por Yuri Schein
O silêncio que se seguiu ao impacto final da lâmina de Ikarus foi quase ensurdecedor. A luz branca que consumiu o corpo do vampiro se dissipava lentamente, deixando a câmara mergulhada em sombras trêmulas, apenas iluminadas pelos reflexos dourados e prateados da armadura de Ikarus e pelos fragmentos de luz que saltavam das paredes úmidas da caverna. Um cheiro acre de enxofre e magia corroída ainda pairava no ar. O corpo das sucubus jazia estendido, imóveis, os sussurros tentadores que uma vez preencheram a sala, agora silenciados pela morte de Rickson, cujo sacrifício fora o preço necessário para a vitória.
Gillian ajoelhou-se imediatamente ao lado do altar improvisado, onde Raella, apesar de exausta e manchada de sangue, ainda respirava. Suas mãos, delicadas e trêmulas, repousavam sobre o corpo de Raella, murmurando palavras de encorajamento, enquanto pequenas faíscas de energia branca e negra percorriam o ar em torno dela, tentando estabilizar os ferimentos e a exaustão da princesa. Raella piscou lentamente, seus olhos castanho-claros refletindo a dor e o alívio.
“I… eu pensei que… não conseguiria sair viva disso,” murmurou Raella, sua voz fraca, quase um sussurro. Ela tentou erguer-se, mas Gillian a segurou, firme mas gentil.
“Ninguém vai deixar você morrer agora,” disse Gillian com firmeza, o tom de sua voz equilibrando preocupação e comando. “Você precisa ficar quieta e recuperar forças. Estamos aqui.”
Ikarus caminhou até o altar, seu escudo manchado de sangue repousando contra seu ombro. Ele observou Raella, seu olhar azul intenso fixando-a com uma mistura de alívio e determinação. “Você não precisa agradecer, Raella. Faz parte do nosso juramento proteger Lenória Imperial, e… especialmente você.” Havia uma tensão naquelas palavras, como se cada sílaba carregasse não apenas a responsabilidade de um cavaleiro, mas também o peso de algo mais pessoal.
Thomas Walker aproximou-se, suas asas parcialmente abertas, os chifres lançando sombras longas na caverna. O montante em suas mãos ainda brilhava com vestígios de energia dracônica, lembrando ao grupo que a batalha não estava completamente terminada. “O corpo de Rickson… precisamos levá-lo. Não podemos deixá-lo aqui. Ele deu tudo de si por nós, e por isso merece respeito.”
Ikarus assentiu, a mandíbula tensa. “Concordo. Gillian, ajude a estabilizar Raella. Thomas, você e Jetto nos ajudam a carregar Rickson.”
Jetto, que até então permanecera de pé, observando os arredores com olhos atentos à possibilidade de emboscadas, cerrou os punhos, transformando-se parcialmente em lobisomem, a altura de seu corpo aumentando, os músculos se tensionando sob a pele. “Podemos carregar Rickson e sair rápido. Mas a Dríade lá fora… ela não vai nos deixar passar facilmente. Precisamos de estratégia, não apenas força.”
Derek, quieto em um canto, ajustou seu arco, a corda tensa pronta para disparar, os olhos negros atentos a cada movimento. “Se sairmos pelo caminho direto, ela nos verá. Conheço essas florestas. Podemos usar um desvio pelas raízes antigas e os túneis de animais para evitar a linha de visão da Dríade. Será mais lento, mas aumenta nossas chances de sair com vida.”
“Não temos tempo de sobra,” murmurou Raella, a voz mais firme agora, ainda apoiada por Gillian. “Se a Dríade detectar nossa presença, ela convocará mais servos. Precisamos de discrição, mas também de velocidade.”
Thomas olhou para o grupo, calculando mentalmente a logística de movimentar dois corpos pesados, incluindo o de Rickson, sem armas suficientes para enfrentarem outra horda. “Então a saída é clara,” disse ele, a voz profunda e controlada. “Evitar confronto direto, mover-nos pelo subsolo e sombras da floresta, mantendo Raella segura. Ikarus, você lidera; Derek, você cobre a retaguarda; Gillian e eu cuidamos de Raella; Jetto, você protege os flancos. E… precisamos ser rápidos. Cada minuto aqui aumenta o risco.”
Ikarus respirou fundo, apertando a empunhadura de sua espada longa. “Então é o que faremos. Mas primeiro…” Ele caminhou até Rickson, ajoelhando-se ao lado do corpo do amigo, sua capa branca com o grifo tremulando levemente na corrente de ar da caverna. Ele colocou a mão sobre o peito de Rickson, murmurando uma breve oração, invocando a luz de Lenória para guardar a alma do guerreiro caído. “Você cumpriu seu dever, Rickson. Nós não te esqueceremos.”
Um silêncio reverente tomou o grupo. Até mesmo Raella, fraca e sangrando, abaixou a cabeça em homenagem.
Gillian quebrou o silêncio, olhando para a porta da caverna, onde sombras dançavam. “Vamos. Cada segundo conta. Raella precisa sair daqui viva, e o corpo de Rickson merece ser levado de volta. Se não nos movermos agora, todo o sacrifício será em vão.”
Um murmúrio de concordância percorreu o grupo. Derek conduziu o primeiro passo cauteloso, verificando o terreno. Thomas e Jetto se posicionaram, prontos para enfrentar qualquer ameaça repentina. Ikarus fechou os olhos por um instante, respirando profundamente, antes de colocar-se à frente do grupo. O peso da liderança e da responsabilidade pairava sobre ele, mas a determinação de proteger seus companheiros e a princesa era maior que qualquer medo.
Com passos silenciosos, eles começaram a retirada, cuidadosamente equilibrando Raella e o corpo de Rickson. As paredes úmidas da caverna pareciam engolir seus movimentos, e cada estalo do chão de pedra ecoava como um lembrete do perigo que ainda os esperava lá fora. A floresta da Dríade os aguardava, mas juntos, ainda carregando a força da coragem, do sacrifício e da amizade, Ikarus e seus companheiros avançavam para o próximo desafio, sabendo que cada escolha poderia ser a diferença entre a vida e a morte.
O caminho à frente era incerto, mas havia uma certeza que ninguém no grupo ousaria negar: eles não falhariam agora, não enquanto houvesse um fio de esperança para a princesa e um legado a honrar.

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