terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad:heim: O Reino de Gelo


Os anos seguintes transformaram Elias em outra coisa. Não aconteceu de uma vez, e talvez essa tenha sido a parte mais perigosa de sua transformação. Não houve um momento específico em que ele acordou e deixou de ser homem para se tornar o Necromante. Não houve uma cerimônia, uma coroa, um juramento diante de um altar ou uma explosão de poder que o separasse daqueles que havia sido. A transformação aconteceu lentamente, estudo após estudo, cadáver após cadáver, erro após erro, até que um dia os homens perceberam que aquele homem que havia partido em busca de uma única alma havia se tornado alguém capaz de conversar com milhares de mortos. Depois da Guerra dos Duzentos Anos, o mundo estava exausto. Os reinos precisavam reconstruir muralhas, estradas, campos e cidades. Reis assinavam tratados, soldados abandonavam armaduras, famílias procuravam os desaparecidos e os sacerdotes tentavam devolver alguma aparência de normalidade aos lugares onde durante gerações a normalidade havia deixado de existir. Mas a paz não apagava os mortos. Havia valas comuns em praticamente todos os grandes campos de batalha. Havia aldeias inteiras onde os vivos eram minoria. Havia famílias que guardavam ossos de parentes dentro de caixas porque não tinham conseguido enterrá-los. Havia soldados que retornavam para casa sem reconhecer os próprios filhos. E havia milhares de almas que não encontravam descanso porque a própria estrutura que separava os vivos dos mortos havia sido violentamente perturbada durante dois séculos. Elias estudou tudo isso. No começo, procurava apenas uma maneira de encontrar sua amada. Depois começou a estudar a memória. Descobriu que a memória não era a alma. Estudou o corpo e descobriu que o corpo também não era a pessoa. Estudou os espíritos e descobriu que nem todo espírito era aquilo que os vivos chamavam de alma. Estudou os resíduos deixados pelos mortos e descobriu que uma pessoa podia deixar marcas de sua existência em lugares, objetos e até mesmo em outras pessoas. Começou então a fazer algo que os necromantes anteriores jamais haviam feito com tanta profundidade: separar a morte em partes. Para Elias, a morte deixou de ser um acontecimento e tornou-se uma disciplina. Ele criou categorias. Corpo. Memória. Vontade. Identidade. Espírito. Essência. Vínculo. Cada uma obedecia a regras diferentes. Cada uma desaparecia de maneira diferente. Cada uma podia, em determinadas circunstâncias, ser percebida depois da morte. E quanto mais Elias aprendia, mais percebia que os antigos necromantes haviam entendido quase nada. Eles levantavam cadáveres, invocavam espíritos e acreditavam que isso significava dominar a morte. Elias considerava aquilo rudimentar. Um homem que ordenava a um cadáver que se levantasse não compreendia a morte. Apenas havia descoberto como mover matéria morta. A verdadeira necromancia começava depois disso. Ele aprendeu a ouvir os mortos sem invocá-los. Aprendeu a distinguir uma memória de uma presença. Aprendeu a perceber quando uma alma havia passado completamente para o domínio de Arteph e quando algum fragmento permanecia preso ao mundo dos vivos. Aprendeu a conversar com espíritos que haviam esquecido o próprio nome. Aprendeu a fazer perguntas aos cadáveres e, mais importante, aprendeu quando não deveria acreditar nas respostas. Porque os mortos mentiam. Alguns por medo. Outros por confusão. Alguns porque haviam perdido partes daquilo que eram. E outros porque alguma coisa além deles havia aprendido a usar suas vozes. Foi nesse período que Elias começou a ser chamado de Necromante. Primeiro como insulto. Depois como advertência. Mais tarde como título. Reis proibiam sua entrada em cidades. Magos queimavam seus livros. Sacerdotes diziam que ele havia desafiado Arteph. Alguns diziam que Elias era servo de demônios. Outros acreditavam que ele poderia devolver qualquer morto à vida. Essa última crença era a mais perigosa. Pessoas começaram a