terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: O Transe sob as Águas


Por Yuri Schein  


Ikarus não sentia mais a dor.  


O sangue ainda escorria da ferida aberta no peito, misturado com fragmentos residuais da luz dourada de Ranur, mas a sensação física havia se afastado como uma maré que recua. O mundo ao redor — a Costura sangrando, o vapor esverdeado, os gritos abafados de Thomas, Gillian e Raella — tornou-se distante, abafado, como se alguém tivesse colocado uma parede de água entre ele e a realidade.


Então a água veio de verdade.


Não era uma metáfora.  


Ikarus sentiu o corpo afundar. O chão rachado da Costura desapareceu. O céu partido desapareceu. O rosto de Angarkor desapareceu. Em seu lugar, houve apenas escuridão azul-profunda, pressão constante e o silêncio absoluto do fundo do mar. Bolhas subiam lentamente ao redor dele. Algas antigas e escuras se moviam com correntes que não pertenciam a nenhum oceano conhecido de Ad’Heim. Longe, muito longe acima, a superfície era apenas um disco pálido e distante de luz.


Ele tentou se mexer. O corpo respondeu com lentidão, como se a água fosse mais densa que o normal. A ferida no peito ainda existia, mas aqui, nas profundezas, o sangue que saía dela se dissolvia em filamentos dourados e azuis que dançavam ao redor de seu torso.


Foi então que ele viu o homem.


A figura estava a poucos metros de distância, flutuando na mesma escuridão azul sem esforço aparente. Cabelos longos e azuis flutuavam ao redor do rosto como se fossem feitos da própria água. Os olhos eram do mesmo tom — um azul profundo, antigo, quase luminoso na escuridão. O homem não usava armadura nem vestes elaboradas. Apenas uma túnica simples que se movia com as correntes. E ele sorria.


Não era um sorriso de zombaria.  

Não era um sorriso de piedade.  

Era um sorriso tranquilo, quase nostálgico, como se reconhecesse alguém que havia esperado por muito tempo.


Ikarus tentou falar. A voz não saiu. Apenas bolhas.


O homem de cabelos azuis inclinou a cabeça levemente e estendeu a mão. Não tocou Ikarus. Apenas manteve a palma aberta entre os dois, como se oferecesse algo que ainda não podia ser nomeado.


No mundo de cima, o corpo de Ikarus se moveu.


Thomas foi o primeiro a notar.  


— Ele… está se levantando.


Gillian, ainda com o braço quebrado pressionado contra o peito, arregalou os olhos. Raella, ajoelhada e ofegante, sentiu a capa mágica reagir antes mesmo de compreender o que via.


O corpo de Ikarus ergueu-se do chão rachado de forma lenta e antinatural. A ferida mortal no peito ainda sangrava, mas a luz que agora emanava dele não era apenas a residual dourada de Ranur. Havia uma segunda cor se misturando a ela — um azul profundo, oceânico, que se entrelaçava com o dourado como duas correntes de um mesmo rio. A aura cresceu. Placas de energia se reformaram sobre o corpo ferido, mais densas, mais definidas. A espada caída no chão tremeu e voou de volta para a mão de Ikarus, agora brilhando com as duas cores ao mesmo tempo.


Angarkor observava em silêncio.  


A espada longa ainda gotejava sangue. A ferida no ombro continuava aberta. Mas o guerreiro antigo não avançou. Em vez disso, inclinou a cabeça com genuíno interesse, os olhos estreitos acompanhando cada mudança na aura de Ikarus.


— Isso… é interessante — murmurou ele.


A voz de Angarkor ecoou sobre a Costura enquanto o corpo de Ikarus se erguia completamente, os pés deixando o chão, a aura dourada e azul pulsando com uma força que fazia o vapor esverdeado se afastar.


— Deixarei você descobrir a força do seu poder — continuou Angarkor, a voz baixa e carregada de uma expectativa quase divertida. — E depois terei uma batalha ainda mais maravilhosa para travar. Até lá…


Ele ergueu a mão livre.  


Um portal de sombra e luz necromântica se abriu atrás dele, o mesmo tipo de abertura que Vaelthas Levi havia usado minutos antes. Angarkor deu um passo para trás, sem tirar os olhos do corpo erguido de Ikarus.


— Não morra cedo demais, portador de dois domínios. Eu quero ver o que você se tornará quando acordar de verdade.


O portal se fechou atrás dele com um som úmido e final.  


Angarkor desapareceu, deixando apenas o cheiro metálico e a Costura ainda sangrando.


No fundo do mar do transe, o homem de cabelos e olhos azuis continuava sorrindo.  


Ele finalmente falou. A voz não veio como som. Veio como corrente, como pressão, como memória antiga que se acomodava dentro da mente de Ikarus.


— Você carregou o ouro de Lenoria. Agora carrega também o azul que existia antes dos reinos terem nomes. Quando acordar… decida o que fazer com os dois.


Ikarus tentou responder.  


A escuridão azul ao redor dele começou a se desfazer. A pressão diminuiu. A superfície distante se aproximou como se o próprio mar o estivesse empurrando de volta para cima.


No mundo real, a aura dourada e azul ao redor do corpo de Ikarus se intensificou uma última vez.  


Thomas, Gillian e Raella se aproximaram com cautela, ainda feridos, ainda abalados, mas incapazes de desviar o olhar.


O corpo de Ikarus ainda flutuava a alguns centímetros do chão.  


Os olhos ainda estavam fechados.  


Mas a respiração, antes irregular e molhada de sangue, agora saía de forma lenta e constante.


A Costura continuava aberta.  


O Necromante e Angarkor haviam partido.  


E algo novo — algo que misturava o dourado de um Guardião morto com o azul de um fundo de mar que não pertencia a nenhum mapa — havia começado a despertar dentro de Ikarus.


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