terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: As Duas Coroas e o Deserto

 

Por Yuri Schein  

O casamento aconteceu no que restava do templo de Valeth, sob um teto parcialmente desabado e entre colunas que ainda cheiravam a fumaça.


Não houve luxo. Não houve dias de celebração. Houve necessidade, sangue antigo e a decisão de três pessoas que já haviam perdido demais para recusar o que as águas haviam mostrado. Raella vestia o que sobrara de um manto cerimonial de Lenória, rasgado nas bordas, mas ainda reconhecível. Gillian usava a armadura consertada de forma improvisada, o braço finalmente imobilizado de maneira decente, o olhar firme como se estivesse entrando em mais uma batalha. Ikarus permanecia entre as duas, a aura azul-dourada contida, mas impossível de ignorar.


A antiga conselheira de Oberon conduziu o rito com as palavras que ainda restavam das leis antigas. Primeiro a união com Raella — o sangue antigo de Lenória reconhecido em voz alta pela primeira vez em décadas. Depois, na mesma cerimônia, a união com Gillian. Não houve protestos entre os sobreviventes reunidos. Havia exaustão demais. Havia necessidade demais de qualquer estrutura que pudesse se erguer sobre as cinzas. Quando os votos terminaram, Raella era rainha. Ikarus era rei por direito de casamento. E Gillian, ligada a ambos por escolha e por profecia, carregava consigo o futuro que as águas haviam nomeado.


Nos meses seguintes, Lenória Imperial começou a se levantar.


Não foi milagre. Foi trabalho. Ikarus usava o domínio das águas para limpar as áreas contaminadas por residual necromântico e o residual de Ranur para organizar as linhas de defesa. Raella governava com a legitimidade do sangue antigo, reunindo o que restava de conselheiros, sacerdotes e capitães. Gillian assumia a organização militar direta, treinando os sobreviventes capazes de segurar uma arma e transformando barricadas improvisadas em muralhas provisórias. Thomas permaneceu o tempo suficiente para ver as primeiras torres serem reerguidas e os primeiros campos ao redor da cidade voltarem a ser cultivados sob proteção constante.


Mas o meio-dragão não ficou.


Uma noite, após uma reunião em que os mapas de Ad’Heim mostravam Aldora ainda marcada como território em disputa, Thomas anunciou a decisão.


— Rickson era de lá. Aldora. O deserto. A triarquia. A cidade dele está em guerra desde que os ataques começaram — e, pelo que os últimos mensageiros disseram, piorou. Facções se digladiam entre os mortos-vivos e o que restou das casas nobres. Eu vou.


Ikarus não tentou impedi-lo.


— Você volta?


— Se conseguir o que pretendo… volto como rei. Ou não volto.


Thomas partiu antes do amanhecer, sozinho, as asas cortando o céu na direção oeste. A jornada através das terras devastadas durou semanas. Ele evitou as estradas principais, voou sobre campos de batalha abandonados e sobrevilas que já não existiam. Quando finalmente alcançou as bordas do deserto de Aldora, a cidade de Thirssh ergue-se à sua frente como um espelho rachado do que Lenória havia sido: muralhas parcialmente destruídas, fumaça constante, e o som distante de combate.


Aldora estava dividida.


Três facções principais ainda lutavam pelo que restava do poder da antiga triarquia, enquanto hordas de mortos-vivos e criaturas sombrias atacavam todas elas sem distinção. Thomas não chegou como diplomata. Chegou como força. O meio-dragão que um dia fora rejeitado pelos próprios parentes agora descia sobre o deserto com montantes em mãos e fúria acumulada. Ele não escolheu lado de imediato. Primeiro quebrou o cerco necromântico que sufocava o oásis principal. Depois enfrentou os capitães das facções que tentaram usá-lo como arma. Um a um, os que se recusaram a se unir caíram ou se renderam.


A conquista não foi limpa.  


Houve sangue. Houve traições. Houve noites em que Thomas voava sozinho sobre as dunas, as asas cortando o vento quente, perguntando-se se Rickson teria aprovado o caminho que ele escolhera. Mas, ao final de três meses de guerra interna e externa, as facções restantes se ajoelharam. O deserto reconheceu a força. E Thirssh, a cidade central de Aldora, ergueu um novo estandarte — não o das antigas casas, mas o de um meio-dragão que havia imposto ordem onde só existia fratura.


Thomas Walker foi proclamado Rei de Aldora sob o sol escaldante do deserto.


A notícia chegou a Lenória semanas depois, carregada por um mensageiro exausto que atravessara terras ainda hostis. Ikarus leu o pergaminho em silêncio, a aura azul-dourada pulsando uma única vez com algo que parecia aprovação. Raella, já consolidada como rainha, apenas assentiu. Gillian, com o braço finalmente curado e a mão firme na empunhadura da espada, permitiu-se um raro meio sorriso.


— Ele conseguiu.


— Conseguiu — confirmou Ikarus. — Aldora tem um rei. Lenória tem uma rainha… e um rei. E o que as águas mostraram… continua se cumprindo.


Longe dali, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi recebeu a mesma notícia através de um dos seus espelhos de osso. O sorriso discreto que habitualmente carregava não apareceu desta vez. Angarkor, ao lado dele, apenas observou em silêncio.


Duas coroas haviam se erguido das cinzas.  


Um meio-dragão governava o deserto.  


E a profecia que Kallon revelara — o filho que um dia nasceria de Gillian e se tornaria a queda do Necromante — ainda esperava, quieta, no futuro.


Mas o presente de Ad’Heim, pela primeira vez em muito tempo, começava a ter nomes capazes de se opor ao que vinha das profundezas.


Ad’Heim: A Coroa entre as Cinzas

 

Por Yuri Schein  

Lenória Imperial não os recebeu com trumpetas nem com portas abertas.


Recebeu-os com fumaça, com o cheiro persistente de magia necromântica e com o olhar desconfiado de sobreviventes que já haviam aprendido a não confiar em quase nada que se aproximasse das muralhas quebradas. Thomas voou à frente em trechos curtos, mapeando os caminhos ainda transitáveis. Ikarus caminhava no centro do grupo, a aura azul-dourada discreta, mas visível o suficiente para fazer os poucos soldados que ainda montavam guarda baixarem as armas por um instante de hesitação. Gillian e Raella fechavam a formação.


Eles foram reconhecidos antes de alcançarem o que restava da praça central.


Um sargento de rosto queimado — o mesmo que os havia visto partir dias antes — emergiu de detrás de uma barricada de carroças carbonizadas. Os olhos dele se arregalaram ao notar a mudança em Ikarus.


— Vocês… voltaram. E ele… — o homem apontou com o queixo para a aura. — O que aconteceu com você?


— Sobrevivi — respondeu Ikarus apenas. — Onde está o regente Oberon?


O sargento baixou o olhar. O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente.


— Morto. Há três dias. Um portal se abriu dentro do próprio salão do trono. Mortos-vivos e uma daquelas criaturas sombrias. Ele segurou a linha com o que restava da guarda pessoal. Não foi suficiente. O corpo… o que restou dele… está no que sobrou do templo de Valeth. Tentamos dar um enterro digno. Foi o máximo que conseguimos.


Gillian soltou um xingamento baixo. Thomas fechou as asas com um estalo seco. Raella permaneceu imóvel, mas os dedos dela apertaram a borda da capa até os nós ficarem brancos.


O sargento ergueu o olhar novamente, desta vez fixando-se em Raella.


— Tem mais. O povo… o que restou dele… já está falando. Oberon não deixou herdeiro direto. A linha antiga de Lenória está quase extinta. Mas há rumores. Rumores antigos. Sobre sangue. Sobre linhagem que nunca foi anunciada em voz alta, mas que nunca desapareceu por completo.


Ele fez uma pausa, como se pesasse as palavras seguintes.


— Estão dizendo o seu nome, minha senhora. Raella. Dizem que o sangue antigo corre em você. Dizem que, se alguém ainda pode levantar um estandarte que o povo reconheça… é você. Já tem gente se reunindo no que restou da praça do grifo. Não é um exército. É só sobreviventes. Mas eles querem uma rainha. E o nome que estão pronunciando… é o seu.


Raella sentiu o peso de todos os olhares sobre ela. O de Ikarus. O de Gillian. O de Thomas. O do sargento. E, atrás deles, o de dezenas de rostos sujos e exaustos que começavam a se aproximar ao perceber a comoção.


— Eu nunca pedi por isso — disse ela, a voz baixa, mas firme.


— Ninguém pediu por nenhuma das coisas que aconteceram nas últimas semanas — respondeu o sargento. — Mas Oberon está morto. As muralhas estão caídas. Os mortos-vivos ainda atacam todas as noites. E o povo precisa de um nome para não se desfazer por completo. O seu nome é o único que ainda carrega algo antigo o suficiente para eles se segurarem.


Ikarus deu um passo à frente. A aura azul-dourada se expandiu levemente, o suficiente para fazer os mais próximos recuarem meio passo em respeito — ou em medo.


— Se o povo quer Raella… então o povo terá voz. Mas não aqui. Não no meio da fumaça e dos corpos. Leve-nos até onde os sobreviventes estão reunidos. Eu quero ouvir o que eles têm a dizer. E ela também.


O sargento assentiu.  


Guiou o grupo através de vielas parcialmente desabadas até o que restava da praça do grifo. O grande símbolo de pedra que um dia ornava o centro estava rachado ao meio. Ao redor, cerca de duzentas pessoas — soldados feridos, civis, sacerdotes de várias ordens, crianças que já não choravam — se amontoavam em silêncio tenso. Quando viram Raella, um murmúrio percorreu a multidão. Quando viram a aura de Ikarus, o murmúrio se transformou em algo mais próximo de esperança contida.


Uma mulher idosa, com as vestes de uma antiga conselheira de Oberon, avançou. A voz dela era rouca, mas carregava autoridade residual.


— Raella. O sangue antigo de Lenória corre em você. Oberon sabia. Poucos sabiam. Agora o regente está morto. A cidade está de joelhos. E nós… nós precisamos de uma rainha. Não de um símbolo vazio. De alguém que ainda carregue o nome da terra que estamos tentando não deixar morrer.


Raella olhou para a multidão. Depois para Ikarus. Depois para Gillian, que mantinha o rosto impassível, embora os olhos revelassem o peso da conversa que haviam tido no barco.


Ela respirou fundo.


— Se eu aceitar… não aceito sozinha. Lenória não será reconstruída por uma única pessoa. E o que vem pela frente… exigirá mais do que um título.


A conselheira inclinou a cabeça.


— Então diga o que exige.


Raella olhou novamente para Ikarus. A aura azul-dourada refletia a luz pálida do sol sobre as ruínas.


— Depois — disse ela apenas. — Primeiro… enterremos os mortos que ainda não foram enterrados. Depois organizamos a defesa do que restou. E então… falaremos de coroas.


A multidão não protestou.  


Havia exaustão demais para protestos. Havia necessidade demais de qualquer estrutura que ainda pudesse ser erguida. O nome de Raella já estava sendo murmurado como um estandarte. E, ao lado dela, o homem que carregava o azul de Kallon e o ouro de Ranur já estava sendo olhado como alguém que não era apenas mais um guerreiro.


Oberon estava morto.  


Lenória Imperial, ou o que restava dela, começava a se voltar para uma nova rainha.  


E o destino que as águas haviam mostrado a Ikarus — duas uniões, uma coroa, um filho que ainda não existia — começava, lentamente, a deixar de ser apenas um sonho no meio do Mar Divisor.


Ad’Heim: O Peso da Corrente


Por Yuri Schein  


Ikarus não voltou a dormir.


Permaneceu sentado na proa do barco até que o primeiro clarão do sol maior começasse a empurrar a escuridão do Mar Divisor. A aura azul-dourada ao redor do corpo pulsava de forma irregular, como se os dois domínios dentro dele também estivessem reagindo às palavras de Kallon. Guerra e mar. Ouro e azul. E agora… um destino que incluía duas mulheres, uma coroa e um filho que ainda não existia.


Gillian foi a primeira a notar que ele estava diferente.


— Você está quieto demais — disse ela, a voz rouca de cansaço. O braço quebrado ainda estava imobilizado, mas os olhos permaneciam afiados. — O que aconteceu?


Ikarus demorou a responder. Olhou para o horizonte leste, onde a fumaça de Lenória já era visível como uma mancha escura contra o céu que clareava.


— Kallon veio novamente. Em sonho.


Raella se aproximou, a capa envolta ao redor dos ombros. Thomas acordou com o movimento e se sentou, as asas se ajustando por instinto.


