terça-feira, 3 de novembro de 2026

ORKHUS: AQUELE QUE CARREGA O TEMPO

 


A lenda de Thimos e a tragédia de Morvahn, o Hunen do Tempo

“Há reinos que recebem seus nomes dos homens que os fundaram. Outros, dos deuses que os protegeram. Mas houve um reino que recebeu um segundo nome daquilo que jamais poderia vencer: o Tempo.”

Entre os doze reinos de Ad’Heim, poucos carregam uma história tão antiga e tão melancólica quanto Thimos.

Conhecido nos registros mais antigos como Orkhus, seu nome atravessou gerações, inscrições esquecidas e cânticos que sobreviveram à queda de reis. Para os estrangeiros, Orkhus era apenas uma denominação ancestral. Para os habitantes de Thimos, porém, era muito mais: um título, uma memória e uma ferida que jamais cicatrizou.

Pois Orkhus não designava somente a terra.

Também era o nome pelo qual os antigos se referiam a Morvahn, o Hunen do Tempo.

E, embora os escribas tenham preservado ambos os nomes em seus registros, poucos ousaram escrever sobre a razão pela qual passaram a ser pronunciados como se fossem um só.

O SENHOR QUE NÃO PODIA RETROCEDER

Antes que os homens erguessem muralhas, antes que os reis dividissem as terras e antes que os calendários recebessem seus primeiros números, Morvahn já existia.

Era o Hunen do Tempo.

Não era simplesmente aquele que observava os dias passarem, tampouco um senhor de relógios, estações ou ampulhetas. Sua existência estava ligada ao próprio curso das coisas: ao nascimento e à decadência, à juventude e à velhice, ao florescimento e à ruína.

Onde uma criança aprendia a caminhar, Morvahn estava presente.

Onde um guerreiro envelhecia sob o peso de suas batalhas, Morvahn também estava.

E onde um rei fechava os olhos pela última vez, ele permanecia.

Contudo, havia uma particularidade em sua natureza que os mortais jamais compreenderam inteiramente: Morvahn podia testemunhar a passagem de todas as coisas, mas não podia desfazer aquilo que o Tempo já havia consumado.

Ele conhecia o passado, acompanhava o presente e contemplava os caminhos do futuro. Mas conhecer um acontecimento não significava poder anulá-lo.

Essa era sua grandeza.

E também sua tragédia.

A PRIMEIRA LÁGRIMA DE ORKHUS

Conta uma antiga tradição thimiana que, em uma era tão distante que nem mesmo os anciãos concordavam sobre seu nome, Morvahn caminhou entre os primeiros habitantes daquelas terras.

Naquela época, os homens ainda não conheciam os grandes impérios. Viviam em pequenas comunidades, construíam suas primeiras casas e enterravam seus mortos sob árvores que, muito depois, seriam consideradas sagradas.

Morvahn contemplava aquela gente com uma atenção que nenhum outro Hunen demonstrava.

Ele via os filhos daqueles homens antes mesmo de nascerem. Conhecia os rostos que um dia seriam esquecidos, as mãos que ergueriam cidades e os olhos que contemplariam o último pôr do sol de suas vidas.

Mas, quanto mais observava os mortais, mais compreendia uma verdade terrível: tudo aquilo que amavam estava sujeito à passagem do Tempo.

As casas ruiriam.

Os nomes desapareceriam.

As promessas seriam esquecidas.

E mesmo os mais belos momentos terminariam.

Certa vez, segundo a lenda, uma mulher idosa teria se aproximado do Hunen enquanto ele contemplava o túmulo de uma criança.

Ela não pediu riquezas, não pediu juventude e tampouco implorou por uma vida mais longa.

Apenas perguntou:

— Se sabes quando todas as coisas terminarão, por que não as impedem de terminar?

Morvahn permaneceu em silêncio.

A mulher então colocou sobre a sepultura uma pequena flor e disse:

— Talvez o Tempo seja poderoso demais para compreender o valor de um instante.

Dizem que, naquele momento, Morvahn compreendeu algo que jamais havia considerado: para os mortais, o valor de uma existência não estava em sua duração, mas naquilo que nela havia sido vivido.

E, pela primeira vez, o Hunen desejou que um instante pudesse permanecer para sempre.

O NOME QUE SE TORNOU TÍTULO

Os séculos passaram, e as comunidades daquela região cresceram até se tornarem um reino.

Thimos foi erguido sobre terras antigas, onde os homens aprenderam a contar os anos, registrar as estações e transmitir aos filhos os nomes daqueles que vieram antes.

Mas os primeiros habitantes jamais esqueceram a presença de Morvahn.

Chamavam-no de Orkhus.

Não como quem atribui um nome a uma criatura, mas como quem reconhece uma condição que ultrapassa a própria compreensão.

Orkhus passou a significar, nos antigos cânticos, aquele que carrega o Tempo; aquele cuja existência atravessa as eras; aquele que permanece quando todas as coisas já passaram.

Assim, o nome tornou-se título.

E o título passou a designar tanto o Hunen quanto o reino que vivia sob sua associação.

Thimos era o nome da terra.

Morvahn era o nome do Hunen.

Orkhus era o nome que os unia na memória dos antigos.

A TRAGÉDIA DOS QUE QUERIAM PERMANECER

Entretanto, nem todos compreenderam a lição deixada pela antiga mulher.

Com o passar das eras, surgiram homens que desejaram possuir aquilo que julgavam ser o maior atributo de Morvahn: a permanência.

Reis passaram a temer a sucessão.

Guerreiros passaram a temer a velhice.

Magos passaram a procurar meios de conservar aquilo que, por natureza, deveria desaparecer.

E os sábios de Thimos começaram a discutir uma questão que se tornaria uma das maiores advertências da história do reino:

Se o Tempo conduz todas as coisas ao seu fim, seria possível existir sem estar submetido à sua passagem?

A resposta jamais foi encontrada pelos homens.

Mas a pergunta sobreviveu.

E, desde então, os habitantes de Thimos passaram a considerar a longevidade uma dádiva ambígua. Viver por muito tempo não significava necessariamente viver melhor. Permanecer não significava necessariamente vencer.

Pois o Tempo não precisava destruir uma cidade para condená-la.

Bastava permitir que seus habitantes esquecessem por que ela havia sido construída.

O CÂNTICO DE MORVAHN

Entre os fragmentos preservados nas antigas tradições de Thimos, existe uma composição atribuída aos primeiros rapsodos do reino. Sua autoria se perdeu, mas seus versos continuam sendo recitados em cerimônias fúnebres e nos juramentos dos antigos guardiões.

O Cântico daquele que permanece

Quando o primeiro sol nasceu, eu já caminhava.

Quando a última estrela se apagar, ainda ouvirei os passos dos homens.

Vi o ferro tornar-se coroa,

e a coroa tornar-se pó.

Vi muralhas erguerem-se contra o horizonte,

e o horizonte engolir suas sombras.

Vi amantes jurarem eternidade,

e a eternidade esquecer seus nomes.

Não sou aquele que impede a queda,

nem aquele que devolve o que partiu.

Sou o caminho entre o primeiro choro

e o silêncio que o sucede.

Os homens me chamam de Orkhus.

Os reis me chamam de destino.

Os mortos não me chamam por nome algum.

Pois quando tudo termina,

o Tempo não celebra a vitória.

Ele apenas continua.

O LEGADO DE ORKHUS

Até os dias atuais, Thimos preserva a antiga denominação de Orkhus em seus registros, tradições e cânticos.

Os dois nomes não representam reinos diferentes, tampouco entidades distintas.

Orkhus é o título ancestral pelo qual o reino e seu Hunen, Morvahn, são lembrados.

Essa relação constitui uma das particularidades mais singulares da tradição thimiana entre os doze reinos de Ad’Heim.

Enquanto outros territórios preservaram sobretudo os nomes de seus patronos primordiais, Thimos conservou uma denominação que expressa algo mais profundo: a inseparabilidade entre a terra, sua história e o domínio daquele que está associado ao Tempo.

E talvez seja por isso que os antigos de Thimos evitavam pronunciar Orkhus como uma simples palavra.

Pois, para eles, pronunciar aquele nome era recordar que nenhuma glória é eterna, nenhum império permanece intacto e nenhuma criatura, por poderosa que seja, pode reivindicar para si o domínio absoluto sobre os dias.

Morvahn permanece.

Thimos permanece.

Mas tudo aquilo que vive sob seus céus atravessa o Tempo.

E o Tempo, como sempre, não espera por ninguém.

“Os homens constroem monumentos para desafiar o esquecimento. Orkhus não precisa de monumentos. Ele é aquilo que resta quando até mesmo as pedras esquecem quem as colocou."

Dorimesh, também chamada Dhephor

No coração de Thimos erguia-se uma cidade conhecida por dois nomes: Dorimesh e Dhephor. Embora alguns relatos antigos os apresentassem como lugares distintos, ambos designavam a mesma cidade, construída sob a sombra da memória de Orkhus. A diferença permanecia nas palavras dos povos, nas tradições dos escribas e nos registros preservados ao longo das eras, mas nunca na terra que seus habitantes pisavam. Para os mais antigos, Dorimesh era o nome que carregava a solenidade dos primeiros reis; para outros, Dhephor era a forma pela qual a cidade havia atravessado os séculos. Os dois nomes eram legítimos, pois ambos pertenciam ao mesmo lugar. E assim como Orkhus e Morvahn permaneciam ligados à identidade de Thimos, também Dorimesh e Dhephor eram duas vozes pronunciando a memória de uma única cidade.

— Fragmento atribuído aos antigos Rapsodos de Thimos.

domingo, 1 de novembro de 2026

QUANDO O GUARDIÃO FALA ATRAVÉS DA CRIATURA

 


Ranur, o Grifo e a união entre os Cavaleiros Guardiões e suas manifestações


Nem sempre um Cavaleiro Guardião precisa apresentar-se diante dos homens em sua própria forma para ser reconhecido. Em determinadas circunstâncias, sua presença pode manifestar-se por meio da criatura à qual está ligado.


Em Ad’Heim: A Floresta que Não Dormia, há um momento particularmente interessante envolvendo Andrew Stormheart, Tiff Littlefoot e Siren Deadblood: o encontro dos três com o Grifo.


