Por Yuri Schein
O grupo havia acampado ao sopé dos Montes Lendários, onde a névoa densa subia das encostas como um véu vivo. O fogo crepitava baixo, projetando sombras alongadas nas rochas. Derek, Ikarus, Gillian, Raella e Rickson descansavam, mas todos sentiam a presença imponente de Thomas Walker ali perto — o meio-dragão mantinha-se um pouco afastado, suas asas parcialmente abertas captando a brisa noturna.
Rickson, o guerreiro de Aldora, olhava para Thomas com um misto de respeito e curiosidade. Após um longo silêncio, falou:
— Thomas… desde que te vi pela primeira vez, não consigo parar de pensar nisso. Os dragões daqui são tão diferentes dos de Aldora.
Thomas Walker virou-se lentamente. As escamas rubras em seus ombros refletiam a luz alaranjada do fogo. Seus chifres negros curvados projetavam sombras dramáticas em seu rosto.
— Fale, Rickson. O que você sabe dos dragões de Aldora?
Rickson atiçou o fogo com um galho antes de responder:
— Em Aldora, os dragões são selvagens. Seres de puro instinto, fogo e fúria. Não falam nossa língua, não assumem forma humanóide, não lançam magias como os magos. São forças da natureza. Eu montava Vermethar, uma dragonesa colossal de escamas vermelho-sangue. Nunca trocamos palavras, mas havia uma ligação de respeito e sangue. Montá-la era conquistar confiança, não domar.
Raella, a maga de cura, escutava atentamente, com o cajado apoiado ao lado do corpo e a capa mágica sobre os ombros.
Thomas assentiu devagar, sua voz grave ecoando:
— Aqui em Lenória é diferente. Os dragões dos Montes Lendários possuem consciência plena. Eles falam, pensam, fazem política, estudam magia arcana e podem se transformar em formas humanoides quando desejam. Existe até uma grande cidade Draconica escondida entre os picos — Drakalyon —, onde muitos vivem em forma humanóide. Eu nasci lá… meio humano, meio dragão. Por isso nunca fui totalmente aceito nem por um lado, nem pelo outro.
Ikarus inclinou a cabeça, interessado:
— Como surgiu essa divisão tão grande?
Thomas respirou fundo, como se organizasse uma explicação que já havia pensado muitas vezes:
— Nossas lendas contam que, nos tempos primordiais, antes mesmo da Guerra de Duzentos Anos, todos os dragões eram um só povo. Durante a Grande Fractura, alguns dragões aceitaram o dom de Aethral, a Tecelã das Formas — uma entidade antiga de magia consciente. Eles ganharam intelecto aguçado, capacidade de transformação e domínio sobre as artes arcanas. Tornaram-se os dragões de Lenória.
Os que rejeitaram esse dom para preservar a pureza primordial permaneceram selvagens, indomáveis e poderosos em sua forma bestial — os dragões de Aldora. Por isso, em Aldora eles são montados como parceiros de guerra ferozes. Aqui, eles podem ser aliados, conselheiros… ou inimigos calculistas.
Derek soltou um assobio baixo.
— E você, Thomas? Em qual mundo você se encaixa?
O meio-dragão abriu um sorriso amargo, batendo levemente as asas.
— Em nenhum. Sou a ponte… ou a rachadura entre os dois sangues. Foi por isso que os senhores de Drakalyon me enviaram para Lenória Imperial: para provar meu valor. Talvez essa missão contra o Necromante seja a chance de unir os dois tipos de dragão novamente. Selvagens e conscientes, força bruta e magia antiga.
De repente, um rugido poderoso e inteligente ecoou das montanhas acima — profundo, ressonante, claramente carregado de consciência.
Thomas ergueu a cabeça, olhos âmbar brilhando.
— Parece que um dos meus parentes de sangue puro quer nos observar… ou nos testar.
O grupo se levantou, mãos nas armas. Rickson olhou para Thomas com renovado respeito.
— Então que venham. Talvez seja hora dos dois sangues dracônicos se encontrarem.
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