— E o que ele disse desta vez? — perguntou Thomas.


Ikarus respirou fundo. A água ao redor do barco reagiu levemente à tensão que emanava dele.


— Que eu devo me casar. Com as duas. Com você, Gillian. E com você, Raella.


O silêncio que caiu sobre a embarcação foi quase físico.


Gillian piscou uma vez, lentamente.


— Casar.


— Com as duas — repetiu Ikarus, a voz baixa, mas firme. — Kallon disse que Raella carrega sangue antigo o suficiente de Lenória para que o casamento me torne rei por direito de união. E que… no futuro… Gillian gerará um filho. Um filho que será a queda de Vaelthas Levi.


Raella abriu a boca, depois a fechou. A capa mágica tremeu sobre os ombros dela.


— Isso é…


— Loucura — completou Gillian, mas a voz não carregava a rejeição imediata que Ikarus esperava. Havia choque. Havia peso. Mas também uma avaliação silenciosa, típica de quem havia sobrevivido a demais coisas para descartar uma revelação dessas sem pensar.


Thomas passou a mão pelo rosto.


— O Hunen das Águas está pedindo que você se case com as duas únicas mulheres que restaram do nosso grupo… e que uma delas gere o futuro destruidor do Necromante.


— Não pediu — corrigiu Ikarus. — Revelou. Disse que as águas já viram esse caminho. Que se eu rejeitar, o fortalecimento que recebi no Templo terá sido apenas metade do que poderia ser. E que Levi continuará escrevendo o fim de Ad’Heim sem oposição verdadeira.


O barco avançou em silêncio por vários minutos. A corrente azul ainda os empurrava, mas parecia mais contida, como se o próprio domínio de Kallon estivesse aguardando a resposta.


Raella foi a primeira a falar novamente. A voz saiu controlada, mas havia um tremor sob as palavras.


— Eu carrego sangue antigo. Isso é verdade. Minha linhagem… nunca foi anunciada em voz alta, mas existe. Se Lenória ainda tiver leis depois de tudo isso… o casamento poderia, de fato, legitimar um novo reinado. Mas casar por necessidade de profecia…


— E eu — disse Gillian, interrompendo, o olhar fixo em Ikarus —, eu deveria aceitar gerar uma criança que nem existe ainda, só porque um Hunen disse que ela será a queda de um Necromante?


Ikarus não desviou o olhar de nenhuma das duas.


— Eu não estou ordenando nada. Nem Kallon ordenou. Ele revelou. A decisão… a decisão é nossa. De todos nós. Porque se isso for real, não afeta só a mim. Afeta o que restou de Lenória. Afeta o que ainda pode ser salvo. E afeta o que Vaelthas Levi ainda não sabe que está vindo contra ele.


Thomas soltou um longo suspiro e olhou para a fumaça distante de Lenória.


— Estamos voltando para uma cidade em ruínas. O mundo está sob ataque. Mortos-vivos, dragões corrompidos, feitiçaria negra. E agora… casamento duplo e uma profecia de filho.


Ele deu um meio sorriso cansado, sem humor.


— Ad’Heim nunca foi simples.


A costa de Lenória começou a se definir no horizonte. Muralhas quebradas. Torres parcialmente desabadas. Fumaça contínua. O porto ainda estava tomado, mas a corrente azul os guiava para a mesma enseada protegida que haviam usado na saída.


Ikarus ergueu a mão. A água ao redor do barco respondeu, elevando-se levemente como se reconhecesse o sangue do Hunen.


— Quando chegarmos… não precisamos decidir tudo de imediato. Mas precisamos sobreviver o suficiente para que a decisão ainda importe. Lenória precisa de alguém que se levante. O povo que restou precisa de um nome. E Vaelthas Levi… precisa descobrir que a Costura que ele abriu também deixou entrar algo que ele não previu.


Gillian olhou para a própria mão livre, depois para Ikarus.


— Eu não vou dizer sim agora. Nem não. Mas… eu ouvi. E não vou fingir que não ouvi.


Raella assentiu lentamente, os olhos ainda fixos no homem que carregava o azul de Kallon e o ouro de Ranur.


— Eu também ouvi.


O barco atingiu a areia preta da enseada pouco depois.  


A fumaça de Lenória Imperial os envolvia novamente. O cheiro de magia necromântica e de madeira queimada voltava a preencher o ar. Longe, um dragão corrompido soltou um rugido distante.


Ikarus foi o primeiro a saltar na água rasa. A aura azul-dourada se expandiu ao redor dele como um manto vivo. Quando olhou para trás, para as duas mulheres e para o meio-dragão que ainda restavam, a expressão era a de alguém que carregava não apenas poder… mas o peso de um futuro que as águas já haviam começado a escrever.


— Então vamos. Uma cidade de cada vez. Uma decisão de cada vez.


E, juntos, os quatro começaram a subir novamente em direção às ruínas de Lenória Imperial — onde o povo que ainda respirava talvez estivesse prestes a conhecer não apenas um guerreiro que voltara mais forte, mas o início de uma linhagem que um dia quebraria o Necromante.


Ad’Heim: O Sonho nas Águas do Retorno


Por Yuri Schein  

O barco cortava o Mar Divisor sob a proteção renovada da corrente azul.  

Ikarus estava acordado a maior parte do tempo agora. A aura azul-dourada ao redor do corpo permanecia estável, controlada, como se os dois domínios finalmente tivessem encontrado um equilíbrio interno. Thomas dormia em turnos curtos, as asas recolhidas. Gillian, mesmo com o braço quebrado, insistia em ajudar com os remos quando a corrente enfraquecia. Raella observava o horizonte leste, onde a fumaça de Lenória Imperial ainda manchava o céu distante.


Foi no meio da segunda noite de retorno que o cansaço venceu Ikarus.


Ele adormeceu no fundo do barco, a cabeça apoiada contra a madeira úmida. O sono veio pesado, profundo — e imediatamente se transformou em outra coisa.


A água o envolveu novamente.  


Mas desta vez não era o fundo escuro e silencioso do primeiro transe. Era uma extensão aberta do domínio de Kallon: um oceano infinito sob um céu de duas luas, a superfície brilhando com luz azul própria. Kallon estava ali, materializado de forma mais nítida do que no Templo. Os cabelos azuis flutuavam como se ainda estivesse submerso. Os olhos profundos fixavam o filho sem o sorriso sereno de antes. Havia gravidade no olhar.


— Você despertou — disse o Hunen. — E está voltando para uma terra que arde.


Ikarus deu um passo sobre a água. A superfície o sustentou como se fosse pedra.


— Eu sei o que preciso fazer. Enfrentar o que Vaelthas Levi e Angarkor soltaram. Proteger o que ainda resta.


— Não — interrompeu Kallon, a voz baixa, mas firme. — Isso é apenas a superfície. O que você carrega agora… o sangue meu e o poder residual de Ranur… não pode se limitar a ser uma arma. Ad’Heim precisa de mais do que um guerreiro. Precisa de continuidade. De linhagem. De um futuro que ainda não foi escrito pelo Necromante.


Ikarus franziu o cenho.


— O que você está dizendo?


Kallon se aproximou. A água ao redor dos dois tremeu.


— Você deve se casar. Com as duas.


O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer pressão de profundidade.


— Gillian e Raella — continuou Kallon. — As duas que restaram ao seu lado. As duas que carregaram seu corpo até o Templo. As duas que ainda respiram enquanto Derek, Rickson e Jetto já não estão.


Ikarus sentiu a aura azul-dourada reagir dentro do sonho, inquieta.


— Casar com as duas? Isso…


— É possível. E necessário. Raella carrega sangue antigo de Lenória. Linha próxima o suficiente da antiga realeza para que, sob as leis que ainda restam, o casamento a torne rainha — e a você, rei por direito de união. Lenória Imperial está em ruínas, mas o título ainda existe. O povo que sobrou precisará de um nome para seguir. O seu. O dela. Juntos.


Kallon fez uma pausa. O olhar se tornou ainda mais antigo.


— Gillian… Gillian gerará um filho. Não agora. Não neste ciclo imediato. Mas no futuro. Um filho que nascerá da união entre o sangue de um Hunen e a força de uma guerreira que sobreviveu a tudo. Esse filho será a queda de Vaelthas Levi. A lâmina que o Necromante não preverá. A rachadura final na obra que ele construiu desde as geleiras de Baltamus.


Ikarus abriu a boca, depois a fechou. A água sob seus pés parecia mais densa.


— Você está me pedindo para…


— Estou lhe revelando o caminho que as águas já viram — corrigiu Kallon. — Eu não ordeno o coração de ninguém. Mas o sangue que corre em você agora é meu. E o poder que Ranur deixou também exige continuidade. Duas esposas. Uma coroa. Um filho que ainda não existe, mas que um dia quebrará o Necromante. Essa é a corrente que as águas me mostraram.


O Hunen ergueu a mão e tocou, pela primeira vez de forma quase tangível, o ombro do filho.


— Quando acordar, a decisão será sua. Mas saiba disto: se você rejeitar o que as águas revelaram, o fortalecimento que recebeu no Templo terá sido apenas metade do que poderia ser. E Levi… Levi continuará escrevendo o fim de Ad’Heim sem oposição verdadeira.


A imagem de Kallon começou a se dissolver em luz azul.


— Pense. Sinta. E escolha. O mar não força. Mas o mar lembra.


Ikarus acordou com um sobressalto.


O barco balançava suavemente sob a corrente azul. As duas luas ainda estavam altas. Thomas dormia com a cabeça apoiada no ombro. Gillian estava acordada, observando o mar com a expressão cansada de sempre. Raella olhava o horizonte, a capa envolta ao redor do corpo.


Nenhum deles havia notado o sonho.


Ikarus ficou sentado em silêncio por um longo tempo, a aura azul-dourada pulsando de forma mais inquieta do que antes. As palavras de Kallon ainda ecoavam dentro dele — pesadas, claras, impossíveis de ignorar.


Duas mulheres.  

Uma coroa.  

Um filho que ainda não existia, mas que um dia seria a queda de Vaelthas Levi.


O Mar Divisor continuava a empurrá-los em direção a Lenória.  


E, pela primeira vez desde que despertara no Templo, Ikarus não sabia se o poder que carregava era uma bênção… ou o início de um destino muito maior e mais complicado do que qualquer batalha.



Ad’Heim: O Despertar no Templo


Por Yuri Schein  


O primeiro raio de sol atravessou o teto parcial do Templo exatamente quando a água da bacia parou de se mover.


A luz azul-dourada ao redor de Ikarus atingiu um pico de intensidade tão forte que Thomas, Gillian e Raella precisaram desviar o olhar por um instante. Quando voltaram a enxergar, a água luminosa estava descendo lentamente, retornando ao nível normal da bacia. O corpo de Ikarus, que até então flutuara sustentado pela magia, agora repousava sobre a pedra rasa, completamente imóvel.


Depois, ele abriu os olhos.


Não eram mais apenas os olhos do guerreiro que haviam conhecido. O azul profundo de Kallon dominava as íris, mas fios dourados residuais de Ranur ainda atravessavam o olhar como veios de luz. A ferida no peito havia desaparecido por completo, deixando apenas uma cicatriz fina e luminosa que brilhava com as duas cores fundidas. A aura ao redor do corpo se estabilizou em um brilho constante e controlado — azul-dourado, denso, vivo.


Ikarus sentou-se devagar dentro da bacia. A água escorreu pelos ombros e pelo peito. Ele olhou para as próprias mãos, depois para os três companheiros que o observavam em silêncio absoluto.


— Eu… ouvi tudo — disse ele, a voz rouca, mas firme. — Kallon. O Templo. O que eu sou.


Thomas deu um passo à frente, ainda segurando os montantes, como se não tivesse certeza se o homem à frente era completamente o mesmo.


— Você está… diferente.


— Estou — confirmou Ikarus. Ele se levantou. A água não o segurou. A aura se moveu com ele, como uma segunda pele. — O poder de Ranur não desapareceu. O sangue de Kallon não está mais adormecido. Os dois se acomodaram. Eu consigo sentir o mar… e consigo sentir a guerra. Ao mesmo tempo.


Gillian engoliu em seco, o braço quebrado ainda pressionado contra o peito.


— E agora? O que você pretende fazer?


Ikarus olhou para a entrada do Templo, na direção leste, onde, além do Mar Divisor, Lenória Imperial ainda ardia em algum lugar distante.


