Por Yuri Schein
Deixar Lenória Imperial foi mais difícil do que qualquer um deles esperava.
As muralhas quebradas não ofereciam mais proteção, apenas pontos de fuga. Thomas carregava Ikarus com as asas meio abertas, usando a força residual do meio-dragão para saltar por cima de escombros e evitar as ruas onde grupos de mortos-vivos ainda rondavam. Gillian, apesar do braço quebrado, mantinha a espada na mão boa e abria caminho quando necessário. Raella caminhava logo atrás, a capa mágica agora tão gasta que mal brilhava, mas ainda capaz de lançar pequenos feixes de luz para cegar criaturas que se aproximavam demais.
O cheiro de fumaça e decomposição os seguiu até as portas ocidentais da cidade. Lá, o que restava da guarda de Lenória havia montado uma última linha de defesa improvisada — barricadas de carroças queimadas, lanças quebradas e um punhado de soldados exaustos que atiravam flechas contra tudo o que se movia na escuridão. Quando viram o grupo se aproximar com um homem inconsciente envolto em aura dourada e azul, baixaram as armas apenas o suficiente para deixá-los passar.
— Vocês estão loucos de sair agora — disse um sargento de rosto queimado, a voz rouca. — O porto está tomado. Os mortos-vivos chegam pelo mar também. E há dragões corrompidos sobrevoando a costa.
Thomas não parou.
— Não temos escolha. Precisamos chegar à Ilha de Kallon.
O sargento soltou uma risada amarga.
— A Ilha? Ninguém volta da Ilha desde que os ataques começaram. O Mar Divisor está… errado. Águas pretas. Coisas que sobem das profundezas. Boa sorte. Vocês vão precisar.
Eles atravessaram o que restava do porto sob a cobertura das últimas horas da noite. Navios queimados flutuavam meio afundados. Corpos de marinheiros e de criaturas marinhas corrompidas se misturavam nas águas rasas. O cheiro de sal estava misturado com o de magia necromântica. Thomas precisou voar curtos trechos carregando Ikarus, enquanto Gillian e Raella avançavam a pé, eliminando os mortos-vivos mais lentos que tentavam barrar o caminho.
Quando finalmente alcançaram uma pequena enseada protegida por rochas, encontraram o que procuravam: um barco de pesca abandonado, ainda intacto o suficiente para navegar. Era pequeno, velho, mas tinha velas e remos. Thomas depositou Ikarus com cuidado no fundo da embarcação. A aura dourada e azul tremeu, mas se manteve estável.
— Vamos precisar remar e usar o vento — disse Thomas, olhando para o horizonte ocidental. — A Ilha de Kallon fica além do Mar Divisor. Em condições normais, seriam dois dias. Agora… não sei.
Gillian se sentou no banco do remo, o braço quebrado pressionado contra o peito.
— Então remamos até não conseguirmos mais.
Raella ajeitou a capa e olhou para Ikarus. Os lábios do guerreiro se moviam novamente, murmurando palavras que só ela parecia captar parcialmente.
— Ele ainda fala com Kallon — sussurrou ela. — Ou pelo menos… ainda está lá.
O barco deixou a costa de Lenória enquanto o primeiro sol vermelho menor começava a surgir no horizonte. Atrás deles, a cidade continuava a arder. Colunas de fumaça subiam como dedos negros apontando para o céu. À frente, o Mar Divisor se estendia escuro e inquieto. As águas não eram mais azuis. Tinham um tom acinzentado, quase preto em alguns pontos, e correntes estranhas puxavam a embarcação em direções que não seguiam o vento.
Horas se passaram.
O sol maior subiu, mas a luz parecia fraca, filtrada por uma névoa que não se dissipava. De tempos em tempos, formas escuras se moviam sob a superfície — grandes demais para serem peixes, lentas demais para serem golfinhos. Thomas mantinha uma das mãos na lateral do barco, pronto para abrir as asas a qualquer sinal de ataque. Gillian remava com a mão boa, o rosto tenso de dor e determinação. Raella tentava manter uma pequena barreira mágica ao redor da embarcação, mas a capa mal respondia.
Foi no final do primeiro dia que a água ao redor do barco começou a brilhar com um tom azul fraco.
Não era a luz esverdeada da necromancia.
Era o mesmo azul da aura de Ikarus.
Raella ergueu o olhar, esperançosa.
— Kallon…
A superfície do mar se agitou suavemente. Uma corrente quente, quase protetora, envolveu o barco e começou a empurrá-lo com mais firmeza na direção oeste. As formas escuras sob a água se afastaram. O vento, que até então soprava de forma irregular, alinhou-se com a corrente.
Thomas soltou a respiração que estava prendendo.
— Ele ainda está protegendo de longe.
Gillian olhou para Ikarus. A aura dourada e azul havia se intensificado levemente, como se respondesse à proximidade do domínio do pai.
— Então vamos usar isso. Vamos chegar à Ilha.
A noite caiu sobre o Mar Divisor.
Longe, atrás deles, Lenória Imperial continuava a se desfazer sob o ataque incessante. À frente, ainda invisível na escuridão, a Ilha de Kallon esperava — e, no ponto mais alto de seus penhascos, o Templo antigo onde o Hunen das Águas finalmente poderia agir sem restrições.
No fundo do barco, Ikarus murmurou mais uma vez, a voz fraca, mas clara o suficiente para que os três ouvissem:
— Estou… vindo… pai…
A corrente azul se fortaleceu.
E o pequeno barco avançou pela noite escura, carregando o único filho de um Hunen com uma mortal em direção ao único lugar onde ele ainda poderia ser salvo.
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