Um escudo de luz azulada se formou na frente de Gillian no último instante, desviando a maior parte do fogo negro para as pedras do pátio. As pedras racharam e fumegaram. Thomas aproveitou a distração e desferiu um segundo golpe, desta vez na base do pescoço da criatura. As escamas cederam. O dragão corrompido caiu de lado, o corpo se contorcendo enquanto a energia necromântica começava a se dissipar.


Demorou quase um minuto até que parasse de se mexer.


Thomas pousou, ofegante, as escamas brilhando de esforço. Gillian apoiou-se na espada, o braço quebrado latejando violentamente. Raella baixou as mãos, a capa agora um pouco mais opaca novamente.


— Isso foi só o começo — murmurou Thomas, olhando para a trilha escura. — Vai ter mais.


Dentro do Templo, a água da bacia se agitou.


Ikarus se arqueou novamente. A luz dourada e azul ao redor do corpo dele se intensificou de forma abrupta, girando com mais velocidade. A ferida no peito já havia se fechado por completo, deixando apenas uma linha fina e luminosa onde a pele se unira. Mas o processo estava longe de terminar. Os dois domínios ainda se acomodavam. O dourado de Ranur e o azul de Kallon se entrelaçavam em padrões cada vez mais complexos, como se estivessem escrevendo algo novo dentro dele.


A voz de Kallon ecoou novamente, mais fraca desta vez, como se grande parte de sua atenção estivesse concentrada no filho.


— Aguentem. O processo está avançando. Mais algumas horas.


Thomas voltou para a entrada, os montantes ainda em mãos.


— Mais algumas horas — repetiu ele, a voz baixa. — Então aguentamos.


A noite continuou.


Outras criaturas tentaram se aproximar. Mortos-vivos que haviam chegado à ilha através de portais menores. Seres sombrios que se moviam entre as árvores carbonizadas. Em um momento, duas serpentes marinhas corrompidas tentaram subir pelos penhascos, mas a própria água da ilha as rejeitou, empurrando-as de volta para o mar com violência. Cada ataque era repelido. Cada vitória deixava os três mais exaustos.


Dentro da bacia, Ikarus começou a mudar.


A aura ao redor dele já não era mais duas cores separadas lutando por espaço. O dourado e o azul haviam começado a se fundir em um tom novo — um azul-dourado profundo, luminoso, que parecia carregar tanto a força da guerra quanto a profundidade do mar. A respiração dele se tornou mais forte. Os músculos, antes frouxos pelo estado de quase-morte, começaram a se tensionar novamente. Em determinado momento, os olhos se abriram.


Não por completo.  


Apenas o suficiente para que o azul profundo e o residual dourado fossem visíveis.


Raella, que não havia se afastado da bacia, sentiu o coração acelerar.


— Ikarus…?


Ele não respondeu. Os olhos se fecharam novamente. Mas a aura se estabilizou em um brilho constante e poderoso. A água ao redor dele parou de se agitar de forma violenta e passou a circular em um movimento suave e deliberado, como se o próprio domínio de Kallon estivesse concluindo a última parte do trabalho.


Lá fora, o horizonte começou a clarear.


A última hora da noite estava terminando.  


E, dentro do Templo das Águas Antigas, o único filho de um Hunen com uma mortal estava prestes a despertar de verdade — não mais como o guerreiro que caíra diante de Angarkor, mas como algo que Ad’Heim ainda não havia visto.


Thomas olhou para o céu que começava a clarear e apertou os montantes com mais força.


— Quase lá.


Gillian assentiu em silêncio.  


Raella permaneceu ao lado da bacia, observando a luz azul-dourada pulsar em ritmo constante e forte.


O amanhecer na Ilha de Kallon estava chegando.  

E com ele, o despertar de Ikarus.


Ad’Heim: O Templo das Águas Antigas


Por Yuri Schein  


O interior do Templo de Kallon era mais frio do que o lado de fora.


A pedra clara das paredes e colunas brilhava com um azul fraco e constante, alimentado por runas antigas que pareciam ter sido esculpidas diretamente pela água ao longo de séculos. O teto parcial deixava entrar a luz das duas luas, projetando faixas prateadas sobre o chão de pedra lisa. No centro do salão principal havia uma depressão circular rasa — uma bacia natural preenchida por água cristalina e luminosa, a mesma água que brotava no pátio externo, mas aqui mais pura, mais densa, mais viva.


Thomas depositou Ikarus com cuidado dentro da bacia.


