A Ciência Não Pode Salvar a Si Mesma: Uma Crítica ao Cientificismo e aos Limites da Epistemologia Empírica (Parte I)
Por Yuri Schein
Vivemos em uma época singular da história humana. Nunca a ciência produziu tantos avanços tecnológicos, nunca o conhecimento especializado exerceu tamanho prestígio social e nunca a palavra "científico" foi utilizada com tanta frequência como selo de legitimidade para praticamente qualquer afirmação. Basta que um discurso seja precedido pela expressão "estudos mostram" ou "a ciência provou" para que, aos olhos de muitas pessoas, toda investigação crítica seja imediatamente encerrada. A conclusão parece inevitável: se a ciência afirmou, resta apenas aceitar.
Esse fenômeno, entretanto, revela algo muito mais profundo do que respeito pelo conhecimento. Ele revela uma mudança de paradigma religioso. Em muitas sociedades ocidentais, especialmente após o enfraquecimento da influência do cristianismo na esfera pública, a confiança absoluta anteriormente depositada na revelação divina foi transferida para a ciência. Não se trata mais de considerar a ciência como uma ferramenta extraordinária para compreender aspectos do mundo criado; ela passou a ocupar, para muitos, o lugar de árbitra suprema da realidade. A autoridade antes atribuída à Escritura foi substituída pela autoridade do laboratório. O sacerdote cedeu espaço ao especialista, o púlpito ao auditório universitário, e o "assim diz o Senhor" foi trocado pelo "segundo os especialistas".
Esse deslocamento não ocorreu porque a ciência demonstrou ser capaz de responder às grandes perguntas da existência. Ao contrário, ocorreu porque a cultura moderna passou a pressupor que somente aquilo que pode ser investigado empiricamente merece o nome de conhecimento. Essa pressuposição recebe diferentes nomes na filosofia contemporânea — cientificismo, naturalismo epistemológico ou empirismo metodológico elevado à condição de filosofia —, mas todos compartilham uma característica comum: a crença de que a ciência constitui o único caminho legítimo para a verdade.
O problema é que essa crença jamais foi uma descoberta científica.
Nenhum microscópio encontrou o cientificismo. Nenhum telescópio o observou. Nenhum acelerador de partículas detectou a proposição de que "somente a ciência produz conhecimento verdadeiro". Essa afirmação não é resultado de um experimento; é uma tese filosófica. E justamente por isso ela já nasce em conflito com aquilo que pretende defender.
Essa é uma das ironias mais profundas do pensamento moderno. O cientificismo reivindica autoridade exclusiva para a ciência utilizando um argumento que não pode ser produzido pela própria ciência. Antes mesmo de iniciar qualquer experimento, ele precisa assumir uma crença acerca da natureza do conhecimento. Em outras palavras, a ciência não estabelece o cientificismo; é o cientificismo que procura estabelecer a ciência como autoridade absoluta.
Essa observação pode parecer apenas um detalhe técnico, mas suas implicações são devastadoras. Se a afirmação "somente a ciência produz conhecimento" não pode ser demonstrada cientificamente, então ela pertence ao domínio da filosofia. Consequentemente, admite-se imediatamente que existe pelo menos um conhecimento verdadeiro que não foi obtido pelo método científico. O cientificismo, portanto, contradiz sua própria tese fundamental.
Isso nos conduz a uma distinção frequentemente ignorada no debate público: ciência e cientificismo não são a mesma coisa.
A ciência consiste em um conjunto de métodos destinados a investigar regularidades observáveis da criação. Ela formula hipóteses, realiza experimentos, compara resultados, revisa modelos e procura construir descrições cada vez mais adequadas de determinados fenômenos. Nada disso constitui um problema para a cosmovisão cristã. Pelo contrário, historicamente, muitos dos pioneiros da ciência moderna compreendiam seu trabalho precisamente como uma investigação da ordem criada por Deus. A convicção de que o universo possui regularidade, racionalidade e estrutura inteligível nasceu, em larga medida, da crença de que ele foi criado por um Legislador racional e fiel.
O cientificismo, entretanto, representa algo completamente distinto. Ele não é um método de investigação, mas uma filosofia sobre o conhecimento. Sua afirmação central não é que a ciência seja útil, mas que apenas ela possui autoridade para determinar o que é verdadeiro. Essa mudança aparentemente pequena transforma um instrumento em uma cosmovisão. O laboratório deixa de ser um lugar onde se investigam fenômenos e passa a ocupar o papel de tribunal supremo da realidade.
