terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad'heim: A Porta


Durante sete noites, Elias não dormiu.

Não porque estivesse tentando evitar o sono. O problema era que, quando fechava os olhos, via a mesma porta.

Era sempre a mesma.

Negra, gigantesca, feita de uma matéria que não parecia pedra, madeira ou metal. Não possuía dobradiças, fechadura ou maçaneta. Não havia inscrições em sua superfície, nenhuma ornamentação, nenhum símbolo dos Hunens. Era simplesmente uma porta.


E, atrás dela, havia alguma coisa.


Elias não sabia dizer o quê.


Às vezes imaginava ouvir água escorrendo. Em outras, parecia escutar centenas de vozes falando simultaneamente em uma língua que não conhecia. Certa vez ouviu o som de uma criança chorando. Em outra, ouviu a própria voz chamando por ela.


Mas havia algo ainda mais perturbador.


A porta não aparecia apenas quando dormia.


Começou a aparecer quando estava acordado.


No reflexo de uma janela.


Na superfície de uma poça.


No fundo de uma panela cheia de água.


Na tinta preta de um livro recém-aberto.


Até mesmo quando fechava os olhos por alguns segundos, ela estava lá.


Elias começou a compreender que aquilo não era mais apenas uma visão.


Era uma resposta.


Alguma coisa havia percebido que ele estava procurando.


E agora estava procurando por ele também.


Na oitava noite, finalmente conseguiu dormir.


Ou acreditou ter conseguido.


Abriu os olhos e percebeu imediatamente que não estava em sua casa.


Estava de pé em um corredor.


O chão era coberto por uma névoa fina, branca e imóvel. As paredes se estendiam para cima até desaparecerem em uma escuridão sem teto. Não havia tochas, mas tudo estava iluminado por uma luz azulada, fraca, semelhante àquela que antecede uma tempestade.


Elias olhou para as próprias mãos.


Estavam intactas.


Sem sangue.


Sem feridas.


Sem marcas.


Ele caminhou.


Não sabia para onde estava indo, mas alguma coisa dentro dele dizia que precisava continuar.


O corredor parecia não terminar nunca.


Então ouviu passos.


Parou.


Os passos também pararam.


Olhou para trás.


Nada.


Continuou.


Os passos voltaram.


Dessa vez, mais próximos.


Elias virou-se novamente.


— Quem está aí?


Nenhuma resposta.


— Eu sei que está aí.


Uma voz respondeu atrás dele:


— Você sempre soube.


Elias congelou.


A voz era familiar.


Não porque reconhecesse quem a pronunciava, mas porque parecia ter sido construída a partir de alguma coisa que ele conhecia profundamente.


Uma voz que lembrava a voz dela.


Elias fechou os olhos.


Por alguns segundos, não conseguiu respirar.


— Não...


A voz tornou a falar.


— Elias.


Ele se virou.


Ela estava ali.


Ou parecia estar.


A alguns metros de distância, envolta pela névoa.


Elias não se moveu.


Seu corpo inteiro queria correr até ela.


Mas alguma coisa dentro dele gritava que aquilo era errado.


— Você...


Ela sorriu.


Era o sorriso que ele lembrava.


O mesmo sorriso de quando ele passava horas explicando alguma teoria incompreensível e ela fingia entender apenas para fazê-lo continuar.


O mesmo sorriso que aparecia quando encontrava Elias dormindo sobre algum livro.


O mesmo sorriso que existia antes de tudo ser destruído.


— Você me encontrou — disse ela.


Elias deu um passo.


— Eu procurei por você.


— Eu sei.


Outro passo.


— Eu tentei.


— Eu sei.


— Eu não consegui...


A voz dele se quebrou.


Ela estendeu a mão.


— Então venha.


Elias ficou parado.


Havia algo errado.


Não sabia explicar o quê.


Mas havia.


Ele olhou para a mão estendida.


Depois para os olhos dela.


— O que você disse antes de morrer?


Ela permaneceu imóvel.


O sorriso desapareceu.


— O quê?


— O que você me disse?


Silêncio.


Elias sentiu o coração acelerar.


— Você disse alguma coisa.


A figura permaneceu diante dele.


— Eu disse que precisava que você viesse comigo.


— Não.


Ela inclinou a cabeça.


— Não?


Elias recuou.


— Você me disse para viver.


A expressão dela mudou.


Por uma fração de segundo, o rosto diante dele pareceu perder a forma.


Como uma pintura molhada sendo arrastada por uma mão invisível.