Durante a cena, os personagens conversam com a criatura como se estivessem diante do próprio Ranur, o antigo Cavaleiro Guardião de Lenória. Essa passagem pode provocar uma dúvida legítima no leitor: afinal, aquele Grifo era Ranur? Ou o Guardião estava apenas se comunicando por meio dele?


A resposta envolve uma característica importante dos Cavaleiros Guardiões.


1. O Grifo não é Ranur, mas pode ser sua manifestação


Como explicado na mitologia dos Doze Hunens, Ranur é o Cavaleiro Guardião de Lenória. O Grifo é a criatura sobrenatural associada a ele.


São duas identidades distintas, mas profundamente conectadas.


Os Guardiões possuem a capacidade de invocar suas criaturas ou unir-se a elas, assumindo suas formas. Portanto, quando alguém encontra o Grifo de Lenória, não está necessariamente diante de uma criatura independente de seu Guardião.


Em determinadas situações, o que parece ser apenas a presença da criatura pode representar também a presença do próprio Ranur.


É justamente essa particularidade que ajuda a compreender o encontro de Andrew, Tiff e Siren.


2. A união entre Ranur e o Grifo


Uma possibilidade para interpretar aquela cena é que Ranur estivesse unido ao Grifo, manifestando-se por meio da forma da criatura.


Nesse estado, não seria necessário que o Guardião aparecesse separadamente em sua forma humanoide. Sua presença estaria integrada à manifestação do Grifo.


Assim, quando Andrew, Tiff e Siren conversam com a criatura, podem estar, na realidade, conversando com Ranur em sua forma unida ao Grifo.


Não se trata de uma simples imitação de voz ou de uma criatura repetindo palavras recebidas. É uma manifestação da própria consciência e identidade do Guardião por meio de sua união sobrenatural.


3. A comunicação telepática


Existe também outra possibilidade: Ranur poderia estar se comunicando telepaticamente através do Grifo.


Nesse caso, o Guardião não precisaria estar necessariamente fundido à criatura. O Grifo permaneceria como uma manifestação independente, enquanto Ranur utilizaria a ligação entre ambos para transmitir sua voz, seus pensamentos ou suas palavras.


A criatura seria, então, o meio pelo qual o Guardião se comunica com aqueles que estão diante dela.


As duas possibilidades são compatíveis com as capacidades dos Cavaleiros Guardiões: a união entre o protetor e sua criatura ou a comunicação através da ligação sobrenatural que os conecta.


O importante é compreender que a conversa com o Grifo não precisa ser interpretada como uma conversa com um animal comum.


4. Uma característica compartilhada pelos Guardiões


Essa capacidade não é exclusiva de Ranur.


Os Cavaleiros Guardiões possuem uma ligação extraordinária com suas respectivas criaturas. A possibilidade de invocá-las, unir-se a elas ou manifestar sua presença por meio delas faz parte da natureza dessa relação.


Portanto, o que acontece com Ranur e o Grifo pode ocorrer também com os demais Guardiões e suas manifestações.


Um encontro com o Pégaso de Valeth, a Fênix de Sefrion ou o Cérbero de Arteph, por exemplo, não deve ser interpretado automaticamente como um encontro com uma criatura completamente separada da vontade de seu Guardião.


Dependendo das circunstâncias, o protetor pode estar presente naquela manifestação, seja por meio da união ou da comunicação sobrenatural.


Isso confere aos Guardiões uma forma de presença que ultrapassa sua aparência física habitual.


5. O que realmente aconteceu em A Floresta que Não Dormia?


Na cena em que Andrew, Tiff e Siren encontram o Grifo, a interpretação deve considerar justamente essa característica dos Guardiões.


O leitor não precisa imaginar que Ranur tenha abandonado sua identidade ou que o Grifo seja simplesmente outro nome para ele.


Ranur continua sendo Ranur. O Grifo continua sendo a criatura associada a Lenória.


Entretanto, ambos podem manifestar-se de maneira tão integrada que, para aqueles que os encontram, conversar com o Grifo pode significar conversar diretamente com o Cavaleiro Guardião.


Se Ranur estava unido ao Grifo ou se estava utilizando a criatura como meio de comunicação telepática, ambas são explicações possíveis para a cena. O ponto central é que a ligação entre os dois permite que a presença e a vontade do Guardião sejam expressas através de sua criatura.


Essa é mais uma das particularidades que tornam os Cavaleiros Guardiões diferentes de qualquer outro guerreiro de Ad’Heim.


Em Ad’Heim, nem sempre é necessário encontrar o Guardião para estar diante dele. Às vezes, basta encontrar a criatura que carrega sua presença.

OS DOZE HUNENS E SEUS GUARDIÕES

OS DOZE HUNENS E SEUS GUARDIÕES

As entidades primordiais, os Cavaleiros Guardiões e as manifestações de seus poderes

Antes dos reinos, antes das fronteiras e antes das coroas que governariam os povos de Ad’Heim, existiam forças cuja natureza ultrapassava a compreensão dos homens. Os antigos as conheciam como Hunens. Seus nomes atravessaram as eras, permaneceram inscritos na memória dos povos e, de diferentes maneiras, deram origem às denominações dos territórios que conhecemos.

Na mitologia de Ad’Heim, os Doze Hunens ocupam um lugar fundamental. Entretanto, compreender sua importância exige distinguir três elementos que, embora profundamente relacionados, não são a mesma coisa: os Hunens, os Cavaleiros Guardiões e as criaturas que estes podem invocar ou assumir por meio de uma união sobrenatural.

Essa distinção é essencial para compreender a estrutura de poder, a história e a cosmologia dos antigos reinos.

1. Os Doze Hunens: as entidades primordiais

Os Hunens são entidades primordiais associadas aos grandes domínios da existência e às forças que compõem a ordem de Ad’Heim. Cada um está relacionado a um princípio fundamental, cuja influência se estende para além das fronteiras políticas dos reinos.

Não são simplesmente reis, guerreiros ou criaturas lendárias. Tampouco devem ser confundidos com os Cavaleiros Guardiões que protegem seus respectivos territórios. Os Hunens representam forças muito mais antigas e abrangentes, cuja influência permanece presente na natureza e na história do mundo.

São doze entidades, cada uma associada a um domínio:

1. Lenoria — Guerra.
2. Aldora — Deserto e Disciplina.
3. Sefrion — Magia.
4. Kallon — Mar.
5. Baltamus — Inteligência e Criação.
6. Valeth — Coragem.
7. Kassandra — Floresta e Crescimento.
8. Rhaegor — Céus.
9. Damaris — Terra.
10. Elyndra — Vida.
11. Morvahn — Tempo.
12. Arteph — Morte.

Cada Hunen possui uma identidade própria e está associado a uma dimensão particular da existência. Seus domínios não são apenas títulos simbólicos: representam os princípios que caracterizam sua presença e sua ligação com o mundo.

2. Os nomes dos Hunens e os nomes dos territórios

Uma particularidade importante da história de Ad’Heim é que os Hunens nem sempre são mencionados exclusivamente por seus nomes primordiais. Ao longo das eras, seus nomes passaram a se confundir com os dos territórios associados a eles.

Por essa razão, é bastante comum que um Hunen seja chamado pelo nome de seu próprio reino. Essa prática faz parte da tradição linguística e cultural dos povos de Ad’Heim.

Um exemplo particularmente frequente ocorre em Setra: a Hunen Elyndra pode ser chamada simplesmente de Setra. Dependendo do contexto, portanto, a palavra pode designar tanto o território quanto a própria entidade primordial.

Isso não significa que a Hunen e o reino sejam a mesma coisa. Trata-se de uma associação histórica e cultural, na qual o nome do território também passou a identificar a entidade ligada à sua essência.

O mesmo princípio se aplica a outras regiões. Alguns nomes conservaram sua forma original, enquanto outros sofreram alterações linguísticas e fonéticas ao longo dos séculos.

As correspondências são as seguintes:

- Lenoria — Lenória
- Aldora — Aldora
- Sefrion — Sefrion
- Kallon — Kallon
- Baltamus — Baltamus
- Valeth — Valeth
- Kassandra — Khsandra
- Rhaegor — Gallen
- Damaris — Irdos
- Elyndra — Setra
- Morvahn — Thimos
- Arteph — Arteph

Assim, quando uma narrativa menciona Gallen, por exemplo, é necessário observar o contexto para compreender se a referência é ao território ou à Hunen Rhaegor. Da mesma maneira, Setra pode designar o reino ou Elyndra.

Os nomes dos territórios não são, portanto, meras referências geográficas. Muitos preservam a memória das entidades primordiais às quais estão ligados.

3. Os Cavaleiros Guardiões: os protetores dos reinos

Se os Hunens representam as forças primordiais, os Cavaleiros Guardiões são os protetores associados a essas antigas entidades e aos territórios que carregam seu legado.

Cada Guardião possui identidade, vontade, história e individualidade próprias. Não é uma extensão indistinguível do Hunen, tampouco é a criatura sobrenatural associada ao seu poder.

O Guardião é uma figura independente, cuja função está ligada à proteção do reino e à preservação de sua essência.

É importante compreender que o Hunen e o Guardião não são a mesma pessoa ou entidade.

Um exemplo é Ranur, o Cavaleiro Guardião de Lenória. Ranur não é o Grifo. Ele é o protetor de Lenória, associado à criatura que representa seu domínio. O Grifo é uma manifestação sobrenatural ligada ao seu poder, e não sua identidade original.

Essa distinção vale para todos os Cavaleiros Guardiões.

Eles não são animais lendários que receberam nomes humanos, nem criaturas que simplesmente assumiram aparência de guerreiros. São indivíduos próprios, ligados a forças extraordinárias que podem manifestar de maneiras que ultrapassam as capacidades dos homens comuns.

4. As criaturas associadas aos Doze Guardiões

Cada Cavaleiro Guardião possui uma criatura sobrenatural associada ao seu domínio e à sua função. Essas criaturas representam manifestações extraordinárias das forças ligadas aos respectivos Hunens.

Elas não devem ser confundidas com os próprios Hunens. São manifestações associadas aos Guardiões, que podem ser convocadas ou assumidas por eles.

As principais associações são:

Lenória — Grifo: criatura majestosa e poderosa, símbolo da força guerreira e da natureza combativa de Lenória.

