terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: As Águas que Protegem


Por Yuri Schein  


O segundo dia no Mar Divisor nasceu sob um céu de cor errada.


O sol maior subiu pálido, filtrado por uma névoa cinzenta que não se dissipava. O sol vermelho menor permanecia quase invisível, como se tivesse sido empurrado para mais longe. As águas ao redor do barco continuavam escuras, mas a corrente azul que Kallon mantinha ao redor da embarcação brilhava com mais força agora — um caminho luminoso e estreito que cortava o mar negro como uma veia viva.


Thomas dormia em turnos curtos, as asas recolhidas com cuidado para não desequilibrar o barco. Gillian remava quando a corrente enfraquecia, o rosto marcado pela dor do braço quebrado e pelo cansaço acumulado. Raella mal dormia. Passava a maior parte do tempo ajoelhada ao lado de Ikarus, monitorando a aura dourada e azul que pulsava de forma cada vez mais sincronizada com a corrente do mar.


Foi no meio da manhã que a proteção quase falhou.


A água à frente do barco se agitou de forma violenta. Uma forma enorme subiu das profundezas — não um peixe, não uma serpente marinha comum. Era uma criatura corrompida, de escamas pretas e olhos esverdeados, com tentáculos longos demais e uma boca cheia de dentes que brilhavam com residual necromântico. O vapor metálico que saía dela era o mesmo da Costura.


Thomas se levantou imediatamente, montantes em mãos.


— Segurem o barco!


A criatura atacou. Um tentáculo bateu contra a lateral da embarcação com força suficiente para quase virá-la. Gillian gritou de dor quando o impacto sacudiu seu braço quebrado. Raella lançou o que restava de magia da capa, um feixe prateado que apenas irritou a besta. Thomas saltou para o ar, asas abertas, e desceu cortando o tentáculo mais próximo com os dois montantes.


A criatura rugiu — um som abafado pela água — e tentou envolver o barco por completo.


Foi então que a corrente azul explodiu.


A água ao redor da embarcação se ergueu em um muro líquido e luminoso. A criatura foi empurrada para trás com violência, tentáculos se contorcendo. Por um instante, uma presença imensa e antiga se fez sentir sobre o mar — a mesma presença que Ikarus havia encontrado no fundo do transe. A besta corrompida hesitou, os olhos esverdeados se estreitando, e então mergulhou de volta nas profundezas com um último movimento de fúria.


O muro de água desceu lentamente.  


A corrente azul se restabeleceu, mais forte do que antes.


Raella soltou a respiração que estava prendendo.


— Ele ainda está conosco.


Thomas pousou de volta no barco, ofegante, as escamas brilhando de esforço.


— Mas a proteção não é absoluta. Quanto mais nos aproximamos da Ilha… mais as coisas corrompidas vão tentar nos impedir.


Gillian ajeitou o braço quebrado com um gemido baixo.


— Então vamos mais rápido.


Eles avançaram.  


A corrente azul os puxava com mais determinação agora, como se Kallon estivesse acelerando o caminho. À tarde, a névoa começou a se abrir em alguns pontos. No horizonte ocidental, uma linha escura se formou — terra. Penhascos altos. A silhueta irregular de uma ilha.


A Ilha de Kallon.


Raella apontou, a voz embargada pelo cansaço e pela esperança.


— Ali…


Thomas estreitou os olhos. Mesmo de longe, era possível ver que a ilha não estava intacta. Colunas de fumaça subiam de alguns pontos da costa. Partes da floresta que cobria as encostas pareciam queimadas. Mas o ponto mais alto dos penhascos — onde o Templo deveria estar — ainda se erguia contra o céu, uma estrutura antiga de pedra clara que refletia a luz de forma estranha, quase azulada.


— O Templo ainda está de pé — murmurou Thomas. — Pelo menos isso.


Ikarus se mexeu no fundo do barco.  


A aura dourada e azul se intensificou de forma abrupta. Os olhos dele se abriram pela primeira vez desde a batalha contra Angarkor — apenas por alguns segundos. O azul profundo das íris misturava-se com residual dourado. Ele olhou diretamente para o horizonte, para a ilha que se aproximava, e sussurrou com a voz rouca e fraca:


— Pai… estou quase…


Depois os olhos se fecharam novamente. A aura voltou ao brilho constante e estável.


A corrente azul se fortaleceu ainda mais, empurrando o barco com velocidade renovada.


Gillian olhou para os companheiros.


— Quando chegarmos… o que vamos encontrar?


Ninguém respondeu de imediato.  


O Mar Divisor batia contra o casco do barco. A Ilha de Kallon crescia no horizonte. E, em algum lugar no ponto mais alto dos penhascos, o Templo antigo esperava pelo único filho de um Hunen com uma mortal — e pelo poder que ainda precisava ser estabilizado antes que o mundo inteiro terminasse de sangrar.


O sol começou a descer.  


A última parte da travessia estava começando.



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