— Não se torne como eles — sussurrou Elias.


A figura parou de sorrir.


Então a pele começou a rachar.


Não como uma pessoa se ferindo, mas como uma máscara se quebrando.


Por baixo daquele rosto havia escuridão.


Uma escuridão absoluta.


Elias deu um passo para trás.


A criatura avançou.


— Você não quer encontrá-la.


A voz já não era dela.


— Você quer apenas provar que pode vencer a morte.


Elias fechou os punhos.


— Quem é você?


A criatura abriu a boca.


Uma quantidade impossível de vozes saiu dela ao mesmo tempo.


— A pergunta errada.


O corredor desapareceu.


Elias acordou violentamente.


Estava no chão de sua casa.


Respirava com dificuldade.


Seu coração parecia querer sair do peito.


Durante vários segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto.


Então percebeu que estava segurando alguma coisa.


Um pequeno pedaço de pedra negra.


Elias lentamente abriu a mão.


A pedra estava fria.


Muito fria.


Ele a aproximou do rosto.


Havia uma inscrição gravada nela.


Três símbolos.


Elias não conhecia aquela escrita.


Mas compreendeu seu significado.


ABRA.


Ele deixou a pedra cair.


Foi até sua mesa.


Seus livros estavam espalhados por toda parte. Alguns estavam abertos. Outros tinham páginas arrancadas. Pergaminhos cobriam o chão.


No centro da mesa estava o livro que ele usara no primeiro ritual.


Elias o abriu.


Na página onde havia escrito o nome de Arteph, havia uma nova frase.


Ele não a escrevera.


A PORTA NÃO É DE ARTEPH.


Elias ficou olhando.


Seu primeiro impulso foi destruir o livro.


Não o fez.


Sentou-se.


Leu novamente.


A porta.


Aquela porta.


A porta que aparecia em seus sonhos.


A porta que existia no mundo dos mortos.


A porta que, segundo as inscrições antigas, permanecia selada havia milhares de anos.


E agora havia uma informação nova.


Ela não pertencia a Arteph.


Elias levantou lentamente os olhos.


— Então de quem é?


A casa permaneceu silenciosa.


Nenhuma resposta veio.


Mas, naquele momento, Elias percebeu uma coisa que mudaria completamente sua investigação.


Durante semanas, ele havia partido de uma premissa.


Acreditava que os Hunens eram os guardiões de todas as fronteiras.


Que Arteph governava a morte.


Que as portas eram parte de sua autoridade.


Que os mortos pertenciam ao seu domínio.


Mas talvez estivesse errado.


Talvez Arteph não tivesse criado a fronteira.


Talvez tivesse apenas recebido a função de guardá-la.


A diferença parecia pequena.


Não era.


Se Arteph era um guardião, então existia algo acima dele.


Algo mais antigo.


Algo que os próprios Hunens talvez temessem.


Elias começou a escrever.


Não parou durante horas.


Escreveu tudo.


Os sonhos.


A pedra.


A inscrição.


A voz.


A falsa aparição dela.


A frase.


A PORTA NÃO É DE ARTEPH.


Depois começou a comparar os textos antigos.


Pegou um manuscrito sobre a origem dos Hunens.


Depois outro.


Depois outro.


Abriu mapas.


Estudou símbolos.


Comparou idiomas mortos.


Passou o dedo por inscrições antigas até encontrar uma palavra que aparecia repetidamente.


Não era o nome de um Hunen.


Era uma palavra.


ORIGEM.


Elias franziu a testa.


Em outro texto, encontrou a mesma palavra acompanhada por uma segunda.


PRIMEIRA ORDEM.


Seu coração acelerou.


Continuou procurando.


Horas depois, encontrou uma referência tão antiga que quase não conseguia lê-la.


O texto dizia:


"Antes dos Doze, havia o Primeiro Limite."


Elias ficou imóvel.


Leu novamente.


Depois outra vez.


O Primeiro Limite.


Não era a morte.


Não era a vida.


Era uma fronteira anterior a ambas.


Elias levantou-se tão rapidamente que derrubou a cadeira.


Começou a andar pela sala.


Se aquilo fosse verdade, então a história conhecida do mundo estava incompleta.


Os Hunens não eram necessariamente os criadores da ordem.


Eram administradores de uma ordem anterior.


Mas por que ninguém falava disso?


Por que os registros haviam sido apagados?


Por que Arteph havia reagido daquela maneira quando Elias tentou atravessar a fronteira?


E, principalmente...


Por que aquela porta estava selada?


Elias olhou para a pedra negra.