Aldora — Dragão: associado ao deserto e à disciplina, representa uma força ancestral de grande poder.

Sefrion — Fênix: manifestação da magia, ligada à natureza extraordinária e à força arcana desse território.

Kallon — Serpente Marinha: uma criatura colossal das profundezas, símbolo do domínio sobre os mares.

Baltamus — Golem: manifestação da inteligência e da criação, uma criatura de enorme força e natureza singular.

Valeth — Pégaso: associado à coragem, representa a nobreza e a força que caracterizam esse domínio.

Khsandra — Árvore Ancestral: ligada à floresta e ao crescimento, manifesta a força das raízes, da natureza e da expansão da vida vegetal. Sua manifestação não deve ser reduzida à figura de um animal.

Gallen — Roc: criatura colossal dos céus, associada aos ventos, às tempestades e à vastidão do firmamento.

Irdos — Titã de Pedra: manifestação do domínio da terra, das montanhas e das profundezas.

Setra — Cervo Branco: criatura associada à vida, à cura e à preservação da existência.

Thimos — Dragão Chronarch: ligado ao tempo, às eras, às memórias e aos ciclos da existência.

Arteph — Cérbero: o cão de três cabeças associado à morte e ao mundo dos mortos.

Cada criatura expressa, de alguma maneira, o domínio associado ao seu Hunen. São manifestações que tornam visível uma ligação muito mais profunda entre os Guardiões e as forças primordiais que representam.

5. Invocar ou unir-se à criatura

Uma das características mais extraordinárias dos Cavaleiros Guardiões é que sua relação com essas criaturas não se limita à capacidade de convocá-las.

Todos os Guardiões podem invocar sua criatura associada ou unir-se a ela, assumindo sua forma.

Essa capacidade apresenta duas formas distintas de manifestação.

A invocação

O Guardião pode chamar sua criatura, fazendo com que ela se manifeste como uma entidade própria.

Nesse caso, o protetor e a criatura podem atuar simultaneamente. O Guardião permanece em sua forma original, enquanto a criatura se manifesta ao seu lado, podendo lutar e agir independentemente.

Não se trata de convocar um animal comum, mas de manifestar uma criatura sobrenatural ligada ao poder e ao legado daquele Guardião.

A união

Além de invocar a criatura, o Guardião também pode unir-se a ela, assumindo sua forma.

Nesse processo, o protetor manifesta em si mesmo a forma da criatura associada ao seu domínio. Não se trata simplesmente de montar ou controlar um animal, mas de uma união sobrenatural que permite ao Guardião expressar diretamente aquela manifestação.

Assim, Ranur pode invocar o Grifo ou unir-se a ele, assumindo sua forma. O mesmo princípio se aplica aos demais Cavaleiros Guardiões e às respectivas criaturas.

Essa capacidade é uma das características que distinguem os Guardiões dos guerreiros comuns de Ad’Heim. Sua ligação com essas criaturas não é meramente simbólica: ela pode se manifestar de maneira concreta, tanto pela invocação quanto pela união.

6. Três elementos distintos, unidos por um mesmo legado

Para compreender corretamente a estrutura dos Doze Hunens, é necessário preservar a distinção entre os três elementos fundamentais:

O HUNEN: é a entidade primordial, associada a um domínio da existência e à essência de determinado território. Sua influência está ligada às forças fundamentais que caracterizam aquele domínio.

O CAVALEIRO GUARDIÃO: é o protetor associado ao Hunen e ao reino correspondente. Possui identidade própria e uma ligação extraordinária com o legado daquela entidade.

A CRIATURA: é a manifestação sobrenatural associada ao Guardião. Pode ser invocada como uma entidade própria ou assumida pelo protetor por meio da união.

Portanto, o Hunen não é o Guardião. O Guardião não é a criatura. E a criatura não substitui o Hunen.

Embora estejam profundamente relacionados, cada um possui sua própria natureza e sua função dentro da cosmologia de Ad’Heim.

Também é importante lembrar que os nomes dos Hunens podem variar conforme a tradição e o contexto. Uma entidade pode ser mencionada pelo nome primordial ou pelo nome de seu território, sem que isso signifique a existência de duas entidades diferentes.

7. O legado dos Doze

Os Doze Hunens representam mais do que antigas entidades associadas a territórios. Seus domínios atravessam a história, a cultura e a própria estrutura do mundo conhecido.

Os Cavaleiros Guardiões, por sua vez, são os protetores desse legado. Sua existência está ligada à preservação dos reinos e à manifestação de poderes que ultrapassam as capacidades dos homens comuns.

Suas criaturas são expressões extraordinárias dessa ligação: forças que podem surgir ao chamado de seus protetores ou tornar-se uma extensão de seus próprios corpos.

É dessa relação entre o primordial, o protetor e a manifestação que nasce uma das estruturas mais importantes da mitologia de Ad’Heim.

Doze Hunens. Doze Guardiões. Doze manifestações. Três elementos distintos, unidos por um legado muito mais antigo do que os próprios reinos.

Em Ad’Heim, conhecer os nomes não é suficiente. É preciso compreender aquilo que cada nome representa.

domingo, 18 de outubro de 2026

A Corda no Pescoço do Naturalista



Por Yuri Schein 

Há uma mentira que ainda circula com ares de sofisticação intelectual: a ideia de que o naturalista “apenas segue as evidências”, enquanto o cristão “vive de fé”.

Mentira grosseira.

Não existe evidência bruta.  

Não existe fato que se interprete sozinho.  

Não existe observador neutro pairando acima da realidade.

Todo homem chega aos dados já armado com um pressuposto último. E o naturalista, quando tenta usar o empirismo como arma contra a revelação, acaba se enforcando com a própria corda.

Popper já entregou o jogo

Karl Popper, que muitos naturalistas ainda citam com respeito, classificou a teoria da evolução não como ciência empírica rigorosa, mas como um programa de pesquisa metafísico. Ele viu o óbvio que a maioria prefere ignorar: ninguém estava lá quando o universo começou. Ninguém testemunhou a origem da vida. Ninguém observou informação complexa e especificada surgir do acaso + tempo + leis naturais.

Tudo o que resta é comparação de explicações. E comparação de explicações já é metafísica. Já é fé. Já é pressuposto.

O naturalista finge que está apenas “lendo os dados”. Na verdade ele está impondo uma religião secular:  

“Só causas naturais são permitidas.”  

“Não pode haver Criador.”  

“A aparência de design deve ser ilusão.”

Isso não é ciência. É dogmatismo disfarçado de laboratório.

 O mesmo padrão que ele aceita… e depois rejeita

Vamos usar a própria lógica do empirista contra ele.

Ele olha para uma formação rochosa e declara: “Essa aparência indica milhões de anos.”  

Muito bem. Então por que a hipótese de que a Terra foi criada com aparência de idade é descartada antes mesmo de ser considerada? Empiricamente as duas hipóteses são indistinguíveis. Você não filmou o processo. Você não estava lá. Você está interpretando. E a interpretação que você escolheu já pressupõe o naturalismo que você deveria provar.

Outro exemplo clássico de hipocrisia metodológica:

Você aceita a existência histórica de Sócrates com base em um punhado de manuscritos tardios.  

Aceita Júlio César com ainda menos.  

Aceita Homero com algumas centenas.

Mas quando chega ao Novo Testamento, com milhares de manuscritos gregos, muitos deles muito mais próximos dos originais do que qualquer clássico pagão, o critério muda magicamente. Agora “não é suficiente”. Agora “precisamos de mais evidências”. Agora “milagres são impossíveis a priori”.

Por quê?  

Não porque os dados sejam piores. Os dados são melhores.  

Porque o pressuposto naturalista não tolera a ressurreição.  

O problema nunca foi a quantidade de manuscritos. O problema é o coração rebelde.

A maquinaria molecular e a traição do empirismo

Em toda a experiência humana documentada, informação complexa e especificada só foi observada vindo de inteligência.  

Código. Linguagem. Software. Livros. Programas de computador.

Quando o naturalista encontra exatamente a mesma coisa no DNA, um código digital de precisão absurda, ele simplesmente muda as regras do jogo:  

“Aqui foi o tempo + o acaso + as leis naturais.”

Isso não é empirismo. Isso é traição deliberada do próprio empirismo.  

É escolher o resultado antes de olhar os dados.  

É proteger o naturalismo a qualquer custo, mesmo que isso signifique abandonar o método que ele mesmo jura defender.

E as leis naturais? Elas começaram a existir junto com o universo. Em toda a nossa experiência, lei exige legislador. Ordem exige Ordenador. Racionalidade não surge da irracionalidade. O naturalista, porém, precisa de tudo isso sem o fundamento que o torna possível. Ele vive de capital roubado.

O colapso inevitável de toda cosmovisão autônoma

O empirismo, levado às últimas consequências, não prova a evolução.  

Também não prova a criação.  

Ele simplesmente não prova nada de definitivo sobre as origens, porque as origens estão fora do alcance da observação direta.

O que decide a questão nunca foi “mais evidência”.  

Foi sempre o pressuposto último.

O naturalismo destrói a racionalidade (pensamento = mera química cerebral determinada).  

Destrói a moralidade objetiva (tudo se reduz a preferência ou sobrevivência).  

Destrói a uniformidade da natureza (não há razão para confiar que o futuro se parecerá com o passado).  

Destrói a própria possibilidade de ciência.

A revelação bíblica, ao contrário, fundamenta a lógica, a moral, a racionalidade e a inteligibilidade do cosmos. Porque o Deus que fala é o mesmo Deus que criou e sustenta todas as coisas pela palavra do Seu poder.

Quando o naturalista usa lógica, ciência e moralidade para atacar a Bíblia, ele está usando ferramentas que só existem porque o Deus da Bíblia existe. Ele é um ladrão intelectual que arromba a casa, rouba a prata e depois nega que a casa tenha dono.

Conclusão

Pare de fingir que o debate é sobre “evidências versus fé”.  

O debate sempre foi, e sempre será, sobre qual fé.

O naturalista tem a sua: a fé cega de que a matéria sem propósito produziu mente, moral, lógica e informação.  

Nós temos a nossa: a revelação do Deus que é a Verdade eterna, a Lógica personificada e o Criador de tudo o que existe.

E só uma dessas cosmovisões não se autodestrói quando levada às últimas consequências.