procurá-lo. Viúvas. Soldados. Reis. Assassinos. Pais. Crianças. Gente desesperada. Todos queriam a mesma coisa: alguém que havia partido. Elias recusava a maioria. Não porque tivesse se tornado misericordioso, mas porque havia aprendido algo que ninguém mais compreendia. Trazer um morto de volta não era o mesmo que devolver uma pessoa. O cadáver podia levantar. A voz podia voltar. A memória podia responder. Mas isso não significava que aquela pessoa estivesse novamente viva. Certa vez, um rei ofereceu metade de seu tesouro para que Elias ressuscitasse sua filha. Elias aceitou o ouro apenas para provar ao homem por que ele estava errado. Encontrou o cadáver, realizou o ritual e fez os olhos da jovem se abrirem. O rei chorou. Abraçou a filha. Chamou pelo nome dela. Ela respondeu. Durante algumas horas, todos acreditaram que Elias havia realizado um milagre. Então a jovem perguntou quem era o homem diante dela. O rei ficou imóvel. Elias encerrou o ritual. O corpo caiu. O rei tentou atacá-lo. — Você prometeu! — gritou. Elias respondeu apenas: — Não. Você prometeu a si mesmo que qualquer coisa que falasse com a voz dela seria ela. O rei não entendeu. Elias foi embora. Aquela experiência ensinou-lhe outra coisa: a necromancia não era perigosa apenas porque podia quebrar leis mágicas. Era perigosa porque oferecia esperança às pessoas erradas. E esperança, quando colocada nas mãos de alguém desesperado, podia ser mais destrutiva que qualquer maldição. Elias continuou estudando. Sua reputação cresceu. Seus inimigos também. Foi então que Baltamus percebeu sua existência. Baltamus, Hunen da criatividade e da inteligência, observava o mundo de maneira diferente dos outros. Não era um guerreiro como Lenoria. Não governava a morte como Arteph. Não dominava os céus, o mar ou a terra. Seu poder estava no pensamento, na criação e na capacidade de transformar uma ideia em realidade. Seu companheiro era um golem gigantesco, uma criatura construída de pedra antiga e força sobrenatural, capaz de atravessar montanhas como se fossem paredes frágeis. Baltamus não odiava Elias. Isso tornava tudo mais complicado. Ele queria compreendê-lo. Durante anos, observou os registros deixados pelo Necromante. Leu relatos de suas experiências. Estudou os rituais. Percebeu que Elias estava construindo uma ciência própria. Uma ciência proibida, perigosa e incompleta, mas ainda assim uma ciência. — Ele não está tentando levantar os mortos — disse Baltamus certa vez. Seu golem permanecia atrás dele. — Está tentando entender por que eles não voltam. O golem não respondeu. Baltamus continuou: — Isso é muito mais perigoso. Porque um homem que deseja poder pode ser detido pelo poder. Um homem que deseja conhecimento pode atravessar qualquer limite. Baltamus tentou encontrá-lo. Elias desapareceu. Durante meses, ninguém soube onde estava. Então desapareceram dois necromantes. Depois três. Depois sete. Todos haviam tentado seguir as pesquisas de Elias. Nenhum retornou. O mundo começou a criar histórias. Diziam que o Necromante havia construído uma fortaleza subterrânea. Diziam que possuía um exército de cadáveres. Diziam que havia aprendido a conversar com Arteph. Diziam que havia matado um Hunen. Nada disso era verdade. Ainda. Elias havia percebido que quanto mais crescia, mais pessoas seriam atraídas para sua pesquisa. E ele precisava desaparecer. Não por medo dos reis. Nem por medo dos magos. E nem mesmo por medo dos Hunens. Ele precisava de um lugar onde pudesse estudar sem ser interrompido. Um lugar onde os vivos não chegassem facilmente. Um lugar onde os mortos permanecessem preservados pelo próprio ambiente. Foi então que olhou para o norte. O continente Norte era uma terra que poucos homens conheciam profundamente. Ao noroeste ficavam as grandes geleiras, uma extensão colossal de montanhas congeladas, vales cobertos por neve e cavernas que permaneciam seladas durante séculos. Grande parte daquela região estava dentro dos domínios de Baltamus. Era uma terra aparentemente inútil para os homens. Poucas