A resposta estava diante dele.


Ou pelo menos uma parte dela.


Alguém havia colocado a pedra em sua mão enquanto dormia.


Alguém queria que ele encontrasse a porta.


Elias sentiu um arrepio percorrer o corpo.


Talvez o maior perigo não fosse abrir a porta.


Talvez o maior perigo fosse descobrir quem queria que ele a abrisse.


---


Muito longe dali, no mundo dos mortos, Arteph permanecia diante da porta.


Cerberus estava ao seu lado.


As três cabeças do guardião rosnaram simultaneamente.


Arteph não se moveu.


Durante milhares de anos, aquela porta permanecera intacta.


Nenhum morto havia tentado tocá-la.


Nenhum Hunen falava sobre ela.


Nenhum mortal sequer sabia que existia.


Até Elias.


Arteph estendeu a mão.


Parou antes de tocar a superfície.


— Ele viu.


Cerberus rosnou.


— Sim.


Uma das cabeças aproximou-se da porta.


As três começaram a farejar o ar.


Arteph percebeu.


— Não.


O rosnado tornou-se mais grave.


— Ainda não.


A superfície negra da porta tremeu.


Uma linha fina apareceu no centro.


Não era uma abertura.


Era uma rachadura.


Arteph deu um passo para trás.


Pela primeira vez em milhares de anos, havia medo em seu rosto.


Não medo de Elias.


Medo do que poderia estar atrás daquela porta.


— Os outros precisam saber.


---


O salão dos Hunens estava silencioso quando Arteph chegou.


Lenoria estava sentada próxima às grandes colunas de pedra, ainda vestindo parte de sua armadura. Aldora meditava. Kallon permanecia próximo a uma fonte cuja água subia em espirais impossíveis. Baltamus observava um pequeno mecanismo que havia construído. Valeth permanecia de pé. Kassandra estava acompanhada por raízes que atravessavam o chão do salão.


Rhaegor havia chegado envolto em vento.


Damaris permanecia imóvel como uma montanha.


Elyndra observava todos em silêncio.


Morvahn carregava consigo um relógio antigo cujo ponteiro jamais parava no mesmo lugar.


Sefrion estava sozinho próximo a uma janela.


Arteph entrou.


Todos perceberam imediatamente que havia alguma coisa errada.


Lenoria foi a primeira a falar.


— O que aconteceu?


Arteph olhou para os Doze.


— A porta se moveu.


O salão inteiro ficou em silêncio.


Baltamus deixou cair a peça que segurava.


Kassandra retirou lentamente as raízes do chão.


Damaris abriu os olhos.


Morvahn parou o relógio.


Sefrion não disse nada.


Mas seu olhar mudou.


— Isso é impossível — afirmou Kallon.


Arteph respondeu:


— Era.


Valeth aproximou-se.


— Elias?


Arteph assentiu.


— Ele encontrou uma forma de vê-la.


Lenoria apertou os punhos.


— Então mate-o.


Arteph permaneceu em silêncio.


— Arteph — insistiu Lenoria.


— Não.


— Por quê?


— Porque não sabemos se ele é a causa.


Morvahn finalmente falou:


— Ou se é a consequência.


A frase caiu sobre o salão como uma lâmina.


Arteph olhou para ele.


Morvahn continuou:


— Há uma diferença entre alguém abrir uma porta e alguém ser levado até ela.


Kassandra perguntou:


— Você acredita que Elias está sendo conduzido?


— Não acredito.


Morvahn olhou para o relógio.


— Eu sei.


Todos se voltaram para ele.


— Como?


Morvahn ergueu o relógio.


— O tempo ao redor daquele homem começou a apresentar pequenas inconsistências.


Baltamus franziu a testa.


— Explique.


— Eventos que ainda não aconteceram aparecem em registros anteriores. Sonhos antecipam encontros. Objetos surgem antes de serem criados. Memórias aparecem antes dos acontecimentos que deveriam produzi-las.


Arteph fechou os olhos.


— Então começou.


Lenoria perguntou:


— O quê?


Arteph respondeu:


— A segunda guerra.


Ninguém falou.


Elias não sabia.


Mas a guerra que estava começando não seria travada com exércitos.


Não haveria bandeiras.


Não haveria muralhas sitiadas.


Não haveria cavaleiros marchando sobre reinos.


Seria uma guerra pela própria estrutura do mundo.


E os Doze sabiam que, se perdessem, não perderiam apenas seus domínios.


Perderiam a autoridade sobre aquilo que julgavam eterno.