O empirismo não prova nada.  

Ele apenas revela os pressupostos de quem o empunha, e, no caso do naturalista, revela que ele já está com a corda no pescoço.

Soli Deo Gloria.

sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Finale

 A tempestade terminou antes do amanhecer.


Quando os primeiros raios de sol atravessaram as nuvens sobre Baltamus, ninguém sabia exatamente como a guerra havia terminado.


Os mortos-vivos haviam parado.


Não porque alguém os tivesse derrotado em batalha.


Eles simplesmente pararam.


Sem o Necromante, não havia mais voz comandando as hordas.


Nas muralhas, soldados dos doze reinos observavam o exército inimigo permanecer imóvel. Alguns mortos simplesmente caíram. Outros permaneceram de pé, imóveis, como estátuas abandonadas.


Então alguém gritou:


— VENCEMOS!


Outro respondeu.


E outro.


Até que o grito percorreu todo o campo de batalha.


— VENCEMOS!


Os soldados se abraçaram.


Homens que haviam chegado ali acreditando que morreriam naquela noite choravam.


Elfos erguiam seus arcos.


Anões batiam seus machados contra os escudos.


Os estandartes dos doze reinos foram levantados juntos sobre as muralhas de Baltamus.


Mas, dentro do palácio, Ikarus não comemorava.


Ele estava sentado diante de uma janela.


Seus filhos estavam ao seu lado.


Eiran havia crescido naquela noite.


Não em idade.


Mas em tudo aquilo que uma pessoa aprende quando percebe que o próprio pai quase morreu diante de seus olhos.


Lyra segurava a mão de Ikarus.


— Pai?


Ikarus olhou para ela.


— Sim?


— Acabou?


Ikarus observou a cidade.


Depois os exércitos.


Depois os doze estandartes.


— Esta guerra acabou.


Lyra sorriu.


— Então podemos voltar para casa?


Ikarus sorriu.


— Podemos.


E pela primeira vez em muitos anos, Ikarus não tinha uma missão.


Não havia fragmento para procurar.


Não havia Guardião para enfrentar.


Não havia reino para atravessar.


Não havia inimigo esperando no fim da estrada.


Havia apenas casa.


---


A festa começou três dias depois.


Não foi uma comemoração pequena.


Durante semanas, os povos dos doze reinos celebraram.


Música tomou as cidades.


As tavernas ficaram cheias.


As praças foram iluminadas.


As bandeiras dos antigos Guardiões foram colocadas lado a lado.


Na grande praça de Baltamus, ergueram-se doze estátuas.


Lenória.


Sefrion.


Setra.


Gallen.


Valeth.


Kallon.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Aldora.


E, diante delas, havia uma décima terceira estátua.


Ikarus.


Ele não gostou.


— Eu não quero isso.


Eiran riu.


— Tarde demais.


Ikarus olhou para a estátua.


— Está muito bonita.


Lyra respondeu:


— Está parecida com você.


Ikarus estreitou os olhos.


— Eu sou mais bonito.


Lyra começou a rir.


Eiran também.


Ikarus olhou para os dois.


Durante alguns segundos, não disse nada.


Então os abraçou.


Naquela noite, ele finalmente entendeu algo que havia levado a vida inteira para aprender.


Ele não precisava mais correr.


---


Os anos passaram.


Eiran cresceu.


Tornou-se um guerreiro.


Não porque seu pai tivesse ordenado.


Porque escolheu.


Lyra cresceu também.


E aquilo que havia despertado nela naquela noite jamais foi completamente compreendido.


Ela estudou os registros dos antigos Hunens.


Aprendeu línguas esquecidas.


Estudou magia.


História.


Os fragmentos.


E, principalmente, aquilo que havia acontecido antes da Guerra dos Duzentos Anos.


Ikarus nunca lhe contou tudo.


Talvez porque ele próprio ainda não soubesse.


Talvez porque algumas respostas fossem perigosas demais.


Os anos transformaram os três.


Eiran tornou-se um homem.


Lyra tornou-se uma mulher.


E Ikarus...


começou a envelhecer.


Seu corpo havia sobrevivido àquilo que nenhum homem deveria ter sobrevivido.


O poder dos doze fragmentos havia cobrado seu preço.


Os antigos Guardiões haviam colocado suas forças dentro dele.


E Ikarus havia usado tudo.


Na batalha de Baltamus, ultrapassara várias vezes os limites do próprio corpo.


Os médicos diziam que seu coração estava cansado.


Os magos diziam que sua energia vital havia sido consumida.


Ikarus simplesmente dizia:


— Eu já tive mais tempo do que merecia.


---


Vinte anos depois da queda do Necromante, Baltamus estava diferente.


As muralhas haviam sido reconstruídas.


As cidades haviam prosperado.


Os doze reinos mantinham alianças que pareciam impossíveis antes da guerra.


A história de Ikarus havia se tornado uma lenda.


As crianças aprendiam seu nome.


Os bardos cantavam suas batalhas.


Alguns exageravam.


Outros inventavam.


E Ikarus odiava todos eles.


— Eu nunca fiz isso.


Eiran ria.


— Deixe as pessoas contarem histórias.


— Mas eu não atravessei um dragão com uma mão.


Lyra respondeu:


— Agora você atravessaria.


Ikarus olhou para ela.


— Não zombem de um velho.


Era a primeira vez que ele aceitava a palavra.


Velho.


Naquela noite, os três estavam juntos em uma pequena casa afastada da cidade.


Não havia exército.


Não havia trono.


Não havia armadura.


Apenas uma mesa.


Três pessoas.


E uma velha espada encostada na parede.


Ikarus olhou para os filhos.


— Vocês cresceram rápido demais.


Eiran sorriu.


— Você demorou muito para perceber.


Ikarus riu.


Depois ficou em silêncio.


Olhou pela janela.


O céu estava limpo.


Duas luas brilhavam sobre Baltamus.


Por alguns segundos, ele parecia procurar alguma coisa entre as estrelas.


Lyra percebeu.


— O que foi?


— Nada.


Ele sorriu.


— Só estava lembrando.


— De quê?


Ikarus pensou.


De Gillian.


De Raella.


Dos Guardiões.


De Thomas.


Dos fragmentos.


Da primeira vez que segurou uma espada.


Da última vez que viu Angarkor.


De tudo.


— De uma estrada.


Lyra segurou sua mão.


— Você ainda quer viajar?


Ikarus sorriu.


— Talvez.


Foi a última palavra que disse naquela noite.


Na manhã seguinte, Eiran encontrou o pai sentado diante da janela.


Imóvel.


Tranquilo.


Como se estivesse apenas dormindo.


Mas Ikarus havia partido.


Sem batalha.


Sem inimigo.


Sem sangue.


Sem gritos.


Depois de uma vida inteira lutando para voltar para casa...


ele morreu em casa.


---


Seu funeral aconteceu em Lenória.


Milhares foram até lá.


Os doze reinos enviaram seus representantes.


As bandeiras dos antigos Guardiões foram colocadas sobre seu túmulo.


Eiran permaneceu diante da sepultura durante muito tempo.


Lyra estava ao lado dele.


Nenhum dos dois chorava.


Até que Eiran finalmente colocou a espada do pai sobre a lápide.


— Você voltou.


Lyra fechou os olhos.


— Finalmente.


O vento passou entre as árvores.


E, naquele instante, uma pequena luz surgiu no céu.


Lyra abriu os olhos.


— Eiran...


Ele olhou.


Por apenas um segundo, alguma coisa atravessou as nuvens.


Uma estrela.


Não.


Uma coisa que parecia uma estrela.


E desapareceu.


---


Cinquenta anos se passaram.


Ad’Heim mudou novamente.


Os nomes de Ikarus e dos doze Guardiões haviam se tornado lendas.


Novos reis governavam os antigos reinos.


Novas cidades haviam surgido.


Novas gerações nasceram sem conhecer a guerra que havia quase destruído o mundo.


Mas algumas histórias nunca morreram.


Nos arquivos de Lenória, Lyra, agora uma anciã, estudava um antigo manuscrito.


Era um dos registros recuperados do palácio do Necromante.


Ela passou os dedos pela página.


Havia apenas uma frase.


“Quando Ragnarok retornar ao Limbo, os três desertores não serão mais três.”


Lyra franziu a testa.


Virou a página.


Nada.


Outra.


Nada.


Até encontrar um desenho.


Um símbolo que ela jamais havia visto.


O mesmo símbolo que aparecera naquela noite em Baltamus.


Ela ficou imóvel.


Então ouviu passos.


Um jovem entrou na biblioteca.


— Senhora Lyra?


Ela fechou o livro.


— Sim?


— Encontramos algo nas ruínas ao norte.


— O quê?


O jovem colocou um pequeno objeto sobre a mesa.


Um fragmento de metal negro.


Lyra tocou nele.


A sala inteira estremeceu.


As velas se apagaram.


E uma voz muito distante pareceu sussurrar através das paredes:


— Ikarus...


Lyra abriu os olhos.


O jovem recuou.


— O que foi isso?


Lyra olhou para o fragmento.


E sorriu.


Não era um sorriso de felicidade.


Era o sorriso de alguém que acabara de descobrir que uma história que julgava encerrada...


nunca havia realmente terminado.


Muito longe dali, além das fronteiras conhecidas de Ad’Heim, alguma coisa abriu os olhos.


No Limbo dos Hunens.


E, pela primeira vez em cinquenta anos, duas palavras ecoaram naquele lugar:


— Ele voltou.


A história de Ikarus havia terminado.


Mas a história de Ad’Heim...


não.


FIM DA PRIMEIRA SAGA.

Ad'Heim: Vazio

 O salão inteiro parecia desabar.


Neutro e Ordekh avançavam juntos.


Angarkor estava ferido, mas ainda permanecia de pé.


Os três se encaravam entre as colunas quebradas, enquanto a tempestade rugia do lado de fora.


Neutro foi o primeiro.


— RAGNAROK!


Ele avançou com toda a força.


Angarkor desviou da primeira lâmina, girou o corpo e cravou uma das katares contra o peito de Neutro.


O golpe foi tão rápido que Neutro sequer conseguiu reagir.


Ordekh gritou:


— NEUTRO!


Neutro cambaleou.


Angarkor retirou a katar.


— Você ainda é lento.


