Por Yuri Schein
O barco atingiu a areia preta da enseada pouco antes do anoitecer.
A corrente azul que os havia protegido durante toda a travessia se dissipou suavemente assim que a quilha tocou a praia, como se Kallon tivesse cumprido a parte que podia fazer de longe. Thomas foi o primeiro a saltar na água rasa, as asas meio abertas para manter o equilíbrio enquanto puxava a embarcação para a areia firme. Gillian desceu em seguida, o rosto pálido de dor e exaustão, o braço quebrado ainda pressionado contra o peito. Raella ficou por último, ajudando a ajeitar o corpo de Ikarus antes que Thomas o erguesse novamente nos braços.
A Ilha de Kallon cheirava a sal, a madeira queimada e a magia antiga.
A praia era estreita e coberta de seixos escuros. Mais adiante, a floresta começava de forma abrupta — árvores altas de folhas azuladas e troncos retorcidos que pareciam ter crescido sob a influência constante do domínio do mar. Algumas estavam carbonizadas. Outras haviam sido partidas ao meio por forças que não pertenciam à natureza. Mais acima, nos penhascos, a silhueta do Templo se destacava contra o céu do entardecer: uma estrutura de pedra clara e antiga, com colunas altas e um teto parcialmente desabado, mas ainda de pé.
Thomas ajeitou Ikarus com mais firmeza.
— O caminho sobe por ali — disse ele, apontando com o queixo para uma trilha estreita que serpenteava entre as árvores e as rochas. — Se o Templo ainda está intacto o suficiente, é por ali que vamos.
Gillian olhou para as marcas de destruição ao redor.
— A ilha também foi atacada. Não tão completamente quanto Lenória… mas foi.
Raella se ajoelhou por um instante na areia e tocou a água que ainda lambia a costa. A capa mágica reagiu com um brilho fraco e azulado.
— A presença dele está mais forte aqui. Kallon. É como se o próprio chão respirasse o domínio dele.
Eles começaram a subir.
A trilha era íngreme e irregular. Em vários pontos, árvores caídas bloqueavam o caminho, forçando Thomas a voar curtos trechos carregando Ikarus enquanto as outras duas contornavam os obstáculos. O silêncio da floresta era pesado. Não havia pássaros. Não havia o som usual de insetos. Apenas o vento passando entre as folhas azuladas e, de tempos em tempos, um estalo distante — como madeira se quebrando ou pedra rolando.
No meio da subida, encontraram os primeiros corpos.
Soldados da ilha. Pescadores. Alguns civis. Todos mortos há dias, alguns parcialmente consumidos por criaturas que já não estavam mais ali. Em um ponto da trilha, os restos de um portal necromântico ainda fumegavam com residual esverdeado, mas a energia estava fraca, como se a própria ilha estivesse rejeitando a corrupção.
Raella parou diante do portal desfeito.
— Kallon está empurrando a necromancia para fora. Devagar… mas está.
Thomas não respondeu. Continuou subindo.
Quando finalmente alcançaram o platô superior, o sol já havia se posto por completo. As duas luas iluminavam o Templo de Kallon com uma luz pálida e prateada. A estrutura era maior do que parecia de longe. Colunas altas de pedra clara, cobertas de runas antigas que brilhavam com um azul fraco e constante. O teto parcial ainda se sustentava sobre o salão principal. A entrada estava aberta — grandes portas de madeira escura que haviam sido forçadas, mas não destruídas por completo.
E, diante das portas, a água.
Uma poça rasa e circular se formava naturalmente no centro do pátio de pedra, alimentada por uma fonte que brotava diretamente da rocha. A água brilhava com o mesmo azul da aura de Ikarus. Não era uma poça comum. Era um espelho vivo do domínio de Kallon.
Thomas parou na beira da poça, ainda segurando o companheiro.
— Chegamos.
Gillian se deixou cair de joelhos, o cansaço finalmente vencendo a adrenalina. Raella se aproximou da água e tocou a superfície com a ponta dos dedos. A poça reagiu, enviando ondulações luminosas em direção ao Templo.
Dentro do salão antigo, algo se moveu.
Não era uma ameaça.
Era uma presença.
A voz de Kallon ecoou não no ar, mas diretamente na mente dos três — e, com mais força, dentro do corpo ainda inconsciente de Ikarus.
— Tragam-no para dentro. A água já o reconheceu. Agora… eu posso agir.
Thomas olhou para as companheiras.
Gillian assentiu, mesmo exausta. Raella ergueu o queixo, determinada.
Eles atravessaram o pátio.
Passaram pela poça luminosa.
E, carregando o único filho de um Hunen com uma mortal, entraram no Templo de Kallon enquanto a noite se fechava sobre a ilha e, longe dali, o resto de Ad’Heim continuava a sangrar sob o ataque coordenado de Vaelthas Levi.
A recuperação de Ikarus estava prestes a começar.
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