domingo, 24 de maio de 2026

A SOBERANIA DE DEUS E OS EVENTOS PECAMINOSOS



Por Yuri Schein

Poucas doutrinas incomodam tanto o humanismo religioso quanto a soberania absoluta de Deus. O homem moderno até aceita um “Deus amoroso”, um “Deus conselheiro” ou um “Deus motivacional”, mas entra em colapso quando confrontado com o Deus bíblico que decreta a história inteira — inclusive eventos envolvendo pecado humano.

O arminianismo, em grande parte, existe como uma tentativa contínua de proteger Deus das implicações de sua própria soberania revelada nas Escrituras. O problema é que, nesse esforço, acaba frequentemente protegendo mais o livre-arbítrio filosófico do que o texto bíblico.

A crucificação de Cristo é o exemplo mais devastador contra a ideia de que Deus apenas “permite” passivamente os atos maus dos homens. Pedro declara em Atos 2 que Jesus foi entregue “pelo determinado desígnio e presciência de Deus”. Em Atos 4, a igreja ora reconhecendo que Herodes, Pôncio Pilatos, gentios e judeus fizeram exatamente aquilo que “a mão e o propósito” de Deus haviam predeterminado.

Isso destrói completamente a tentativa de transformar a cruz em um simples acidente histórico que Deus apenas previu. A crucificação não pegou Deus de surpresa. O maior pecado da história foi simultaneamente o maior decreto redentivo da história.

E aqui muitos entram em desespero filosófico: “Então Deus decretou o pecado?”

A Bíblia responde sem pedir desculpas à sensibilidade moderna: sim, Deus decretou eventos pecaminosos sem se tornar pecador. O texto não suaviza isso.

Os irmãos de José venderam-no por inveja e maldade. Ainda assim, José afirma em Gênesis 45:8: “não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus”. Mais tarde, em Gênesis 50:20, ele declara: “vós intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem”. Observe: não são dois eventos separados. É o mesmo ato possuindo duas intenções distintas — a maldade humana e o propósito soberano divino.

A Escritura nunca apresenta Deus como um espectador ansioso observando criaturas autônomas bagunçarem o universo enquanto ele tenta remediar a situação. Esse deus impotente pertence mais à filosofia grega e ao sentimentalismo moderno do que ao Cristianismo bíblico.

Até mesmo o governo do Anticristo aparece subordinado ao decreto divino. Apocalipse 17:17 afirma que Deus colocou no coração das nações o desejo de cumprir os seus propósitos entregando poder à besta. O texto não diz que Deus apenas “usou depois”. Ele dirige a história para cumprir seus decretos.

O problema do arminianismo é partir de um pressuposto humanista: se Deus decretou algo envolvendo pecado, então ele deve ser moralmente culpado. Mas isso confunde causalidade divina com culpabilidade moral humana.

O calvinismo histórico sempre distinguiu essas categorias. Deus decreta todas as coisas soberanamente, mas os homens continuam agindo segundo seus próprios desejos maus. Judas quis trair. Herodes quis matar. Os irmãos de José quiseram invejar. Deus não precisou forçar inocentes a pecar contra suas vontades; ele ordenou soberanamente que agentes maus realizassem aquilo que desejavam fazer.

O homem natural odeia isso porque deseja um universo onde exista ao menos um território independente de Deus. Quer preservar algum espaço de autonomia absoluta onde a criatura possa dizer: “Aqui, Senhor, tua vontade não entrou”. Mas a Bíblia destrói essa fantasia repetidamente.

Provérbios afirma que até o coração do rei é controlado pelo Senhor. Efésios diz que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade”. Isaías apresenta Deus declarando o fim desde o princípio. E Romanos 9 elimina qualquer tentativa de colocar o homem no tribunal para julgar o Criador: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?”

O curioso é que muitos acusam o calvinismo de tornar Deus “menos amoroso”, enquanto a própria redenção depende exatamente dessa soberania absoluta. Se Deus não governa até os atos maus dos homens, então nem mesmo a cruz poderia garantir salvação. Tudo dependeria da instabilidade da vontade humana.

Mas o Evangelho existe justamente porque Deus governa até aquilo que homens ímpios fazem contra ele.

A cruz não foi um improviso.

Foi decreto.


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