A Bíblia Desconsidera as Criaturas como Causas Eficientes em Relação a Deus: O Caso de Gênesis 45:8 e Evidências Adicionais
No artigo anterior, desmontamos o concorrentismo tomista expondo seus pressupostos empiristas e sua duplicação causal insustentável. Agora, aprofundamos o argumento exegético central: a Escritura, ao descrever a providência divina, consistentemente desconsidera as ações humanas (ou quaisquer criaturas/instrumentos) como causas eficientes reais quando o foco é a soberania absoluta de Deus. Em vez de dividir a causalidade entre Criador e criação, a Bíblia atribui o evento diretamente a Deus, tratando as criaturas como meras ocasiões ou instrumentos subordinados, sem qualquer agência causal independente que comprometa a causalidade exclusiva divina.
Isso não nega a realidade das intenções humanas, da responsabilidade moral ou da distinção ontológica entre Deus e criação. Pelo contrário: preserva tudo isso enquanto afirma que, em última instância, Deus é o único agente eficiente. As “causas segundas” do concorrentismo evaporam quando confrontadas com a linguagem bíblica direta.
Gênesis 45.8: O Exemplo Paradigmático
O texto mais explícito e devastador para o concorrentismo é Gênesis 45:8, onde José, ao se revelar aos irmãos que o venderam como escravo, declara:
“Assim, NÃO FOSTES VÓS QUE ME ENVIASTES PARA CÁ, E SIM DEUS; ele me pôs por pai de Faraó, por senhor de toda a sua casa e como governador em toda a terra do Egito.” (Gn 45:8, ARA)
Aqui, José não diz: “Vocês me enviaram, mas Deus usou isso” ou “Deus permitiu que vocês me enviassem”. Ele nega explicitamente que os irmãos sejam a causa eficiente do evento: “Não fostes vós que me enviastes para cá”. A traição deles, com toda sua maldade voluntária, é desconsiderada como causa real. Deus é o agente direto que “enviou” José ao Egito para preservar vida (vv. 5, 7). Os irmãos foram ocasiões reais em intenção e culpabilidade, mas não causas eficientes. Isso pulveriza a noção tomista de que criaturas devem possuir causalidade própria para serem reais ou para a providência operar. Biblicamente, em relação a Deus, qualquer instrumento ou criatura sequer é considerado causa.
Evidências Bíblicas Adicionais: Padrão Consistente de Desconsideração Causal
A Escritura repete esse padrão em múltiplos contextos, sempre atribuindo o evento diretamente a Deus e relegando agentes humanos a ocasiões irrelevantes quando o foco é a soberania divina:
Atos 4:27-28 (crucificação de Cristo):
“Pois verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, a quem ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse.”
Os apóstolos reconhecem as ações voluntárias de Herodes, Pilatos e outros, mas desconsideram-nas como causas independentes. Tudo foi executado pela “mão” e “conselho” de Deus, causalidade exclusiva divina.
Provérbios 21:1:
“Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina"
Decisões reais do rei (inclinações do coração) são desconsideradas como causas autônomas; Deus é o agente direto que dirige tudo conforme Sua vontade.
Jó 1:21:
Após saques, fogo e vento destruírem sua família (ocasiões humanas e naturais), Jó declara: “O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.”
As causas secundárias (saqueadores, Satanás via permissão) são ignoradas; Deus é a causa última e direta de tudo.
1 Samuel 16:14-15:
“Retirou-se o Espírito do Senhor de Saul, e o atormentava um espírito maligno da parte do Senho.” O tormento (via espírito maligno como ocasião) é atribuído diretamente a Deus, sem divisão causal.
Esses textos, somados aos já citados anteriormente (Pv 16:4; At 2:23; Is 45:7; Rm 11:36; At 2:23), formam um testemunho unânime: a Bíblia não divide a causalidade. Quando Deus opera, criaturas (mesmo más) servem como ocasiões, mas não como causas eficientes em relação a Ele. Isso é o oposto do concorrentismo, que insiste em causalidade criada própria para preservar “realidade”, um pressuposto aristotélico que a Escritura ignora.
Implicações para o Debate
Se a Bíblia desconsidera consistentemente as criaturas como causas em relação a Deus, o ocasionalismo reformado não é uma “extremidade filosófica”, mas a leitura mais fiel da revelação. O concorrentismo, ao exigir causas segundas eficientes, impõe uma metafísica humana que a Escritura rejeita. Ele cria duplicação onde a Palavra vê unidade soberana.
A responsabilidade moral permanece intacta (os irmãos de José foram culpados; Judas foi responsável), mas não depende de autonomia causal, depende da voluntariedade do coração sob decreto divino (compatibilismo bíblico).
Em resumo: biblicamente, em relação a Deus, qualquer criatura ou instrumento sequer é considerado causa. Isso não diminui a criação; eleva a glória do Criador. O ocasionalismo não é especulação é obediência à Palavra que declara: “Dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11:36).
Outros textos bíblicos demonstram que Deus desconsidera as Criaturas como Causas Eficientes em Relação a Deus – Evidências Adicionais da Conquista de Canaã e das Guerras de Israel
No artigo anterior, vimos como a Escritura, em passagens como Gênesis 45:8 (“Não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus”), Atos 4:27-28, Provérbios 21:1, Jó 1:21 e 1 Samuel 16:14-15, desconsidera consistentemente as ações humanas ou criadas como causas eficientes reais quando o foco é a providência soberana de Deus. As criaturas são ocasiões voluntárias e responsáveis, mas a causalidade eficiente pertence exclusivamente a Deus.