Ordekh atacou.


As duas armas se chocaram.


Uma.


Duas.


Três vezes.


Ordekh conseguiu atingir Angarkor no ombro.


Sangue escorreu.


Angarkor olhou para o ferimento.


Depois para Ordekh.


— Finalmente.


Ordekh preparou outro golpe.


Angarkor desapareceu.


Surgiu atrás dele.


As duas katares atravessaram sua defesa.


Ordekh caiu de joelhos.


Angarkor segurou-o pelo ombro.


— Vocês dois deveriam ter ficado no passado.


Ordekh levantou os olhos.


— E você... deveria ter morrido com ele.


Angarkor permaneceu em silêncio.


Então desferiu o golpe final.


Uma energia negra envolveu o corpo de Ordekh.


O espaço atrás dele se abriu.


Não era uma porta.


Era uma ruptura.


Um vazio.


O Limbo dos Hunens.


Ordekh foi lançado para dentro.


Antes de desaparecer, seus olhos encontraram os de Neutro.


E os dois compreenderam.


Não haviam sido mortos.


Haviam sido banidos.


O portal se fechou.


Angarkor ficou sozinho.


Quase.


Seu corpo estava coberto de ferimentos.


Sangue escorria por seu rosto, pelo peito e pelos braços.


A respiração estava pesada.


Ele havia vencido.


Mas havia pago caro.


Do outro lado do salão, o Necromante observava as crianças.


Uma delas estava cercada por aquela luz estranha.


A chave.


Aquela que a profecia havia indicado.


Aquela que poderia um dia destruir o Necromante.


Ele finalmente compreendeu.


— Então é você.


A criança recuou.


Ikarus tentou avançar.


— Não toque nela!


O corpo não respondeu.


Ele caiu sobre um joelho.


O Necromante caminhou até a criança.


— Durante todos esses anos...


Ele estendeu a mão.


— Eu procurei a chave.


Ikarus tentou levantar.


— Pare!


Nada.


O Necromante segurou a criança.


A luz aumentou.


— Seu pai não sabe o que você é.


A criança chorava.


— Mas eu sei.


O Necromante ergueu a mão.


Ikarus gritou:


— NÃO!


Angarkor virou o rosto.


Algo havia mudado.


A respiração de Angarkor ficou irregular.


Ele levou uma das mãos ao peito.


As veias negras começaram a se espalhar por seu corpo.


Seu rosto se contorceu.


— Não...


O Necromante olhou para ele.


— O que está acontecendo?


Angarkor caiu sobre um joelho.


As mãos tremiam.


Uma voz diferente ecoou em sua cabeça.


Uma voz antiga.


Uma memória.


Uma mulher.


Violet.


Angarkor fechou os olhos.


E viu.


Não o campo de batalha.


Não os Guardiões.


Não a guerra.


Viu Violet.


Seu rosto.


Seus olhos.


Aquela lembrança que havia sido enterrada tão profundamente que quase parecia pertencer a outra vida.


Então abriu os olhos.


E viu a criança.


Por um instante, não enxergou um descendente de Ikarus.


Viu outra coisa.


Uma lembrança.


A fragilidade.


O medo.


Aquela mesma expressão que ele conhecera um dia.


A mesma que havia visto nos olhos de Violet.


Angarkor ficou imóvel.


— Violet...


O Necromante não compreendeu.


— O que disse?


Angarkor levantou lentamente a cabeça.


Mas já não era completamente Angarkor quem olhava para ele.


Ragnarok havia despertado.


Não como uma criatura separada.


Não como outro corpo.


Mas como aquilo que sempre estivera escondido dentro daquele avatar.


A consciência antiga.


O Algoz.


O nome que Neutro e Ordekh haviam pronunciado.


Ragnarok.


Ele olhou para a criança.


Depois para o Necromante.


— Você não vai tocar nela.


O Necromante recuou.


— Angarkor?


Ragnarok avançou.


O Necromante tentou reagir.


Tarde demais.


O choque foi brutal.


A energia dos dois atravessou o salão.


Ragnarok atingiu o Necromante antes que ele pudesse completar o ataque.


O impacto o lançou contra o trono.


O Necromante tentou se levantar.


Ragnarok apareceu diante dele.


— Eu já perdi alguém assim uma vez.


O Necromante tentou falar.


Ragnarok o atingiu novamente.


O poder atravessou o corpo do Necromante.


Ele caiu.


Silêncio.


O Necromante estava morto.


Ragnarok permaneceu diante dele.


Mas seu próprio corpo estava chegando ao limite.


Os ferimentos provocados por Neutro e Ordekh haviam sido profundos.


Seu corpo começou a perder estabilidade.


A forma de Angarkor oscilava.


Por um instante, parecia que ele desapareceria.


Ikarus observava, ainda incapaz de compreender o que havia acabado de acontecer.


— Angarkor...


Ragnarok olhou para ele.


Por alguns segundos, os olhos vermelhos encontraram os olhos de Ikarus.


Não havia mais o mesmo ódio.


Havia algo diferente.


Talvez lembrança.


Talvez arrependimento.


Talvez apenas cansaço.


Ragnarok olhou novamente para a criança.


Depois para o corpo de Ikarus.


— Proteja-os.


Ikarus arregalou os olhos.


— O quê?


Ragnarok não respondeu.


Seu corpo começou a se desfazer em partículas negras.


A forma física de Angarkor permaneceu por mais alguns segundos.


Então ele olhou para o alto.


— Este corpo já cumpriu sua função.


Uma abertura surgiu atrás dele.


O mesmo vazio que havia engolido Neutro e Ordekh.


O Limbo.


Ragnarok deu um último passo.


Antes de desaparecer, voltou os olhos para Ikarus.


— Ainda não acabou.


Então atravessou.


O portal se fechou.


Angarkor havia deixado seu avatar.


E retornado ao Limbo dos Hunens.


No salão destruído, restaram apenas Ikarus, seus filhos...


e o corpo do Necromante.


Lá fora, a chuva continuava caindo.


Mas, pela primeira vez desde o início daquela guerra, não havia mais ninguém dando ordens aos mortos.


O exército do Necromante havia perdido seu mestre.


E, muito longe dali, no Limbo dos Hunens...


duas figuras caíram sobre um chão que não pertencia ao mundo dos vivos.


Neutro abriu os olhos.


Ordekh também.


Os dois estavam feridos.


Mas vivos.


E, em algum lugar muito mais profundo daquele lugar impossível, alguma coisa os observava.


Uma presença que havia sentido o retorno de Ragnarok.


E que agora sabia que Angarkor havia voltado ao Limbo.


A guerra em Ad’Heim havia terminado.


Mas a história dos Hunens...


estava apenas começando.

Ad'Heim: Ragnarok

 O brilho que havia surgido nos fragmentos de Ikarus aumentou.


Mas não foi Ikarus quem se levantou.


Foi Angarkor quem recuou.


Um som profundo atravessou o salão.


Como se alguma coisa muito antiga tivesse acabado de despertar sob o palácio.


O Necromante olhou para as paredes.


— Não...


Então uma voz surgiu atrás de Angarkor.


— Já chega.


Angarkor parou.


Outra voz respondeu, vindo do lado oposto:


— Você foi longe demais.


Ikarus ergueu os olhos.


Duas silhuetas estavam surgindo das sombras.


A primeira caminhava lentamente pelo salão.


A segunda vinha pelo corredor lateral.


Angarkor permaneceu imóvel.


Então seus olhos se estreitaram.


— Vocês...


O primeiro homem parou.


Neutro.


O segundo aproximou-se.


Ordekh.


Os dois encaravam Angarkor.


Por alguns segundos, ninguém falou.


Então Neutro ergueu sua arma.


— Você não deveria mais existir.


Ordekh completou:


— Mas sempre foi assim com você.


Angarkor abaixou a cabeça.


Um sorriso surgiu em seu rosto.


— Quanto tempo.


Neutro respondeu:


— Tempo demais.


Ikarus tentou se levantar.


— Quem...


Sua voz falhou.


Ordekh olhou para ele.


— Fique no chão.


Ikarus tentou protestar.


— Eles...


— Depois.


Ordekh voltou os olhos para Angarkor.


— Agora temos outro assunto.


Angarkor desembainhou lentamente as duas katares.


O som metálico atravessou o salão.


Neutro apertou a própria arma.


— Ragnarok.


Ikarus olhou para ele.


A palavra pareceu estranha.


Ordekh repetiu:


— Ragnarok.


Angarkor ficou completamente imóvel.


— Não me chamem assim.


Neutro deu um passo.


— Esse foi o nome que recebeu quando deixou de ser apenas Angarkor.


Ordekh avançou.


— O nome daquele que não deveria voltar.


Angarkor levantou o rosto.


Os olhos vermelhos brilhavam.


— Vocês ainda acreditam que podem me impedir?


Neutro respondeu:


— Não.


Ordekh completou:


— Mas podemos tentar.


Angarkor desapareceu.


O choque seguinte quase derrubou o salão.


CLANG!


Neutro bloqueou a primeira katar.


Ordekh interceptou a segunda.


Angarkor girou.


Os três desapareceram em uma sucessão de movimentos rápidos demais para Ikarus acompanhar.


As lâminas colidiam.


O chão rachava.


As colunas tremiam.


Ikarus observava, ainda ajoelhado.


Mas então ouviu uma voz.


— Eiran.


O garoto virou-se.


O Necromante estava atrás dele.


Eiran imediatamente levantou a espada.


— Não chegue perto da minha irmã.


Lyra segurou o braço do irmão.


O Necromante não atacou.


Apenas os observou.


— Vocês não deveriam ter vindo.


Eiran respondeu:


— Viemos pelo nosso pai.


— Eu sei.


O menino hesitou.


O Necromante olhou para Lyra.


Depois para Eiran.


— Vocês sabem quem são?


Eiran franziu a testa.


— Somos filhos de Ikarus.


— Não foi isso que perguntei.


O silêncio caiu entre os três.


O Necromante aproximou-se lentamente.


Eiran levantou a espada.


— Pare.


O Necromante parou.


— Seu pai passou anos procurando respostas.


Ele olhou para Ikarus, caído no centro do salão.


— E nunca percebeu que algumas delas estavam diante dele.


Lyra perguntou:


— Que respostas?


O Necromante não respondeu.


