A Justiça Imputada e a Obediência Total de Cristo
Por Yuri Schein
A teologia reformada afirma, com razão, que Cristo não apenas morreu pelos eleitos, mas viveu por eles. Ele cumpriu toda a justiça exigida pela Lei de Deus em seu lugar, como seu Representante federal e Segundo Adão. Essa obediência ativa é imputada ao crente, de modo que ele comparece diante de Deus vestido não de sua própria justiça imperfeita, mas da justiça perfeita do Mediador (Rm 5:18-19; 2Co 5:21).
Contudo, a coerência dessa doutrina exige que enfrentemos uma pergunta incômoda: o que exatamente significa “toda a justiça”?
A Lei de Deus não se limita a proibições externas. Ela exige do homem inteiro:
- Fé no nome de Deus e de seu Filho;
- Temor reverente;
- Amor supremo;
- Submissão ao Messias;
- Arrependimento;
- Ausência de blasfêmia e incredulidade.
As Escrituras são explícitas ao tratar esses elementos como mandamentos divinos:
“Este é o seu mandamento: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo” (1 João 3:23).
“Deus manda agora que todos os homens, em todo lugar, se arrependam” (Atos 17:30).
“A ele ouvireis” (Deuteronômio 18:15).
A incredulidade e a blasfêmia não são meras fraquezas neutras, mas pecados reais contra a Lei moral de Deus. Portanto, a perfeita obediência de Cristo necessariamente incluiu o cumprimento positivo desses mandamentos e a ausência absoluta de sua violação.
Cristo exerceu, em favor dos eleitos, **perfeita fé**, **perfeito temor**, **perfeito amor** e **perfeita submissão** ao Pai. Ele jamais duvidou, jamais blasfemou, jamais falhou em confiança ou reverência. Filipenses 2:8 declara que Ele foi “obediente até à morte”, e Romanos 5:19 afirma que “pela obediência de um muitos se tornarão justos” — sem restrição artificial aos mandamentos de segunda tabela ou apenas às ações externas.
Qualquer tentativa de excluir a fé, o temor ou a ausência de blasfêmia do escopo da obediência ativa cria uma exceção arbitrária. Não há base bíblica clara para dizer que Cristo cumpriu vicariamente alguns mandamentos, mas deixou outros para serem cumpridos (mesmo que imperfeitamente) pelo crente. Ou Ele cumpriu toda a justiça, ou a expressão perde seu sentido pleno.
A fé do crente à luz da imputação
Isso não torna a fé do crente desnecessária. Pelo contrário, ela ganha seu verdadeiro lugar.
A fé salvífica não é um complemento autônomo que o homem acrescenta à obra de Cristo, nem um mérito humano que preenche uma lacuna deixada pelo Salvador. Ela é, antes, a manifestação temporal e experimental da perfeita fidelidade que Cristo já apresentou ao Pai em favor do eleito. A cruz remove a culpa dos pecados (inclusive da incredulidade e blasfêmia passadas e presentes). A obediência ativa fornece a justiça positiva completa, incluindo a fé e o temor perfeitos que o crente jamais conseguiria oferecer por si mesmo.
Assim, quando o crente crê — ainda que com fé fraca e vacilante —, ele não está contribuindo com algo que faltava na obra de Cristo. Ele está vivendo no tempo aquilo que já lhe foi imputado federalmente na Cabeça federal. Sua segurança não repousa na qualidade ou na permanência infalível de sua própria fé, mas na perfeição da obediência que lhe foi creditada.
Conclusão
A doutrina da imputação da justiça de Cristo, quando levada às suas consequências lógicas e bíblicas sem exceções arbitrárias, revela a profundidade da graça soberana. Cristo não apenas carregou nossos pecados; Ele nos apresentou a perfeita obediência humana que nos faltava em todos os pontos exigidos por Deus.
Nisso o Evangelho brilha em sua plenitude: o crente é aceito não por quão bem ele crê, teme ou persevera, mas por aquilo que Cristo creu, temeu e perseverou em seu lugar. Toda a glória, portanto, pertence unicamente ao Mediador, cuja obra é suficiente e indefectível para todos aqueles que o Pai lhe deu.
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