Sefrion finalmente se manifestou.


— Talvez devêssemos procurar Elias.


Arteph olhou para ele.


— Para quê?


— Para descobrir o que ele sabe.


— E se ele descobrir mais enquanto conversamos?


Sefrion não respondeu.


Arteph virou-se para todos.


— Elias não é nosso maior problema.


Lenoria perguntou:


— Então quem é?


Arteph olhou para a escuridão além das janelas.


— Ainda não sabemos.


---


Naquela mesma noite, Elias encontrou uma nova passagem.


Não estava em um livro.


Não estava em uma ruína.


Estava em sua própria casa.


Atrás de uma parede.


Ele havia percebido que uma das pedras do piso produzia um som diferente quando tocada. Removeu-a.


Abaixo havia outra.


E abaixo dela outra.


Durante quase uma hora, retirou pedras até encontrar uma pequena cavidade.


Dentro havia uma caixa.


A caixa não tinha fechadura.


Quando Elias tocou nela, abriu-se sozinha.


Dentro havia um pergaminho.


O papel era tão antigo que parecia prestes a virar pó.


No centro estava desenhado um símbolo.


Uma porta.


Mas não era a mesma porta dos sonhos.


Era uma porta aberta.


E atrás dela havia apenas um círculo vazio.


Abaixo do desenho havia uma frase.


Elias traduziu lentamente.


“Quando o homem aprender a negar a morte, a morte aprenderá a temer o homem.”


Ele permaneceu olhando.


Então percebeu que havia outra frase, escrita em uma camada muito mais antiga de tinta.


“E quando a morte temer o homem, os Doze lembrarão por que foram criados.”


Elias sentiu o sangue gelar.


Não porque compreendesse.


Mas porque, pela primeira vez, percebeu que alguém havia previsto aquilo.


Alguém havia previsto que um homem tentaria atravessar a fronteira.


Alguém havia previsto Elias.


Ele virou o pergaminho.


No verso havia apenas um nome.


Não era Arteph.


Não era nenhum dos Hunens.


Era um nome que Elias jamais havia visto.


Elias.


Abaixo dele havia uma data.


Uma data anterior ao nascimento de seus pais.


Anterior ao nascimento de seus avós.


Anterior à fundação de sua cidade.


Anterior à maioria dos registros conhecidos.


Elias sentou-se lentamente.


O pergaminho escorregou de suas mãos.


— Não...


Aquela era a primeira vez que sua investigação deixava de parecer uma busca.


Agora parecia uma armadilha.


Ele havia acreditado que estava procurando a porta.


Mas talvez a porta estivesse procurando por ele.


E então ouviu.


Uma batida.


Elias congelou.


Uma batida.


Depois outra.


Vinha de dentro da parede.


Ele se aproximou.


Colocou a mão sobre as pedras.


Toc.


Outra batida.


Toc.


Elias recuou.


A terceira batida veio acompanhada de uma voz.


Uma voz muito baixa.


Uma voz que parecia atravessar pedra, madeira, carne e osso.


— Elias.


Ele não respondeu.


— Elias.


Dessa vez reconheceu.


Não era Arteph.


Não era a voz dela.


Não era a criatura do sonho.


Era outra coisa.


Algo que estava muito mais perto.


A voz sussurrou:


— Você abriu a primeira porta.


Elias ficou imóvel.


— Agora precisa escolher qual delas fechar.


As pedras começaram a rachar.


Uma linha negra surgiu na parede.


E, lentamente, como se alguma coisa estivesse empurrando do outro lado...


uma porta começou a nascer dentro da casa de Elias.


Ele deu um passo para trás.


Depois outro.


A rachadura aumentou.


O ar ficou frio.


Todas as velas se apagaram.


E, no escuro, Elias compreendeu finalmente a verdade mais terrível de todas:


Ele havia passado semanas tentando entrar no mundo dos mortos.


Mas alguma coisa do mundo dos mortos...


já estava tentando entrar no mundo dos vivos.


E, pela primeira vez desde que perdera sua amada, Elias não sentiu apenas tristeza.


Sentiu medo.


Não por si mesmo.


Mas porque uma pergunta surgiu em sua mente:


Se aquilo atravessasse a porta... o que exatamente estaria atravessando com ela?Se quiser, o próximo capítulo pode aprofundar **a primeira manifestação daquilo que está atrás da porta**, enquanto Elias começa a perceber que sua necromancia não está apenas desafiando Arteph — ela está despertando uma ameaça que nem os Doze controlam.

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