terça-feira, 29 de setembro de 2026

AD’HEIM: O Olhar de Arteph

 


— Necromante.


A palavra atravessou o salão como uma sentença.


Arteph não precisava gritar.


Não precisava erguer a voz.


No mundo dos mortos, sua vontade não dependia de som.


Quando Arteph desejava alguma coisa, o próprio silêncio parecia obedecer.


Diante dele estendia-se uma paisagem que nenhum homem vivo poderia contemplar sem perder a razão.


Não havia céu.


Não havia chão.


Não havia horizonte.


Havia apenas uma imensa escuridão azulada, atravessada por rios de luz pálida que serpenteavam até desaparecer em regiões onde a própria percepção parecia falhar.


Milhares de almas caminhavam por aquelas regiões.


Algumas silenciosas.


Algumas chorando.


Algumas sorrindo.


Algumas completamente perdidas.


E outras...


simplesmente observando.


Arteph permanecia no centro daquele domínio.


Atrás dele, três enormes cabeças observavam a escuridão.


Cerberus.


O guardião.


Cada uma de suas cabeças representava uma vigilância diferente.


Uma observava aqueles que chegavam.


Outra observava aqueles que tentavam partir.


A terceira observava aquilo que não deveria estar ali.


Naquela noite, as três estavam olhando para a mesma direção.


Para o mundo dos vivos.


Arteph levantou a mão.


Uma superfície negra apareceu diante dele.


Não era um espelho.


Era uma janela.


Através dela, ele podia observar fragmentos do mundo material.


Montanhas.


Oceanos.


Florestas.


Cidades.


Campos.


Pessoas.


E, em uma pequena sala iluminada por uma única vela...


Elias.


O jovem estava sentado diante de uma mesa.


Livros empilhavam-se ao redor dele.


Alguns eram tão antigos que pareciam prestes a desaparecer.


Outros eram manuscritos que Elias havia produzido sozinho.


Havia símbolos por toda parte.


Diagramas.


Mapas.


Anotações.


Nomes.


Perguntas.


E, no centro de tudo aquilo, uma palavra estava escrita repetidamente:


ARTEPH.


Cerberus rosnou.


Arteph olhou para a criatura.


— Ainda não.


A cabeça central do cão mostrou os dentes.


Arteph voltou os olhos para Elias.


— Ele não compreende.


A cabeça esquerda rosnou.


— Não.


A direita soltou um som grave.


Arteph permaneceu imóvel.


— Ele pensa que procura alguém.


A superfície negra mudou.


Agora mostrava Elias dormindo sobre os livros.


O rosto estava exausto.


As mãos estavam cobertas de tinta.


Uma vela queimava lentamente ao lado dele.


Arteph observou.


— Ele ainda acredita que pode recuperá-la.


Silêncio.


— É isso que o torna perigoso.



---


Elias acordou antes do amanhecer.


A primeira coisa que viu foi o livro.


A segunda foi o sangue.


A terceira foi uma palavra que ele não lembrava de ter escrito.


ABRIR.


Ele se levantou.


Olhou para a página.


A palavra estava ali.


Escrita com sua própria caligrafia.


Mas ele não se lembrava de tê-la escrito.


Passou os dedos sobre a tinta.


Ainda estava fresca.


Elias ficou imóvel.


Então ouviu um som.


Um pequeno ruído atrás dele.


Virou-se.


Nada.


Pegou o cajado.


— Quem está aí?


Silêncio.


Caminhou lentamente pela sala.


Abriu a porta.


Nada.


O corredor estava vazio.


Voltou.


O livro permanecia sobre a mesa.


Ele se aproximou.


Virou a página.


Havia uma segunda frase.


VOCÊ QUER ENTRAR.


Elias sentiu um arrepio.


— Não.


A tinta começou a escorrer.


As letras desapareceram.


E novas palavras surgiram.


VOCÊ QUER SABER.


Elias ficou olhando.


— Sim.


A resposta apareceu.


