Por Yuri Schein
Enquanto Thomas carregava o corpo de Ikarus pelas ruínas de Lenória Imperial, evitando as ruas onde os mortos-vivos ainda rondavam e os dragões corrompidos ainda caçavam, a mente do guerreiro permanecia em outro lugar.
O fundo do mar.
A escuridão azul-profunda o envolvia novamente, mais clara agora, mais definida. A pressão da água era constante, mas já não doía. As algas antigas se moviam ao redor dele como se o reconhecessem. E, a poucos metros de distância, o homem de cabelos e olhos azuis flutuava com a mesma tranquilidade de antes. O sorriso ainda estava lá — sereno, antigo, quase paternal.
Ikarus tentou falar. Desta vez a voz saiu, abafada pela água, mas compreensível.
— Você… é Kallon.
O Hunen inclinou a cabeça em um gesto de confirmação.
— Sou. E você finalmente consegue dizer meu nome sem que a mente se recuse a aceitar.
Ikarus olhou para as próprias mãos. Naquele espaço de transe, a ferida no peito ainda existia, mas a luz dourada e azul que saía dela se entrelaçava de forma mais harmônica.
— Por que eu? Por que me mostrou isso? Por que a aura… por que o azul?
Kallon se aproximou um pouco. Os cabelos azuis flutuavam ao redor do rosto como correntes vivas. Os olhos — do mesmo tom profundo do mar ao redor — não desviavam.
— Porque você é meu filho, Ikarus.
O silêncio que se seguiu foi mais denso que a água.
Ikarus sentiu o corpo do transe tremer. A luz ao redor dele oscilou violentamente entre o dourado residual de Ranur e o azul antigo de Kallon.
— Isso… não é possível. Os Hunens… vocês não…
— Não geram filhos com mortais — completou Kallon, a voz calma. — Era o que todos acreditavam. Era o que os outros Doze preferiam acreditar. Mas houve uma exceção. Uma única. Sua mãe era humana. Uma mulher de Lenória que, há décadas, encontrou o mar em um momento em que eu ainda caminhava entre os mortais com mais frequência. O que nasceu dessa união… foi você. O único filho de um Hunen com uma mortal que existe em Ad’Heim.
Ikarus abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu de imediato. A revelação pesava mais que a pressão das profundezas.
— Então… o poder de Ranur… o dourado…
— O dourado é o presente de um Guardião que escolheu você no momento da morte. Ranur viu algo. Talvez tenha sentido o sangue antigo que corre em você. O azul… esse sempre esteve adormecido. Eu o mantive selado por anos. Para protegê-lo. Para que os outros Hunens não o encontrassem. Para que Arteph, Baltamus ou mesmo os Três Desertores não descobrissem que um filho mestiço existia.
Kallon estendeu a mão, sem tocar Ikarus, apenas mantendo a palma aberta entre os dois.
— Até hoje eu pude protegê-lo de longe. Mesmo ferido. Mesmo com a Costura aberta e Vaelthas Levi movendo suas peças. Mas a proteção à distância tem limites. A ferida que Angarkor abriu em você não é apenas física. Ela rasgou a barreira que eu havia colocado. O dourado de Ranur e o azul do meu domínio estão se misturando sem controle. Se isso continuar sem direção… você pode se perder entre os dois. Ou pior: pode se tornar algo que nenhum dos lados consegue reivindicar.
Ikarus sentiu a água ao redor tremer com a força da revelação.
— O que eu preciso fazer?
— Seus amigos já decidiram o caminho — respondeu Kallon. — Eles estão te levando para a Ilha. Para o Templo. É o único lugar onde eu posso agir de forma mais direta sem atrair a atenção completa dos outros. Lá, no coração do meu domínio antigo, eu poderei estabilizar o que está despertando em você. Você receberá mais do fortalecimento do Reino das Águas. O azul se tornará consciente. O dourado de Ranur se acomodará. E então… você poderá retornar a Lenória. Não como o homem que caiu diante de Angarkor. Mas como alguém que carrega dois domínios.
O Hunen sorriu novamente, desta vez com um toque de tristeza.
— Eu não pude criá-lo. Não pude caminhar ao seu lado. Mas posso fazer isso. Posso dar a você a chance de sobreviver ao que está vindo. E ao que Vaelthas Levi e Angarkor ainda pretendem libertar.
Ikarus olhou para o próprio peito, onde a luz dourada e azul pulsava em uníssono.
— E minha mãe?
Kallon demorou um instante antes de responder.
— Ela já não está entre os vivos. Mas o mar ainda carrega a memória dela. Quando você chegar ao Templo… talvez consiga ouvi-la também.
A escuridão azul ao redor começou a se clarear. A pressão diminuiu. A superfície distante se aproximava novamente.
— Vá — disse Kallon. — Seus amigos estão te carregando através de uma cidade que morre. O caminho até a Ilha será perigoso. Mas eu ainda posso proteger de longe… por enquanto. Quando chegar ao Templo, eu estarei esperando.
Ikarus sentiu o transe começar a se desfazer.
— Pai…
Kallon sorriu uma última vez.
— Durma mais um pouco, meu filho. Quando acordar de verdade… o mar já estará ao seu lado.
No mundo real, o corpo de Ikarus tremeu levemente nos braços de Thomas.
A aura dourada e azul se intensificou por um instante, o suficiente para fazer Raella e Gillian olharem com esperança renovada. Os lábios de Ikarus se moveram. Desta vez a palavra saiu clara, embora ainda baixa:
— Kallon… Templo…
Thomas apertou o corpo do companheiro com mais firmeza e olhou para o oeste, onde, além das muralhas quebradas de Lenória e do Mar Divisor, a Ilha de Kallon esperava sob um céu carregado de fumaça e de presságios.
— Então é isso — murmurou o meio-dragão. — Vamos para a Ilha.
E, enquanto o grupo avançava pelas ruínas da cidade que um dia fora o orgulho de Lenória, no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa, Kallon, o Hunen das Águas, observava o filho pela última vez antes de se preparar para recebê-lo no Templo.
A jornada até a Ilha havia começado.
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