— Agora eu volto. Kallon disse que o fortalecimento que recebi aqui seria o suficiente para eu retornar a Lenória. Então é isso que vou fazer. Vaelthas Levi abriu a Costura. Angarkor ainda está solto. As cidades estão caindo. Eu não posso permanecer na ilha enquanto o resto de Ad’Heim sangra.


Raella se aproximou, a capa finalmente recuperando um brilho mais estável.


— Você acabou de acordar de algo que quase te matou. Tem certeza de que já está pronto?


Ikarus ergueu a mão. A água da bacia respondeu imediatamente, elevando-se em um filamento fluido que orbitou ao redor de seus dedos antes de voltar a cair. Em seguida, a aura dourada residual se concentrou na mesma mão, formando por um instante a silhueta de uma lâmina de luz.


— Eu não estou completo. Ainda preciso aprender a usar o que carrego. Mas estou vivo. E estou mais forte do que quando caí diante de Angarkor. Isso vai ter que ser o suficiente por enquanto.


Ele saiu da bacia. A pedra sob seus pés não ecoou como antes. Cada passo parecia mais firme, mais consciente. Quando passou pela entrada do Templo, a poça luminosa do pátio reagiu, enviando ondulações azuis em sua direção como se o próprio domínio de Kallon o reconhecesse e o abençoasse uma última vez.


Thomas trocou um olhar com as outras duas.


— Então vamos. Se ele está voltando para Lenória… nós também.


Gillian assentiu, mesmo exausta.


— Não vamos deixá-lo ir sozinho.


Raella ajustou a capa nos ombros.


— Nunca deixamos.


Ikarus parou na beira dos penhascos e olhou para o Mar Divisor. As águas ainda estavam escuras em muitos pontos, mas a corrente azul que os havia trazido agora parecia responder à sua presença, formando um caminho luminoso e estreito que apontava de volta para o leste.


— Kallon ainda está protegendo a travessia — murmurou ele. — Pelo menos até chegarmos perto da costa de Lenória.


Ele olhou para os três companheiros — os únicos que restavam do grupo que um dia havia entrado na Clareira da Árvore Negra.


— Obrigado. Por me carregarem até aqui. Por não desistirem.


Thomas deu um meio sorriso cansado.


— Não foi por favor. Foi porque ainda precisamos de você.


Ikarus assentiu uma única vez. Depois, sem mais palavras, começou a descer a trilha em direção à praia onde o barco ainda os esperava. A aura azul-dourada se movia com ele, discreta, mas inegável.


Atrás deles, o Templo de Kallon permaneceu em silêncio.  


A água da bacia sagrada voltou a ficar imóvel.  


E, em algum lugar nas profundezas do domínio das águas, o Hunen observava o filho partir — não mais como um mortal ferido, mas como o único ser em Ad’Heim que carregava, ao mesmo tempo, o ouro de um Guardião e o azul de um senhor dos mares.


A volta para Lenória havia começado.



Ad’Heim: A Noite no Templo


Por Yuri Schein  

A primeira criatura apareceu pouco depois da meia-noite.


Thomas ouviu antes de ver. Um som pesado, arrastado, vindo da trilha que subia dos penhascos. Não era o passo de um morto-vivo comum. Era algo maior. Algo que quebrava galhos e fazia pedras rolarem. Ele ergueu os montantes e deu um passo para fora da entrada do Templo, as asas se abrindo parcialmente sob a luz das duas luas.


Gillian se posicionou ao lado dele, a espada na mão boa, o rosto tenso de dor e determinação. Raella permaneceu mais atrás, perto da bacia onde Ikarus ainda flutuava na água luminosa, a capa mágica finalmente respondendo com um brilho azul-prateado mais estável.


A criatura emergiu da escuridão da trilha.


Era um dragão corrompido de tamanho médio, escamas pretas e opacas, olhos esverdeados brilhando com residual necromântico. As asas estavam parcialmente dilaceradas, como se tivesse lutado contra a própria ilha para chegar até ali. O vapor metálico saía de suas narinas a cada respiração. Ao vê-los, a besta rugiu e avançou, a boca se abrindo para soltar um sopro de fogo negro.


Thomas não esperou.


Ele saltou para o ar e desceu em um arco rápido, os montantes cortando a asa já danificada da criatura. O dragão gritou e tentou atingi-lo com as garras. Gillian aproveitou a abertura e avançou, cravando a espada na pata dianteira esquerda. A lâmina penetrou entre as escamas corrompidas. A besta se contorceu e soltou o sopro negro na direção dela.


Raella ergueu as mãos.


A capa respondeu. Um escudo de luz azulada se formou na frente de Gillian no último instante, desviando a maior parte do fogo negro para as pedras do pátio. As pedras racharam e fumegaram. Thomas aproveitou a distração e desferiu um segundo golpe, desta vez na base do pescoço da criatura. As escamas cederam. O dragão corrompido caiu de lado, o corpo se contorcendo enquanto a energia necromântica começava a se dissipar.


Demorou quase um minuto até que parasse de se mexer.


Thomas pousou, ofegante, as escamas brilhando de esforço. Gillian apoiou-se na espada, o braço quebrado latejando violentamente. Raella baixou as mãos, a capa agora um pouco mais opaca novamente.


— Isso foi só o começo — murmurou Thomas, olhando para a trilha escura. — Vai ter mais.


Dentro do Templo, a água da bacia se agitou.


Ikarus se arqueou novamente. A luz dourada e azul ao redor do corpo dele se intensificou de forma abrupta, girando com mais velocidade. A ferida no peito já havia se fechado por completo, deixando apenas uma linha fina e luminosa onde a pele se unira. Mas o processo estava longe de terminar. Os dois domínios ainda se acomodavam. O dourado de Ranur e o azul de Kallon se entrelaçavam em padrões cada vez mais complexos, como se estivessem escrevendo algo novo dentro dele.


A voz de Kallon ecoou novamente, mais fraca desta vez, como se grande parte de sua atenção estivesse concentrada no filho.


— Aguentem. O processo está avançando. Mais algumas horas.


Thomas voltou para a entrada, os montantes ainda em mãos.


— Mais algumas horas — repetiu ele, a voz baixa. — Então aguentamos.


A noite continuou.


Outras criaturas tentaram se aproximar. Mortos-vivos que haviam chegado à ilha através de portais menores. Seres sombrios que se moviam entre as árvores carbonizadas. Em um momento, duas serpentes marinhas corrompidas tentaram subir pelos penhascos, mas a própria água da ilha as rejeitou, empurrando-as de volta para o mar com violência. Cada ataque era repelido. Cada vitória deixava os três mais exaustos.


Dentro da bacia, Ikarus começou a mudar.


A aura ao redor dele já não era mais duas cores separadas lutando por espaço. O dourado e o azul haviam começado a se fundir em um tom novo — um azul-dourado profundo, luminoso, que parecia carregar tanto a força da guerra quanto a profundidade do mar. A respiração dele se tornou mais forte. Os músculos, antes frouxos pelo estado de quase-morte, começaram a se tensionar novamente. Em determinado momento, os olhos se abriram.


Não por completo.  


Apenas o suficiente para que o azul profundo e o residual dourado fossem visíveis.


Raella, que não havia se afastado da bacia, sentiu o coração acelerar.


— Ikarus…?


Ele não respondeu. Os olhos se fecharam novamente. Mas a aura se estabilizou em um brilho constante e poderoso. A água ao redor dele parou de se agitar de forma violenta e passou a circular em um movimento suave e deliberado, como se o próprio domínio de Kallon estivesse concluindo a última parte do trabalho.


Lá fora, o horizonte começou a clarear.


A última hora da noite estava terminando.  


E, dentro do Templo das Águas Antigas, o único filho de um Hunen com uma mortal estava prestes a despertar de verdade — não mais como o guerreiro que caíra diante de Angarkor, mas como algo que Ad’Heim ainda não havia visto.


Thomas olhou para o céu que começava a clarear e apertou os montantes com mais força.


— Quase lá.


Gillian assentiu em silêncio.  


Raella permaneceu ao lado da bacia, observando a luz azul-dourada pulsar em ritmo constante e forte.


O amanhecer na Ilha de Kallon estava chegando.  

E com ele, o despertar de Ikarus.


Ad’Heim: O Templo das Águas Antigas


Por Yuri Schein  


O interior do Templo de Kallon era mais frio do que o lado de fora.


A pedra clara das paredes e colunas brilhava com um azul fraco e constante, alimentado por runas antigas que pareciam ter sido esculpidas diretamente pela água ao longo de séculos. O teto parcial deixava entrar a luz das duas luas, projetando faixas prateadas sobre o chão de pedra lisa. No centro do salão principal havia uma depressão circular rasa — uma bacia natural preenchida por água cristalina e luminosa, a mesma água que brotava no pátio externo, mas aqui mais pura, mais densa, mais viva.


Thomas depositou Ikarus com cuidado dentro da bacia.


A água subiu até a altura do peito do guerreiro. A aura dourada e azul reagiu imediatamente, expandindo-se em ondulações que faziam a superfície brilhar com intensidade renovada. A ferida no peito, ainda aberta, parou de sangrar no instante em que a água a tocou. Filamentos de luz dourada e azul se misturaram à água, como se o próprio domínio de Kallon estivesse examinando cada camada do corpo e da essência de Ikarus.


Raella ajoelhou-se na beira da bacia, a capa mágica finalmente respondendo com um brilho mais estável.


— Está funcionando…


Gillian sentou-se contra uma coluna, o braço quebrado latejando, mas os olhos fixos no companheiro.


— E agora?


A resposta não veio de nenhum deles.


A água da bacia se ergueu.


Não de forma violenta. De forma deliberada. Uma coluna líquida e luminosa se formou acima do corpo de Ikarus, tomando a forma parcial de um homem — cabelos longos e azuis, olhos do mesmo tom profundo, o mesmo sorriso sereno que Ikarus havia visto no fundo do mar. Kallon não estava completamente materializado. Era uma projeção, uma extensão da presença do Hunen através da água sagrada do Templo. Ainda assim, a força que emanava dele fazia o ar tremer suavemente.


— Vocês o trouxeram a tempo — disse a voz de Kallon, ecoando tanto no salão quanto dentro da mente dos três. — A mistura dos domínios estava prestes a se tornar instável demais.


Thomas deu um passo à frente, as asas meio abertas por instinto.


— Ele vai sobreviver?


— Vai — respondeu Kallon. — Mas o processo não será rápido nem indolor. O dourado de Ranur e o azul do meu sangue precisam se acomodar um ao outro. Ranur ofereceu o poder de um Guardião no momento da morte. Eu ofereço o domínio das águas e a herança que sempre foi dele. Os dois precisam se tornar um só dentro de Ikarus… ou ele se quebrará entre eles.


A coluna de água se inclinou sobre o corpo do guerreiro. Filamentos luminosos desceram e penetraram a ferida no peito, a aura, a própria pele. Ikarus se arqueou dentro da bacia, um gemido baixo escapando dos lábios. A luz ao redor dele explodiu em intensidade — dourado e azul girando um em torno do outro como duas tempestades tentando se fundir.


Raella estendeu a mão, mas não tocou a água.


— Isso está doendo nele.


— Está — confirmou Kallon, sem suavizar a verdade. — Dor é o preço de carregar dois domínios. Mas a dor agora é necessária. Se eu tentar apressar… ou se tentar separar o que já começou a se misturar… ele morre.


Gillian apertou os dentes.


— Quanto tempo?


— Horas. Talvez o resto da noite. Talvez até o amanhecer. Enquanto isso, a ilha ainda não está segura. Os ataques necromânticos foram repelidos em grande parte, mas não completamente. Criaturas ainda rondam as florestas e as costas. Vocês precisarão proteger este lugar até que o processo termine.


Thomas ergueu os montantes, o olhar endurecido.


— Então protegemos.


Kallon inclinou a cabeça em um gesto que quase parecia gratidão.


— Façam isso. E quando Ikarus despertar… ele não será mais apenas o guerreiro que caiu diante de Angarkor. Nem apenas o portador residual de Ranur. Será meu filho, consciente do que carrega. E o fortalecimento que receberá aqui será o suficiente para que ele retorne a Lenória… e enfrente o que ainda está por vir.

A projeção de água começou a se dissipar lentamente, retornando à bacia. A voz de Kallon ecoou uma última vez, mais baixa, dirigida apenas a Ikarus:

— Aguente, meu filho. Eu estou aqui agora.

A luz dourada e azul ao redor de Ikarus se estabilizou em um brilho intenso e constante. O corpo dele parou de se contorcer. A respiração se tornou mais profunda, mais regular. A ferida no peito começou a se fechar sob a água luminosa, não com cicatrizes comuns, mas com linhas finas de luz entrelaçada.