A água subiu até a altura do peito do guerreiro. A aura dourada e azul reagiu imediatamente, expandindo-se em ondulações que faziam a superfície brilhar com intensidade renovada. A ferida no peito, ainda aberta, parou de sangrar no instante em que a água a tocou. Filamentos de luz dourada e azul se misturaram à água, como se o próprio domínio de Kallon estivesse examinando cada camada do corpo e da essência de Ikarus.


Raella ajoelhou-se na beira da bacia, a capa mágica finalmente respondendo com um brilho mais estável.


— Está funcionando…


Gillian sentou-se contra uma coluna, o braço quebrado latejando, mas os olhos fixos no companheiro.


— E agora?


A resposta não veio de nenhum deles.


A água da bacia se ergueu.


Não de forma violenta. De forma deliberada. Uma coluna líquida e luminosa se formou acima do corpo de Ikarus, tomando a forma parcial de um homem — cabelos longos e azuis, olhos do mesmo tom profundo, o mesmo sorriso sereno que Ikarus havia visto no fundo do mar. Kallon não estava completamente materializado. Era uma projeção, uma extensão da presença do Hunen através da água sagrada do Templo. Ainda assim, a força que emanava dele fazia o ar tremer suavemente.


— Vocês o trouxeram a tempo — disse a voz de Kallon, ecoando tanto no salão quanto dentro da mente dos três. — A mistura dos domínios estava prestes a se tornar instável demais.


Thomas deu um passo à frente, as asas meio abertas por instinto.


— Ele vai sobreviver?


— Vai — respondeu Kallon. — Mas o processo não será rápido nem indolor. O dourado de Ranur e o azul do meu sangue precisam se acomodar um ao outro. Ranur ofereceu o poder de um Guardião no momento da morte. Eu ofereço o domínio das águas e a herança que sempre foi dele. Os dois precisam se tornar um só dentro de Ikarus… ou ele se quebrará entre eles.


A coluna de água se inclinou sobre o corpo do guerreiro. Filamentos luminosos desceram e penetraram a ferida no peito, a aura, a própria pele. Ikarus se arqueou dentro da bacia, um gemido baixo escapando dos lábios. A luz ao redor dele explodiu em intensidade — dourado e azul girando um em torno do outro como duas tempestades tentando se fundir.


Raella estendeu a mão, mas não tocou a água.


— Isso está doendo nele.


— Está — confirmou Kallon, sem suavizar a verdade. — Dor é o preço de carregar dois domínios. Mas a dor agora é necessária. Se eu tentar apressar… ou se tentar separar o que já começou a se misturar… ele morre.


Gillian apertou os dentes.


— Quanto tempo?


— Horas. Talvez o resto da noite. Talvez até o amanhecer. Enquanto isso, a ilha ainda não está segura. Os ataques necromânticos foram repelidos em grande parte, mas não completamente. Criaturas ainda rondam as florestas e as costas. Vocês precisarão proteger este lugar até que o processo termine.


Thomas ergueu os montantes, o olhar endurecido.


— Então protegemos.


Kallon inclinou a cabeça em um gesto que quase parecia gratidão.


— Façam isso. E quando Ikarus despertar… ele não será mais apenas o guerreiro que caiu diante de Angarkor. Nem apenas o portador residual de Ranur. Será meu filho, consciente do que carrega. E o fortalecimento que receberá aqui será o suficiente para que ele retorne a Lenória… e enfrente o que ainda está por vir.

A projeção de água começou a se dissipar lentamente, retornando à bacia. A voz de Kallon ecoou uma última vez, mais baixa, dirigida apenas a Ikarus:

— Aguente, meu filho. Eu estou aqui agora.

A luz dourada e azul ao redor de Ikarus se estabilizou em um brilho intenso e constante. O corpo dele parou de se contorcer. A respiração se tornou mais profunda, mais regular. A ferida no peito começou a se fechar sob a água luminosa, não com cicatrizes comuns, mas com linhas finas de luz entrelaçada.

Lá fora, o vento uivava entre os penhascos.  

Em algum ponto da floresta abaixo, algo grande se movia entre as árvores carbonizadas.  

Thomas posicionou-se na entrada do Templo, montantes prontos. Gillian se levantou com dificuldade, a espada na mão boa. Raella ficou perto da bacia, a capa finalmente recuperando um pouco de brilho, pronta para defender o processo que ainda estava longe de terminar.

A noite na Ilha de Kallon havia apenas começado.  

E, dentro da água sagrada, o único filho de um Hunen com uma mortal começava, finalmente, a se tornar o que sempre deveria ter sido.