Seus olhos estavam fixos nela.


Então alguma coisa aconteceu.


Uma pequena luz surgiu na mão de Lyra.


Ela recuou assustada.


— O que é isso?


Eiran olhou para a mão da irmã.


— Lyra...


A luz aumentou.


Ao mesmo tempo, um dos fragmentos de Ikarus brilhou novamente.


Depois outro.


Angarkor percebeu.


Mesmo lutando contra Neutro e Ordekh, virou o rosto.


Seus olhos encontraram Lyra.


E, pela primeira vez, sua expressão mudou completamente.


— Não.


Neutro aproveitou a distração e atingiu Angarkor.


Ragnarok foi lançado contra uma coluna.


A pedra explodiu.


Ordekh avançou.


— Olhe para nós!


Angarkor levantou-se.


Mas continuava olhando para Lyra.


— Então era ela...


Eiran se colocou diante da irmã.


— Não sei do que você está falando.


O Necromante aproximou-se da menina.


Eiran apontou a espada.


— Eu disse para não chegar perto!


O Necromante parou novamente.


— Eiran.


O garoto congelou.


— Como sabe meu nome?


O Necromante não respondeu.


Em vez disso, olhou para os dois como se estivesse diante de algo que havia esperado durante muito tempo.


— Um deles carrega a chave.


Eiran apertou a espada.


— Chave para quê?


O Necromante finalmente respondeu:


— Para aquilo que o seu pai jamais deveria encontrar.


Atrás deles, um estrondo sacudiu o palácio.


Angarkor havia atravessado uma parede.


Neutro e Ordekh avançaram juntos.


— RAGNAROK!


Angarkor surgiu dos escombros.


Sangue escorria pelo rosto.


Ele sorriu.


— Vocês ainda têm esse nome na boca...


Então ergueu as duas katares.


— ...mas esqueceram o que ele significa.


Os três se lançaram novamente um contra o outro.


Enquanto isso, a luz na mão de Lyra crescia.


Eiran olhou para a irmã.


— Lyra... o que está acontecendo?


Ela começou a chorar.


— Eu não sei.


O Necromante aproximou-se mais uma vez.


Dessa vez, não para atacá-los.


Ele estendeu a mão.


— Venha comigo.


Eiran imediatamente ficou entre os dois.


— Não.


O Necromante olhou para ele.


— Se permanecer aqui, seu pai poderá morrer.


Eiran hesitou.


O Necromante então acrescentou:


— E se vier comigo...


Ele olhou para Lyra.


— talvez eu consiga impedir que ela descubra o que realmente é.


E, naquele instante, Ikarus ouviu a voz.


Mesmo quase inconsciente.


— Não...


Ele tentou se levantar.


— Não toque nos meus filhos.


O Necromante virou lentamente o rosto.


Ikarus estava de pé novamente.


Mal conseguia permanecer equilibrado.


Mas estava de pé.


Os doze fragmentos brilhavam ao redor dele.


E Ikarus encarava o Necromante.


— Se quiser chegar até eles...


Ele ergueu a espada.


— ...vai ter que passar por mim.


O Necromante sorriu pela primeira vez.


— Finalmente.


E atrás dele, a luz que envolvia Lyra explodiu.

Ad'Heim: Pai

 Ikarus não respondeu.


As palavras de Angarkor ainda ecoavam em sua mente.


O quarto.


Os três desertores.


A história que ele acreditava conhecer parecia, de repente, apenas a superfície de algo muito maior.


Mas naquele momento Ikarus não queria respostas.


Não queria história.


Não queria compreender.


Queria matar.


Ele avançou.


O poder dos doze fragmentos explodiu ao redor de seu corpo.


As paredes do salão estremeceram.


O chão rachou sob seus pés.


Angarkor levantou as duas katares.


Ikarus atacou.


O primeiro golpe foi bloqueado.


O segundo também.


O terceiro passou a poucos centímetros do rosto de Angarkor.


Então Ikarus desapareceu.


Surgiu acima dele.


Desceu com a espada.


Angarkor cruzou as duas katares.


O impacto abriu uma cratera no chão.


— Você ainda está lutando com raiva — disse Angarkor.


Ikarus rugiu.


— CALA A BOCA!


Ele liberou ainda mais poder.


As doze forças responderam simultaneamente.


Por um instante, parecia que o próprio salão havia se tornado pequeno demais para conter aquilo.


O poder de Lenória.


Sefrion.


Setra.


Gallen.


Valeth.


Kallon.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Aldora.


Tudo aquilo convergiu para um único ponto.


Ikarus ergueu a espada.


Angarkor percebeu.


Pela primeira vez, seus olhos se abriram um pouco mais.


Ikarus atacou.


O golpe atravessou a defesa.


Uma das katares de Angarkor foi desviada.


A espada de Ikarus atingiu seu corpo.


Silêncio.


A lâmina entrou.


Angarkor ficou imóvel.


Ikarus também.


Um fio de sangue escorreu.


Depois outro.


Angarkor olhou para o ferimento.


Tocou-o com os dedos.


Sangue.


Ikarus respirava com dificuldade.


Havia colocado tudo naquele golpe.


Tudo.


Os doze fragmentos começaram a perder o brilho.


Ikarus cambaleou.


Angarkor ergueu lentamente os olhos.


— Finalmente.


Ikarus tentou levantar a espada novamente.


Não conseguiu.


Seu braço tremia.


As pernas falharam.


Ele caiu sobre um joelho.


Angarkor retirou a espada do próprio corpo e observou o sangue na mão.


— Você conseguiu.


Ikarus respirou pesadamente.


— Eu... vou... matar você.


Angarkor olhou para ele.


— Não.


Ikarus tentou se levantar.


— Eu ainda...


Angarkor apareceu diante dele.


Um golpe.


Ikarus foi lançado contra uma das colunas.


A pedra explodiu.


Ele caiu no chão.


Tentou se levantar.


Nada.


Os doze fragmentos estavam apagados.


Seu corpo havia chegado ao limite.


Angarkor caminhou lentamente até ele.


Ikarus levantou a cabeça.


Sangue escorria pelo canto de sua boca.


— Vamos...


Ele tentou sorrir.


— Termina.


Angarkor parou.


Ikarus abriu os braços.


— Você queria isso.


Angarkor permaneceu em silêncio.


— Então termina!


Angarkor ergueu uma das katares.


A ponta da lâmina ficou diante do rosto de Ikarus.


— Você realmente não entende.


Ikarus fechou os olhos.


— Eu não quero entender.


— Esse é o seu problema.


Angarkor preparou o golpe.


Ikarus não tinha mais forças.


Não havia fragmento para liberar.


Não havia espada para erguer.


Não havia poder para lutar.


Pela primeira vez desde que começara aquela jornada, Ikarus estava completamente indefeso.


Angarkor baixou a lâmina.


Então—


— PAI!


A voz atravessou o salão.


Angarkor parou.


Ikarus abriu os olhos.


Seu rosto mudou imediatamente.


Aquela voz.


Ele conhecia aquela voz.


Virou lentamente a cabeça.


No alto da escadaria, sob a luz dos relâmpagos que entrava pelas janelas, havia duas pequenas figuras.


Eiran.


E Lyra.


Os dois estavam encharcados.


Eiran segurava sua pequena espada com as duas mãos.


Lyra estava atrás dele, assustada, mas não recuava.


Ikarus ficou completamente imóvel.


— Eiran...?


O menino desceu um degrau.


— Pai.


Ikarus olhou para Lyra.


Ela chorava.


— Pai...


Por alguns segundos, Ikarus simplesmente não conseguiu falar.


— O que vocês estão fazendo aqui?


Eiran respondeu:


— Viemos atrás de você.


Ikarus tentou se levantar.


— Vocês não deveriam estar aqui!


Eiran continuou descendo.


— Você também não deveria estar sozinho.


— Eiran!


— Você sempre vai embora!


A voz do garoto tremeu.


— Sempre.


Ikarus ficou em silêncio.


Eiran apertou a espada.


— Dessa vez nós viemos junto.


Angarkor observava os dois.


Seu olhar passou de Eiran para Lyra.


Depois voltou para Ikarus.


A katar ainda estava em sua mão.


O Necromante, até então imóvel, também se levantou lentamente.


Angarkor abaixou a arma.


Ikarus olhou para ele.


— Mate-me.


Angarkor não respondeu.


— Eu disse para matar a mim!


Angarkor continuou olhando para as crianças.


Então disse:


— Não.


Ikarus franziu a testa.


— Por quê?


Angarkor finalmente olhou para ele.


— Porque agora...


Seus olhos vermelhos voltaram-se para Eiran e Lyra.


— ...a história mudou.


E, naquele instante, um dos doze fragmentos apagados no corpo de Ikarus voltou a brilhar.


Depois outro.


E outro.


Até que uma luz começou a pulsar dentro do salão.


Eiran olhou para o pai.


Lyra olhou para o irmão.


O Necromante deu um passo para trás.


E Angarkor, pela primeira vez desde que chegara àquele palácio, pareceu verdadeiramente preocupado.


— Não...


Ele olhou para as crianças.


— Não era para acontecer agora.

Ad'Heim: O quarto

 Angarkor não respondeu imediatamente.


O sorriso desapareceu de seu rosto.


Ikarus permanecia diante dele, encharcado, coberto pelo sangue dos inimigos que havia atravessado para chegar até ali. A água escorria de seus cabelos e pingava da ponta de sua espada sobre o chão de pedra.


Atrás de Angarkor, o Necromante permanecia sentado.


Observando.


Esperando.


Ikarus deu um passo.


— Você matou Raella.


Angarkor sustentou seu olhar.


— Matei.


— Por quê?


Silêncio.


Um relâmpago iluminou as enormes janelas do salão.


Angarkor caminhou lentamente para o lado, deixando o trono para trás.


— Antes que eu responda...


Ele parou.


— Você se lembra dos três desertores?


Ikarus franziu a testa.


— Neutro. Ordekh. E você.


Angarkor assentiu.


— Exatamente.


Ikarus apertou a empunhadura da espada.


— Eu conheço essa história.


— Conhece?


Angarkor olhou para ele.


— Ou conhece aquilo que restou dela?


Ikarus não respondeu.


Angarkor caminhou até uma das janelas.


Lá fora, a tempestade continuava destruindo o céu.


