terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: O Convite do Guardião

 

Por Yuri Schein  

Ninguém se moveu de imediato.


O vapor escuro que subia da fenda continuava a se espalhar, rastejando pelo chão como se tivesse vontade própria. O cheiro metálico agora era tão forte que queimava a garganta. Raella cobriu o nariz com a manga da capa, mas o tecido já estava encharcado daquela umidade estranha.


Thomas foi o primeiro a falar.


— Se formos com você… para onde exatamente?


Ranur não desceu do Grifo. Apenas olhou para o norte, onde o céu ainda carregava a cicatriz da estrela desaparecida.


— Para o lugar onde os caminhos estão sendo reabertos. Onde os Três Desertores deixaram a primeira marca.


Ikarus apertou a empunhadura da espada.


— E o que tem lá?


— Respostas — respondeu o Guardião. — Ou a morte. Às vezes as duas coisas chegam juntas.


Gillian deu um passo à frente, os olhos fixos na rachadura.


— E se ficarmos?


Ranur virou o rosto para ela. A luz dourada da armadura refletia nos olhos da guerreira.


— Então vão assistir. E quando a coisa que está subindo chegar à superfície, não haverá mais floresta, nem reino, nem torre que a detenha. Os Doze já estão se movendo. Mas mesmo nós… talvez não sejamos suficientes.


Derek olhou para os Brincos de Valeth. A luz deles agora batia no mesmo ritmo irregular do vapor que subia da fenda.


— Nós já perdemos dois. Jetto. Rickson. Não sei quantos mais conseguimos perder.


Ranur baixou a voz.


— Eu sei. A Árvore Negra cobrou o preço. Mas o preço ainda não terminou de ser pago.


O Grifo bateu as asas uma vez, impaciente. Uma rajada de vento empurrou o vapor para longe por alguns segundos, revelando o fundo da fenda. Lá embaixo, algo se movia. Não era uma forma clara. Era uma presença. Uma vontade antiga que pressionava a mente de todos ao mesmo tempo.


Raella sentiu a capa se contrair sobre o corpo, como se quisesse fugir.


— Eu vou — disse ela, quase sem querer. — Se ficarmos, morremos aqui mesmo. Se formos… pelo menos morremos tentando entender.


Ikarus soltou um suspiro curto e assentiu.


— Então vamos.


Thomas não precisou falar. Já estava abrindo as asas.


Derek foi o último a decidir. Guardou os brincos sob a túnica e olhou uma última vez para a fenda.


— Que os Três se danem.


Ranur estendeu a mão.


Não havia espaço para todos no Grifo. A criatura era enorme, mas ainda assim limitada. Thomas resolveu o problema batendo as próprias asas e se elevando ao lado do Guardião. Os outros quatro subiram com dificuldade, segurando-se nas placas da armadura dourada e nas penas firmes do Grifo.


Quando a criatura decolou, a terra tremeu novamente.


A fenda se alargou.


E, do fundo dela, uma voz antiga e sem boca ecoou — não nos ouvidos, mas diretamente na mente de todos:


“Vocês não estão fugindo.  

Estão vindo até mim.”


O Grifo rugiu e acelerou, cortando o céu noturno em direção ao norte.


Abaixo deles, a rachadura continuava a se abrir, lenta e inevitável, como uma ferida que finalmente havia encontrado o caminho para sangrar de verdade.


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