cidades existiam ali. Poucas estradas atravessavam o território. O frio matava rapidamente aqueles que viajavam sem preparação. E justamente por isso Elias escolheu aquele lugar. Partiu sozinho. Levou seus livros, seus instrumentos, algumas poções, pergaminhos, ossos e tudo aquilo que considerava indispensável. Não levou exército. Não levou seguidores. Não levou riquezas. Durante semanas caminhou para o norte. Quanto mais avançava, menos sinais de civilização encontrava. Primeiro desapareceram as plantações. Depois as árvores. Depois os animais. Por fim, até mesmo os sons do mundo pareceram desaparecer. A neve cobria tudo. Montanhas brancas se erguiam como muralhas. O vento cortava a pele. O céu permanecia cinzento durante dias. Elias continuou. Certa noite encontrou uma abertura na geleira. Era estreita, quase invisível. Entrou. Caminhou por horas. A caverna se expandia cada vez mais. No fundo encontrou algo impossível. Uma cidade. Não uma cidade construída recentemente, mas ruínas de uma civilização muito antiga, enterrada dentro do gelo. Havia torres congeladas. Escadarias. Estátuas sem rostos. Salões inteiros preservados como se o tempo tivesse parado. Elias ficou parado durante vários minutos. Depois sorriu pela primeira vez em semanas. Não porque tivesse encontrado um tesouro. Havia encontrado algo muito melhor. Um lugar onde o tempo parecia obedecer a regras diferentes. Ele passou meses explorando as ruínas. Descobriu inscrições. Descobriu câmaras. Descobriu túneis que desciam profundamente. E descobriu algo ainda mais importante: os antigos habitantes daquele lugar conheciam Arteph. Não apenas o conheciam. Temiam-no. Em uma das paredes havia uma representação de um homem diante de uma porta. Atrás dele estavam doze figuras. Uma delas segurava uma criatura de três cabeças. Elias passou a mão sobre a inscrição. — Você esteve aqui. A resposta não veio. Mas Elias sabia que Arteph havia passado por aquele lugar. Talvez milhares de anos antes. Talvez antes mesmo da formação dos reinos modernos. Continuou explorando. Encontrou uma sala circular no centro da cidade. No chão havia um símbolo. O mesmo símbolo que encontrara no laboratório do Vale de Arken. O círculo cortado por uma linha. Elias ajoelhou-se. — O que vocês estavam escondendo? O gelo respondeu com silêncio. Ele passou os dedos sobre o símbolo. Então percebeu que havia algo sob ele. Começou a escavar. Trabalhou durante horas. Encontrou uma porta de pedra. Atrás dela havia uma câmara. No centro havia um trono vazio. Ao redor do trono, centenas de pequenas cavidades. Elias examinou algumas. Ossos. Não humanos. Eram ossos de criaturas desconhecidas. Em uma parede havia uma inscrição: “Aquele que conhecer a morte conhecerá o limite.” Elias continuou lendo. “Aquele que atravessar o limite conhecerá os Doze.” E abaixo: “Aquele que compreender os Doze descobrirá que eles também são prisioneiros.” Elias ficou imóvel. Pela primeira vez, sua visão dos Hunens começou a mudar. Até então, acreditava que os Doze eram os carcereiros. Agora havia uma possibilidade diferente. Talvez fossem guardiões presos ao mesmo sistema que protegiam. Talvez Arteph não fosse o senhor da morte. Talvez ele também estivesse submetido a algo maior. Elias saiu da câmara e decidiu ficar. Ali construiria seu domínio. Não um reino. Não ainda. Uma oficina. Um laboratório. Uma biblioteca. Um lugar onde pudesse continuar sua pesquisa sem interferência. Começou sozinho. Escavou túneis. Construiu salas. Criou círculos mágicos. Utilizou ossos antigos como componentes. Aprendeu a preservar corpos dentro do gelo. Descobriu que a baixa temperatura não apenas retardava a decomposição, mas alterava a maneira como certas energias permaneciam ligadas ao corpo. O frio era perfeito para a necromancia. Cadáveres podiam ser preservados durante décadas. Espíritos podiam ser mantidos próximos. Memórias permaneciam mais nítidas. O gelo tornava-se parte de seus experimentos. Elias começou a construir. Primeiro, uma biblioteca. Depois, uma