Esse deslocamento produz consequências que frequentemente passam despercebidas. Quando alguém afirma: "Eu só acredito naquilo que pode ser provado cientificamente", imagina estar pronunciando uma frase profundamente racional. Entretanto, basta uma pergunta simples para revelar a dificuldade: essa própria afirmação foi cientificamente provada?
Naturalmente, não.
Ela é uma escolha filosófica. É um pressuposto. É uma crença sobre a natureza do conhecimento.
E toda crença dessa espécie pertence justamente ao campo que o cientificismo procura desqualificar.
Aqui encontramos um princípio frequentemente enfatizado pela tradição apologética pressuposicional: nenhuma cosmovisão consegue escapar de pressupostos últimos. Toda investigação começa em algum ponto que não foi previamente demonstrado. A questão nunca é se possuímos pressupostos. A verdadeira questão consiste em saber quais pressupostos tornam possível o próprio conhecimento.
É exatamente nesse ponto que a crítica ao cientificismo se torna muito mais profunda do que uma mera disputa entre religião e ciência. A discussão não gira em torno de fósseis, evolução, cosmologia ou biologia. O debate é anterior a qualquer disciplina científica. Trata-se de perguntar quais condições tornam possível a existência de qualquer ciência.
Para que um cientista realize seu trabalho, ele precisa pressupor que existe um mundo externo relativamente estável, que suas faculdades cognitivas possuem algum grau de confiabilidade, que as leis da lógica permanecem válidas durante o experimento, que sua memória registra corretamente observações anteriores, que instrumentos de medição funcionam de maneira consistente e que a natureza apresenta regularidade suficiente para permitir inferências. Nenhuma dessas condições pode ser estabelecida pelo próprio método científico sem incorrer em circularidade. Toda investigação científica já começa assumindo exatamente aquilo que pretende utilizar.
Essa constatação não diminui a importância da ciência. Ela apenas coloca cada disciplina em seu devido lugar. O problema não está em reconhecer a extraordinária utilidade da investigação científica. O problema surge quando essa utilidade é confundida com fundamento epistemológico.
Essa confusão aparece constantemente em debates populares. Sempre que alguém questiona as pretensões filosóficas do cientificismo, logo surge a resposta previsível: "Se a ciência não fosse verdadeira, você não estaria usando um celular."
À primeira vista, o argumento parece irresistível. Afinal, os celulares realmente funcionam. Satélites realmente orbitam a Terra. Vacinas, computadores, aviões e sistemas de comunicação demonstram enorme capacidade tecnológica.
Entretanto, esse raciocínio depende de uma troca silenciosa de conceitos.
O funcionamento de uma tecnologia demonstra que determinados modelos descrevem adequadamente certos aspectos da realidade em contextos específicos. Não demonstra, porém, que esses modelos constituam o fundamento último da verdade, nem que a ciência seja capaz de justificar os princípios que tornam possível sua própria atividade.
Um mapa pode conduzir um viajante até seu destino. Isso não significa que o mapa seja o próprio território.
Da mesma maneira, modelos científicos descrevem relações observáveis. Eles não explicam por que existe um universo racional, por que leis matemáticas descrevem adequadamente a natureza, por que a lógica permanece válida nem por que o cosmos continua apresentando regularidade.
Essas perguntas pertencem ao domínio da metafísica.
E nenhuma quantidade de tecnologia consegue eliminá-las.
Na verdade, cada avanço científico torna essas perguntas ainda mais inevitáveis. Quanto mais profundamente compreendemos a estrutura matemática do universo, mais extraordinário se torna o fato de que ele seja compreensível. Quanto maior a precisão das equações físicas, mais impressionante se revela a inteligibilidade da criação. A ciência amplia nossa descrição da ordem; ela não explica a origem da própria ordem.
É precisamente aqui que começa a aparecer o limite intransponível do naturalismo. O cientificismo consegue investigar como determinados fenômenos ocorrem, mas permanece silencioso quando perguntamos por que existe um universo capaz de ser investigado, por que nossas mentes conseguem compreender estruturas abstratas e por que leis universais permanecem constantes através do tempo.
Essas perguntas não desaparecem porque alguém as considera inconvenientes. Elas apenas mudam de disciplina. Quando deixam de ser científicas, tornam-se filosóficas. E é exatamente nesse momento que o cientificismo abandona o terreno da ciência para defender uma filosofia que não consegue justificar pelos métodos que afirma serem exclusivos.
A ironia é evidente: o cientificismo pretende eliminar a metafísica recorrendo justamente a uma metafísica implícita, jamais demonstrada e continuamente pressuposta.
É por isso que o verdadeiro debate nunca foi entre fé e ciência. O verdadeiro debate ocorre entre cosmovisões concorrentes que procuram explicar por que qualquer ciência é possível.
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