segunda-feira, 18 de maio de 2026

Joseph Smith

 

Por Yuri Schein 

Joseph Smith talvez seja um dos exemplos mais fascinantes de como novas religiões frequentemente nascem da combinação entre carisma pessoal, imaginação religiosa e pessoas desesperadas por “revelações novas”. O fundador do A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não surgiu num vácuo. Ele apareceu num contexto americano do século XIX saturado de avivamentos emocionais, misticismo popular, superstição rural, caça a tesouros, visões espirituais e competição religiosa frenética.

Era praticamente o ambiente perfeito para alguém aparecer dizendo: “Recebi uma revelação secreta perdida por séculos.”

E foi exatamente isso que aconteceu.

Segundo a narrativa mórmon, Joseph Smith teria recebido visitas do anjo Morôni, que revelou a existência de placas douradas enterradas contendo a história de antigas civilizações israelitas na América. Essas placas teriam sido traduzidas miraculosamente e se tornaram o Livro de Mórmon.

Agora pause por um segundo e observe o padrão.

Toda religião alternativa importante parece precisar de:

revelação secreta;

documentos ocultos;

conhecimento perdido;

restauração exclusiva;

autoridade especial concentrada num homem.

O gnosticismo tinha gnosis. O islamismo tinha revelação privada na caverna. O mormonismo tem placas douradas invisíveis ao público.

O roteiro muda pouco.

E aqui começa o problema epistemológico devastador.

Onde estão as placas douradas?

Convenientemente indisponíveis.

Joseph Smith afirmou que o anjo as levou de volta após a tradução. Claro. Porque falsas religiões quase sempre dependem exatamente desse mecanismo: a evidência decisiva permanece inacessível enquanto o fundador exige confiança absoluta em seu testemunho pessoal.

É extraordinário como isso acontece repetidamente.

“Tenho provas sobrenaturais revolucionárias.” “Podemos examiná-las?” “Infelizmente desapareceram milagrosamente.”

Conveniente demais para ser coincidência.

E piora.

O processo de “tradução” das placas não se parece em nada com tradução normal. Relatos históricos mostram que Joseph Smith frequentemente utilizava pedras de vidente colocadas dentro de um chapéu para “traduzir” os textos. Sim, o fundador de uma das maiores religiões americanas do mundo alegava receber revelações olhando para pedras dentro de um chapéu.

Mas espere — fica ainda mais impressionante.

Muitos dos testemunhos históricos apontam que Joseph Smith já estava envolvido anteriormente com:


caça a tesouros;

magia popular;

práticas supersticiosas;

ocultismo folclórico;

uso de pedras divinatórias.

E então o homem com histórico de busca mágica por tesouros acaba “descobrindo” placas douradas escondidas por um anjo.

O mínimo que se pode dizer é que o contexto inteiro parece menos “restauração divina” e mais “religião nascida da cultura mágica rural americana”.

Mas o problema central não é apenas histórico. É teológico.

O mormonismo destrói completamente a doutrina bíblica de Deus.


Segundo o desenvolvimento doutrinário mórmon:


Deus Pai teria sido um homem exaltado;

homens podem tornar-se deuses;

existem múltiplos deuses;

Deus possui corpo físico glorificado;

a divindade participa de progressão eterna.


Isso colide frontalmente com a revelação bíblica.

Isaías declara:

“Antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá.”

O Deus bíblico não é um homem evoluído cósmicamente. Ele é eterno, autoexistente, absoluto e incomparável.

Mas o homem natural odeia isso.

O coração humano quer divinização autônoma. Quer ascender. Quer tornar-se deus. O mormonismo oferece exatamente essa fantasia: “Como Deus é, o homem poderá ser.”

É literalmente a velha tentação do Éden reciclada:

“Sereis como Deus.”

E aqui aparece novamente o padrão das falsas religiões: elas sempre alimentam o orgulho humano.

O evangelho humilha o homem. O mormonismo o exalta cosmicamente.

O cristianismo bíblico diz: “Você é pecador e depende inteiramente da graça divina.” O mormonismo responde: “Você pode tornar-se um deus.”

Percebe a diferença colossal?

Jesus Cristo no cristianismo é o eterno Filho de Deus encarnado. No mormonismo clássico, Ele torna-se um entre muitos seres divinos dentro de um cosmos politeísta funcional. Isso não é mero detalhe secundário. É outro deus.

E então surge outra pergunta fatal: se Joseph Smith realmente restaurou a verdade perdida, como a Igreja inteira teria desaparecido por séculos logo após os apóstolos?

Jesus Cristo prometeu:

“Edificarei a minha igreja.”

Então Cristo falhou completamente até Joseph Smith aparecer no século XIX com pedras mágicas e placas invisíveis?

O restauracionismo mórmon implicitamente transforma quase dois mil anos de cristianismo em fracasso total. A igreja teria permanecido em apostasia massiva até um americano do século XIX resolver o problema.

É difícil exagerar o nível de arrogância histórica disso.

Além disso, o Livro de Mórmon enfrenta problemas enormes:

anacronismos históricos;

ausência de evidência arqueológica consistente;

paralelos extensivos com linguagem da King James Version;

mudanças textuais posteriores;

dependência do ambiente religioso americano da época.

Mas talvez o mais revelador seja o próprio padrão religioso.

Joseph Smith segue o modelo clássico do falso profeta:


revelação exclusiva;

autoridade centralizada;

novas escrituras;

restauração secreta;

revisão da fé histórica;


dependência do testemunho pessoal do fundador.

O padrão aparece repetidamente na história porque o coração humano ama novidade espiritual combinada com autoridade carismática.

João Calvino entendia corretamente que a mente humana é uma fábrica perpétua de ídolos. O mormonismo é um excelente exemplo disso: uma reconstrução inteira do cristianismo baseada não na Escritura, mas em revelações extrabíblicas produzidas por um homem reivindicando acesso privilegiado ao sobrenatural.

No fim, Joseph Smith revela algo profundamente humano: o desejo incessante de melhorar, suplementar ou corrigir a Palavra de Deus.

Mas a Escritura não precisava de restauração. O homem é que precisava de arrependimento.

E desde o Éden continua surgindo alguém prometendo exatamente a mesma coisa: novo conhecimento, nova revelação, novo caminho para ascensão.

A serpente continua extremamente criativa com marketing religioso.

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