sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O “fraco” na fé é “doente” na fé

 


Por Yuri Schein

Romanos 14 costuma ser usado como uma almofada teológica para proteger suscetibilidades religiosas. Mas a leitura honesta do texto remove essa almofada e mostra um diagnóstico severo de Paulo. A palavra asthenés traduzida como “fraco” não pinta o quadro de um crente fofo e humilde. Ela significa enfermo, debilitado, alguém com a fé clinicamente doente espiritualmente anêmica e psicologicamente instável.

Esse não é o crente maduro que se abstém por amor; é o crente traumatizado pelas próprias neuroses. Ele olha para um pedaço de carne e sente o peso de uma condenação imaginária. Ele olha para um calendário e pensa que Deus está fazendo contagem regressiva para fulminá-lo. Ele vive em tensão, não em Cristo. É exatamente aquele que Paulo descreve em Colossenses 2:21-23: pessoas que adotam normas estéticas de piedade (“não toques”, “não proves”, “não manuseies”) e acham que isso é santidade. Paulo diz: isso é aparência, não poder.

Mas o Evangelho não é um manicômio moral para quem precisa controlar tudo para sentir-se “salvo”. O Evangelho cura. Ele liberta. Ele declara: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). O problema do doente da fé é que ele ainda duvida disso. Ele enxerta a culpa onde Cristo expulsou a culpa. Ele trata o Reino como se fosse uma dieta. Mas Paulo responde: “O Reino de Deus não é comida e bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17).

O “fraco” na fé é o irmão que não entendeu o que a justificação significa na prática. Ele ainda tenta negociar migalhas de aprovação divina com suas pequenas penitências particulares. Sua fé ainda está em UTI, Cristo é seu Salvador, sim, mas sua consciência ainda acha que Ele precisa de uma ajudinha.

Repare: Paulo manda suportar o doente, não imitar. Ele não diz que o forte deve descer ao nível do fraco; ele diz que o forte deve ampará-lo sem abandonar a liberdade (Rm 15:1). Porque o forte é o que entendeu Gálatas 5:1: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. A fraqueza espiritual não é virtude. Não é piedade. É enfermidade que precisa de doutrina, evangelho e paciência pastoral. O forte se adapta para não escandalizar, mas nunca se escraviza para agradar.

Sim: o fraco é irmão. Mas também é paciente em tratamento. E o tratamento não é mais regra é mais Cristo. Mais cruz. Mais plenitude da obra consumada.

Talvez a razão do desconforto ao ler isso seja simples: quando a Bíblia chama alguém de fraco na fé… ela está descrevendo você?

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