Por Yuri Schein
Um Amor Que Nenhuma Mente Pode Medir
Texto base:
“Para que possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento.”
— Epístola aos Efésios 3:18–19
Há coisas neste universo que podem ser medidas. Medimos oceanos, montanhas e até distâncias entre estrelas. Mas quando chegamos ao amor de Deus revelado em Cristo, todas as nossas réguas quebram, todas as nossas fórmulas falham e a matemática da mente humana entra em colapso.
O apóstolo Paulo tenta descrever esse amor usando quatro dimensões: largura, altura, profundidade e comprimento.
É como se ele estivesse dizendo: “Tentem medir… se conseguirem.”
Mas ninguém consegue.
1. A Largura do Amor de Deus
Um amor que atravessa toda a humanidade
A primeira dimensão é a largura.
A largura do amor de Deus significa que o evangelho atravessa todas as fronteiras que os homens inventaram.
Os homens se dividem por:
raça
cultura
riqueza
posição social
religião
Mas Deus salva todos os tipos de homens.
“Depois destas coisas olhei, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas.”
— Apocalipse 7:9
Deus não salva apenas pessoas consideradas “boas”.
Ele salva todo tipo de pecador imaginável.
Fariseus religiosos.
Publicanos corruptos.
Intelectuais orgulhosos.
Criminosos quebrados.
“Não há judeu nem grego… porque todos vós sois um em Cristo.”
— Epístola aos Gálatas 3:28
Se dependesse da religião humana, o céu seria um clube privado.
Mas o evangelho transforma o céu em uma assembleia internacional de pecadores redimidos.
Veja a história de John Newton.
Newton foi traficante de escravos. Ele lucrava com um dos sistemas mais cruéis da história.
Mas Deus o alcançou.
Durante uma violenta tempestade no mar, Newton clamou por misericórdia. Aquela experiência foi o início de sua conversão.
Ele abandonou o tráfico de escravos, tornou-se pastor e escreveu um hino que atravessou séculos:
“Amazing Grace.”
A largura do amor de Deus alcançou um traficante de escravos.
Se alcançou Newton, então nenhum pecador está fora do alcance da graça.
Quando falamos da largura do amor de Deus, falamos de algo que transcende qualquer medida humana. Não é um amor superficial nem limitado por critérios terrenos. É um amor que se estende a todos os eleitos, abrangendo pecadores de todos os tipos: ricos e pobres, sábios e ignorantes, virtuosos e aqueles que o mundo despreza.
Jonathan Edwards reflete sobre isso com clareza impressionante em seus escritos sobre a graça:
“O amor de Deus é tão grande que abrange não apenas os justos visíveis, mas todos os que Ele escolheu desde a eternidade, de todas as raças, línguas e condições; e nenhum coração eleito está fora do alcance de sua graça, pois Ele ama com um amor que não conhece favoritismos.”
— Jonathan Edwards
A largura do amor divino se manifesta na diversidade de seus eleitos. Ele não escolhe alguns tipos e deixa outros de fora. Não é um amor que se prende a mérito humano, aparência ou história; Ele salva todos os eleitos, sem distinção, e cada um é amado com a mesma intensidade, independentemente de suas falhas ou fraquezas.
Paulo nos lembra disso quando afirma sobre si mesmo, antes da conversão:
“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.”
— Primeira Epístola a Timóteo 1:15
A largura do amor de Deus não se mede pelo tipo de pessoa que Ele alcança, mas pela variedade de pecadores que Ele escolhe e transforma. Ele olha para o coração escolhido e diz: “este será meu”, e não importa quão quebrantado, indigno ou perdido ele pareça.
Esse amor é largo porque:
Alcança todos os eleitos, sem excluir nenhum tipo de pecador.
Não discrimina dentro do povo de Deus, mas trata todos com igualdade de misericórdia e graça.
É eficaz na redenção dos mais perversos, transformando vidas que parecem impossíveis de salvar.
Ultrapassa barreiras humanas, abraçando culturas, histórias e passados diversos, mas sempre operando segundo a vontade perfeita de Deus.
Podemos imaginar a largura desse amor como um oceano sem margens visíveis, envolvendo cada alma eleita, tocando cada coração, transformando cada vida, e fazendo que todos os Seus compartilhem da mesma graça. É um amor universal dentro do povo de Deus, profundo, inclusivo e eficaz, sem distinção, mas sempre poderoso e pessoal.