ENTÃO PARE DE PERGUNTAR AOS MORTOS.


Elias franziu a testa.


— Por quê?


As letras permaneceram imóveis.


Então surgiu uma nova frase.


ELES NÃO SABEM TUDO.


Elias aproximou o rosto.


— Quem sabe?


A resposta demorou.


Por alguns segundos, nada aconteceu.


Então:


ARTEPH.


Elias sentiu o coração acelerar.


— Você está me ouvindo?


Nenhuma resposta.


— Arteph?


A chama da vela se apagou.


A sala mergulhou na escuridão.


Elias permaneceu parado.


Então uma voz surgiu atrás dele.


— Sim.


Ele virou-se.


E viu.


Não uma criatura.


Não um monstro.


Não um espírito.


Apenas uma silhueta.


Alta.


Imóvel.


Com olhos que pareciam não refletir luz alguma.


Elias tentou falar.


Nenhuma palavra saiu.


A figura deu um passo.


— Você me procura há meses.


Elias finalmente conseguiu responder:


— Você é Arteph?


A figura permaneceu imóvel.


— Sou.


Elias respirou fundo.


— Quero falar com ela.


Silêncio.


— Você sabe de quem estou falando.


Arteph não respondeu.


Elias apertou os punhos.


— Eu quero falar com ela.


— Não.


A resposta foi simples.


Elias sentiu algo dentro dele se quebrar novamente.


— Por quê?


— Porque ela está morta.


— Eu sei.


— Então aceite.


Elias riu.


Foi uma risada amarga.


— Aceitar?


Arteph não se moveu.


— Você não entende.


— Entendo mais do que você imagina.


— Não.


Elias deu um passo.


— Você não entende o que significa perder alguém.


Arteph observou-o.


— Você está enganado.


Elias parou.


Arteph continuou:


— Eu conheço todos os que foram perdidos.


A frase atingiu Elias de maneira diferente.


— Então você sabe onde ela está.


— Sim.


— Mostre.


— Não.


— Por quê?


— Porque você ainda não está preparado.


Elias cerrou os dentes.


— Preparado para quê?


Arteph não respondeu.


A figura começou a desaparecer.


— Espere!


Elias avançou.


— Arteph!


A sombra sumiu.


Elias caiu de joelhos.


A sala estava novamente vazia.


Mas uma coisa havia mudado.


Sobre a mesa, o livro estava aberto.


E havia uma nova frase.


VOCÊ NÃO PRECISA DE MIM PARA ENCONTRÁ-LA.


Elias olhou para aquilo.


Depois sorriu.


Não de felicidade.


De compreensão.


— Então existe um caminho.


A chama da vela voltou a acender.


Elias pegou o livro.


— Eu vou encontrá-lo.



---


Durante os meses seguintes, Elias tornou-se outra pessoa.


A antiga vida havia desaparecido.


Seus amigos deixaram de vê-lo.


Seus antigos mestres pararam de reconhecê-lo.


Ele abandonou tudo.


Vendeu o que possuía.


Trocaou livros.


Invadiu bibliotecas.


Comprou manuscritos proibidos.


Visitou ruínas.


Conversou com sacerdotes.


Interrogou espíritos.


Desenterrou cadáveres.


Estudou inscrições.


Aprendeu línguas mortas.


E descobriu algo que mudaria completamente sua visão sobre os Hunens.


Eles não eram apenas governantes.


Eram carcereiros.


Pelo menos era isso que alguns textos antigos insinuavam.


Os Hunens não haviam simplesmente organizado o mundo.


Eles haviam estabelecido limites.


Limites entre os reinos.


Limites entre magia e matéria.


Limites entre vida e morte.


E, principalmente...


limites entre conhecimento e ignorância.


Elias começou a perceber que a ordem do mundo talvez não existisse para proteger os homens.


Talvez existisse para proteger os próprios Hunens.



---


Ele encontrou a primeira evidência em uma cripta esquecida.


A inscrição estava quase apagada.


Elias limpou a pedra.