Lá fora, o vento uivava entre os penhascos.  

Em algum ponto da floresta abaixo, algo grande se movia entre as árvores carbonizadas.  

Thomas posicionou-se na entrada do Templo, montantes prontos. Gillian se levantou com dificuldade, a espada na mão boa. Raella ficou perto da bacia, a capa finalmente recuperando um pouco de brilho, pronta para defender o processo que ainda estava longe de terminar.

A noite na Ilha de Kallon havia apenas começado.  

E, dentro da água sagrada, o único filho de um Hunen com uma mortal começava, finalmente, a se tornar o que sempre deveria ter sido.



Ad’Heim: A Costa da Ilha


Por Yuri Schein  


O barco atingiu a areia preta da enseada pouco antes do anoitecer.


A corrente azul que os havia protegido durante toda a travessia se dissipou suavemente assim que a quilha tocou a praia, como se Kallon tivesse cumprido a parte que podia fazer de longe. Thomas foi o primeiro a saltar na água rasa, as asas meio abertas para manter o equilíbrio enquanto puxava a embarcação para a areia firme. Gillian desceu em seguida, o rosto pálido de dor e exaustão, o braço quebrado ainda pressionado contra o peito. Raella ficou por último, ajudando a ajeitar o corpo de Ikarus antes que Thomas o erguesse novamente nos braços.


A Ilha de Kallon cheirava a sal, a madeira queimada e a magia antiga.


A praia era estreita e coberta de seixos escuros. Mais adiante, a floresta começava de forma abrupta — árvores altas de folhas azuladas e troncos retorcidos que pareciam ter crescido sob a influência constante do domínio do mar. Algumas estavam carbonizadas. Outras haviam sido partidas ao meio por forças que não pertenciam à natureza. Mais acima, nos penhascos, a silhueta do Templo se destacava contra o céu do entardecer: uma estrutura de pedra clara e antiga, com colunas altas e um teto parcialmente desabado, mas ainda de pé.


Thomas ajeitou Ikarus com mais firmeza.


— O caminho sobe por ali — disse ele, apontando com o queixo para uma trilha estreita que serpenteava entre as árvores e as rochas. — Se o Templo ainda está intacto o suficiente, é por ali que vamos.


Gillian olhou para as marcas de destruição ao redor.


— A ilha também foi atacada. Não tão completamente quanto Lenória… mas foi.


Raella se ajoelhou por um instante na areia e tocou a água que ainda lambia a costa. A capa mágica reagiu com um brilho fraco e azulado.


— A presença dele está mais forte aqui. Kallon. É como se o próprio chão respirasse o domínio dele.


Eles começaram a subir.


A trilha era íngreme e irregular. Em vários pontos, árvores caídas bloqueavam o caminho, forçando Thomas a voar curtos trechos carregando Ikarus enquanto as outras duas contornavam os obstáculos. O silêncio da floresta era pesado. Não havia pássaros. Não havia o som usual de insetos. Apenas o vento passando entre as folhas azuladas e, de tempos em tempos, um estalo distante — como madeira se quebrando ou pedra rolando.


No meio da subida, encontraram os primeiros corpos.


Soldados da ilha. Pescadores. Alguns civis. Todos mortos há dias, alguns parcialmente consumidos por criaturas que já não estavam mais ali. Em um ponto da trilha, os restos de um portal necromântico ainda fumegavam com residual esverdeado, mas a energia estava fraca, como se a própria ilha estivesse rejeitando a corrupção.


Raella parou diante do portal desfeito.


— Kallon está empurrando a necromancia para fora. Devagar… mas está.


Thomas não respondeu. Continuou subindo.


Quando finalmente alcançaram o platô superior, o sol já havia se posto por completo. As duas luas iluminavam o Templo de Kallon com uma luz pálida e prateada. A estrutura era maior do que parecia de longe. Colunas altas de pedra clara, cobertas de runas antigas que brilhavam com um azul fraco e constante. O teto parcial ainda se sustentava sobre o salão principal. A entrada estava aberta — grandes portas de madeira escura que haviam sido forçadas, mas não destruídas por completo.


E, diante das portas, a água.


Uma poça rasa e circular se formava naturalmente no centro do pátio de pedra, alimentada por uma fonte que brotava diretamente da rocha. A água brilhava com o mesmo azul da aura de Ikarus. Não era uma poça comum. Era um espelho vivo do domínio de Kallon.


Thomas parou na beira da poça, ainda segurando o companheiro.


— Chegamos.


Gillian se deixou cair de joelhos, o cansaço finalmente vencendo a adrenalina. Raella se aproximou da água e tocou a superfície com a ponta dos dedos. A poça reagiu, enviando ondulações luminosas em direção ao Templo.


Dentro do salão antigo, algo se moveu.


Não era uma ameaça.  

Era uma presença.


A voz de Kallon ecoou não no ar, mas diretamente na mente dos três — e, com mais força, dentro do corpo ainda inconsciente de Ikarus.


— Tragam-no para dentro. A água já o reconheceu. Agora… eu posso agir.


Thomas olhou para as companheiras.  


Gillian assentiu, mesmo exausta. Raella ergueu o queixo, determinada.


Eles atravessaram o pátio.  


Passaram pela poça luminosa.  


E, carregando o único filho de um Hunen com uma mortal, entraram no Templo de Kallon enquanto a noite se fechava sobre a ilha e, longe dali, o resto de Ad’Heim continuava a sangrar sob o ataque coordenado de Vaelthas Levi.


A recuperação de Ikarus estava prestes a começar.


Ad’Heim: As Águas que Protegem


Por Yuri Schein  


O segundo dia no Mar Divisor nasceu sob um céu de cor errada.


O sol maior subiu pálido, filtrado por uma névoa cinzenta que não se dissipava. O sol vermelho menor permanecia quase invisível, como se tivesse sido empurrado para mais longe. As águas ao redor do barco continuavam escuras, mas a corrente azul que Kallon mantinha ao redor da embarcação brilhava com mais força agora — um caminho luminoso e estreito que cortava o mar negro como uma veia viva.


Thomas dormia em turnos curtos, as asas recolhidas com cuidado para não desequilibrar o barco. Gillian remava quando a corrente enfraquecia, o rosto marcado pela dor do braço quebrado e pelo cansaço acumulado. Raella mal dormia. Passava a maior parte do tempo ajoelhada ao lado de Ikarus, monitorando a aura dourada e azul que pulsava de forma cada vez mais sincronizada com a corrente do mar.


Foi no meio da manhã que a proteção quase falhou.


A água à frente do barco se agitou de forma violenta. Uma forma enorme subiu das profundezas — não um peixe, não uma serpente marinha comum. Era uma criatura corrompida, de escamas pretas e olhos esverdeados, com tentáculos longos demais e uma boca cheia de dentes que brilhavam com residual necromântico. O vapor metálico que saía dela era o mesmo da Costura.


Thomas se levantou imediatamente, montantes em mãos.


— Segurem o barco!


A criatura atacou. Um tentáculo bateu contra a lateral da embarcação com força suficiente para quase virá-la. Gillian gritou de dor quando o impacto sacudiu seu braço quebrado. Raella lançou o que restava de magia da capa, um feixe prateado que apenas irritou a besta. Thomas saltou para o ar, asas abertas, e desceu cortando o tentáculo mais próximo com os dois montantes.


A criatura rugiu — um som abafado pela água — e tentou envolver o barco por completo.


Foi então que a corrente azul explodiu.


A água ao redor da embarcação se ergueu em um muro líquido e luminoso. A criatura foi empurrada para trás com violência, tentáculos se contorcendo. Por um instante, uma presença imensa e antiga se fez sentir sobre o mar — a mesma presença que Ikarus havia encontrado no fundo do transe. A besta corrompida hesitou, os olhos esverdeados se estreitando, e então mergulhou de volta nas profundezas com um último movimento de fúria.


O muro de água desceu lentamente.  


A corrente azul se restabeleceu, mais forte do que antes.


Raella soltou a respiração que estava prendendo.


— Ele ainda está conosco.


Thomas pousou de volta no barco, ofegante, as escamas brilhando de esforço.


— Mas a proteção não é absoluta. Quanto mais nos aproximamos da Ilha… mais as coisas corrompidas vão tentar nos impedir.


Gillian ajeitou o braço quebrado com um gemido baixo.


— Então vamos mais rápido.


Eles avançaram.  


A corrente azul os puxava com mais determinação agora, como se Kallon estivesse acelerando o caminho. À tarde, a névoa começou a se abrir em alguns pontos. No horizonte ocidental, uma linha escura se formou — terra. Penhascos altos. A silhueta irregular de uma ilha.


A Ilha de Kallon.


Raella apontou, a voz embargada pelo cansaço e pela esperança.


— Ali…


Thomas estreitou os olhos. Mesmo de longe, era possível ver que a ilha não estava intacta. Colunas de fumaça subiam de alguns pontos da costa. Partes da floresta que cobria as encostas pareciam queimadas. Mas o ponto mais alto dos penhascos — onde o Templo deveria estar — ainda se erguia contra o céu, uma estrutura antiga de pedra clara que refletia a luz de forma estranha, quase azulada.


— O Templo ainda está de pé — murmurou Thomas. — Pelo menos isso.


Ikarus se mexeu no fundo do barco.  


A aura dourada e azul se intensificou de forma abrupta. Os olhos dele se abriram pela primeira vez desde a batalha contra Angarkor — apenas por alguns segundos. O azul profundo das íris misturava-se com residual dourado. Ele olhou diretamente para o horizonte, para a ilha que se aproximava, e sussurrou com a voz rouca e fraca:


— Pai… estou quase…


Depois os olhos se fecharam novamente. A aura voltou ao brilho constante e estável.


A corrente azul se fortaleceu ainda mais, empurrando o barco com velocidade renovada.


Gillian olhou para os companheiros.


— Quando chegarmos… o que vamos encontrar?


Ninguém respondeu de imediato.  


O Mar Divisor batia contra o casco do barco. A Ilha de Kallon crescia no horizonte. E, em algum lugar no ponto mais alto dos penhascos, o Templo antigo esperava pelo único filho de um Hunen com uma mortal — e pelo poder que ainda precisava ser estabilizado antes que o mundo inteiro terminasse de sangrar.


O sol começou a descer.  


A última parte da travessia estava começando.



Ad’Heim: A Travessia das Cinzas


Por Yuri Schein  


Deixar Lenória Imperial foi mais difícil do que qualquer um deles esperava.


As muralhas quebradas não ofereciam mais proteção, apenas pontos de fuga. Thomas carregava Ikarus com as asas meio abertas, usando a força residual do meio-dragão para saltar por cima de escombros e evitar as ruas onde grupos de mortos-vivos ainda rondavam. Gillian, apesar do braço quebrado, mantinha a espada na mão boa e abria caminho quando necessário. Raella caminhava logo atrás, a capa mágica agora tão gasta que mal brilhava, mas ainda capaz de lançar pequenos feixes de luz para cegar criaturas que se aproximavam demais.


O cheiro de fumaça e decomposição os seguiu até as portas ocidentais da cidade. Lá, o que restava da guarda de Lenória havia montado uma última linha de defesa improvisada — barricadas de carroças queimadas, lanças quebradas e um punhado de soldados exaustos que atiravam flechas contra tudo o que se movia na escuridão. Quando viram o grupo se aproximar com um homem inconsciente envolto em aura dourada e azul, baixaram as armas apenas o suficiente para deixá-los passar.


— Vocês estão loucos de sair agora — disse um sargento de rosto queimado, a voz rouca. — O porto está tomado. Os mortos-vivos chegam pelo mar também. E há dragões corrompidos sobrevoando a costa.


Thomas não parou.


— Não temos escolha. Precisamos chegar à Ilha de Kallon.


O sargento soltou uma risada amarga.


— A Ilha? Ninguém volta da Ilha desde que os ataques começaram. O Mar Divisor está… errado. Águas pretas. Coisas que sobem das profundezas. Boa sorte. Vocês vão precisar.


Eles atravessaram o que restava do porto sob a cobertura das últimas horas da noite. Navios queimados flutuavam meio afundados. Corpos de marinheiros e de criaturas marinhas corrompidas se misturavam nas águas rasas. O cheiro de sal estava misturado com o de magia necromântica. Thomas precisou voar curtos trechos carregando Ikarus, enquanto Gillian e Raella avançavam a pé, eliminando os mortos-vivos mais lentos que tentavam barrar o caminho.


