Por Yuri Schein
Ikarus não voltou a dormir.
Permaneceu sentado na proa do barco até que o primeiro clarão do sol maior começasse a empurrar a escuridão do Mar Divisor. A aura azul-dourada ao redor do corpo pulsava de forma irregular, como se os dois domínios dentro dele também estivessem reagindo às palavras de Kallon. Guerra e mar. Ouro e azul. E agora… um destino que incluía duas mulheres, uma coroa e um filho que ainda não existia.
Gillian foi a primeira a notar que ele estava diferente.
— Você está quieto demais — disse ela, a voz rouca de cansaço. O braço quebrado ainda estava imobilizado, mas os olhos permaneciam afiados. — O que aconteceu?
Ikarus demorou a responder. Olhou para o horizonte leste, onde a fumaça de Lenória já era visível como uma mancha escura contra o céu que clareava.
— Kallon veio novamente. Em sonho.
Raella se aproximou, a capa envolta ao redor dos ombros. Thomas acordou com o movimento e se sentou, as asas se ajustando por instinto.
— E o que ele disse desta vez? — perguntou Thomas.
Ikarus respirou fundo. A água ao redor do barco reagiu levemente à tensão que emanava dele.
— Que eu devo me casar. Com as duas. Com você, Gillian. E com você, Raella.
O silêncio que caiu sobre a embarcação foi quase físico.
Gillian piscou uma vez, lentamente.
— Casar.
— Com as duas — repetiu Ikarus, a voz baixa, mas firme. — Kallon disse que Raella carrega sangue antigo o suficiente de Lenória para que o casamento me torne rei por direito de união. E que… no futuro… Gillian gerará um filho. Um filho que será a queda de Vaelthas Levi.
Raella abriu a boca, depois a fechou. A capa mágica tremeu sobre os ombros dela.
— Isso é…
— Loucura — completou Gillian, mas a voz não carregava a rejeição imediata que Ikarus esperava. Havia choque. Havia peso. Mas também uma avaliação silenciosa, típica de quem havia sobrevivido a demais coisas para descartar uma revelação dessas sem pensar.
Thomas passou a mão pelo rosto.
— O Hunen das Águas está pedindo que você se case com as duas únicas mulheres que restaram do nosso grupo… e que uma delas gere o futuro destruidor do Necromante.
— Não pediu — corrigiu Ikarus. — Revelou. Disse que as águas já viram esse caminho. Que se eu rejeitar, o fortalecimento que recebi no Templo terá sido apenas metade do que poderia ser. E que Levi continuará escrevendo o fim de Ad’Heim sem oposição verdadeira.
O barco avançou em silêncio por vários minutos. A corrente azul ainda os empurrava, mas parecia mais contida, como se o próprio domínio de Kallon estivesse aguardando a resposta.
Raella foi a primeira a falar novamente. A voz saiu controlada, mas havia um tremor sob as palavras.
— Eu carrego sangue antigo. Isso é verdade. Minha linhagem… nunca foi anunciada em voz alta, mas existe. Se Lenória ainda tiver leis depois de tudo isso… o casamento poderia, de fato, legitimar um novo reinado. Mas casar por necessidade de profecia…
— E eu — disse Gillian, interrompendo, o olhar fixo em Ikarus —, eu deveria aceitar gerar uma criança que nem existe ainda, só porque um Hunen disse que ela será a queda de um Necromante?
Ikarus não desviou o olhar de nenhuma das duas.
— Eu não estou ordenando nada. Nem Kallon ordenou. Ele revelou. A decisão… a decisão é nossa. De todos nós. Porque se isso for real, não afeta só a mim. Afeta o que restou de Lenória. Afeta o que ainda pode ser salvo. E afeta o que Vaelthas Levi ainda não sabe que está vindo contra ele.
Thomas soltou um longo suspiro e olhou para a fumaça distante de Lenória.
— Estamos voltando para uma cidade em ruínas. O mundo está sob ataque. Mortos-vivos, dragões corrompidos, feitiçaria negra. E agora… casamento duplo e uma profecia de filho.
Ele deu um meio sorriso cansado, sem humor.
— Ad’Heim nunca foi simples.
A costa de Lenória começou a se definir no horizonte. Muralhas quebradas. Torres parcialmente desabadas. Fumaça contínua. O porto ainda estava tomado, mas a corrente azul os guiava para a mesma enseada protegida que haviam usado na saída.
Ikarus ergueu a mão. A água ao redor do barco respondeu, elevando-se levemente como se reconhecesse o sangue do Hunen.
— Quando chegarmos… não precisamos decidir tudo de imediato. Mas precisamos sobreviver o suficiente para que a decisão ainda importe. Lenória precisa de alguém que se levante. O povo que restou precisa de um nome. E Vaelthas Levi… precisa descobrir que a Costura que ele abriu também deixou entrar algo que ele não previu.
Gillian olhou para a própria mão livre, depois para Ikarus.
— Eu não vou dizer sim agora. Nem não. Mas… eu ouvi. E não vou fingir que não ouvi.
Raella assentiu lentamente, os olhos ainda fixos no homem que carregava o azul de Kallon e o ouro de Ranur.
— Eu também ouvi.
O barco atingiu a areia preta da enseada pouco depois.
A fumaça de Lenória Imperial os envolvia novamente. O cheiro de magia necromântica e de madeira queimada voltava a preencher o ar. Longe, um dragão corrompido soltou um rugido distante.
Ikarus foi o primeiro a saltar na água rasa. A aura azul-dourada se expandiu ao redor dele como um manto vivo. Quando olhou para trás, para as duas mulheres e para o meio-dragão que ainda restavam, a expressão era a de alguém que carregava não apenas poder… mas o peso de um futuro que as águas já haviam começado a escrever.
— Então vamos. Uma cidade de cada vez. Uma decisão de cada vez.
E, juntos, os quatro começaram a subir novamente em direção às ruínas de Lenória Imperial — onde o povo que ainda respirava talvez estivesse prestes a conhecer não apenas um guerreiro que voltara mais forte, mas o início de uma linhagem que um dia quebraria o Necromante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário