Por Yuri Schein
A luz dourada ao redor de Ikarus ainda não havia se estabilizado completamente. Placas improvisadas de energia residual da armadura de Ranur se formavam e se desfaziam sobre seus ombros e peito, como se a própria essência do Guardião morto ainda estivesse tentando encontrar uma forma definitiva no corpo do guerreiro. A espada em sua mão queimava com um sol pequeno e furioso. O chão sob seus pés rachava a cada passo que ele dava em direção a Angarkor.
Angarkor não se moveu de imediato.
O guerreiro da Guerra de Duzentos Anos observava Ikarus com uma expressão quase curiosa, a espada longa descansando no ombro. A armadura antiga, coberta de cicatrizes e runas esverdeadas, refletia a luz doentia da Costura. Atrás dele, a fenda continuava a se abrir lentamente, vomitando vapor metálico e ecos de algo que ainda não havia atravessado por completo.
— Você recebeu o presente de um Guardião — disse Angarkor, a voz grave e rouca, carregada de séculos de batalhas. — Ranur deve ter visto algo em você. Ou talvez tenha apenas desesperado no último instante.
Ikarus não respondeu com palavras.
Ele atacou.
O primeiro golpe foi um corte diagonal carregado de toda a fúria acumulada desde a Clareira da Árvore Negra. A lâmina dourada encontrou a espada de Angarkor com um estrondo que fez o ar tremer. Faíscas de luz dourada e energia necromântica explodiram no ponto de impacto. Angarkor desviou o segundo golpe com um movimento quase preguiçoso, mas o terceiro o forçou a recuar um passo. O poder residual de Ranur não era apenas força bruta — era a própria guerra condensada em um corpo humano.
— Você luta como alguém que perdeu demais — murmurou Angarkor, bloqueando um quarto golpe e girando o corpo para desferir um contragolpe que Ikarus só conseguiu desviar no último instante. — Derek. Jetto. Rickson. E agora Ranur. A lista cresce.
Ikarus rugiu e avançou novamente.
A luta se espalhou pela borda da Costura. Cada choque de lâminas fazia a terra tremer. Thomas tentou intervir, mas uma onda de energia liberada por Angarkor o arremessou para trás junto com Gillian e Raella. O duelo era entre os dois. E apenas entre os dois.
— Ele te usa! — gritou Ikarus entre um golpe e outro, a voz rouca de esforço e ódio. — O Necromante! Vaelthas Levi! Elias! Como quer que se chame! Ele te vê apenas como um cachorro! Um cão de guarda! Um instrumento que late quando ele manda e morde quando ele aponta!
Angarkor desviou um golpe alto e respondeu com uma estocada que raspou a armadura residual de Ikarus, arrancando um pedaço de luz dourada.
— Cachorro? — repetiu ele, e pela primeira vez um sorriso frio apareceu em seu rosto marcado. — Você realmente acredita nisso?
Ele avançou com uma sequência de golpes tão rápidos que Ikarus mal conseguia acompanhar. Cada impacto fazia o corpo do guerreiro tremer. A luz dourada ao redor de Ikarus cintilava de forma instável, como se o poder de Ranur ainda estivesse se adaptando ao novo portador.
— Eu sou mais poderoso que o Necromante — disse Angarkor, a voz baixa e cortante enquanto forçava Ikarus a recuar em direção à borda da fenda. — Posso eliminá-lo no momento em que desejar. Não preciso de ordens. Não preciso de permissão. Não preciso de um “mestre”.
Ikarus bloqueou um golpe que teria aberto seu peito e contra-atacou com um corte horizontal carregado de luz dourada. Angarkor desviou com o mínimo de esforço.
— Então por que obedece? — rosnou Ikarus. — Por que protege a retirada dele? Por que se curva quando ele fala?
Angarkor parou por um instante.
A espada ainda erguida. O olhar fixo em Ikarus. O vapor esverdeado da Costura subia ao redor dos dois como uma névoa viva.
— Porque, no momento, nós apenas compartilhamos ideias — respondeu ele, a voz agora mais calma, quase reflexiva. — Vaelthas Levi… Elias… o homem que abriu a porta nas geleiras de Baltamus… é alguém realmente inteligente. Mais inteligente do que a maioria dos Hunens que já encontrei. Ele compreende a morte de uma forma que nem Arteph ousa admitir. Ele viu o que existe abaixo. E eu… eu quero ver também.
Ele deu um passo à frente. A espada de Ikarus tremeu sob a pressão da lâmina antiga.
— Angarkor, Neutro e Ordekh lutaram a Guerra de Duzentos Anos por reinos que já esqueceram nossos nomes. Lutamos por ordens que nunca nos pertenciam. Eu cansei de ser peça de tabuleiros alheios. O Necromante não me ordena. Ele me mostra caminhos. E enquanto esses caminhos me interessarem… eu o protejo. Não porque seja meu mestre. Mas porque, por enquanto, ele é útil. E porque é inteligente demais para ser desperdiçado.
Ikarus sentiu a fúria subir como fogo líquido.
A luz dourada ao redor de seu corpo explodiu em intensidade. O poder residual de Ranur respondeu à emoção, formando placas mais densas, mais definidas. A espada brilhou como um sol em miniatura.
— Então você admite! — gritou ele, avançando com uma sequência de golpes tão violentos que Angarkor foi forçado a recuar de verdade pela primeira vez. — Você admite que ele é apenas uma ferramenta temporária! Que você pode matá-lo quando quiser! Então por que não o faz agora?! Por que deixa que ele abra a Costura?! Por que permite que Derek tenha morrido por causa das ambições dele?!
Angarkor bloqueou o último golpe com as duas mãos na espada. Os olhos dele se estreitaram.
— Porque a porta ainda não está completamente aberta — respondeu ele, a voz agora carregada de uma intensidade quase sombria. — Porque o que existe do outro lado ainda não atravessou. E porque, quando atravessar… eu quero estar do lado certo da história. O lado que não se ajoelha para Hunens, para Guardiões ou para reinos que já apodreceram por dentro.
Ele empurrou Ikarus para trás com um movimento brusco.
— Você recebeu o poder de um Guardião. Isso te torna perigoso. Mas ainda não te torna meu igual. Ranur era um cão de guarda dourado. Você agora é apenas o novo cão.
Ikarus rugiu e lançou-se novamente.
O duelo se intensificou. Luz dourada e energia necromântica colidiam em explosões que faziam a Costura tremer ainda mais. Thomas, Gillian e Raella tentavam se aproximar, mas a pressão da batalha os mantinha afastados. Cada golpe de Ikarus carregava a memória de Derek se desfazendo em partículas de luz. Cada bloqueio de Angarkor carregava séculos de guerras e de irmãos perdidos.
— Você é só mais um instrumento! — gritou Ikarus entre os golpes. — O Necromante te usa exatamente como usou Angarkor no passado! Como usou os mortos-vivos! Como usou a Costura! Você é o cachorro dele, quer admita ou não!
Angarkor desviou um golpe que teria cortado sua garganta e respondeu com uma estocada que rasgou o ombro de Ikarus, arrancando um grito de dor e um jorro de luz dourada.
— Chame-me de cachorro quantas vezes quiser — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Mas lembre-se: o cachorro que escolhe a própria coleira ainda é mais livre do que o homem que se ajoelha para Guardiões mortos.
A luta continuou.
A Costura sangrava.
E, em algum lugar distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava através de um espelho de osso negro, um sorriso discreto nos lábios.
O duelo ainda não havia terminado.
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