A Parábola dos Lavradores Maus: O Reino Não Foi Adiado, Foi Transferido
Por Yuri Schein
A parábola dos lavradores maus (Mateus 21:33-46; Marcos 12:1-12; Lucas 20:9-19) é uma das passagens mais devastadoras já pronunciadas por Cristo contra a liderança de Israel. E, como costuma acontecer, muitos sistemas teológicos modernos conseguem transformar um texto cristalino em um quebra-cabeça confuso para sustentar suas próprias tradições.
Jesus conta a história de um proprietário que planta uma vinha, cerca-a, prepara tudo e a entrega a lavradores. Quando chega o tempo dos frutos, envia seus servos para receber o que lhe pertence. Os lavradores espancam uns, matam outros e apedrejam outros. Finalmente, o proprietário envia seu próprio filho, pensando: "Respeitarão meu filho". Mas os lavradores o matam para tomar a herança.
A pergunta de Jesus é simples:
"Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?" (Mateus 21:40).
A resposta dos próprios ouvintes é igualmente simples:
"Dará afrontosa morte a esses maus e arrendará a vinha a outros lavradores, que lhe entreguem os frutos nos seus tempos" (Mateus 21:41).
Observe o que Cristo conclui:
"Portanto, eu vos digo que o Reino de Deus vos será tirado e será dado a uma nação que produza os seus frutos" (Mateus 21:43).
O texto não diz que o Reino seria adiado.
Não diz que o Reino seria suspenso.
Não diz que o Reino seria colocado em espera por dois mil anos.
Não diz que Deus voltaria ao Plano A depois da Igreja.
Diz exatamente o contrário.
O Reino seria tirado de uma administração infiel e entregue a outro povo.
Quem é esse povo?
Pedro responde:
"Vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus" (1 Pedro 2:9).
A Igreja não é um parêntese. A Igreja é a continuação do povo pactual de Deus em sua forma consumada.
O próprio contexto da parábola destrói o dispensacionalismo. Os líderes judeus imaginavam ser os herdeiros naturais do Reino por causa de sua descendência étnica. Cristo anuncia que sua posição privilegiada seria removida e entregue a outro povo que produzisse frutos.
A transferência é explícita.
Mas o dispensacionalista lê o texto e conclui algo próximo de:
"Na verdade, o Reino não foi transferido. Foi adiado. E um dia voltará para o grupo de quem foi tirado."
É quase uma habilidade sobrenatural de escapar da conclusão óbvia.
Se o Reino foi tirado e dado a outro povo, então foi tirado e dado a outro povo.
Não é necessário um doutorado para acompanhar a lógica da frase.
A confirmação histórica veio em 70 d.C., quando Jerusalém foi destruída pelas legiões romanas, exatamente conforme Cristo havia profetizado em Mateus 24.
O sistema da Antiga Aliança foi julgado.
O templo caiu.
O sacerdócio levítico terminou.
Os sacrifícios cessaram.
A administração infiel foi removida.
Os lavradores maus receberam o juízo anunciado.
Essa não é uma expectativa futura. É um evento histórico.
O proprietário veio em julgamento contra aqueles lavradores.
O preterismo parcial apenas reconhece aquilo que o próprio texto afirma.
Agora vejamos a chamada doutrina dos "vencedores".
Segundo algumas versões dessa teologia, nem todos os cristãos participarão do Reino Milenar. Apenas um grupo especial de vencedores governará com Cristo durante mil anos. Os demais salvos ficariam excluídos dessa fase do Reino, sofrendo alguma forma de disciplina ou perda temporária.
O problema é que essa parábola ensina exatamente o contrário.
Cristo não fala sobre uma divisão entre cristãos vencedores e cristãos não vencedores.
Ele não fala sobre duas categorias de herdeiros.
Ele não fala sobre uma elite espiritual recebendo o Reino enquanto outros salvos ficam do lado de fora.
A distinção da parábola é entre os lavradores infiéis e os novos administradores fiéis.
Entre o Israel incrédulo e o povo messiânico.
Entre os rejeitadores do Filho e aqueles que o recebem.
O Reino é entregue ao povo que produz frutos.
Não a uma casta secreta de supercrentes.
A própria linguagem de Mateus 21:43 é corporativa.
O Reino é dado a uma nação.
Não a um clube VIP celestial.
Além disso, o Novo Testamento inteiro ensina que todos os que estão unidos a Cristo participam de sua herança.
Romanos 8:17 afirma:
"E, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo."
Não existe uma categoria de coerdeiros de primeira classe e outra de segunda classe.
Todos os salvos estão em Cristo.
Todos participam da mesma herança.
Todos pertencem ao mesmo Reino.
A parábola dos lavradores maus é uma história sobre julgamento pactual e transferência administrativa do Reino, não sobre um milênio literal reservado para uma elite espiritual.
O pós-milenismo enxerga aqui algo glorioso.
O Reino não fracassou.
O Reino não entrou em modo de espera.
O Reino não foi suspenso até que Israel resolvesse aceitá-lo.
O Reino foi estabelecido.
Os lavradores maus foram julgados.
A pedra rejeitada tornou-se a principal pedra angular.
Cristo recebeu toda autoridade no céu e na terra (Mateus 28:18).
E seu Reino continua crescendo na história.
A parábola termina com derrota para os rebeldes e vitória para o Filho.
Não com um adiamento.
Não com um plano alternativo.
Não com uma pausa de dois mil anos.
Mas com a certeza de que o dono da vinha receberá os frutos que lhe pertencem.
E é exatamente isso que Cristo está fazendo na história. O Reino já pertence ao Rei, os lavradores maus já foram julgados, e a pedra que os construtores rejeitaram continua esmagando toda oposição até que a terra se encha do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar. (Isaías 11:9).

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