E quanto mais meditamos na largura do amor de Deus, mais percebemos que não é apenas um amor que alcança, mas que também preserva. Ele abraça os eleitos de todos os tipos, não apenas por um momento, mas de forma contínua, sustentando-os em suas fraquezas, guiando-os em suas incertezas, fortalecendo-os em suas quedas.
Não se trata de um amor superficial que apenas toca a superfície do coração. Ele penetra as zonas mais escondidas da alma, onde se acumulam vergonha, culpa e medo, e transforma cada um dos Seus em testemunhas vivas da graça. Ele encontra o ladrão arrependido, a prostituta convertida, o assassino quebrantado, o religioso frustrado, e diz: “Você é meu, você pertence à minha glória; nada do que você foi pode impedir que eu complete o que comecei em você.”
A largura do amor de Deus é impressionante porque ele não depende do estado em que nos encontramos. Ele não ama os eleitos porque eles são perfeitos, mas porque Ele é perfeito e escolheu amar. Cada um dos Seus recebe a mesma intensidade do cuidado divino: nenhum é negligenciado, nenhum é secundário. O amor de Deus é amplo como o céu, profundo como o oceano, e seguro como a Rocha eterna.
E a beleza desse amor é que ele ultrapassa a nossa compreensão. Podemos olhar ao redor e ver diferenças sociais, culturais ou históricas entre aqueles que Deus chama. Mas no coração de Deus, não há barreiras: todos os Seus são igualmente preciosos, igualmente amados, igualmente destinados à glória.
Imagine um mundo em que o amor humano funcionasse assim: sem favoritismos, sem ciúmes, sem preconceito, um amor que reconhece a dignidade do próximo mesmo quando tudo nele parece indigno. Assim é o amor de Deus pelos Seus eleitos: não limitado, não parcial, não condicionado, mas largo, constante, abrangente e eficaz.
Portanto, ao contemplarmos a largura do amor de Deus, somos lembrados de que:
Ele alcança cada um dos Seus eleitos, de todas as condições e tipos, e não há exceção dentro do povo que Ele escolheu.
Ele nos sustenta e transforma, independentemente de nossas falhas ou passados obscuros.
Ele nos une como um só corpo, mostrando que a diversidade entre os Seus não diminui a intensidade de Seu amor.
Ele nos convida à esperança e à confiança, porque nenhum daqueles a quem Ele chama será perdido, e nenhum pode escapar da abrangência de Sua graça.
O amor de Deus é largo, largo o suficiente para abraçar todos os Seus, e largo o suficiente para nos ensinar que em Sua graça não existe comparação, competição ou exclusão. Cada eleito é amado de forma completa e perfeita, e todos juntos são testemunhas vivas da bondade infinita de Deus.
2. A ALTURA DO AMOR DE DEUS
O amor que desceu do trono eterno
Agora considere a altura.
A altura do amor de Deus não é medida pela distância que subimos até Deus, mas pela distância que Deus desceu até nós.
“Sendo em forma de Deus… esvaziou-se a si mesmo.”
— Epístola aos Filipenses 2:6–7
Cristo estava acima de tudo:
acima dos anjos
acima das galáxias
acima do tempo
acima de toda a criação
Mas Ele desceu.
“O Verbo se fez carne.”
— Evangelho de João 1:14
Imagine a distância.
Do trono eterno
para o ventre de uma virgem.
Do louvor dos serafins
para o choro de um bebê.
Do governo do universo
para a humilhação da cruz.
Essa é a altura do amor de Deus.
Cristo abriu mão da glória visível, tomou forma de servo, viveu em pobreza e morreu como um criminoso.
Tudo isso para salvar pecadores.
Exemplo
Considere a história de
Agostinho de Hipona.
Agostinho passou anos vivendo em imoralidade e orgulho intelectual. Buscava sentido em filosofias e prazeres, mas permanecia vazio.
Mas Deus o perseguiu pela graça.
Um dia, ao ler as Escrituras, foi confrontado pelas palavras da
Epístola aos Romanos 13.
Seu coração foi quebrado, e ele se converteu, tornando-se um dos maiores teólogos da história da Igreja.
