Por Yuri Schein
Há um esforço quase desesperado de muitos intérpretes modernos para esvaziar a força do livro de Salmos no capítulo 139 verão 16. O texto diz claramente que os dias do homem foram escritos no livro de Deus antes mesmo que existissem, mas o homem moderno, intoxicado pelo mito da autonomia, tenta violentar a passagem para salvar sua pequena divindade chamada “livre-arbítrio libertário”. O problema é que Davi não lhes deixa saída. O verso não fala de mera previsão. Não fala de possibilidades. Não fala de cenários hipotéticos observados passivamente por uma divindade espectadora. O texto fala de escrita. Decreto. Registro prévio. Ordem anterior à existência.
“Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro foram escritos todos os meus dias, quando nem um deles havia ainda.”
A linguagem é devastadora para qualquer sistema centrado na autonomia humana. O texto não diz que Deus “aprendeu” os dias. Não diz que Deus “descobriu” o futuro. Não diz que Deus “previu escolhas livres”. Diz que os dias foram escritos. Escritos por quem? Pelo acaso? Pela liberdade autônoma? Pela molécula soberana? Pela criatura que ainda nem existia? O verso ridiculariza todas essas alternativas.
O salmista está descrevendo a soberania divina desde o ventre até a consumação da vida. Antes que Davi respirasse, Deus já havia registrado sua história. Isso destrói imediatamente a noção arminiana e molinista de um futuro parcialmente indeterminado. Um futuro escrito não é um futuro aberto. Um futuro decretado não é um futuro autônomo.
Os opositores tentam fugir dizendo: “Ah, o texto apenas fala da duração da vida”. Mas isso é uma mutilação arbitrária do verso. O texto fala de “dias”, não apenas de quantidade de anos. Dias são eventos concretos da existência. Um dia sem acontecimentos é uma abstração vazia. Quando Deus escreve os dias, escreve a própria sequência histórica da vida humana.
A própria metáfora do “livro” exige determinação específica. Em toda a Escritura, livros divinos contêm decretos, registros fixos e ordens estabelecidas. Em Book of Exodus, há o livro dos vivos. Em Book of Daniel, livros são abertos no juízo. Em Book of Revelation, os livros contêm os registros do juízo divino. O simbolismo bíblico nunca apresenta o livro de Deus como um bloco de probabilidades caóticas esperando decisões humanas independentes.
Além disso, o Salmo inteiro é uma exposição esmagadora da exaustividade do conhecimento divino. Davi afirma que Deus conhece:
o sentar e o levantar;
o pensamento antes da palavra;
o caminho;
o deitar;
cada palavra antes de ser pronunciada.
O contexto inteiro é um ataque frontal contra qualquer noção de independência humana. Então chega o verso 16 e a conclusão se torna inevitável: Deus conhece porque decretou. A presciência divina não é uma câmera passiva olhando um futuro autônomo; ela é o conhecimento do próprio decreto eterno.
É exatamente isso que a epístola aos Efesios afirma:
“faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.” (1.11)
Não algumas coisas. Não as coisas religiosas apenas. Todas as coisas.
O homem rebelde odeia essa doutrina porque ela o humilha. Ele quer ser uma pequena primeira causa metafísica. Quer imaginar que existem zonas da realidade não determinadas por Deus. Quer salvar algum espaço de autonomia ontológica. Mas a Escritura massacra continuamente essa fantasia.
Em Provérbios:
“A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda determinação.” 16.33
Nem mesmo o lançamento aparentemente aleatório dos dados escapa do decreto divino.
Em Isaías:
“O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade.” 46.9-10
Em Atos 4.27-28 declara que Herodes, Pilatos, judeus e gentios fizeram exatamente aquilo que a mão e o propósito de Deus predeterminaram.
E então o homem moderno aparece dizendo: “Não, Deus não escreveu os dias de ninguém.”
Com base em quê? Na Escritura? Certamente não. Baseia-se apenas no sentimentalismo humanista importado da filosofia pagã. O problema nunca foi exegético. O problema é moral. O homem odeia um Deus absolutamente soberano porque odeia não ser deus.
Até a estrutura lógica do texto elimina a fuga molinista. O molinismo tenta dizer que Deus conhece “o que criaturas livres fariam” em circunstâncias hipotéticas. Mas o texto não diz que Deus observou possibilidades. O texto diz que os dias foram escritos antes que existissem. Possibilidades não são “dias escritos”. Hipóteses não são decretos. O texto fala de realidade determinada, não de mera previsão contingente.
John Calvin compreendeu isso perfeitamente ao afirmar que nada na vida humana é produto do acaso. Martin Luther, em De Servo Arbitrio, praticamente pisaria sobre as leituras libertárias desse texto com a delicadeza de um martelo alemão do século XVI. Para Lutero, tudo ocorre pela vontade divina necessária. Não há espaço para um reino metafísico independente onde a criatura surpreende Deus.
E isso não é fatalismo pagão. O fatalismo é impessoal. A Escritura fala de um decreto pessoal, sábio, santo e teleológico. O Deus bíblico escreve os dias porque governa a história para sua própria glória.
Os inimigos dessa doutrina frequentemente apelam para emoções: “Então Deus decretou sofrimento?” Sim. Livro de lamentações pergunta:
“Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande?” 3.37-38
Já em Jó mostra que até as calamidades de Jó estavam sob o governo divino.
No Livro de Genesis mostra José dizendo:
“Vós intentastes o mal contra mim, porém Deus o tornou em bem.” (50.20)
Um mesmo evento possui intenção humana e decreto divino soberano.
O homem natural acha isso ofensivo porque deseja um universo onde Deus possa ser absolvido da soberania total. Mas a Bíblia jamais tenta inocentar Deus da autoridade absoluta sobre a realidade. Pelo contrário: ela glorifica essa soberania.
O mais irônico é que aqueles que negam o determinismo de Salmo 139:16 geralmente precisam destruir a própria inteligibilidade da presciência divina. Pois se Deus não decretou os eventos, como conhece infalivelmente o futuro? Se o futuro realmente pode ser diferente do que Deus conhece, então o conhecimento divino torna-se probabilístico. E um Deus probabilístico é um deus ignorante.
O texto de Davi resolve o problema sem esforço: Deus conhece porque escreveu. Deus prediz porque decretou. Deus vê o futuro porque o futuro é obra sua.
A criatura inteira existe dentro do decreto eterno de Deus como uma história já conhecida perfeitamente pelo Autor. O homem não é o escritor da realidade; é personagem dentro dela.
E é precisamente isso que destrói o orgulho humano. O pecador quer ser autor do próprio destino. Quer um trono metafísico privado. Quer independência causal. Mas o Salmo 139 o arrasta para fora da fantasia e o coloca diante do Deus que escreve dias antes que dias existam.
O Deus da Escritura não consulta o futuro. Ele cria o futuro.