Leu lentamente.


Uma frase.


Depois outra.


E finalmente conseguiu compreender.


> "Os Doze guardam as portas."




Elias franziu a testa.


Continuou.


> "Nenhum mortal deverá atravessá-las."




Mais abaixo:


> "Aquele que abrir a porta será apagado."




Elias ficou imóvel.


— Apagado?


Voltou ao texto.


Havia mais.


Mas parte da pedra havia sido destruída.


Ele começou a copiar tudo.


Horas depois, encontrou outra inscrição.


E então outra.


Todas apontavam para a mesma coisa.


Os Hunens haviam eliminado registros.


Histórias.


Pessoas.


Magos.


Civilizações.


Não necessariamente porque fossem malignos.


Mas porque certas descobertas ameaçavam a estrutura que mantinha o mundo funcionando.


Elias fechou o livro.


— Então é isso.


Olhou para a cripta.


— Vocês não escondem a verdade porque ela é perigosa.


Sorriu.


— Vocês escondem porque ela pode ser usada contra vocês.



---


A partir daquele momento, Elias deixou de procurar apenas sua amada.


Começou a procurar os limites dos Hunens.


E descobriu que cada um possuía uma fraqueza.


Lenoria estava ligada ao reino.


Aldora, ao equilíbrio interior.


Sefrion, à magia.


Kallon, ao mar.


Baltamus, à criação e ao pensamento.


Valeth, à coragem.


Kassandra, à floresta.


Rhaegor, aos céus.


Damaris, à terra.


Elyndra, à vida.


Morvahn, ao tempo.


E Arteph...


À morte.


Elias passou horas olhando para aquele último nome.


Então percebeu.


Se queria desafiar os Hunens...


Arteph era o ponto mais importante.


Porque todos os outros dependiam da mesma coisa.


Vida.


E toda vida terminava na morte.


Elias fechou o livro.


— Então é por você que começarei.



---


Naquela noite, ele realizou seu primeiro grande ritual.


Não para falar com um morto.


Para abrir uma passagem.


O círculo ocupava quase toda a sala.


Havia símbolos em torno dele.


Velas negras.


Cinzas.


Sangue.


Ossos.


Fragmentos de objetos pertencentes a pessoas mortas.


No centro estava o nome:


ARTEPH.


Elias começou a recitar.


Uma palavra.


Depois outra.


Depois outra.


O ar mudou.


A temperatura caiu.


A chama das velas ficou azul.


Os ossos começaram a tremer.


E então...


todos os cadáveres da sala abriram os olhos.


Elias recuou.


Um deles começou a falar.


— Pare.


Elias respirou fundo.


— Não.


— Você não sabe o que está fazendo.


— Estou abrindo uma porta.


— Você não pode.


— Posso.


O cadáver começou a gritar.


Não de dor.


De medo.


— ELE ESTÁ OLHANDO.


Elias congelou.


— Quem?


Todos os mortos responderam ao mesmo tempo:


ARTEPH.


As velas explodiram.


A sala inteira foi tomada por uma força invisível.


Elias foi lançado contra a parede.


Os cadáveres caíram.


O círculo se rompeu.


O chão tremeu.


E então uma presença surgiu.


Não uma imagem.


Não uma voz.


Uma presença.


Elias sentiu imediatamente.


Arteph estava ali.


Não completamente.


Apenas uma fração.


Um fragmento de sua atenção.


Mas era suficiente.


— Você está sendo avisado.


Elias se levantou lentamente.


Sangue escorria de sua boca.


— Então finalmente veio.


— Abandone isso.


— Não.


— Você não compreende o que está tentando fazer.


— Então me ensine.


Silêncio.


— Você deseja a morta.


Elias olhou para os cadáveres.


— Quero.


— Então aceite a morte.


Elias respondeu:


— Não.


A presença pareceu se tornar mais pesada.


— Você não pode vencer a morte.


Elias sorriu.


— Eu não preciso vencer.


Arteph permaneceu silencioso.