sala para rituais. Depois, uma cripta. Depois, um laboratório. Depois, uma torre subterrânea que atravessava a geleira de cima a baixo. Anos se passaram. Elias mudou. Seu cabelo cresceu. Seu rosto tornou-se mais magro. Seus olhos adquiriram uma aparência cansada. Ele parou de contar os aniversários. Parou de acompanhar o calendário. O mundo exterior continuou mudando. Novos reis surgiram. Novas cidades foram construídas. Antigos soldados morreram de velhice. Crianças nascidas no final da Guerra dos Duzentos Anos tornaram-se adultas. Para eles, a guerra já era história. Para Elias, ela continuava viva em cada cadáver que estudava. Foi nessa época que criou seu primeiro grande exército. Não eram mortos-vivos comuns. Eram corpos preservados no gelo, reconstruídos com ossos de diferentes guerreiros, reforçados por magia e controlados por uma rede de comandos espirituais. Elias os chamava de Guardiões. Eles não possuíam vontade própria. Não sentiam dor. Não cansavam. Não precisavam comer. Eram perfeitos para proteger sua fortaleza. Depois vieram criaturas maiores. Lobos mortos. Ursos. Gigantes congelados. Dragões antigos cujos ossos haviam sido encontrados sob as montanhas. Elias não queria apenas quantidade. Queria compreender até onde a morte podia ser manipulada. E cada experimento o aproximava de uma descoberta terrível. A necromancia não criava vida. Ela reutilizava aquilo que a vida havia deixado para trás. Mas havia uma exceção. Algumas coisas respondiam. Algumas coisas não deveriam responder. E uma dessas coisas respondeu quando Elias realizou um ritual no coração da geleira. Ele havia encontrado o cadáver de um guerreiro antigo. O corpo estava intacto. Não havia decomposição. Não havia danos. Parecia dormir. Elias iniciou o ritual. O cadáver abriu os olhos. — Quem é você? — perguntou Elias. O morto respondeu: — Eu não estou morto. Elias parou. — Todos estão mortos. — Não. — Onde está sua alma? O cadáver começou a sorrir. — Não sei. Elias encerrou o ritual imediatamente. O corpo caiu. Durante horas ele ficou sentado diante dele. Então compreendeu. Alguns mortos não estavam mortos porque nunca haviam atravessado completamente a fronteira. Alguns permaneciam presos entre estados. E isso significava que havia uma categoria de existência que os próprios Hunens talvez não controlassem completamente. Elias começou a procurar esses casos. E encontrou muitos. Alguns estavam enterrados sob geleiras. Outros em ruínas antigas. Outros em campos de batalha. Outros dentro de criaturas. A pesquisa tomou uma nova direção. Elias começou a procurar aquilo que chamou de “mortos incompletos”. E foi essa pesquisa que finalmente atraiu a atenção direta de Arteph. Certa noite, no coração da fortaleza congelada, todas as tochas se apagaram. Elias estava escrevendo quando ouviu três rosnados. Cerberus apareceu na entrada. Elias levantou-se. — Finalmente. Arteph surgiu atrás da criatura. — Você deveria ter parado. Elias fechou o livro. — Há quanto tempo você está me observando? — Desde antes de você entender o que estava procurando. — Então sabe o que encontrei. — Sei. — E vai me impedir? Arteph olhou ao redor. — Não posso. Elias franziu a testa. — Não pode? — Você já atravessou limites demais para que eu possa simplesmente apagar seus passos. Elias deu um passo à frente. — Então por que veio? Arteph respondeu: — Para avisá-lo. — Sobre o quê? — Sobre aquilo que está começando a olhar de volta. Elias ficou em silêncio. — Você acredita que está estudando a morte — continuou Arteph. — Mas a morte também está estudando você. Elias não recuou. — Ela sabe meu nome? Arteph respondeu: — Há muito tempo. Elias olhou para Cerberus. O animal não rosnava. Apenas observava. — E minha amada? — perguntou Elias. Arteph ficou em silêncio. Elias insistiu: — Ela está no seu domínio? — Sim. — Posso encontrá-la? — Não. — Por quê? Arteph respondeu algo que Elias nunca havia esperado ouvir: — Porque ela não quer que você a encontre. Elias ficou imóvel. — Isso é mentira. — Não. — Ela falou