Quando finalmente alcançaram uma pequena enseada protegida por rochas, encontraram o que procuravam: um barco de pesca abandonado, ainda intacto o suficiente para navegar. Era pequeno, velho, mas tinha velas e remos. Thomas depositou Ikarus com cuidado no fundo da embarcação. A aura dourada e azul tremeu, mas se manteve estável.


— Vamos precisar remar e usar o vento — disse Thomas, olhando para o horizonte ocidental. — A Ilha de Kallon fica além do Mar Divisor. Em condições normais, seriam dois dias. Agora… não sei.


Gillian se sentou no banco do remo, o braço quebrado pressionado contra o peito.


— Então remamos até não conseguirmos mais.


Raella ajeitou a capa e olhou para Ikarus. Os lábios do guerreiro se moviam novamente, murmurando palavras que só ela parecia captar parcialmente.


— Ele ainda fala com Kallon — sussurrou ela. — Ou pelo menos… ainda está lá.


O barco deixou a costa de Lenória enquanto o primeiro sol vermelho menor começava a surgir no horizonte. Atrás deles, a cidade continuava a arder. Colunas de fumaça subiam como dedos negros apontando para o céu. À frente, o Mar Divisor se estendia escuro e inquieto. As águas não eram mais azuis. Tinham um tom acinzentado, quase preto em alguns pontos, e correntes estranhas puxavam a embarcação em direções que não seguiam o vento.


Horas se passaram.


O sol maior subiu, mas a luz parecia fraca, filtrada por uma névoa que não se dissipava. De tempos em tempos, formas escuras se moviam sob a superfície — grandes demais para serem peixes, lentas demais para serem golfinhos. Thomas mantinha uma das mãos na lateral do barco, pronto para abrir as asas a qualquer sinal de ataque. Gillian remava com a mão boa, o rosto tenso de dor e determinação. Raella tentava manter uma pequena barreira mágica ao redor da embarcação, mas a capa mal respondia.


Foi no final do primeiro dia que a água ao redor do barco começou a brilhar com um tom azul fraco.


Não era a luz esverdeada da necromancia.  

Era o mesmo azul da aura de Ikarus.


Raella ergueu o olhar, esperançosa.


— Kallon…


A superfície do mar se agitou suavemente. Uma corrente quente, quase protetora, envolveu o barco e começou a empurrá-lo com mais firmeza na direção oeste. As formas escuras sob a água se afastaram. O vento, que até então soprava de forma irregular, alinhou-se com a corrente.


Thomas soltou a respiração que estava prendendo.


— Ele ainda está protegendo de longe.


Gillian olhou para Ikarus. A aura dourada e azul havia se intensificado levemente, como se respondesse à proximidade do domínio do pai.


— Então vamos usar isso. Vamos chegar à Ilha.


A noite caiu sobre o Mar Divisor.  


Longe, atrás deles, Lenória Imperial continuava a se desfazer sob o ataque incessante. À frente, ainda invisível na escuridão, a Ilha de Kallon esperava — e, no ponto mais alto de seus penhascos, o Templo antigo onde o Hunen das Águas finalmente poderia agir sem restrições.


No fundo do barco, Ikarus murmurou mais uma vez, a voz fraca, mas clara o suficiente para que os três ouvissem:


— Estou… vindo… pai…


A corrente azul se fortaleceu.  


E o pequeno barco avançou pela noite escura, carregando o único filho de um Hunen com uma mortal em direção ao único lugar onde ele ainda poderia ser salvo.



Ad’Heim: O Filho das Águas


Por Yuri Schein  

Enquanto Thomas carregava o corpo de Ikarus pelas ruínas de Lenória Imperial, evitando as ruas onde os mortos-vivos ainda rondavam e os dragões corrompidos ainda caçavam, a mente do guerreiro permanecia em outro lugar.


O fundo do mar.


A escuridão azul-profunda o envolvia novamente, mais clara agora, mais definida. A pressão da água era constante, mas já não doía. As algas antigas se moviam ao redor dele como se o reconhecessem. E, a poucos metros de distância, o homem de cabelos e olhos azuis flutuava com a mesma tranquilidade de antes. O sorriso ainda estava lá — sereno, antigo, quase paternal.


Ikarus tentou falar. Desta vez a voz saiu, abafada pela água, mas compreensível.


— Você… é Kallon.


O Hunen inclinou a cabeça em um gesto de confirmação.


— Sou. E você finalmente consegue dizer meu nome sem que a mente se recuse a aceitar.


Ikarus olhou para as próprias mãos. Naquele espaço de transe, a ferida no peito ainda existia, mas a luz dourada e azul que saía dela se entrelaçava de forma mais harmônica.


— Por que eu? Por que me mostrou isso? Por que a aura… por que o azul?


Kallon se aproximou um pouco. Os cabelos azuis flutuavam ao redor do rosto como correntes vivas. Os olhos — do mesmo tom profundo do mar ao redor — não desviavam.


— Porque você é meu filho, Ikarus.


O silêncio que se seguiu foi mais denso que a água.


Ikarus sentiu o corpo do transe tremer. A luz ao redor dele oscilou violentamente entre o dourado residual de Ranur e o azul antigo de Kallon.


— Isso… não é possível. Os Hunens… vocês não…


— Não geram filhos com mortais — completou Kallon, a voz calma. — Era o que todos acreditavam. Era o que os outros Doze preferiam acreditar. Mas houve uma exceção. Uma única. Sua mãe era humana. Uma mulher de Lenória que, há décadas, encontrou o mar em um momento em que eu ainda caminhava entre os mortais com mais frequência. O que nasceu dessa união… foi você. O único filho de um Hunen com uma mortal que existe em Ad’Heim.


Ikarus abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu de imediato. A revelação pesava mais que a pressão das profundezas.


— Então… o poder de Ranur… o dourado…


— O dourado é o presente de um Guardião que escolheu você no momento da morte. Ranur viu algo. Talvez tenha sentido o sangue antigo que corre em você. O azul… esse sempre esteve adormecido. Eu o mantive selado por anos. Para protegê-lo. Para que os outros Hunens não o encontrassem. Para que Arteph, Baltamus ou mesmo os Três Desertores não descobrissem que um filho mestiço existia.


Kallon estendeu a mão, sem tocar Ikarus, apenas mantendo a palma aberta entre os dois.


— Até hoje eu pude protegê-lo de longe. Mesmo ferido. Mesmo com a Costura aberta e Vaelthas Levi movendo suas peças. Mas a proteção à distância tem limites. A ferida que Angarkor abriu em você não é apenas física. Ela rasgou a barreira que eu havia colocado. O dourado de Ranur e o azul do meu domínio estão se misturando sem controle. Se isso continuar sem direção… você pode se perder entre os dois. Ou pior: pode se tornar algo que nenhum dos lados consegue reivindicar.


Ikarus sentiu a água ao redor tremer com a força da revelação.


— O que eu preciso fazer?


— Seus amigos já decidiram o caminho — respondeu Kallon. — Eles estão te levando para a Ilha. Para o Templo. É o único lugar onde eu posso agir de forma mais direta sem atrair a atenção completa dos outros. Lá, no coração do meu domínio antigo, eu poderei estabilizar o que está despertando em você. Você receberá mais do fortalecimento do Reino das Águas. O azul se tornará consciente. O dourado de Ranur se acomodará. E então… você poderá retornar a Lenória. Não como o homem que caiu diante de Angarkor. Mas como alguém que carrega dois domínios.


O Hunen sorriu novamente, desta vez com um toque de tristeza.


— Eu não pude criá-lo. Não pude caminhar ao seu lado. Mas posso fazer isso. Posso dar a você a chance de sobreviver ao que está vindo. E ao que Vaelthas Levi e Angarkor ainda pretendem libertar.


Ikarus olhou para o próprio peito, onde a luz dourada e azul pulsava em uníssono.


— E minha mãe?


Kallon demorou um instante antes de responder.


— Ela já não está entre os vivos. Mas o mar ainda carrega a memória dela. Quando você chegar ao Templo… talvez consiga ouvi-la também.


A escuridão azul ao redor começou a se clarear. A pressão diminuiu. A superfície distante se aproximava novamente.


— Vá — disse Kallon. — Seus amigos estão te carregando através de uma cidade que morre. O caminho até a Ilha será perigoso. Mas eu ainda posso proteger de longe… por enquanto. Quando chegar ao Templo, eu estarei esperando.


Ikarus sentiu o transe começar a se desfazer.


— Pai…


Kallon sorriu uma última vez.


— Durma mais um pouco, meu filho. Quando acordar de verdade… o mar já estará ao seu lado.


No mundo real, o corpo de Ikarus tremeu levemente nos braços de Thomas.  


A aura dourada e azul se intensificou por um instante, o suficiente para fazer Raella e Gillian olharem com esperança renovada. Os lábios de Ikarus se moveram. Desta vez a palavra saiu clara, embora ainda baixa:


— Kallon… Templo…


Thomas apertou o corpo do companheiro com mais firmeza e olhou para o oeste, onde, além das muralhas quebradas de Lenória e do Mar Divisor, a Ilha de Kallon esperava sob um céu carregado de fumaça e de presságios.


— Então é isso — murmurou o meio-dragão. — Vamos para a Ilha.


E, enquanto o grupo avançava pelas ruínas da cidade que um dia fora o orgulho de Lenória, no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa, Kallon, o Hunen das Águas, observava o filho pela última vez antes de se preparar para recebê-lo no Templo.


A jornada até a Ilha havia começado.



Ad’Heim: O Nome nas Profundezas


Por Yuri Schein  

O porão sob as ruínas de Lenória Imperial cheirava a mofo, a cera derretida e a sangue seco. As bênçãos residuais da sacerdotisa de Valeth ainda seguravam a maior parte das criaturas do lado de fora, mas o chão tremia de tempos em tempos com o impacto distante de dragões corrompidos e de muralhas que continuavam a cair. Tochas improvisadas iluminavam o espaço estreito onde os sobreviventes se amontoavam. No centro, sobre um manto rasgado estendido no chão de pedra, Ikarus jazia imóvel.


A aura dourada e azul ao redor do corpo dele havia se estabilizado em um brilho fraco e constante. A ferida no peito não sangrava mais com a mesma intensidade, mas também não fechava. Era como se duas forças distintas — o residual de Ranur e algo muito mais antigo — estivessem disputando o direito de mantê-lo vivo.


Raella ajoelhava-se ao lado da cabeça de Ikarus, os dedos levemente tocando a testa dele. A capa mágica, ainda opaca, tremia de forma quase imperceptível. Gillian, com o braço quebrado agora imobilizado de forma mais adequada, observava em silêncio. Thomas permanecia de pé, as asas meio recolhidas, os olhos vermelhos fixos na entrada do porão como se esperasse que a qualquer momento os mortos-vivos conseguissem atravessar as últimas defesas.


Foi a sacerdotisa quem quebrou o silêncio.


— Essa luz azul… — murmurou ela, inclinando-se mais perto. — Não é de Lenoria. Não é de Valeth. Não é de nenhum dos domínios que eu reconheça de imediato.


Raella ergueu o olhar.


— No transe… ele falou. Ou pelo menos tentou. Havia um homem. Cabelos azuis. Olhos azuis. No fundo de um mar.


A sacerdotisa ficou completamente imóvel.


— Descreva o rosto.


Raella fechou os olhos, tentando lembrar das palavras fragmentadas que Ikarus havia murmurado durante a jornada de volta.


— Ele sorria. Não de forma cruel. Era… antigo. Como se já conhecesse Ikarus. E a água ao redor não parecia pertencer a nenhum oceano que eu já tenha visto. Era mais profunda. Mais quieta. Mais… velha.


A sacerdotisa levou a mão à boca. Os olhos dela se encheram de algo que misturava temor e compreensão súbita.


— Kallon.


A palavra saiu baixa, quase um sussurro, mas ecoou no porão como se tivesse peso físico.


Thomas franziu o cenho.


— O reino? A ilha?


— Não — respondeu a sacerdotisa, a voz agora mais firme, embora ainda abalada. — O Hunen. Kallon, o senhor das águas. Aquele cujo domínio é o mar e tudo o que existe abaixo dele. O mesmo cujo nome deu origem à Ilha de Kallon, a oeste daqui. Se Ikarus o viu… se o Hunen se manifestou diretamente no transe dele…


Ela olhou novamente para a aura azul que se entrelaçava com o dourado residual de Ranur.


— Então o poder que está despertando dentro de Ikarus não é apenas o de um Guardião. É algo que cruza dois domínios. Lenoria e Kallon. Guerra e Mar. Ouro e azul.


