segunda-feira, 18 de maio de 2026

Alá

 


por Yuri Schein 

Alá é apresentado no Islã como o único Deus verdadeiro, absolutamente soberano, transcendente e incomparável. O próprio termo “Allah” simplesmente significa “o Deus” em árabe. Cristãos árabes inclusive usam essa palavra historicamente para referir-se ao Deus bíblico. O problema, portanto, não é meramente linguístico. O problema é conceitual e teológico.

Porque o “Alá” do Islã não corresponde ao Deus revelado nas Escrituras.

E aqui começa a colisão inevitável.

O Deus bíblico revela-Se como:


Pai;

Filho;

Espírito Santo;

um único Deus em três pessoas.


Já o Islã reage quase visceralmente contra isso. A doutrina da Trindade é tratada como blasfêmia máxima. O Alcorão insiste repetidamente que Deus “não gera nem foi gerado”.

Ou seja: o Islã rejeita explicitamente a filiação eterna de Jesus Cristo.

E isso não é detalhe secundário. É destruição completa do evangelho cristão.

Porque no cristianismo Deus não apenas possui amor — Ele é amor eternamente dentro da própria Trindade. Antes da criação já existia:


amor entre Pai e Filho;

comunhão eterna;

relacionamento pessoal absoluto.


Já no Islã surge uma dificuldade filosófica séria.

Se Alá existe eternamente sozinho como unidade absoluta sem distinções pessoais internas, então antes da criação não havia relacionamento interpessoal eterno. O amor torna-se algo contingente à criação. Deus precisaria criar para expressar certas relações pessoais.

O Deus bíblico não possui essa limitação.

A Trindade não é contradição; é precisamente o fundamento da plenitude pessoal divina.

Mas o Islã prefere um monoteísmo rigidamente unitário porque o homem natural frequentemente acha a transcendência abstrata mais aceitável do que o escândalo da encarnação.

E aqui chegamos ao centro da questão: o Islã rejeita sobretudo a ideia de Deus entrando na história como homem.

Jesus Cristo é ofensivo para o sistema islâmico justamente porque Ele destrói a distância metafísica absoluta entre Deus e criação.

No cristianismo:

Deus entra no mundo;

assume carne;

sofre;

morre;

ressuscita.

Para o Islã isso parece inconcebível.

Então Alá permanece absolutamente transcendente, distante e incomparável. Não existe encarnação. Não existe união hipostática. Não existe Filho eterno compartilhando da essência divina.

O problema é que a Escritura inteira aponta justamente para isso.

João declara:

 “O Verbo se fez carne.”

Isso destrói completamente a concepção islâmica de Deus.

Além disso, existe outro problema profundo: o caráter relacional de Deus.

No Islã, a relação entre homem e Alá frequentemente enfatiza:

submissão;

servidão;

obediência;

decreto absoluto.

Claro, a Bíblia também ensina soberania divina. Mas no cristianismo há algo além: adoção.

O crente é chamado filho de Deus em Cristo.

Isso é gigantesco.

Porque o evangelho não oferece apenas submissão judicial. Oferece reconciliação filial através do Filho eterno.

Mas o Islã rejeita precisamente o fundamento disso: a filiação divina de Cristo.

E então o sistema inteiro muda inevitavelmente.

Sem Filho eterno:

não há encarnação verdadeira;

não há expiação substitutiva bíblica;

não há mediação divina-humana perfeita;

não há união salvífica em Cristo.

O resultado é uma religião centrada principalmente em:

submissão;

lei;

obediência;

julgamento;

misericórdia soberana sem expiação no sentido cristão histórico.

E isso leva a outra questão crucial: como Alá pode ser perfeitamente justo e ao mesmo tempo perdoar pecadores sem satisfação objetiva da justiça?

No evangelho bíblico, a cruz resolve exatamente isso. Deus permanece:

justo;

santo;

e justificador do pecador.

A justiça não é ignorada; ela é satisfeita em Cristo.

O Islã não possui equivalente funcional verdadeiro para isso. O perdão repousa fundamentalmente na vontade soberana de Alá.

Mas então surge o problema: onde a justiça divina é plenamente satisfeita?

Romanos responde através da cruz. O Islã rejeita a cruz como centro redentivo.

E aqui aparece novamente o escândalo que o homem natural odeia: a necessidade de expiação objetiva.

O orgulho humano prefere:

mérito;

submissão;

desempenho religioso;

balança moral.

O evangelho destrói tudo isso dizendo: você depende completamente da obra de Cristo.

João Calvino compreendia corretamente que toda falsa religião acaba tentando preservar alguma forma de autonomia humana diante de Deus. O Islã, embora profundamente teísta e moralmente sério em vários aspectos, ainda rejeita o coração da revelação cristã: Deus reconciliando pecadores consigo mesmo através do Filho encarnado.

E então chegamos a outra ironia gigantesca.

O Islã afirma honrar:


Abraão;

Moisés;

Jesus Cristo.


Mas redefine radicalmente suas mensagens.

Jesus vira profeta. O evangelho vira anúncio incompleto. A cruz perde centralidade. A filiação divina desaparece.

É como usar personagens bíblicos enquanto desmonta precisamente o que eles proclamaram.

E isso cria outro problema histórico enorme: os manuscritos bíblicos anteriores ao Islã já ensinavam as doutrinas cristãs rejeitadas pelo Alcorão.

Então novamente surge o dilema:

ou Deus falhou em preservar Sua revelação;

ou o Islã contradiz a revelação anterior.

Não existe fuga simples disso.

Além disso, Alá no Islã frequentemente aparece como vontade absoluta quase desvinculada de natureza pactuai revelacional como na Escritura bíblica. A soberania divina islâmica tende ao voluntarismo: algo é bom porque Alá decreta.

No cristianismo bíblico, Deus decreta conforme Sua natureza santa, justa e imutável.

Pode parecer detalhe técnico, mas muda profundamente a visão moral do universo.

No fim, o problema principal não é simplesmente “Alá vs Deus” linguisticamente. O problema é que o conceito islâmico de Deus rejeita exatamente aquilo que a Escritura apresenta como ápice da revelação divina: Jesus Cristo como Deus encarnado, crucificado e ressurreto.

E desde o primeiro século esse continua sendo o grande escândalo para o homem natural.

Porque um Deus distante parece filosoficamente respeitável. Um Deus crucificado humilha o orgulho humano completamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário