terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: A Coroa entre as Cinzas

 

Por Yuri Schein  

Lenória Imperial não os recebeu com trumpetas nem com portas abertas.


Recebeu-os com fumaça, com o cheiro persistente de magia necromântica e com o olhar desconfiado de sobreviventes que já haviam aprendido a não confiar em quase nada que se aproximasse das muralhas quebradas. Thomas voou à frente em trechos curtos, mapeando os caminhos ainda transitáveis. Ikarus caminhava no centro do grupo, a aura azul-dourada discreta, mas visível o suficiente para fazer os poucos soldados que ainda montavam guarda baixarem as armas por um instante de hesitação. Gillian e Raella fechavam a formação.


Eles foram reconhecidos antes de alcançarem o que restava da praça central.


Um sargento de rosto queimado — o mesmo que os havia visto partir dias antes — emergiu de detrás de uma barricada de carroças carbonizadas. Os olhos dele se arregalaram ao notar a mudança em Ikarus.


— Vocês… voltaram. E ele… — o homem apontou com o queixo para a aura. — O que aconteceu com você?


— Sobrevivi — respondeu Ikarus apenas. — Onde está o regente Oberon?


O sargento baixou o olhar. O silêncio que se seguiu foi resposta suficiente.


— Morto. Há três dias. Um portal se abriu dentro do próprio salão do trono. Mortos-vivos e uma daquelas criaturas sombrias. Ele segurou a linha com o que restava da guarda pessoal. Não foi suficiente. O corpo… o que restou dele… está no que sobrou do templo de Valeth. Tentamos dar um enterro digno. Foi o máximo que conseguimos.


Gillian soltou um xingamento baixo. Thomas fechou as asas com um estalo seco. Raella permaneceu imóvel, mas os dedos dela apertaram a borda da capa até os nós ficarem brancos.


O sargento ergueu o olhar novamente, desta vez fixando-se em Raella.


— Tem mais. O povo… o que restou dele… já está falando. Oberon não deixou herdeiro direto. A linha antiga de Lenória está quase extinta. Mas há rumores. Rumores antigos. Sobre sangue. Sobre linhagem que nunca foi anunciada em voz alta, mas que nunca desapareceu por completo.


Ele fez uma pausa, como se pesasse as palavras seguintes.


— Estão dizendo o seu nome, minha senhora. Raella. Dizem que o sangue antigo corre em você. Dizem que, se alguém ainda pode levantar um estandarte que o povo reconheça… é você. Já tem gente se reunindo no que restou da praça do grifo. Não é um exército. É só sobreviventes. Mas eles querem uma rainha. E o nome que estão pronunciando… é o seu.


Raella sentiu o peso de todos os olhares sobre ela. O de Ikarus. O de Gillian. O de Thomas. O do sargento. E, atrás deles, o de dezenas de rostos sujos e exaustos que começavam a se aproximar ao perceber a comoção.


— Eu nunca pedi por isso — disse ela, a voz baixa, mas firme.


— Ninguém pediu por nenhuma das coisas que aconteceram nas últimas semanas — respondeu o sargento. — Mas Oberon está morto. As muralhas estão caídas. Os mortos-vivos ainda atacam todas as noites. E o povo precisa de um nome para não se desfazer por completo. O seu nome é o único que ainda carrega algo antigo o suficiente para eles se segurarem.


Ikarus deu um passo à frente. A aura azul-dourada se expandiu levemente, o suficiente para fazer os mais próximos recuarem meio passo em respeito — ou em medo.


— Se o povo quer Raella… então o povo terá voz. Mas não aqui. Não no meio da fumaça e dos corpos. Leve-nos até onde os sobreviventes estão reunidos. Eu quero ouvir o que eles têm a dizer. E ela também.


O sargento assentiu.  


Guiou o grupo através de vielas parcialmente desabadas até o que restava da praça do grifo. O grande símbolo de pedra que um dia ornava o centro estava rachado ao meio. Ao redor, cerca de duzentas pessoas — soldados feridos, civis, sacerdotes de várias ordens, crianças que já não choravam — se amontoavam em silêncio tenso. Quando viram Raella, um murmúrio percorreu a multidão. Quando viram a aura de Ikarus, o murmúrio se transformou em algo mais próximo de esperança contida.


Uma mulher idosa, com as vestes de uma antiga conselheira de Oberon, avançou. A voz dela era rouca, mas carregava autoridade residual.


— Raella. O sangue antigo de Lenória corre em você. Oberon sabia. Poucos sabiam. Agora o regente está morto. A cidade está de joelhos. E nós… nós precisamos de uma rainha. Não de um símbolo vazio. De alguém que ainda carregue o nome da terra que estamos tentando não deixar morrer.


Raella olhou para a multidão. Depois para Ikarus. Depois para Gillian, que mantinha o rosto impassível, embora os olhos revelassem o peso da conversa que haviam tido no barco.


Ela respirou fundo.


— Se eu aceitar… não aceito sozinha. Lenória não será reconstruída por uma única pessoa. E o que vem pela frente… exigirá mais do que um título.


A conselheira inclinou a cabeça.


— Então diga o que exige.


Raella olhou novamente para Ikarus. A aura azul-dourada refletia a luz pálida do sol sobre as ruínas.


— Depois — disse ela apenas. — Primeiro… enterremos os mortos que ainda não foram enterrados. Depois organizamos a defesa do que restou. E então… falaremos de coroas.


A multidão não protestou.  


Havia exaustão demais para protestos. Havia necessidade demais de qualquer estrutura que ainda pudesse ser erguida. O nome de Raella já estava sendo murmurado como um estandarte. E, ao lado dela, o homem que carregava o azul de Kallon e o ouro de Ranur já estava sendo olhado como alguém que não era apenas mais um guerreiro.


Oberon estava morto.  


Lenória Imperial, ou o que restava dela, começava a se voltar para uma nova rainha.  


E o destino que as águas haviam mostrado a Ikarus — duas uniões, uma coroa, um filho que ainda não existia — começava, lentamente, a deixar de ser apenas um sonho no meio do Mar Divisor.


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