O Deus que habita nas alturas desceu para alcançar um coração rebelde.
Um Amor Que Desce do Céu Para nos Elevar
Quando falamos da altura do amor de Deus, falamos de algo que desafia qualquer compreensão humana. Não se trata de uma medida espacial; trata-se do contraste infinito entre a glória de Deus e a miséria do homem, entre o Criador e a criatura. É o amor que vem do alto para resgatar os que estão embaixo.
João Calvino, nas suas Institutas, expressa isso com precisão impressionante:
“Esta é a permuta que, em sua bondade infinita, ele quis fazer conosco: recebeu nossa pobreza, e nos transferiu suas riquezas; levou sobre si a nossa fraqueza, e nos fortaleceu com o seu poder; assumiu a nossa mortalidade, e fez nossa a sua imortalidade; desceu à terra, e abriu o caminho para o céu; fez-se Filho do homem, e nos fez filhos de Deus.”
— Institutas da Religião Cristã
Que contraste esmagador! O Deus do universo, cuja glória está acima das nuvens e além das estrelas, se inclina até nós. Ele recebe nossa pobreza — a pobreza de alma, de entendimento, de espírito — e nos transfere Sua riqueza infinita. Ele leva nossas fraquezas e nos dá força; Ele toma nossa mortalidade e nos dá a imortalidade.
A altura do amor de Deus se mede não pela distância entre nós e Ele, mas pelo quanto Ele se abaixa para nos levantar. Ele desceu à terra: não apenas visitou brevemente, mas assumiu nossa humanidade inteira. Tornou-se Filho do homem, sujeito à fome, ao cansaço, à dor, à rejeição.
E tudo isso não para permanecer conosco na fraqueza, mas para nos elevar a Sua glória. Ele abre o caminho para o céu — o caminho que nós jamais poderíamos trilhar sozinhos. Ele transforma nossa miséria em riqueza, nosso mortal em imortal, nosso simples e fraco em herdeiro do Altíssimo.
É um amor que nos força a contemplar sua magnitude:
A altura do amor de Deus não se limita à cruz — ela começa na eternidade celestial, desce até a humanidade e nos eleva à filiação divina.
Ele nos encontra onde estamos, fracos e pequenos, e nos leva onde nunca poderíamos chegar sozinhos.
Ele desce, mas nos faz subir; se inclina, mas nos coloca em sua eternidade; assume o homem, mas nos dá a divindade em comunhão.
Quando contemplamos essa altura, sentimos nossa pequenez e, ao mesmo tempo, a segurança imensa de sermos sustentados pelo Todo-Poderoso. É impossível medir a altura do amor divino, porque ela não se limita ao que vemos, sentimos ou experimentamos. Ela vai além do céu visível, além do cosmos, além de tudo que a mente humana poderia imaginar.
Deus não apenas nos alcança; Ele nos transforma:
Recebe nossa pobreza → nos dá Sua riqueza
Leva nossa fraqueza → nos dá Seu poder
Assumiu nossa mortalidade → nos faz filhos de Deus, com a promessa de imortalidade
A altura do amor de Deus é o amor que desce do Céu para tocar o chão da nossa miséria e nos erguer até o trono da glória eterna. É um amor que nos lembra: não existe nada acima do que Ele é, e nada abaixo do que Ele nos dá.
III. A PROFUNDIDADE DO AMOR DE DEUS
O amor que desce ao abismo do pecado
Agora chegamos à dimensão mais chocante: a profundidade.
O amor de Deus não apenas desceu do céu.
Ele desceu até o fundo do pecado humano.
Na cruz, Cristo carregou pecados que fariam qualquer consciência humana tremer.
“Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós.”
— Segunda Epístola aos Coríntios 5:21
Cristo morreu por:
assassinos
prostitutas
corruptos
blasfemos
ladrões
Paulo diz:
“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o principal.”
— Primeira Epístola a Timóteo 1:15
Não existe um abismo profundo demais para a graça.
A cruz é uma corda que desce até o fundo do poço do pecado humano.
Um exemplo extraordinário dessa profundidade é a conversão do próprio
Paulo de Tarso.
Antes de se tornar apóstolo, Paulo era perseguidor da igreja.
Ele aprovou a morte de cristãos e dedicou sua vida a destruir o cristianismo.
