Por Yuri Schein
O casamento aconteceu no que restava do templo de Valeth, sob um teto parcialmente desabado e entre colunas que ainda cheiravam a fumaça.
Não houve luxo. Não houve dias de celebração. Houve necessidade, sangue antigo e a decisão de três pessoas que já haviam perdido demais para recusar o que as águas haviam mostrado. Raella vestia o que sobrara de um manto cerimonial de Lenória, rasgado nas bordas, mas ainda reconhecível. Gillian usava a armadura consertada de forma improvisada, o braço finalmente imobilizado de maneira decente, o olhar firme como se estivesse entrando em mais uma batalha. Ikarus permanecia entre as duas, a aura azul-dourada contida, mas impossível de ignorar.
A antiga conselheira de Oberon conduziu o rito com as palavras que ainda restavam das leis antigas. Primeiro a união com Raella — o sangue antigo de Lenória reconhecido em voz alta pela primeira vez em décadas. Depois, na mesma cerimônia, a união com Gillian. Não houve protestos entre os sobreviventes reunidos. Havia exaustão demais. Havia necessidade demais de qualquer estrutura que pudesse se erguer sobre as cinzas. Quando os votos terminaram, Raella era rainha. Ikarus era rei por direito de casamento. E Gillian, ligada a ambos por escolha e por profecia, carregava consigo o futuro que as águas haviam nomeado.
Nos meses seguintes, Lenória Imperial começou a se levantar.
Não foi milagre. Foi trabalho. Ikarus usava o domínio das águas para limpar as áreas contaminadas por residual necromântico e o residual de Ranur para organizar as linhas de defesa. Raella governava com a legitimidade do sangue antigo, reunindo o que restava de conselheiros, sacerdotes e capitães. Gillian assumia a organização militar direta, treinando os sobreviventes capazes de segurar uma arma e transformando barricadas improvisadas em muralhas provisórias. Thomas permaneceu o tempo suficiente para ver as primeiras torres serem reerguidas e os primeiros campos ao redor da cidade voltarem a ser cultivados sob proteção constante.
Mas o meio-dragão não ficou.
Uma noite, após uma reunião em que os mapas de Ad’Heim mostravam Aldora ainda marcada como território em disputa, Thomas anunciou a decisão.
— Rickson era de lá. Aldora. O deserto. A triarquia. A cidade dele está em guerra desde que os ataques começaram — e, pelo que os últimos mensageiros disseram, piorou. Facções se digladiam entre os mortos-vivos e o que restou das casas nobres. Eu vou.
Ikarus não tentou impedi-lo.
— Você volta?
— Se conseguir o que pretendo… volto como rei. Ou não volto.
Thomas partiu antes do amanhecer, sozinho, as asas cortando o céu na direção oeste. A jornada através das terras devastadas durou semanas. Ele evitou as estradas principais, voou sobre campos de batalha abandonados e sobrevilas que já não existiam. Quando finalmente alcançou as bordas do deserto de Aldora, a cidade de Thirssh ergue-se à sua frente como um espelho rachado do que Lenória havia sido: muralhas parcialmente destruídas, fumaça constante, e o som distante de combate.
Aldora estava dividida.
Três facções principais ainda lutavam pelo que restava do poder da antiga triarquia, enquanto hordas de mortos-vivos e criaturas sombrias atacavam todas elas sem distinção. Thomas não chegou como diplomata. Chegou como força. O meio-dragão que um dia fora rejeitado pelos próprios parentes agora descia sobre o deserto com montantes em mãos e fúria acumulada. Ele não escolheu lado de imediato. Primeiro quebrou o cerco necromântico que sufocava o oásis principal. Depois enfrentou os capitães das facções que tentaram usá-lo como arma. Um a um, os que se recusaram a se unir caíram ou se renderam.
A conquista não foi limpa.
Houve sangue. Houve traições. Houve noites em que Thomas voava sozinho sobre as dunas, as asas cortando o vento quente, perguntando-se se Rickson teria aprovado o caminho que ele escolhera. Mas, ao final de três meses de guerra interna e externa, as facções restantes se ajoelharam. O deserto reconheceu a força. E Thirssh, a cidade central de Aldora, ergueu um novo estandarte — não o das antigas casas, mas o de um meio-dragão que havia imposto ordem onde só existia fratura.
Thomas Walker foi proclamado Rei de Aldora sob o sol escaldante do deserto.
A notícia chegou a Lenória semanas depois, carregada por um mensageiro exausto que atravessara terras ainda hostis. Ikarus leu o pergaminho em silêncio, a aura azul-dourada pulsando uma única vez com algo que parecia aprovação. Raella, já consolidada como rainha, apenas assentiu. Gillian, com o braço finalmente curado e a mão firme na empunhadura da espada, permitiu-se um raro meio sorriso.
— Ele conseguiu.
— Conseguiu — confirmou Ikarus. — Aldora tem um rei. Lenória tem uma rainha… e um rei. E o que as águas mostraram… continua se cumprindo.
Longe dali, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi recebeu a mesma notícia através de um dos seus espelhos de osso. O sorriso discreto que habitualmente carregava não apareceu desta vez. Angarkor, ao lado dele, apenas observou em silêncio.
Duas coroas haviam se erguido das cinzas.
Um meio-dragão governava o deserto.
E a profecia que Kallon revelara — o filho que um dia nasceria de Gillian e se tornaria a queda do Necromante — ainda esperava, quieta, no futuro.
Mas o presente de Ad’Heim, pela primeira vez em muito tempo, começava a ter nomes capazes de se opor ao que vinha das profundezas.