com você? — Não. — Então como sabe? Arteph olhou diretamente para ele. — Porque eu conheço o momento em que uma alma deixa de esperar. Elias sentiu algo quebrar dentro dele. — Ela desistiu de mim? — Não. — Então o quê? Arteph respondeu: — Ela aceitou que você precisa continuar vivendo. Elias fechou os olhos. Durante anos havia imaginado que sua amada estava presa em algum lugar, esperando por ele. Agora, pela primeira vez, existia uma possibilidade diferente. Talvez ela não estivesse esperando. Talvez tivesse seguido adiante. Talvez a pessoa que Elias procurava já não existisse como ele lembrava. Arteph desapareceu. Cerberus foi embora com ele. Elias ficou sozinho na fortaleza. Durante três dias não realizou nenhum experimento. Não escreveu. Não estudou. Apenas permaneceu sentado diante do fogo. No quarto dia levantou-se. Pegou seu grimório. Abriu a primeira página. Ali estava escrito o objetivo original: “Encontrá-la.” Elias ficou olhando durante muito tempo. Depois riscou a frase. Abaixo escreveu: “Compreender.” E, depois de hesitar, acrescentou: “Mesmo que a verdade me destrua.” A partir daquele dia, Elias mudou. A busca deixou de ser exclusivamente pessoal. Ele queria entender a morte, os Hunens, a Primeira Ordem e aquilo que existia além da fronteira. E agora possuía algo que nenhum outro necromante havia possuído: tempo. A fortaleza cresceu. Seus corredores se multiplicaram. Seus laboratórios foram enterrados cada vez mais profundamente no gelo. Seus mortos começaram a formar legiões silenciosas. Magos que tentavam encontrá-lo desapareciam. Exploradores que chegavam às geleiras nunca retornavam. Histórias começaram a circular entre os povos do Norte. Falava-se de uma figura que vivia dentro da montanha. Um homem que não envelhecia como os outros. Um homem que podia levantar os mortos com uma palavra. Um homem que possuía uma cidade inteira sob o gelo. Alguns diziam que ele era um demônio. Outros diziam que era um antigo Hunen. Outros afirmavam que ele havia encontrado a própria morte e a escravizado. Nenhuma dessas histórias era completamente verdadeira. Mas todas continham um fragmento da realidade. Elias havia se tornado o maior necromante de sua época. E no fundo das geleiras do noroeste, dentro do território de Baltamus, começava a nascer algo que um dia seria conhecido apenas como o Domínio do Necromante. Baltamus sabia que Elias estava ali. Sabia há anos. Seu gigantesco golem havia encontrado os primeiros túneis muito antes de Elias terminar sua fortaleza. Mas Baltamus não o expulsou. Não ainda. Porque havia uma pergunta que intrigava o Hunen mais do que a ameaça representada pelo Necromante: por que Elias havia escolhido justamente seu território? Baltamus finalmente decidiu descobrir. Montou sobre o ombro de seu golem e atravessou as montanhas. Quando chegou à geleira, parou diante da entrada oculta. Elias já o esperava. — Você demorou — disse o Necromante. Baltamus desceu do golem. — Você sabia que eu viria? Elias respondeu: — Eu sabia que você sabia que eu estava aqui. Baltamus sorriu. — Então somos dois homens inteligentes desperdiçando tempo com formalidades. Elias abriu a passagem. — Entre. Baltamus olhou para a escuridão. — Você não tem medo de mim? Elias respondeu: — Não vim para cá porque tenho medo de vocês. Vim porque precisava de um lugar onde pudesse estudar. Baltamus observou os símbolos nas paredes. — E encontrou? Elias olhou para os túneis que desapareciam sob o gelo. — Encontrei muito mais do que procurava. Baltamus ficou sério. — Isso é justamente o que me preocupa. Os dois entraram. Atrás deles, o golem fechou a passagem. Muito abaixo da superfície, milhares de mortos aguardavam em silêncio. E, nas profundezas da geleira, uma presença antiga observava os dois homens. Um era um Hunen. O outro era um mortal que havia aprendido a conversar com a morte. Nenhum dos dois sabia ainda que aquela reunião seria o início de uma relação que mudaria o equilíbrio do mundo...

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