Gillian apertou os lábios.


— E o que isso significa?


A sacerdotisa demorou a responder. Quando falou, a voz saiu carregada de uma gravidade antiga.


— Significa que ele não vai se recuperar completamente aqui. As bênçãos de Valeth podem segurar a ferida por um tempo. Mas o que está acontecendo dentro dele… só pode ser compreendido — e talvez estabilizado — no território original de Kallon. No Templo.


Thomas sentiu um arrepio percorrer as escamas.


— O Templo de Kallon. Na ilha.


— Sim. A oeste de Lenória, além do Mar Divisor, na Ilha de Kallon. O templo fica no ponto mais alto dos penhascos, onde o oceano encontra a pedra antiga. Poucos mortais já entraram nele desde que os Hunens se afastaram. E menos ainda voltaram. Mas se o senhor das águas se mostrou a Ikarus… então o caminho já foi aberto. De alguma forma.


Raella olhou para o corpo imóvel do companheiro.


— E se levá-lo até lá for exatamente o que o Necromante espera? Ou Angarkor?


A sacerdotisa balançou a cabeça lentamente.


— Talvez seja. Mas deixá-lo aqui, com a ferida aberta e dois domínios disputando o corpo dele, também é uma sentença. A aura está estável por enquanto. Não vai permanecer assim para sempre. Se o azul de Kallon continuar crescendo sem direção… ou se o dourado de Ranur se apagar completamente… ele pode se perder entre os dois. Ou pior.


Thomas ajeitou as asas e olhou para a entrada do porão, onde o som distante de batalha ainda ecoava.


— Lenória está em ruínas. As outras cidades grandes também, pelo que vocês disseram. O mundo inteiro está sob ataque. E agora… temos que atravessar o mar até uma ilha que pode estar igualmente devastada.


— Ou pode ser um dos últimos lugares onde o domínio de Kallon ainda resiste — respondeu a sacerdotisa. — O mar sempre foi mais difícil de corromper do que a terra. Pelo menos… era.


Gillian se levantou com dificuldade, o braço quebrado pressionado contra o peito.


— Então vamos. Não temos outra escolha. Ikarus nos trouxe até aqui. Agora somos nós que precisamos levá-lo até o templo.


Raella assentiu em silêncio. Thomas ajoelhou-se ao lado de Ikarus e, com cuidado, ergueu o corpo do guerreiro novamente nos braços. A aura dourada e azul tremeu, mas não se apagou. Por um instante, os lábios de Ikarus se moveram. Uma única palavra escapou, tão baixa que quase se perdeu no barulho distante da cidade morrendo:


— Kallon…


A sacerdotisa fez um sinal sagrado no ar.


— Que as águas o reconheçam. E que o templo ainda esteja de pé quando vocês chegarem.


Eles saíram do porão sob a cobertura da noite, evitando as ruas principais onde os mortos-vivos ainda caminhavam e os dragões corrompidos ainda caçavam. Atrás deles, Lenória Imperial continuava a arder e a se desfazer. À frente, além das muralhas quebradas e do Mar Divisor, a Ilha de Kallon esperava — e, com ela, o Templo onde talvez as respostas finalmente começassem a fazer sentido.


O corpo de Ikarus pesava nos braços de Thomas.  


A aura dourada e azul pulsava.  


E, em algum lugar no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa, o homem de cabelos e olhos azuis ainda sorria.



Ad’Heim: As Cinzas de Lenória

 

Por Yuri Schein  

Carregar Ikarus foi a parte mais longa e mais silenciosa da jornada.

Thomas o ergueu com cuidado, as asas meio abertas para equilibrar o peso. A aura dourada e azul ao redor do corpo do guerreiro ainda pulsava de forma fraca e irregular, como um coração que se recusava a parar completamente. A ferida no peito continuava a sangrar luz e sangue, mas a mistura das duas cores parecia impedir que a morte se completasse de imediato. Gillian, com o braço quebrado improvisadamente amarrado contra o peito, caminhava ao lado, a outra mão firme na empunhadura da espada. Raella seguia logo atrás, a capa mágica agora opaca e pesada, os olhos vermelhos de cansaço e de tudo o que haviam perdido.


Ninguém falava.


O caminho de volta para o sul foi marcado por rachaduras no chão, vapor metálico que ainda subia em colunas irregulares e o silêncio opressor de uma terra que parecia estar segurando a respiração. As árvores da Floresta Encantada, que antes tentavam impedi-los de partir, agora estavam quietas demais. Muitas haviam morrido de verdade. Outras inclinavam-se para longe do rastro que o grupo deixava, como se temessem a luz residual que ainda emanava de Ikarus.


Horas se arrastaram.  


Depois dias.  


Eles evitaram as estradas principais. Seguiram trilhas de caçadores, leitos secos de rios e, quando necessário, o próprio voo curto e exaustivo de Thomas carregando Ikarus por trechos mais perigosos. A cada parada, Raella tentava estabilizar a ferida com o pouco de magia que a capa ainda oferecia. A cada amanhecer, a aura dourada e azul parecia um pouco mais fraca. A cada anoitecer, Ikarus murmurava palavras que nenhum deles compreendia — fragmentos de um idioma antigo, misturado com o som de correntes marinhas que não existiam naquela região.


Quando finalmente avistaram as muralhas de Lenória Imperial, o coração de todos afundou.


A cidade não era mais a mesma.


As altas muralhas de pedra branca, que um dia brilhavam sob o sol e ostentavam o símbolo do grifo em cada torre, agora estavam quebradas em dezenas de pontos. Grandes pedaços de pedra jaziam espalhados do lado de fora, como se um gigante tivesse socado a defesa da cidade até ela ceder. Bandeiras rasgadas e queimadas ainda tremulavam em alguns mastros, o grifo dourado quase irreconhecível sob a fuligem. Fumaça subia de vários bairros. O cheiro de carne queimada, de magia residual e de decomposição pairava no ar como uma névoa permanente.


E havia os mortos.


Não apenas corpos.  


Havia mortos-vivos ainda caminhando entre os escombros. Zumbis com armaduras de soldados de Lenória, esqueletos montados em restos de cavalos, criaturas sombrias que se moviam pelas ruas como manchas vivas de escuridão. Em alguns pontos, dragões menores — não os grandes senhores das Montanhas Lendárias, mas bestas corrompidas, de escamas opacas e olhos esverdeados — sobrevoavam os telhados destruídos, soltando sopros de fogo negro que derretiam o que ainda restava de madeira e pedra.


Thomas pousou com cuidado atrás de uma elevação de terra, ainda fora do alcance imediato das criaturas. Gillian se ajoelhou ao lado de Ikarus, verificando a respiração. Raella cobriu o rosto com as mãos por um momento.


— Isso… não é possível — murmurou Gillian. — Lenória Imperial. A cidade do grifo. A sede do regente Oberon.


— Foi — respondeu Thomas, a voz baixa e rouca. — Agora é só mais um campo de batalha.


Eles se aproximaram com cautela, evitando as ruas principais. Pelas vielas laterais e pelos escombros de casas destruídas, conseguiram avançar alguns quarteirões. O que viram pelo caminho confirmava o pior. Cadáveres de civis e soldados misturados. Marcas de feitiçaria necromântica queimadas nas paredes. Portais menores que ainda se abriam e se fechavam em becos, vomitando mais mortos-vivos e seres sombrios de olhos vazios. Em uma praça, um dragão corrompido de tamanho médio destroçava o que restava de uma torre de vigia, enquanto um grupo de esqueletos avançava sobre um punhado de sobreviventes desesperados.


Raella parou de repente.


— Ouçam.


Vozes.  


Não gritos de batalha. Sussurros. Conversas abafadas vindas de um porão parcialmente desabado. Thomas se aproximou com cuidado, os montantes prontos. Gillian cobriu a retaguarda. Quando abriram a porta improvisada de madeira quebrada, encontraram um grupo de cerca de vinte sobreviventes — soldados feridos, civis, uma sacerdotisa de Valeth com o rosto coberto de fuligem e uma criança que não parava de tremer.


A sacerdotisa ergueu um cajado improvisado ao vê-los, mas baixou ao reconhecer que não eram inimigos.


— Vocês… vieram de fora? — perguntou ela, a voz rouca. — Ainda existem lugares que não foram atingidos?


Thomas trocou um olhar com Gillian.


— Nós viemos da Costura. Do norte. O que aconteceu aqui?


A mulher soltou uma risada amarga e curta.


— O mesmo que aconteceu em todos os lugares, pelo que dizem os mensageiros que ainda conseguem chegar. Lenória foi só a primeira a cair de forma tão completa. Mas os rumores… os rumores são piores.


Ela se sentou pesadamente sobre um pedaço de muro desabado.


— Aldora foi atacada por legiões de mortos-vivos que saíram do próprio deserto. Sefrion viu suas torres de magia serem corrompidas de dentro para fora por feitiçaria negra. Kallon sofreu com serpentes marinhas corrompidas e portais abertos no fundo do oceano. Valeth, Gallen, até Baltamus… todas as grandes cidades. Todas. Ao mesmo tempo. Ou quase ao mesmo tempo. Mortos-vivos. Seres sombrios. Dragões corrompidos. Feitiçaria que quebra muralhas como se fossem madeira podre. É como se alguém tivesse coordenado tudo. Como se o mundo inteiro tivesse sido marcado no mesmo dia.


Raella sentiu a capa tremer sobre os ombros.


— Vaelthas Levi… — sussurrou ela. — O Necromante. Ele acelerou tudo depois que a Costura foi aberta.


A sacerdotisa ergueu o olhar.


— Vocês sabem o nome dele?


Ninguém respondeu de imediato.  


Thomas ajeitou Ikarus com mais cuidado nos braços. A aura dourada e azul ainda pulsava, fraca, mas constante. Os olhos do guerreiro continuavam fechados. A respiração era rasa.


— Precisamos de um lugar seguro — disse Thomas. — Ele está entre a vida e a morte. E o que quer que esteja acontecendo dentro dele… ainda não terminou.


A sacerdotisa olhou para Ikarus por um longo momento. Os olhos dela se estreitaram ao notar a mistura de cores na aura.


— Tragam-no para baixo. Há um espaço mais protegido. Poucos mortos-vivos conseguem atravessar as bênçãos que ainda restam aqui. Mas não se iludam… Lenória Imperial não é mais um refúgio. É apenas um campo de ruínas que ainda resiste por teimosia.


Enquanto desciam as escadas estreitas e escuras do porão, o som distante de um dragão corrompido ecoou sobre a cidade devastada. Em algum lugar, mais muralhas caíam. Em algum lugar, mais portais se abriam.


E, em algum lugar muito mais distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi e Angarkor observavam mapas antigos se atualizarem sozinhos com as marcas de cada cidade que caía.


O mundo de Ad’Heim sangrava.  


E Ikarus, carregado nos braços de Thomas, ainda sonhava com um homem de cabelos e olhos azuis no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa.


Ad’Heim: O Transe sob as Águas


Por Yuri Schein  


Ikarus não sentia mais a dor.  


O sangue ainda escorria da ferida aberta no peito, misturado com fragmentos residuais da luz dourada de Ranur, mas a sensação física havia se afastado como uma maré que recua. O mundo ao redor — a Costura sangrando, o vapor esverdeado, os gritos abafados de Thomas, Gillian e Raella — tornou-se distante, abafado, como se alguém tivesse colocado uma parede de água entre ele e a realidade.


Então a água veio de verdade.


Não era uma metáfora.  


Ikarus sentiu o corpo afundar. O chão rachado da Costura desapareceu. O céu partido desapareceu. O rosto de Angarkor desapareceu. Em seu lugar, houve apenas escuridão azul-profunda, pressão constante e o silêncio absoluto do fundo do mar. Bolhas subiam lentamente ao redor dele. Algas antigas e escuras se moviam com correntes que não pertenciam a nenhum oceano conhecido de Ad’Heim. Longe, muito longe acima, a superfície era apenas um disco pálido e distante de luz.


Ele tentou se mexer. O corpo respondeu com lentidão, como se a água fosse mais densa que o normal. A ferida no peito ainda existia, mas aqui, nas profundezas, o sangue que saía dela se dissolvia em filamentos dourados e azuis que dançavam ao redor de seu torso.


Foi então que ele viu o homem.


A figura estava a poucos metros de distância, flutuando na mesma escuridão azul sem esforço aparente. Cabelos longos e azuis flutuavam ao redor do rosto como se fossem feitos da própria água. Os olhos eram do mesmo tom — um azul profundo, antigo, quase luminoso na escuridão. O homem não usava armadura nem vestes elaboradas. Apenas uma túnica simples que se movia com as correntes. E ele sorria.