— Durante a Guerra dos Duzentos Anos, três irmãos abandonaram aquilo que o mundo esperava deles.


— Os três desertaram.


— Foi assim que passaram a ser chamados.


Angarkor olhou novamente para Ikarus.


— Desertores.


Ele pronunciou a palavra lentamente.


— Mas ninguém perguntou por que eles desertaram.


Ikarus permaneceu imóvel.


— Neutro, Ordekh e eu lutamos juntos durante anos. Vimos homens morrerem. Vimos cidades desaparecerem. Vimos reis mandarem milhares para a morte enquanto permaneciam atrás de muralhas.


Angarkor fechou os olhos por um instante.


— E então percebemos uma coisa.


— O quê?


— A guerra nunca termina para quem aprende a viver através dela.


Ikarus estreitou os olhos.


— E vocês abandonaram tudo.


— Não.


Angarkor abriu os olhos.


— Nós abandonamos aqueles que acreditavam que poderiam controlar o resultado.


Um trovão explodiu do lado de fora.


— Cada um dos três seguiu um caminho diferente. Cada um acreditava possuir uma resposta.


Angarkor tocou levemente o próprio peito.


— Eu escolhi a espada.


Então apontou para o chão.


— Outros escolheram conhecimento.


E finalmente olhou para o Necromante.


— Outros escolheram a morte.


O Necromante não reagiu.


Ikarus percebeu.


Havia algo naquela história que ainda não lhe havia sido contado.


— E onde Raella entra nisso?


Angarkor ficou em silêncio.


Ikarus deu outro passo.


— Eu perguntei por que você a matou.


— Porque ela era a última corrente.


— Corrente?


— Sim.


Angarkor voltou-se completamente para ele.


— Você passou anos procurando poder. Os fragmentos. Os Guardiões. Os reinos. Tudo isso tinha um objetivo.


— Chegar até você.


— Não.


A resposta veio imediatamente.


— Seu objetivo era voltar.


Ikarus congelou.


Angarkor continuou:


— Voltar para Lenória. Voltar para seus filhos. Voltar para Raella. Voltar para a vida que havia deixado para trás.


Ele caminhou lentamente em direção a Ikarus.


— Toda vez que você avançava, havia alguma coisa esperando por você no fim da estrada.


Ikarus cerrou os dentes.


— E daí?


— Daí que você nunca lutou até o fim.


— Eu matei doze Guardiões.


— Porque precisava.


— Atravessei continentes.


— Porque precisava.


— Reuni os doze fragmentos!


— Porque precisava.


Angarkor parou diante dele.


— Mas quando chegou diante de mim...


Silêncio.


— Você ainda queria voltar.


Ikarus abaixou ligeiramente a espada.


Não por fraqueza.


Por reconhecimento.


Angarkor continuou:


— Quando lutei contra você em Aldora, você tinha tudo.


Os olhos vermelhos se fixaram nos dele.


— Os doze fragmentos.


— O poder dos Guardiões.


— A força que procurou durante anos.


— E ainda assim havia alguma coisa faltando.


Ikarus levantou os olhos.


— Então você matou Raella.


— Sim.


— Para me fazer sofrer.


— Não.


Angarkor respondeu calmamente.


— Para tirar de você a última razão para voltar.


Ikarus ficou imóvel.


— Você queria que eu não tivesse mais nada.


— Não.


Angarkor balançou a cabeça.


— Eu queria descobrir o que você faria quando não tivesse mais nada.


A mão de Ikarus começou a tremer.


A espada subiu lentamente.


— Você não sabe nada sobre mim.


Angarkor olhou para a lâmina.


— Sei mais do que você imagina.


— Então sabe que vou matar você.


Angarkor sorriu.


— Agora eu sei.


Ikarus avançou.


Angarkor desapareceu.


O golpe de Ikarus cortou apenas o ar.


Um segundo depois, Angarkor surgiu atrás dele.


Ikarus girou.


As duas katares foram desembainhadas.


O primeiro choque fez o salão inteiro estremecer.


CLANG!


Ikarus recuou um passo.


Angarkor permaneceu imóvel.


CLANG!


Outro golpe.


Ikarus atacou novamente.


Angarkor bloqueou.


CLANG!


Mais uma vez.


Os dois se afastaram.


A chuva batia contra as janelas.


O Necromante observava em silêncio.


Ikarus respirou profundamente.


Então percebeu algo.


Angarkor não estava atacando.


Estava esperando.


— O que você está fazendo?


Angarkor ergueu uma das katares.


— Contando uma história.


Ikarus franziu o rosto.


— Enquanto lutamos?


— É a única maneira de você entender.


Angarkor avançou.


Ikarus bloqueou.


Os dois desapareceram em um borrão.


As lâminas se chocaram repetidamente.


Então Angarkor falou entre os golpes:


— Três irmãos...


CLANG!


— ...três caminhos...


CLANG!


— ...três desertores...


CLANG!


Ikarus conseguiu afastá-lo.


— E qual deles você era?


Angarkor parou.


Por um instante, o sorriso desapareceu.


— Essa...


Ele baixou lentamente as katares.


— ...é a pergunta errada.


Ikarus ergueu a espada.


— Então qual é a certa?


Angarkor olhou para ele.


— O que aconteceu com o quarto?


Ikarus congelou.


O salão ficou em silêncio.


Até o Necromante levantou lentamente os olhos.


Angarkor encarou Ikarus.


— Porque a história dos três desertores começa muito antes de existirem três.


Um relâmpago iluminou o palácio.


E, pela primeira vez naquela noite, Ikarus percebeu que talvez tivesse entrado naquele palácio acreditando que estava perseguindo Angarkor...


quando, na verdade, Angarkor estava esperando que ele finalmente fizesse a pergunta certa.

Ad'Heim: Última Batalha

 A chuva caía violentamente sobre Baltamus.


Não era uma chuva comum.


Era uma tempestade.


O céu inteiro parecia tomado por nuvens negras, e os relâmpagos iluminavam o campo de batalha em flashes brancos. O trovão fazia as muralhas do palácio tremerem.


Diante delas, os exércitos dos doze reinos haviam chegado.


Homens, elfos, anões, guerreiros de Aldora, soldados de Lenória, arqueiros de Sefrion, tropas de Kallon, Valeth, Setra, Gallen, Khsandra, Arteph, Okhus, Thimos e Baltamus.


Todos lutavam.


E no centro daquela tempestade estava Ikarus.


Sua espada atravessou o peito de um morto-vivo.


Ele o derrubou.


Outro veio pela direita.


Ikarus girou e o atingiu.


Um terceiro saltou sobre ele.


Ikarus bloqueou o golpe e o lançou contra outros inimigos.


Mas não havia fim.


As hordas continuavam surgindo dos portões do palácio.


Centenas.


Milhares.


Os mortos avançavam sob a chuva, misturando-se aos soldados do Necromante.


Ikarus respirou profundamente.


Ergueu a espada.


E gritou:


— ANGARKOR!


Sua voz atravessou o campo de batalha.


Por um instante, até os soldados próximos pareceram ouvir.


Do alto do palácio, nenhuma resposta.


Ikarus avançou.


— ANGARKOR!


Outro inimigo caiu.


Ele continuou.


— ANGARKOR!


A cada grito, sua voz parecia atravessar a tempestade.


Ele não estava chamando um homem.


Estava desafiando um monstro.


Estava chamando aquele que havia arrancado Raella de sua vida.


Aquele que havia derrotado os doze fragmentos.


Aquele que havia esperado por ele.


Ikarus avançou contra a multidão.


Seu exército avançava junto.


Os soldados abriam caminho entre as hordas enquanto Ikarus seguia diretamente para as enormes escadarias que levavam ao palácio.


Então ele as viu.


A escadaria.


Centenas de degraus de pedra subindo até a entrada principal.


Guardas estavam posicionados por toda a extensão.


Ikarus ergueu a espada.


— ANGARKOR!


E começou a subir.


O primeiro inimigo veio.


Ikarus o derrubou.


Segundo.


Golpe.


Terceiro.


Quarto.


Ele continuava subindo.


A chuva escorria por seu rosto.


O sangue dos inimigos misturava-se à água que descia pelos degraus.


Mais mortos-vivos surgiam das laterais.


Ikarus avançava contra eles.


— ANGARKOR!


Um guerreiro desceu correndo.


Ikarus desviou.


Outro tentou acertá-lo pelas costas.


Ele girou e o derrubou.


Mais três vieram.


Ikarus não parou.


— ANGARKOR!


Seu grito ecoou pelas paredes do palácio.


Lá embaixo, os exércitos continuavam lutando.


Mas Ikarus já estava sozinho na escadaria.


Subindo.


Um degrau.


Outro.


Outro.


Os inimigos não paravam.


Um enorme guerreiro coberto por uma armadura negra surgiu no meio da escadaria.


Ikarus parou diante dele.


O guerreiro levantou a espada.


Ikarus também.


Os dois avançaram.


O choque das lâminas produziu uma faísca que desapareceu imediatamente sob a chuva.


Ikarus venceu.


Continuou subindo.


— ANGARKOR!


Um relâmpago iluminou o céu.


Ikarus estava quase no topo.


Mas então as portas do palácio se abriram.


Uma nova onda de inimigos surgiu.


Ikarus olhou para eles.


Seu rosto estava completamente diferente agora.


Não havia medo.


Não havia dúvida.


Não havia hesitação.


Só ódio.


Ele segurou a espada com as duas mãos.


— ANGARKOR!


E avançou.


Os inimigos vieram ao seu encontro.


Ikarus atravessou a formação.


Um caiu.


Outro.


Outro.


Ele subiu o último lance de escadas.


Um último guerreiro tentou impedi-lo.


Ikarus o derrotou.


Silêncio.


Por alguns segundos, só a chuva podia ser ouvida.


Ikarus ficou parado diante das enormes portas do palácio.


Respirou.


Então abriu.


As portas rangeram.


Do outro lado havia um salão imenso.


Escuro.


Frio.


E, no fundo dele...


Angarkor estava esperando.


De pé.


Imóvel.


Os cabelos brancos caíam sobre o rosto.


Os olhos vermelhos estavam fixos em Ikarus.


As duas katares permaneciam junto ao seu corpo.


Atrás dele, nas sombras, estava o Necromante.