“Eu perseguia sobremaneira a igreja de Deus e a devastava.”
— Epístola aos Gálatas 1:13
Mas no caminho para Damasco, Cristo o confrontou.
“Saulo, Saulo, por que me persegues?”
— Atos dos Apóstolos 9:4
O perseguidor se tornou pregador.
O inimigo da igreja se tornou apóstolo.
Deus transformou um caçador de cristãos em missionário do evangelho.
Isso é a profundidade da graça.
Quando falamos da profundidade do amor de Deus, falamos de algo que ultrapassa qualquer medida humana. Não é apenas um amor que abraça o pecador comum ou que alcança os que têm corações bons. É um amor que penetra nas profundezas do mal, nos buracos mais escuros da alma humana, e ainda assim, encontra beleza e valor em sua redenção.
Paulo, em sua segunda carta aos coríntios, nos dá uma visão visceral desse amor. Ele descreve as próprias dores, sofrimentos e humilhações que sofreu por Cristo, sem romantizar nada:
“Em trabalhos muito mais abundantes, em açoites sem número, em prisões muitas, em perigos de morte muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas; uma vez fui apedrejado; três vezes naufraguei; uma noite e um dia passei no abismo; muitas viagens, perigos de rios, perigos de ladrões, perigos de meus próprios compatriotas, perigos dos gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre falsos irmãos…”
— Segunda Epístola aos Coríntios 11:23–26
A profundidade do amor de Deus se revela quando vemos que Ele escolheu salvar Paulo, o perseguidor, o orgulhoso, o violento, aquele que mais tarde seria chamado “o principal dos pecadores” (1 Tm 1:15).
Deus não amou Paulo apenas na superfície. Ele desceu até os abismos de sua vida, até cada pecado que ele havia cometido, até o orgulho que inflava seu coração, até os próprios atos de perseguição que ele cometera contra a igreja nascente.
E mais: Deus ainda o chamou para sofrer mais, porque a obra da graça muitas vezes passa pelo sofrimento para revelar a profundidade do amor divino. Cada açoite, cada naufrágio, cada perigo, Paulo experimentou como instrumentos nas mãos de Deus para aperfeiçoar sua fé e formar nele a visão da cruz.
O que isso nos ensina? Que não existe pecado, desespero ou abismo na vida humana que possa resistir ao amor de Deus. O mesmo Deus que se inclinou até Paulo no caminho de Damasco é o Deus que desce até você hoje, não para condenar, mas para resgatar.
A profundidade do amor de Deus é infinita porque Ele alcança os que parecem inalcançáveis. Ele transforma o pior pecador no maior instrumento de glória. Ele entra nos lugares mais escuros do coração humano e, com paciência e poder, opera redenção.
Quando meditamos na profundidade do amor de Deus, lembramos que:
O amor divino não tem limites de pecado.
Ele nos encontra no fundo de nossas falhas mais vergonhosas.
Ele não apenas perdoa, mas transforma.
Ele leva seus filhos do abismo para a luz, não com mágica, mas com grande fidelidade e poder.
Paulo provou isso na própria carne. Deus não poupou sua vida de perigos, mas não permitiu que os perigos o destruíssem. Cada golpe e cada naufrágio tornaram-se oportunidades para o amor de Deus se revelar ainda mais profundo: não como um amor distante, mas como um amor que desce, envolve, sustenta e transforma.
A profundidade do amor de Deus é, portanto, o amor que entra nos lugares que você acha impossíveis de alcançar. É o amor que se inclina sobre sua culpa, que não se afasta da sua miséria, que não se impressiona com sua indignidade. É o amor que, em palavras e obras, grita:
"Não importa o quão fundo você caiu, eu vou te alcançar; não importa o quão escuro o seu coração esteja, minha graça te encontrará."
E isso não é teoria. É Paulo, açoitado, perseguido, naufragado, segurando firme na promessa de que o amor de Deus não apenas o alcançou — ele o mergulhou nas profundezas do desespero humano e o trouxe para a luz da glória eterna.
Se 2 Coríntios 11 nos mostrou o peso dos sofrimentos que Paulo suportou, 2 Coríntios 12 nos revela o propósito profundo desses sofrimentos: a demonstração da força do amor de Deus no fundo da fraqueza humana.