Esse padrão se repete com força ainda maior nos relatos da conquista de Canaã e das guerras travadas por Israel. A Bíblia atribui todos os atos necessários para a vitória: planejamento, luta, dispersão de inimigos, mortes específicas, batalhas e conquistas diretamente a Deus, sem qualquer divisão causal. As ações humanas (marchas, flechas, espadas, estratégias) são desconsideradas como causas eficientes em relação a Deus. Elas existem como instrumentos ou ocasiões, mas a eficiência real é sempre dEle.
Deuteronômio 32:10-12 – O Senhor Sozinho Guiou
“Achou-o numa terra deserta, num ermo uivante e ermo; protegeu-o e cuidou dele; guardou-o como a menina dos seus olhos. Como a águia desperta o seu ninho, adeja sobre os seus filhos, estende as suas asas, toma-os e os leva sobre as suas asas. O Senhor sozinho o guiou, e não havia com ele deus estranho.” (Dt 32:10-12)
O texto enfatiza a exclusividade da ação divina: “O Senhor sozinho o guiou”. Durante os 40 anos no deserto, período de marcha, provisão, orientação e preparação para a conquista, não há menção a esforços autônomos de Israel ou de Moisés como causas eficientes. Deus guia, protege, leva e opera tudo. As pernas do povo, as decisões de Moisés, as ações coletivas são reais, mas desconsideradas como causas quando o foco é a soberania. Deus é o único agente que move o processo inteiro.
Isaías 26:12 – Tudo o que Fizemos, Tu o Fizeste por Nós
“Senhor, tu nos darás a paz, porque tudo o que fizemos, tu o fizeste por nós.” (Is 26:12)
Essa declaração é uma das mais claras da Escritura sobre a causalidade exclusiva de Deus. Tudo o que o povo “fez” (incluindo conquistas, vitórias, caminhadas pelo deserto, batalhas travadas) é, na verdade, obra operada por Deus neles e por eles. Não há duplicação: as ações humanas não acrescentam causalidade eficiente própria; Deus realiza todas as obras. Isso ecoa diretamente Gênesis 45:8 as “causas secundárias” são desconsideradas como agentes causais reais em relação a Deus.
Outras Expressões Bíblicas Aplicadas à Conquista e às Guerras
A Bíblia usa linguagem consistente para descrever as batalhas de Israel:
“A batalha é do Senhor” (1 Samuel 17:47; cf. 2 Crônicas 20:15) Davi declara isso contra Golias: a vitória não vem de armas humanas, mas do Senhor. A batalha inteira — planejamento, confronto, golpe decisivo — é atribuída a Deus.
"O Senhor luta pelo seu povo” (Êxodo 14:14; Deuteronômio 1:30; Deuteronômio 3:22). Moisés diz ao povo: “O Senhor pelejará por vós”. Deus é o guerreiro ativo; Israel é espectador e instrumento ocasional.
O Senhor dispersa os inimigos e mata reis específicos. Em Deuteronômio 3:3 e Números 21:33-35, Deus entrega Ogue, rei de Basã, e seu povo nas mãos de Israel, mas a morte e a dispersão são atribuídas diretamente ao Senhor. Não é “Israel matou Ogue com ajuda de Deus”; é Deus quem mata e entrega. “A vitória é do Senhor” (Provérbios 21:31) “O cavalo prepara-se para o dia da batalha, mas do Senhor vem a vitória.” Preparação humana existe, mas a vitória causal é exclusiva de Deus.
Padrão Consistente e Implicações
Esses textos, somados aos já analisados (Gn 45:8; At 4:27-28; Pv 21:1; Jó 1:21; 1 Sm 16:14-15; Pv 16:4; At 2:23; Is 45:7; Rm 11:36), revelam um padrão inquebrantável: quando a Escritura narra a providência divina em ação (conquista de Canaã, guerras, jornada no deserto, venda de José, crucificação), ela **atribui todos os atos necessários** diretamente a Deus. Não há linguagem de “cooperação causal”, “concurso simultâneo” ou “causas segundas eficientes”. Deus guia sozinho, opera tudo por nós, luta, dispersa, mata, vence.
Isso significa que, biblicamente, em relação a Deus, qualquer criatura ou instrumento sequer é considerado causa eficiente. As ações humanas (marchar, atirar flechas, desembainhar espadas, decidir estratégias) são reais em seu nível, voluntárias, responsáveis, culpáveis quando más,, mas desconsideradas como fontes de eficiência causal quando o olhar se volta para a soberania divina. Deus é o agente eminente, principal e eficaz; as criaturas servem como ocasiões subordinadas.
Essa visão não diminui a criação nem anula a responsabilidade; ela a subordina à glória de Deus como o único Senhor soberano. O concorrentismo, ao insistir em causalidade criada própria como necessária para a “realidade”, impõe uma categoria aristotélica que a Escritura simplesmente ignora. A Bíblia não divide a causalidade, ela a concentra em Deus.
Portanto, o ocasionalismo reformado não é uma posição extrema ou especulativa; é a leitura mais fiel e direta da linguagem bíblica: Deus opera todas as coisas conforme o conselho da sua vontade (Ef 1:11), e “dele, por ele e para ele são todas as coisas” (Rm 11:36).