Ikarus entrou.


As portas se fecharam lentamente atrás dele.


Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.


A tempestade continuava do lado de fora.


Angarkor finalmente ergueu os olhos.


— Você finalmente chegou.


Ikarus apertou a espada.


— ANGARKOR!


Dessa vez não foi um chamado.


Foi uma sentença.


Angarkor sorriu.


— Agora podemos conversar.

Ad'Heim: Reunindo exército

 Ikarus deixou Lenória sem olhar para trás.


Não porque não amasse aquele lugar.


Mas porque, se olhasse novamente para o túmulo de Raella, talvez não conseguisse partir.


Os doze fragmentos estavam completos.


E com eles havia vindo algo que Ikarus ainda não compreendia completamente.


Uma autoridade.


Desde que tomara o último fragmento, todos os antigos símbolos dos Guardiões haviam respondido a ele. Não eram apenas lembranças. Não eram apenas poderes. Eram marcas de um juramento antigo, uma autoridade que durante milhares de anos havia pertencido aos doze protetores dos reinos.


Agora os doze estavam dentro dele.


E Ikarus compreendeu que não precisava enfrentar Baltamus sozinho.


Ele parou diante das muralhas de Lenória.


Centenas de soldados observavam.


Reis.


Generais.


Cavaleiros.


Magos.


Dragões.


Elfos.


Anões.


Homens que haviam passado anos lutando contra os mortos.


Ikarus ergueu a mão.


Os doze fragmentos apareceram ao seu redor.


Um círculo de luz se formou no céu.


E, naquele instante, algo aconteceu.


Em Kallon, os grandes sinos do mar começaram a tocar.


Em Sefrion, as torres dos magos acenderam-se.


Em Setra, os antigos templos ouviram uma voz que não vinha de nenhuma garganta.


Em Valeth, os grandes pássaros abandonaram os céus e voaram em direção ao sul.


Em Gallen, os exércitos começaram a se reunir.


Em Khsandra, as árvores antigas estremeceram.


Em Arteph, os mortos permaneceram em silêncio.


Em Okhus, os vigias das muralhas ergueram os olhos.


Em Thimos, cavaleiros montados em Pégasos receberam o chamado.


Em Baltamus...


o Necromante também ouviu.


Ikarus falou.


Sua voz não era particularmente alta.


Mas chegou a todos.


— Eu sou Ikarus de Lenória.


O vento parou.


— Durante anos, cada reino lutou sozinho.


As imagens dos onze antigos Guardiões surgiram no céu.


Ranur.


Sahrion.


Eryon.


Darven.


Aren.


Kaeron.


Serenya.


Arenos.


Dhaeron.


Asterion.


Baltar.


E então apareceu Thomas.


Ikarus fechou os olhos por um instante.


— Eles morreram protegendo seus povos.


A imagem de Thomas desapareceu por último.


— E eu não permitirei que suas mortes sejam esquecidas.


Os exércitos começaram a se reunir.


Ikarus continuou:


— O inimigo não está mais escondido.


A voz tornou-se mais firme.


— O Necromante está em Baltamus.


Silêncio.


— Angarkor está com ele.


Alguns soldados começaram a murmurar.


Muitos conheciam o nome.


Outros apenas haviam ouvido histórias.


O homem que aparecia do nada.


O guerreiro de cabelos brancos.


Aquele que destruía cidades e desaparecia.


Aquele que ninguém conseguia prever.


Ikarus levantou a espada.


— Durante anos vocês construíram muralhas para impedir que os mortos chegassem até suas casas.


Os doze fragmentos brilharam.


— Agora nós vamos derrubar as muralhas.


Um dos generais de Lenória aproximou-se.


— Para onde marcharemos?


Ikarus respondeu:


— Baltamus.


O general hesitou.


— É o extremo norte.


— Eu sei.


— É uma distância enorme.


— Eu sei.


— E as forças do Necromante...


Ikarus interrompeu:


— Não estou pedindo que venham comigo porque será fácil.


Olhou para os soldados.


— Estou pedindo porque, se continuarmos esperando que alguém faça isso por nós, não haverá mais reinos para defender.


Ninguém respondeu.


Então um soldado ajoelhou.


Depois outro.


Depois dezenas.


Até que centenas de homens estavam ajoelhados diante de Ikarus.


Um rei perguntou:


— E quem comandará essa guerra?


Ikarus olhou para os doze fragmentos.


— Eu.


Não houve coroação.


Não houve trono.


Não houve cerimônia.


Apenas silêncio.


E então os estandartes começaram a surgir.


Lenória.


Kallon.


Aldora.


Setra.


Valeth.


Sefrion.


Gallen.


Irdos.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Todos os povos começaram a mobilizar suas forças.


Pela primeira vez em gerações, os exércitos dos reinos marchariam sob uma mesma bandeira.


A bandeira dos Doze.


---


Os navios começaram a partir.


Centenas deles.


Navios de guerra.


Navios de transporte.


Navios mercantes adaptados.


Embarcações élficas.


Navios de Kallon capazes de atravessar o Mar Divisor mesmo sob tempestades.


A frota crescia a cada dia.


Ikarus havia compreendido uma coisa.


Baltamus era distante demais para uma marcha convencional.


Precisavam atravessar o mar.


E depois enfrentar o continente do Norte.


A guerra seria gigantesca.


Talvez a maior que Ad'Heim já tivesse conhecido.


No maior porto de Lenória, Ikarus caminhava entre soldados.


Todos olhavam para ele.


Alguns com admiração.


Outros com medo.


Alguns apenas queriam acreditar que aquela guerra seria diferente das anteriores.


Ikarus não prometeu vitória.


Não prometeu sobrevivência.


Apenas disse:


— Nós vamos até o fim.


E entrou no navio principal.


A embarcação começou a deixar o porto.


Ikarus ficou na proa.


O vento batia em seus cabelos.


O horizonte se estendia diante dele.


Baltamus.


Angarkor.


O Necromante.


E uma guerra que poderia decidir o destino de todo o mundo.


Mas ninguém percebeu duas pequenas sombras escondidas entre os barris no convés inferior.


Eiran estava agachado.


Lyra estava ao lado dele.


Os dois estavam em absoluto silêncio.


Eiran segurava uma pequena espada.


Lyra carregava uma mochila.


Ela sussurrou:


— Você acha que ele vai descobrir?


Eiran respondeu:


— Se descobrir, vai mandar a gente voltar.


— Então não deixa ele descobrir.


— Era exatamente o plano.


Lyra sorriu.


— Você acha que a mãe teria deixado?


Eiran ficou em silêncio.


A pergunta apagou o sorriso dos dois.


Ele abaixou os olhos.


— Não sei.


Lyra também ficou quieta.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.


Então Eiran apertou a espada.


— Mas eu vou com ele.


— Eu também.


— Ele não pode enfrentar isso sozinho.


Lyra assentiu.


Lá em cima, Ikarus continuava olhando para o horizonte.


Ele não fazia ideia de que seus filhos estavam naquele mesmo navio.


Não sabia que Eiran havia decidido seguir seus passos.


Não sabia que Lyra também estava ali.


E muito menos sabia que aquela viagem não seria apenas a marcha de um exército contra o Necromante.


Seria o começo de algo que havia sido anunciado muito antes de qualquer um deles compreender seu significado.


Muito antes da morte de Raella.


Muito antes dos doze fragmentos.


Muito antes de Ikarus sequer saber que era parte de algo maior.


Em algum lugar nas profundezas de Kallon, uma antiga memória ainda permanecia.


Uma profecia.


Uma voz.


E uma frase que ninguém havia conseguido compreender completamente.


Um dos filhos de Ikarus... ou talvez os dois...


A memória terminou antes que o restante pudesse ser ouvido.


Por enquanto.


---


No convés superior, Ikarus sentiu uma presença.


Virou-se.


Nada.


Apenas soldados.


O mar.


E o vento.


Ele franziu a testa.


Por um instante, teve a impressão de ter ouvido uma voz conhecida.


— Pai...


Ikarus olhou para trás.


Nada.


Ele voltou os olhos para o horizonte.


Talvez fosse apenas o vento.


Talvez fosse sua própria mente.


Talvez fosse o peso de tudo aquilo que havia perdido.


No convés inferior, Eiran e Lyra permaneceram escondidos.


A frota avançava.


Milhares de homens estavam a caminho de Baltamus.


E pela primeira vez desde o início da guerra contra os mortos...


os vivos estavam marchando em direção ao inimigo.


Não fugindo.


Não esperando.


Não se defendendo.


Marchando.


No extremo norte do mundo, as enormes muralhas de Baltamus começaram a aparecer no horizonte.


Acima delas...


milhares de mortos aguardavam.


E, no ponto mais alto da fortaleza do Necromante, Angarkor observava o mar.


Ao longe, uma frota inteira se aproximava.


Ele sorriu.


— Então você trouxe todos eles.


Atrás dele, uma presença permaneceu imóvel.


O Necromante.


Angarkor não olhou para trás.


— Ikarus finalmente entendeu.


A voz do Necromante respondeu:


— Entendeu o quê?


Angarkor observou os navios.


— Que não pode lutar sozinho.


O Necromante permaneceu em silêncio.


Angarkor então sorriu.


— Mas ainda não entendeu a parte mais importante.


— Qual?


Angarkor finalmente virou o rosto.


— Essa guerra nunca foi sobre os exércitos.


Lá fora, os sinos de Baltamus começaram a tocar.


Um.


Dois.


Três.


Depois todos ao mesmo tempo.


Ikarus levantou os olhos.


As tropas começaram a se preparar.


Eiran e Lyra permaneceram escondidos.


A frota continuou avançando.


E, no alto da fortaleza, Angarkor pegou suas duas katares.


— Venha, Ikarus.


Os olhos vermelhos brilharam.


— Traga seus doze fragmentos.


Uma pausa.


— Traga seus exércitos.


Ele sorriu.


— Traga seus filhos.


No convés inferior, Lyra abriu os olhos.


Por um instante, teve a estranha sensação de que alguém havia pronunciado seu nome.


Mas não havia ninguém ali.


Apenas o som do mar.


E o navio continuava avançando rumo a Baltamus.


Rumo à guerra.


Rumo ao Necromante.


E rumo ao destino que nenhum dos três ainda compreendia.