Não era um sorriso de zombaria.  

Não era um sorriso de piedade.  

Era um sorriso tranquilo, quase nostálgico, como se reconhecesse alguém que havia esperado por muito tempo.


Ikarus tentou falar. A voz não saiu. Apenas bolhas.


O homem de cabelos azuis inclinou a cabeça levemente e estendeu a mão. Não tocou Ikarus. Apenas manteve a palma aberta entre os dois, como se oferecesse algo que ainda não podia ser nomeado.


No mundo de cima, o corpo de Ikarus se moveu.


Thomas foi o primeiro a notar.  


— Ele… está se levantando.


Gillian, ainda com o braço quebrado pressionado contra o peito, arregalou os olhos. Raella, ajoelhada e ofegante, sentiu a capa mágica reagir antes mesmo de compreender o que via.


O corpo de Ikarus ergueu-se do chão rachado de forma lenta e antinatural. A ferida mortal no peito ainda sangrava, mas a luz que agora emanava dele não era apenas a residual dourada de Ranur. Havia uma segunda cor se misturando a ela — um azul profundo, oceânico, que se entrelaçava com o dourado como duas correntes de um mesmo rio. A aura cresceu. Placas de energia se reformaram sobre o corpo ferido, mais densas, mais definidas. A espada caída no chão tremeu e voou de volta para a mão de Ikarus, agora brilhando com as duas cores ao mesmo tempo.


Angarkor observava em silêncio.  


A espada longa ainda gotejava sangue. A ferida no ombro continuava aberta. Mas o guerreiro antigo não avançou. Em vez disso, inclinou a cabeça com genuíno interesse, os olhos estreitos acompanhando cada mudança na aura de Ikarus.


— Isso… é interessante — murmurou ele.


A voz de Angarkor ecoou sobre a Costura enquanto o corpo de Ikarus se erguia completamente, os pés deixando o chão, a aura dourada e azul pulsando com uma força que fazia o vapor esverdeado se afastar.


— Deixarei você descobrir a força do seu poder — continuou Angarkor, a voz baixa e carregada de uma expectativa quase divertida. — E depois terei uma batalha ainda mais maravilhosa para travar. Até lá…


Ele ergueu a mão livre.  


Um portal de sombra e luz necromântica se abriu atrás dele, o mesmo tipo de abertura que Vaelthas Levi havia usado minutos antes. Angarkor deu um passo para trás, sem tirar os olhos do corpo erguido de Ikarus.


— Não morra cedo demais, portador de dois domínios. Eu quero ver o que você se tornará quando acordar de verdade.


O portal se fechou atrás dele com um som úmido e final.  


Angarkor desapareceu, deixando apenas o cheiro metálico e a Costura ainda sangrando.


No fundo do mar do transe, o homem de cabelos e olhos azuis continuava sorrindo.  


Ele finalmente falou. A voz não veio como som. Veio como corrente, como pressão, como memória antiga que se acomodava dentro da mente de Ikarus.


— Você carregou o ouro de Lenoria. Agora carrega também o azul que existia antes dos reinos terem nomes. Quando acordar… decida o que fazer com os dois.


Ikarus tentou responder.  


A escuridão azul ao redor dele começou a se desfazer. A pressão diminuiu. A superfície distante se aproximou como se o próprio mar o estivesse empurrando de volta para cima.


No mundo real, a aura dourada e azul ao redor do corpo de Ikarus se intensificou uma última vez.  


Thomas, Gillian e Raella se aproximaram com cautela, ainda feridos, ainda abalados, mas incapazes de desviar o olhar.


O corpo de Ikarus ainda flutuava a alguns centímetros do chão.  


Os olhos ainda estavam fechados.  


Mas a respiração, antes irregular e molhada de sangue, agora saía de forma lenta e constante.


A Costura continuava aberta.  


O Necromante e Angarkor haviam partido.  


E algo novo — algo que misturava o dourado de um Guardião morto com o azul de um fundo de mar que não pertencia a nenhum mapa — havia começado a despertar dentro de Ikarus.


Ad’Heim: A Realidade que Sangra

 

Por Yuri Schein  


O duelo entre Ikarus e Angarkor havia se tornado um furacão de luz dourada e energia necromântica. Cada impacto de lâminas fazia a borda da Costura tremer. O vapor esverdeado subia cada vez mais alto, e o chão sob os pés dos dois guerreiros rachava em padrões irregulares, como se a própria terra não soubesse mais qual forma manter.


Foi então que Thomas gritou.


— Agora!


O meio-dragão lançou-se do ar com as asas abertas e os dois montantes em chamas de fúria. Gillian avançou pelo lado esquerdo, a espada cortando o vapor esverdeado. Raella, mesmo com o corpo ainda abalado pela morte de Derek, ergueu as mãos e liberou a magia residual da capa em um feixe de energia prateada que tentou envolver Angarkor.


Pela primeira vez desde o início do combate, Angarkor foi forçado a se dividir.


Ele desviou o golpe de Thomas com um giro rápido, bloqueou a estocada de Gillian com a lateral da espada e dissipou a magia de Raella com um movimento do ombro, como se estivesse apenas afastando uma mosca. Mas o impacto combinado o fez recuar dois passos. A luz dourada ao redor de Ikarus se intensificou, aproveitando a abertura.


— Vocês ainda não entenderam — disse Angarkor, a voz baixa e quase cansada. — Não é força que decide isso.


Ele cravou a ponta da espada no chão.


A realidade ao redor se contorceu.


Não foi magia comum. Não foi necromancia. Foi algo mais antigo e mais cruel. O ar se dobrou. O chão se alongou e depois se encolheu. As distâncias mudaram. Thomas, que estava a poucos metros, de repente se viu a dezenas de passos de distância, como se o espaço tivesse sido esticado à força. Gillian deu um passo à frente e encontrou o próprio pé afundando em um chão que não existia mais, uma ilusão tão real que a carne doía. Raella lançou outra magia, mas a energia se curvou no ar e voltou contra ela, arremessando-a violentamente contra uma pedra rachada.


Angarkor ergueu a mão esquerda.


— Eu distorço o que quiser. Quando quiser. A realidade é apenas uma sugestão para quem já viu o outro lado da porta.


Uma onda invisível se expandiu a partir dele.  


Thomas gritou quando suas asas foram dobradas de forma antinatural, os ossos rangendo sob uma pressão que não vinha de nenhum golpe físico. Gillian caiu de joelhos, o braço esquerdo torcido em um ângulo impossível, o sangue escorrendo por entre os dedos. Raella foi erguida do chão por uma força invisível e arremessada contra o chão rachado com violência suficiente para fazê-la perder a consciência por alguns segundos. O vapor esverdeado da Costura parecia dançar ao redor de Angarkor, alimentando o poder que ele liberava.


Ikarus rugiu e avançou através da distorção.


A luz dourada de Ranur ao redor de seu corpo resistia parcialmente à quebra da realidade, mas não o suficiente. Cada passo era uma luta contra um mundo que se recusava a permanecer estável. O chão subia e descia sob seus pés. O ar se tornava sólido e depois líquido. A espada de Angarkor parecia estar em três lugares ao mesmo tempo.


Ainda assim, Ikarus atacou.


O golpe carregava tudo o que restava: a morte de Derek, o sacrifício de Ranur, a fúria acumulada desde a Clareira da Árvore Negra. A lâmina dourada cortou o espaço distorcido e encontrou a armadura de Angarkor no ombro, abrindo uma ferida profunda que fez o guerreiro antigo recuar e soltar um grunhido de dor genuína.


Angarkor olhou para o próprio sangue escuro escorrendo pela armadura.


— Bom — murmurou ele. — Você ainda consegue me alcançar.


Então ele moveu os dedos.


A realidade ao redor de Ikarus se quebrou de forma brutal.


O espaço se comprimiu. O ar se tornou uma prensa invisível. A luz dourada ao redor do corpo de Ikarus cintilou desesperadamente, tentando proteger o portador, mas não foi suficiente. Uma força invisível atravessou o peito do guerreiro como uma lança feita de espaço distorcido. O impacto foi tão violento que Ikarus foi arremessado para trás, a espada dourada caindo de sua mão e se apagando parcialmente ao tocar o chão.


Ele caiu de joelhos, depois de lado.  


O sangue — misturado com residual de luz dourada — se espalhou pelo chão rachado. A ferida no peito era profunda, irregular, como se a própria realidade tivesse tentado arrancar algo de dentro dele. A armadura residual de Ranur se rachava e se desfazia em fragmentos de luz. A respiração de Ikarus saía em engasgos curtos e molhados.


Thomas gritou o nome dele e tentou se aproximar, mas a distorção ainda o mantinha afastado. Gillian, com o braço quebrado, rastejava em direção ao companheiro. Raella, ainda atordoada, tentava reunir magia suficiente para alcançar Ikarus.


Angarkor caminhou até ficar a poucos passos do corpo caído. A espada longa ainda gotejava o sangue escuro da ferida no ombro. Ele observou Ikarus por um longo momento, a expressão quase… pensativa.


— Você lutou melhor do que a maioria — disse ele, a voz baixa. — O presente de Ranur te deu uma chance. Mas a realidade… a realidade sempre pertenceu a quem está disposto a quebrá-la.


Ikarus tentou se levantar. Conseguiu apenas erguer a cabeça. Os olhos ainda brilhavam com residual dourado, mas a luz estava se apagando rapidamente. O sangue continuava a escorrer.


— Ainda… não… terminou… — conseguiu sussurrar, a voz quase inaudível.


Angarkor inclinou a cabeça levemente.


— Para você, quase.


Ele ergueu a espada novamente, preparando o golpe final.


A Costura sob eles pulsou com mais força.  


E, em algum lugar distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava através do espelho de osso, o sorriso discreto ainda nos lábios.


A ferida de Ikarus continuava a sangrar luz e sangue.  


E a realidade ao redor permanecia quebrada.


Ad’Heim: O Duelo sob a Costura

 

Por Yuri Schein  

A luz dourada ao redor de Ikarus ainda não havia se estabilizado completamente. Placas improvisadas de energia residual da armadura de Ranur se formavam e se desfaziam sobre seus ombros e peito, como se a própria essência do Guardião morto ainda estivesse tentando encontrar uma forma definitiva no corpo do guerreiro. A espada em sua mão queimava com um sol pequeno e furioso. O chão sob seus pés rachava a cada passo que ele dava em direção a Angarkor.


Angarkor não se moveu de imediato.  


O guerreiro da Guerra de Duzentos Anos observava Ikarus com uma expressão quase curiosa, a espada longa descansando no ombro. A armadura antiga, coberta de cicatrizes e runas esverdeadas, refletia a luz doentia da Costura. Atrás dele, a fenda continuava a se abrir lentamente, vomitando vapor metálico e ecos de algo que ainda não havia atravessado por completo.


— Você recebeu o presente de um Guardião — disse Angarkor, a voz grave e rouca, carregada de séculos de batalhas. — Ranur deve ter visto algo em você. Ou talvez tenha apenas desesperado no último instante.


Ikarus não respondeu com palavras.  


Ele atacou.


O primeiro golpe foi um corte diagonal carregado de toda a fúria acumulada desde a Clareira da Árvore Negra. A lâmina dourada encontrou a espada de Angarkor com um estrondo que fez o ar tremer. Faíscas de luz dourada e energia necromântica explodiram no ponto de impacto. Angarkor desviou o segundo golpe com um movimento quase preguiçoso, mas o terceiro o forçou a recuar um passo. O poder residual de Ranur não era apenas força bruta — era a própria guerra condensada em um corpo humano.


— Você luta como alguém que perdeu demais — murmurou Angarkor, bloqueando um quarto golpe e girando o corpo para desferir um contragolpe que Ikarus só conseguiu desviar no último instante. — Derek. Jetto. Rickson. E agora Ranur. A lista cresce.


Ikarus rugiu e avançou novamente.  


A luta se espalhou pela borda da Costura. Cada choque de lâminas fazia a terra tremer. Thomas tentou intervir, mas uma onda de energia liberada por Angarkor o arremessou para trás junto com Gillian e Raella. O duelo era entre os dois. E apenas entre os dois.


— Ele te usa! — gritou Ikarus entre um golpe e outro, a voz rouca de esforço e ódio. — O Necromante! Vaelthas Levi! Elias! Como quer que se chame! Ele te vê apenas como um cachorro! Um cão de guarda! Um instrumento que late quando ele manda e morde quando ele aponta!


