Por Yuri Schein
O tomista tenta impressionar com sua arquitetura metafísica: Deus é a causa primeira, o homem é causa secundária, e a tal da “premoção física” seria o elo elegante entre ambos. Deus, dizem eles, “move previamente” a vontade humana para que ela aja conforme Seu plano. Soa profundo. Parece sofisticado. Mas, quando você remove o latim, a poeira escolástica e o charme medieval, sobra o quê?
Um empurrão. Só que com toga.
Sim, o empirista vulgar acha que causalidade é uma bola batendo na outra. O tomista, mais educado, diz que não, que é algo metafísico. Mas aí ele descreve essa causalidade metafísica exatamente como um tipo de influência real que passa de Deus para a criatura, movendo a mesma infalivelmente a agir, como quem gira um peso, Parabéns: você apenas pegou o mecanicismo e o colocou em um terno aristotélico.
Tomás de Aquino queria preservar duas coisas ao mesmo tempo: a soberania divina e a realidade das causas secundárias. Resultado? Um sistema que não consegue sustentar nenhum dos dois sem entrar em contradição.
Pense comigo: se Deus premove a vontade de forma infalível, então o ato já está determinado. Não há “cooperação real”, há execução. A criatura não causa nada; apenas encena uma causalidade previamente garantida. Agora, se você tentar suavizar isso dizendo que a vontade ainda tem algum grau de autonomia, então a premoção deixa de ser infalível. E se não é infalível, Deus não determina o ato. É o que eles defendem, Deus move a criatura como quem move um peão e o peão gira conforme sua natureza.
O tomista quer os dois lados: determinação divina total e causalidade criada genuína. O resultado é uma espécie de “dupla autoria” metafísica onde ninguém consegue explicar quem realmente fez o quê.
E aqui entra o golpe fatal.
Se Deus é causa suficiente para um evento, então não há necessidade de uma causa secundária real. Se, por outro lado, a causa secundária é necessária para completar o evento, então Deus não é causa suficiente. Não existe essa de “duas causas totais do mesmo efeito no mesmo sentido”, isso não é profundidade metafísica, é redundância travestida de filosofia.
O ocasionalismo simplesmente se recusa a brincar desse jogo confuso.
Ele afirma o óbvio que o sistema tomista tenta evitar: só Deus causa. Criaturas não possuem poder causal autônomo. Elas são ocasiões, pontos na ordem criada nos quais Deus age conforme Seu decreto eterno. Não há transmissão de poder, não há “influência” metafísica, não há essa ficção de causalidade compartilhada.
E antes que alguém tente fugir para o empirismo (o refúgio padrão quando a metafísica falha), vale lembrar: você nunca observou causalidade em lugar nenhum.
David Hume já demoliu essa ilusão há séculos. O que vemos é sequência, não causa. O tomista até concorda, diz que causalidade é metafísica. Ótimo. Mas então por que continua descrevendo essa tal premoção como se fosse uma espécie de força que apenas "move, ou energiza” a vontade?
Move como? Empurra como? Energiza como? Atua onde?
Silêncio.
Porque, no fundo, a premoção física é uma tentativa de manter o vocabulário metafísico enquanto se pensa como um físico aristotélico. É um sistema que não teve coragem de abandonar completamente o mundo das engrenagens, mas também não consegue justificá-lo.
O ocasionalismo, por outro lado, não precisa dessas muletas. Ele não divide a causalidade, não cria camadas desnecessárias, não inventa mecanismos invisíveis para salvar tradições filosóficas antigas. Ele afirma, sem rodeios, que Deus decreta e efetua todas as coisas diretamente.
Sem intermediários. Sem teatro ontológico. Sem “premoções”.
No fim das contas, a premoção física é apenas isso: um esforço escolástico para evitar a conclusão inevitável, que, se Deus é verdadeiramente soberano, então Ele não compartilha causalidade com ninguém.
E toda tentativa de dizer o contrário acaba, inevitavelmente, parecendo o que realmente é:
Um aristotelismo tentando sobreviver de cosplay teológico.

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