Por Yuri Schein
O homem moderno se acostumou com absurdos.
Ele aperta um botão e uma sala inteira muda de temperatura. Outro botão, e luz surge instantaneamente. Toca uma superfície de vidro no bolso e conversa em tempo real com alguém do outro lado do planeta. Entra numa máquina de metal de dezenas de toneladas e atravessa os céus acima das nuvens a quase 900 km/h enquanto toma café olhando pela janela.
E ainda assim reclama de tédio.
A civilização contemporânea banalizou o assombro.
Nossos antepassados atravessavam oceanos sem GPS. Morriam de infecções simples. Passavam calor insuportável no verão e frio brutal no inverno. Uma carta levava meses para chegar. Viajar para outro continente era uma experiência quase mítica. Hoje um adolescente assiste vídeos de Tóquio, Oslo e Nova York em segundos enquanto ignora completamente a magnitude tecnológica disso.
O problema do homem moderno não é falta de conforto. É excesso de familiaridade.
A rotina matou o maravilhamento.
A geladeira virou um objeto “normal”, mesmo sendo literalmente uma máquina que desacelera a decomposição dos alimentos através de princípios físicos extremamente complexos. O avião virou “transporte comum”, embora seja uma demonstração monumental de matemática, engenharia, metalurgia, aerodinâmica e coordenação humana. O Wi-Fi parece banal, mesmo sendo transmissão invisível de informação através do espaço em velocidade absurda.
A civilização inteira repousa sobre milagres tecnológicos que a maioria não compreende nem minimamente.
E talvez isso revele algo profundo sobre a natureza humana: o homem não demora muito para transformar dádivas em cenário de fundo.
O extraordinário vira paisagem.
Talvez seja por isso que tanta gente viva anestesiada. Não porque o mundo seja sem graça, mas porque a familiaridade corroeu a capacidade de contemplação. O sujeito olha mais para o feed do que para a realidade. Já não percebe a beleza das cidades iluminadas à noite, o som distante dos aviões, os satélites cruzando o céu, as pontes gigantescas, os cabos submarinos, os sistemas elétricos, os servidores, os motores, os radares, os algoritmos, os circuitos, os milhares de cérebros humanos trabalhando juntos para sustentar a civilização.
Tudo isso existe.
Tudo isso é impressionante.
Mas o homem acostumou-se.
E talvez uma das maiores pobrezas espirituais e intelectuais da modernidade seja exatamente esta: viver cercado de maravilhas e ainda assim sentir que nada tem graça.
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