Angarkor desviou um golpe alto e respondeu com uma estocada que raspou a armadura residual de Ikarus, arrancando um pedaço de luz dourada.


— Cachorro? — repetiu ele, e pela primeira vez um sorriso frio apareceu em seu rosto marcado. — Você realmente acredita nisso?


Ele avançou com uma sequência de golpes tão rápidos que Ikarus mal conseguia acompanhar. Cada impacto fazia o corpo do guerreiro tremer. A luz dourada ao redor de Ikarus cintilava de forma instável, como se o poder de Ranur ainda estivesse se adaptando ao novo portador.


— Eu sou mais poderoso que o Necromante — disse Angarkor, a voz baixa e cortante enquanto forçava Ikarus a recuar em direção à borda da fenda. — Posso eliminá-lo no momento em que desejar. Não preciso de ordens. Não preciso de permissão. Não preciso de um “mestre”.


Ikarus bloqueou um golpe que teria aberto seu peito e contra-atacou com um corte horizontal carregado de luz dourada. Angarkor desviou com o mínimo de esforço.


— Então por que obedece? — rosnou Ikarus. — Por que protege a retirada dele? Por que se curva quando ele fala?


Angarkor parou por um instante.  


A espada ainda erguida. O olhar fixo em Ikarus. O vapor esverdeado da Costura subia ao redor dos dois como uma névoa viva.


— Porque, no momento, nós apenas compartilhamos ideias — respondeu ele, a voz agora mais calma, quase reflexiva. — Vaelthas Levi… Elias… o homem que abriu a porta nas geleiras de Baltamus… é alguém realmente inteligente. Mais inteligente do que a maioria dos Hunens que já encontrei. Ele compreende a morte de uma forma que nem Arteph ousa admitir. Ele viu o que existe abaixo. E eu… eu quero ver também.


Ele deu um passo à frente. A espada de Ikarus tremeu sob a pressão da lâmina antiga.


— Angarkor, Neutro e Ordekh lutaram a Guerra de Duzentos Anos por reinos que já esqueceram nossos nomes. Lutamos por ordens que nunca nos pertenciam. Eu cansei de ser peça de tabuleiros alheios. O Necromante não me ordena. Ele me mostra caminhos. E enquanto esses caminhos me interessarem… eu o protejo. Não porque seja meu mestre. Mas porque, por enquanto, ele é útil. E porque é inteligente demais para ser desperdiçado.


Ikarus sentiu a fúria subir como fogo líquido.  


A luz dourada ao redor de seu corpo explodiu em intensidade. O poder residual de Ranur respondeu à emoção, formando placas mais densas, mais definidas. A espada brilhou como um sol em miniatura.


— Então você admite! — gritou ele, avançando com uma sequência de golpes tão violentos que Angarkor foi forçado a recuar de verdade pela primeira vez. — Você admite que ele é apenas uma ferramenta temporária! Que você pode matá-lo quando quiser! Então por que não o faz agora?! Por que deixa que ele abra a Costura?! Por que permite que Derek tenha morrido por causa das ambições dele?!


Angarkor bloqueou o último golpe com as duas mãos na espada. Os olhos dele se estreitaram.


— Porque a porta ainda não está completamente aberta — respondeu ele, a voz agora carregada de uma intensidade quase sombria. — Porque o que existe do outro lado ainda não atravessou. E porque, quando atravessar… eu quero estar do lado certo da história. O lado que não se ajoelha para Hunens, para Guardiões ou para reinos que já apodreceram por dentro.


Ele empurrou Ikarus para trás com um movimento brusco.


— Você recebeu o poder de um Guardião. Isso te torna perigoso. Mas ainda não te torna meu igual. Ranur era um cão de guarda dourado. Você agora é apenas o novo cão.


Ikarus rugiu e lançou-se novamente.  


O duelo se intensificou. Luz dourada e energia necromântica colidiam em explosões que faziam a Costura tremer ainda mais. Thomas, Gillian e Raella tentavam se aproximar, mas a pressão da batalha os mantinha afastados. Cada golpe de Ikarus carregava a memória de Derek se desfazendo em partículas de luz. Cada bloqueio de Angarkor carregava séculos de guerras e de irmãos perdidos.


— Você é só mais um instrumento! — gritou Ikarus entre os golpes. — O Necromante te usa exatamente como usou Angarkor no passado! Como usou os mortos-vivos! Como usou a Costura! Você é o cachorro dele, quer admita ou não!


Angarkor desviou um golpe que teria cortado sua garganta e respondeu com uma estocada que rasgou o ombro de Ikarus, arrancando um grito de dor e um jorro de luz dourada.


— Chame-me de cachorro quantas vezes quiser — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Mas lembre-se: o cachorro que escolhe a própria coleira ainda é mais livre do que o homem que se ajoelha para Guardiões mortos.


A luta continuou.  


A Costura sangrava.  

E, em algum lugar distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava através de um espelho de osso negro, um sorriso discreto nos lábios.

O duelo ainda não havia terminado.


Ad’Heim: O Último Brilho Dourado

 

Por Yuri Schein  


O silêncio que se seguiu à morte de Derek não durou mais do que alguns segundos.  


Foi um silêncio pesado, denso, quase sólido. Um silêncio feito de choque, de dor e de uma fúria que ainda não havia encontrado forma. Thomas pairava no ar com as asas abertas, o peito subindo e descendo em respiração irregular, os montantes tremendo nas mãos. Gillian tinha o rosto pálido, os lábios apertados com tanta força que quase sangravam. Raella chorava sem fazer som, a capa mágica ainda brilhando de forma instável ao redor do corpo. Ikarus, no entanto, não se mexia. Seus olhos estavam fixos no ponto onde Derek havia se desfeito. A mão na espada estava tão cerrada que os nós dos dedos haviam ficado brancos.


Vaelthas Levi observava tudo com a mesma calma terrível de antes. O cajado de osso ainda brilhava com residual da energia dos Brincos de Valeth. A Costura Primeira continuava a se abrir sob seus pés, a luz esverdeada pulsando como um coração antigo e doentio.


— O catalisador foi aceito — repetiu ele, a voz ecoando dentro de todos. — A Costura sangra. Em breve, aquilo que existe abaixo de Arteph começará a atravessar de verdade. Vocês podem tentar impedir. Não fará diferença.


Ranur não respondeu com palavras.


O Guardião de Lenória desceu do Grifo com um movimento tão rápido que o ar estalou. A armadura dourada explodiu em luz. Não era o brilho contido de antes. Era um sol em colapso. A espada que se materializou em sua mão não era apenas uma arma — era a própria essência do domínio de Lenoria transformada em lâmina. O Grifo rugiu e se posicionou atrás do seu Guardião, asas abertas, pronto para o combate final.


— Vaelthas Levi — disse Ranur, a voz agora carregada de um poder que fazia o chão tremer. — Você foi Elias. Você foi homem. E agora será apenas memória.


Ele atacou.


O impacto foi devastador.  


Ranur atravessou o ar como um meteoro dourado. A espada desceu em um arco perfeito, carregando consigo séculos de juramentos, de torres douradas e de grifos que haviam protegido Lenória desde antes dos reinos terem nomes. Vaelthas Levi ergueu o cajado. A luz esverdeada e a luz dourada colidiram no centro do céu acima da Costura. O estrondo que se seguiu não foi som — foi uma onda de força que varreu o terreno, arremessando Thomas, Gillian, Raella e Ikarus para trás como folhas ao vento.


A batalha durou minutos que pareceram horas.


Ranur era velocidade e fúria controlada. Cada golpe da espada dourada cortava o ar com precisão mortal. O Grifo atacava em conjunto, garras e bico tentando alcançar o Necromante. Vaelthas Levi, no entanto, não recuava. Cada movimento do cajado de osso liberava ondas de energia necromântica que corroíam a luz dourada, transformando o brilho do Guardião em fumaça esverdeada. A Costura sob eles se alargava a cada segundo, como se a própria luta estivesse alimentando a abertura.


Foi no décimo terceiro golpe que tudo mudou.


Vaelthas Levi desviou a espada de Ranur com o cajado e, no mesmo movimento, cravou a ponta do osso negro no peito da armadura dourada. A luz explodiu. Ranur gritou — um grito que não era de dor, mas de algo muito pior: o grito de um Guardião sentindo o vínculo com seu reino se romper. A armadura rachou. A luz dourada começou a vazar como sangue líquido.


— Você lutou bem, Guardião — disse Vaelthas Levi, a voz ainda calma. — Mas os Doze nunca entenderam. A ordem não é eterna. Apenas… inconveniente.


Ele torceu o cajado.


A armadura dourada se partiu completamente.  


Ranur caiu de joelhos no ar, sustentado apenas pela vontade. O Grifo gritou de agonia, sentindo o vínculo se desfazer. O Guardião de Lenória ergueu o rosto uma última vez. Seus olhos dourados encontraram os de Ikarus, que ainda tentava se levantar no chão rachado.


— Ikarus… — a voz de Ranur saiu fraca, mas clara. — Pegue.


Ele estendeu a mão esquerda.  


Da rachadura da armadura, a luz dourada restante — toda a essência que ainda restava do Guardião de Lenória — se projetou como um rio de fogo líquido. A luz atravessou o espaço e atingiu Ikarus no peito com a força de um raio. O corpo do guerreiro se arqueou. Um grito rasgou sua garganta. A luz dourada invadiu cada fibra, cada osso, cada gota de sangue. Não era apenas poder. Era o domínio de Lenoria. Era a guerra. Era a coragem que nunca recua. Era a força que protege reinos inteiros.


Ikarus caiu de joelhos, o corpo tremendo violentamente enquanto a armadura dourada residual se formava em placas improvisadas sobre sua pele, enquanto a espada em sua mão começava a brilhar com o mesmo sol que havia pertencido a Ranur.


Ranur sorriu pela primeira vez desde que haviam se encontrado.


— Proteja… o que resta.


Então a luz se apagou.


O corpo do Guardião de Lenória se desfez em partículas douradas que o vento carregou para longe. O Grifo soltou um último rugido — um som de luto e de fúria — e desapareceu em direção a Lenória, como se a própria criatura soubesse que seu Guardião não existia mais.


Vaelthas Levi baixou o cajado, observando a luz residual se dissipar.


— Um Guardião a menos. Onze restantes. Ainda é cedo demais para—


Ele não terminou a frase.


O chão sob a Costura tremeu com uma violência nova. Uma presença antiga e familiar se ergueu das profundezas da fenda. Sombras se condensaram. E, do meio da luz esverdeada, uma figura alta e poderosa emergiu.


Angarkor.


O irmão de Neutro e Ordekh. O guerreiro da Guerra de Duzentos Anos. O homem que um dia jurara lealdade ao Necromante. Sua armadura antiga estava coberta de cicatrizes e de runas que brilhavam com a mesma energia esverdeada. Os olhos, no entanto, ainda carregavam o peso de quem havia visto demais e matado demais.


Ele pousou entre Vaelthas Levi e o grupo, a espada longa já desembainhada.


— Mestre — disse Angarkor, a voz grave e rouca. — Eles ainda estão vivos. E o poder do Guardião acabou de mudar de mãos.


Vaelthas Levi olhou para Ikarus, que agora se erguia lentamente, o corpo ainda tremendo, mas os olhos brilhando com luz dourada residual. A espada em sua mão agora queimava como um sol pequeno.


— Interessante — murmurou o Necromante. — O presente de Ranur. Que ironia.


Ele ergueu o cajado e, com um movimento circular, abriu um portal de sombra e luz esverdeada atrás de si.


— Angarkor. Proteja a retirada. A Costura já está aberta o suficiente. Eu preciso voltar às geleiras para acelerar o que vem a seguir. Você… entretenha-os.


Angarkor assentiu uma única vez.


— Como ordenar, mestre.


Vaelthas Levi deu um passo para trás e atravessou o portal. A abertura se fechou atrás dele com um som úmido e final, deixando apenas o cheiro metálico e a Costura ainda sangrando.


Angarkor virou-se para o grupo.  


Seus olhos encontraram os de Thomas, de Gillian, de Raella e, finalmente, os de Ikarus — agora envolto na luz dourada que um dia pertencera a Ranur.


— Vocês mataram o tempo do meu mestre — disse o guerreiro antigo. — Agora… vão pagar por isso.


A espada de Angarkor se ergueu.  


A luz dourada ao redor de Ikarus se intensificou.  


E a batalha que viria a seguir não seria apenas pelo destino de Ad’Heim.  


Seria pelo direito de ainda existir.