Paulo começa compartilhando uma experiência espiritual extraordinária:
“Fui arrebatado até ao terceiro céu… não sei se no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe…”
— Segunda Epístola aos Coríntios 12:2
O apóstolo viu o esplendor das alturas celestiais. Mas, mesmo após visões tão gloriosas, Deus não o livrou de dores e aflições. Por quê? Porque a profundidade do amor divino se revela não apenas na glória, mas na debilidade humana.
Paulo relata então seu espinho na carne:
“E, para que não me exaltasse pela sublimidade das revelações, foi-me dado um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, para que não me exaltasse.”
— Segunda Epístola aos Coríntios 12:7
Aqui está a lição central: o amor de Deus é profundo porque nos acompanha nos momentos em que sentimos nossa insuficiência e fragilidade extrema.
Quantas vezes tentamos entender a graça apenas quando tudo vai bem? Paulo nos mostra que o amor de Deus penetra nos lugares mais baixos da nossa existência: quando estamos humilhados, doentes, cansados, perseguidos, tentados ou enfraquecidos. É nesse ponto, no abismo de nossas limitações, que a profundidade do amor divino se torna mais evidente.
“Minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.”
— Segunda Epístola aos Coríntios 12:9
Observe a contradição divina: a força de Deus não se manifesta quando nos sentimos fortes, mas justamente quando estamos no chão, quebrantados. É aí que o amor de Deus mostra seu alcance mais profundo — um amor que não se afasta da dor, mas a abraça para glorificar o Seu poder.
Paulo não apenas ensina isso; ele vive isso. Ele aprende a se gloriar em suas fraquezas:
“Por causa de Cristo, portanto, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias; porque, quando sou fraco, então sou forte.”
— Segunda Epístola aos Coríntios 12:10
Que mensagem tremenda! A profundidade do amor de Deus não é confortável. Não é uma linha plana de bênçãos sem dor. Ela é profunda, porque nos encontra no lugar onde mais sentimos nossa miséria e nos transforma ali mesmo, no fundo da carne, do medo e do desespero.
É um amor que não foge das feridas. Pelo contrário, Ele mergulha nelas, como um médico que entra no leito do doente, não apenas para aliviar a dor, mas para curar o coração e a alma.
Neste capítulo, percebemos ainda mais claramente que:
O amor de Deus sustenta na fraqueza
Ele não nos deixa na ilusão da força própria
Ele torna nossas limitações um palco para Sua glória
E assim, a profundidade do amor de Deus é mostrada nos espinhos, nas perseguições e nas dores, porque é na fraqueza humana que Sua graça se manifesta plenamente.
Paulo nos dá a chave de toda a teologia da profundidade:
“Por isso me gloriarei nas minhas fraquezas, para que habite em mim o poder de Cristo.”
— Segunda Epístola aos Coríntios 12:9
O amor de Deus não é superficial, nem confortável, nem apenas um toque gentil de bênçãos temporárias. Ele é profundo, porque desce até nossos espinhos, nossas fraquezas, nossos medos, nossas enfermidades e nossas lutas mais intensas. Ele nos segura, nos transforma e nos faz experimentar Sua glória mesmo nas horas em que sentimos que nada há de bom em nós mesmos.
Em 2 Coríntios 12, aprendemos que o amor de Deus nos abraça exatamente onde não queremos ser abraçados: na fraqueza, na vergonha, na dor. E é justamente ali que percebemos que esse amor é infinitamente profundo, incomparavelmente poderoso e eternamente fiel.
Paulo nos dá uma das mais intensas declarações de amor e busca de Cristo em Filipenses 3, e é aqui que percebemos uma dimensão da profundidade do amor de Deus não apenas nos sofrimentos ou na graça que nos salva do pecado, mas no desejo que Ele planta em nós de segui-Lo acima de tudo.
“Mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
— Epístola aos Filipenses 3:13–14
Observe: Paulo não fala de uma superficialidade cristã, de uma fé que se contenta com o mínimo ou com o conforto temporário. Ele descreve um impulso profundo, quase obsessivo, para alcançar Cristo, porque a experiência do amor de Deus em sua vida o arrastou para o alto, para o mais profundo do querer divino.