Elias olhou diretamente para a escuridão.


— Só preciso aprender como ela funciona.


A presença desapareceu.


Mas antes de partir, Arteph disse:


— Então aprenda.


Elias ficou imóvel.


A sala estava destruída.


Os cadáveres permaneciam espalhados.


As velas haviam apagado.


Mas ele sorria.


Porque acabara de compreender algo.


Arteph não o havia destruído.


Não o havia matado.


Não o havia impedido.


Ele apenas o havia avisado.


E Elias conhecia uma regra fundamental:


quando alguém poderoso manda você parar de fazer alguma coisa, a primeira pergunta que deve ser feita é: por quê?



---


Naquela mesma noite, em outro lugar...


Arteph estava diante dos outros Hunens.


Lenoria estava presente.


Aldora também.


Sefrion permanecia em silêncio.


Kallon observava de longe.


Baltamus estudava um artefato.


Valeth cruzava os braços.


Kassandra estava acompanhada pela sombra de sua árvore.


Rhaegor permanecia imóvel.


Damaris parecia uma montanha.


Elyndra observava com preocupação.


Morvahn não dizia nada.


Arteph finalmente falou:


— Existe um homem.


Baltamus levantou os olhos.


— Um homem?


— Sim.


Sefrion perguntou:


— Poderoso?


Arteph respondeu:


— Não.


Valeth franziu a testa.


— Então por que estamos discutindo sobre ele?


Arteph olhou para todos.


— Porque ele está aprendendo.


Baltamus ficou sério.


— Todos os homens aprendem.


— Ele está aprendendo aquilo que não deveria conhecer.


Sefrion perguntou:


— Magia proibida?


— Não.


Kassandra:


— A floresta?


— Não.


Kallon:


— O mar?


— Não.


Morvahn finalmente abriu os olhos.


— A morte.


Arteph olhou para ele.


— Sim.


O salão ficou em silêncio.


Morvahn perguntou:


— Nome?


Arteph respondeu:


— Elias.


Sefrion ficou imóvel.


Por um instante, algo passou por seu rosto.


Mas desapareceu rapidamente.


— Então mate-o — disse Rhaegor.


Arteph respondeu:


— Ainda não.


— Por quê?


Arteph olhou para Morvahn.


Depois para Sefrion.


— Porque quero saber até onde ele vai.


Morvahn estreitou os olhos.


— Isso é perigoso.


Arteph respondeu:


— Sim.


Então Cerberus apareceu atrás dele.


As três cabeças olharam para os Hunens.


Arteph concluiu:


— E talvez seja exatamente por isso que devemos deixá-lo continuar.



---


Elias, entretanto, não sabia de nada disso.


Ele estava sentado diante de seus livros.


Sozinho.


Exausto.


Ferido.


Mas determinado.


Pegou uma pena.


Abriu uma página em branco.


E escreveu:


PROJETO: TRANSPOR A FRONTEIRA ENTRE VIDA E MORTE.


Abaixo:


OBJETIVO: ENCONTRÁ-LA.


Parou.


Pensou.


Depois acrescentou uma terceira linha:


OBJETIVO SECUNDÁRIO: COMPREENDER ARTEPH.


Elias fechou o livro.


Naquele momento, ele ainda acreditava que estava procurando uma maneira de trazer uma pessoa de volta.


Ainda não compreendia que sua pesquisa o levaria muito além disso.


Porque, enquanto procurava sua amada...


ele começaria a descobrir todos os mortos.


E quanto mais mortos encontrasse...


mais segredos ouviria.


E quanto mais segredos ouvisse...


mais perceberia que os Hunens não eram os únicos seres que haviam manipulado a história.


Havia algo anterior.


Algo enterrado.


Algo que nem mesmo Arteph desejava despertar.


Elias ainda não sabia.


Mas, no fundo do mundo dos mortos, havia uma porta que permanecia fechada havia milhares de anos.


E naquela noite...


pela primeira vez...


alguém havia batido do lado de fora.

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