A profundidade do amor de Deus se revela aqui de forma paradoxal: quanto mais Paulo conhece o Senhor, mais percebe sua própria insuficiência. E ainda assim, não há desalento, mas motivação intensa. Ele chama a atenção para algo que todos os que experimentam a profundidade da graça sentem: quanto mais somos tocados pelo amor de Deus, mais somos desafiados a nos aproximar Dele e a deixar tudo que nos afasta.
Paulo continua:
“Quanto a mim, bem-aventurado se puder somente alcançar a Cristo, e ser encontrado nele, não tendo justiça própria, baseada na lei, mas aquela que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé.”
— Epístola aos Filipenses 3:9
O amor de Deus não se contenta em apenas nos salvar do pecado; Ele nos atrai para a união com Cristo de modo tão profundo que nossos próprios méritos desaparecem diante Dele. O abismo do amor divino é tamanha que nos afoga em humildade e nos eleva à glória.
Essa profundidade se manifesta também na certeza de que Cristo nos chama além da morte e da carne, no versículo seguinte:
“Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunhão dos seus sofrimentos, sendo conformado com ele na sua morte…”
— Epístola aos Filipenses 3:10
A profundidade do amor de Deus nos toca no mais íntimo da experiência humana: Ele nos leva a compartilhar os sofrimentos de Cristo, não para nos humilhar, mas para nos transformar e nos tornar semelhantes a Ele. O amor que nos chama para a glória começa por nos envolver naquilo que mais nos humilha, para que aprendamos a depender totalmente Dele.
Paulo então nos aponta o horizonte eterno:
“…para ver se de algum modo posso alcançar a ressurreição dentre os mortos.”
— Epístola aos Filipenses 3:11
A profundidade do amor de Deus não se limita a nos salvar aqui e agora; Ele nos atrai para a eternidade, nos chama a olhar além do temporal e do terreno, e nos coloca em uma trajetória de vida que vai tocar a eternidade da glória.
O que Filipenses 3 nos ensina sobre a profundidade do amor de Deus?
Ele nos encontra onde estamos mais imperfeitos
Ele nos atrai para além da superficialidade da fé humana
Ele nos chama a participar dos sofrimentos e da glória de Cristo
Ele nos coloca num caminho eterno, que atravessa dor, fraqueza e morte, e nos leva à ressurreição
A profundidade do amor de Deus é exatamente essa força irresistível que nos arrasta para mais perto Dele, mesmo quando nos sentimos fracos, indignos ou cansados. Ele não apenas nos salva do pecado; Ele nos transforma pelo poder de Sua presença e pelo desejo que coloca em nossos corações.
“Esquecendo-me do que fica para trás, avanço para o que está adiante.”
— Epístola aos Filipenses 3:13
O amor de Deus é profundo porque nos arranca do passado, nos atrai para o futuro e nos mantém em Cristo, mesmo quando tudo em nós quer nos afastar. Ele desce às profundezas de nossa fraqueza e, paradoxalmente, nos eleva às alturas da esperança e da glória eterna.
IV. O COMPRIMENTO DO AMOR DE DEUS
Um Amor Que Começa na Eternidade e Não Tem Fim
“Para que possais compreender… qual seja o comprimento… e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento.”
— Epístola aos Efésios 3:18–19
Entre todas as dimensões mencionadas pelo apóstolo, talvez nenhuma seja tão consoladora para a alma quanto o comprimento do amor de Deus.
A largura nos mostra que Deus salva pessoas de todos os tipos.
A altura nos mostra o quanto Cristo desceu da glória para nos alcançar.
A profundidade nos mostra que nenhum pecador está fundo demais para ser resgatado.
Mas o comprimento nos mostra algo ainda mais maravilhoso:
o amor de Deus não termina.
Ele não começa em um momento da sua vida e depois acaba quando você falha.
Ele não é um amor frágil, instável ou condicionado ao desempenho humano.
O amor de Deus se estende através do tempo inteiro.
Ele começa antes da criação do mundo
e continua até a eternidade futura.
O Amor Que Começa Antes de Você Existir
A Bíblia afirma algo que é quase impossível para a mente humana compreender:
“Com amor eterno eu te amei.”
— Livro de Jeremias 31:3
Note bem o que o texto diz.
Deus não diz: “comecei a te amar quando você creu.”
Nem diz: “comecei a te amar quando você melhorou sua vida.”
Ele diz:
“Eu te amei com amor eterno.”
Isso significa que o amor de Deus por seus filhos não começou no tempo.
Ele começou na eternidade passada.
Antes que existisse:
o universo
as estrelas
os oceanos
a história humana
Deus já havia decidido amar e redimir um povo.
“Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo.”
— Epístola aos Efésios 1:4
Antes que você respirasse pela primeira vez…
antes que você cometesse seu primeiro pecado…
antes mesmo que existisse um mundo onde você pudesse pecar…
Deus já havia determinado amar, salvar e preservar seu povo em Cristo.
Isso é o comprimento do amor de Deus olhando para trás.
Ele vem da eternidade passada.
O Amor Que Atravessa Toda a Sua Vida
Mas o comprimento do amor de Deus não se limita ao passado eterno.
Ele também atravessa toda a história da sua vida.
Se Deus apenas nos amasse antes da criação, mas abandonasse seus filhos quando pecam, esse amor seria curto.
Mas o amor de Deus é longo.
Extremamente longo.
Longo o suficiente para acompanhar o crente em todas as suas quedas, fraquezas e lutas.
Considere o que diz a Escritura:
“Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la.”
— Epístola aos Filipenses 1:6
Deus não começa algo que Ele não termina.
A salvação não é um projeto humano mantido por esforço espiritual.
Ela é uma obra divina sustentada pela fidelidade de Deus.
Isso significa que o amor de Deus não é interrompido pelos fracassos do crente.
Ele permanece.
Ele persiste.
Ele continua.
O Amor Que Resolveu o Problema do Pecado
A razão pela qual o amor de Deus pode durar tanto tempo é porque o problema do pecado já foi resolvido na cruz.
A cruz não pagou apenas alguns pecados.
Ela pagou todos.
“Com uma única oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados.”
— Epístola aos Hebreus 10:14
Observe a força da linguagem.
“Uma única oferta.”
“Para sempre.”
Isso significa que Cristo lidou com:
pecados passados
pecados presentes
pecados futuros
Se Cristo tivesse pago apenas pecados passados, nenhum cristão poderia permanecer salvo por mais de um dia.
Mas a cruz foi perfeita e completa.
A justiça de Deus foi plenamente satisfeita.
O pecado não tem mais poder para condenar aqueles que estão em Cristo.
Por isso Paulo declara com uma confiança quase desafiadora:
“Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?”
— Epístola aos Romanos 8:33
E ele continua:
“Quem nos separará do amor de Cristo?”
— Epístola aos Romanos 8:35
E então ele lista tudo o que poderia teoricamente separar um crente de Deus:
tribulação
perseguição
fome
perigo
espada
morte
vida
anjos
demônios
poderes espirituais
E depois de examinar tudo isso, Paulo conclui:
“Nada poderá nos separar do amor de Deus.”
— Epístola aos Romanos 8:38–39
Nada.
Porque o amor de Deus é longo demais para ser quebrado.
O Amor Que Continua na Eternidade Futura
Mas ainda não chegamos ao fim do comprimento do amor de Deus.
Porque esse amor não apenas começou na eternidade passada e atravessa a vida do crente.
Ele também continua na eternidade futura.
A salvação não termina quando o cristão morre.
Na verdade, ela apenas começa a ser plenamente experimentada.
A Bíblia descreve o destino final do povo de Deus como uma comunhão eterna com Ele.
“E assim estaremos para sempre com o Senhor.”
— Primeira Epístola aos Tessalonicenses 4:17
Não mil anos.
Não dez mil anos.
Para sempre.
O comprimento do amor de Deus atravessa a eternidade como uma linha infinita que nunca chega ao fim.
O Comprimento do Amor de Deus na Vida de John Bunyan
Poucos homens compreenderam essa verdade de maneira tão profunda quanto
John Bunyan.
Bunyan viveu no século XVII e enfrentou intensas lutas espirituais.
Durante anos, sua consciência estava atormentada por culpa.
Ele temia constantemente que Deus o tivesse rejeitado.
Ele pensava que seus pecados eram grandes demais.
Que suas falhas espirituais eram frequentes demais.
Que sua fé era fraca demais.
Em seu livro autobiográfico Grace Abounding to the Chief of Sinners, Bunyan descreve longos períodos de angústia espiritual.
Ele sentia que havia ido longe demais.
Que talvez tivesse cometido pecados que Deus não perdoaria.
Mas lentamente, através das Escrituras, Bunyan começou a entender algo extraordinário:
o amor de Deus é mais longo que o pecado humano.
Ele começou a perceber que a salvação não depende da estabilidade da fé humana, mas da fidelidade de Deus.
Essa descoberta mudou completamente sua vida.
Mais tarde, Bunyan escreveria uma das obras cristãs mais influentes da história:
O Peregrino.
Esse livro descreve a jornada de um homem chamado Cristão caminhando rumo à cidade celestial.
Durante a jornada, ele enfrenta:
tentações
medos
perseguições
dúvidas
Mas apesar de todas as dificuldades, ele continua caminhando.
Por quê?
Porque o amor de Deus o sustenta até o fim.
Um Amor Mais Longo Que Seus Pecados
Talvez alguém pense:
“Mas meus pecados são muitos.”
Sim, são.
“Minhas falhas são constantes.”
Sim, são.
“Minha fé às vezes parece fraca.”
Sim.
Mas o comprimento do amor de Deus não é medido pela força da sua fé, e sim pela perfeição da obra de Cristo.
Se a salvação dependesse da constância humana, ninguém permaneceria salvo por muito tempo.
Mas ela depende da fidelidade divina.
E Deus não muda.
O comprimento do amor de Deus é infinito.
Ele começa:
na eternidade passada
continua:
durante toda a vida do crente
e termina:
na eternidade futura
Ele é mais longo que:
o tempo
a história
o pecado
a morte
E quando todos os séculos da eternidade tiverem passado…
quando bilhões de anos tiverem desaparecido na eternidade…
o povo de Deus ainda estará dizendo a mesma coisa:
“Ele nos amou com amor eterno.”
Charles Spurgeon capturou essa verdade com palavras que parecem ecoar da própria eternidade. Em seu sermão Uma Defesa do Calvinismo, ele nos lembra que o amor de Deus não começou no tempo, mas antes de todos os séculos. Spurgeon diz: “Quando não havia asas angélicas, quando nada existia exceto Deus somente, mesmo naquele silêncio, na solidão da Deidade, as entranhas de Deus eram movidas por suas criaturas eleitas; seus nomes estavam gravados em seu coração.”
Que pensamento esmagador! Antes que houvesse mundos, antes que existisse luz, antes que qualquer criatura respirasse, o coração de Deus já estava inclinado para os seus. O amor que hoje nos sustenta não nasceu ontem; ele brotou na eternidade. O mesmo Deus que nos amou quando nada existia é o Deus que continuará nos amando quando o tempo deixar de existir. Eis o comprimento do amor de Deus: um amor que começa na eternidade passada e se estende, inquebrável, até a eternidade futura.
A mesma verdade ecoa no último verso do famoso hino Amazing Grace, escrito por John Newton, um homem que conheceu profundamente o poder redentor desse amor. No verso final ele escreve: “Quando estivermos lá há dez mil anos, brilhando como o sol, não teremos menos dias para cantar o louvor de Deus do que quando começamos.”
Que imagem gloriosa! Dez mil anos na eternidade, e ainda estaremos apenas começando. O amor de Deus não é um fogo que se apaga com o tempo; é uma chama eterna que nunca diminui. O mesmo amor que nos alcançou na miséria do pecado nos sustentará pelos séculos incontáveis da glória. Assim é o comprimento do amor de Deus: um amor que atravessa o tempo, vence a morte e nos levará a cantar para sempre.
CONCLUSÃO
O amor de Deus possui dimensões infinitas.
Largura
Ele alcança todos os tipos de pecadores.
Altura
Ele desceu da glória eterna até a cruz.
Profundidade
Ele salva até os pecadores mais miseráveis.
Comprimento
Ele dura da eternidade passada até a eternidade futura.
Você pode estudar teologia a vida inteira…
ler milhares de páginas…
meditar em cada versículo…
e ainda assim ficará diante da cruz perguntando:
“Como pode Deus amar pecadores assim?”
E a resposta é esta:
O amor revelado em Cristo é mais profundo que o pecado, mais alto que os céus, mais largo que o mundo e mais longo que a eternidade.