Elias não se moveu.
Durante alguns segundos, talvez minutos, permaneceu diante da parede enquanto a última chama de uma das velas tremulava até desaparecer completamente. A escuridão tomou a casa, mas não era uma escuridão comum. Não havia simplesmente ausência de luz. Era como se a própria luz tivesse sido retirada do ambiente, como se alguma coisa tivesse imposto ao espaço uma regra diferente daquela que Elias conhecia.
Ele podia ouvir a própria respiração.
Podia ouvir o coração.
Podia ouvir o vento do lado de fora.
E, por baixo de tudo aquilo, podia ouvir a porta.
Não havia dobradiças.
Não havia madeira rangendo.
Não havia passos do outro lado.
Havia apenas uma pressão.
Uma presença.
A sensação de que alguma coisa estava esperando.
Elias estendeu a mão, mas parou antes de tocar a superfície.
A parede já não parecia uma parede.
Aquela linha negra havia crescido até formar um retângulo perfeito. As pedras ao redor permaneciam intactas, mas dentro daquele contorno não havia mais pedra. Havia uma superfície escura, lisa e profunda, como se ele estivesse olhando para um pedaço de noite solidificada.
Então veio outra batida.
Toc.
Elias recuou.
A voz voltou.
— Você abriu a primeira porta.
Ele engoliu em seco.
— Quem é você?
Silêncio.
— O que você quer?
Nada.
— Você conhece meu nome.
A superfície negra pareceu estremecer.
— Conheço.
Elias sentiu um frio percorrer a nuca.
— Como?
A resposta demorou.
— Porque você já esteve aqui.
Elias ficou imóvel.
— Nunca estive.
— Esteve.
— Eu nunca vi este lugar.
— Não estou falando deste lugar.
A voz parecia vir de todos os lados.
— Estou falando de antes.
Elias sentiu a cabeça latejar.
— Antes de quê?
A porta permaneceu silenciosa.
Então a voz respondeu:
— Antes de você nascer.
Elias deu um passo para trás.
A razão tentou imediatamente encontrar uma explicação. Magia de memória. Ilusão. Manipulação espiritual. Algum tipo de projeção. Talvez Arteph estivesse tentando confundi-lo. Talvez um dos outros Hunens estivesse interferindo. Talvez aquela coisa fosse apenas uma manifestação criada por sua própria mente.
Mas havia um problema.
A pedra negra ainda estava sobre a mesa.
O pergaminho ainda estava no chão.
E aquela porta estava ali.
Física.
Real.
Ele podia tocá-la.
Elias aproximou-se novamente.
— Se você sabe quem eu sou, então sabe por que estou aqui.
A voz respondeu:
— Você está aqui por ela.
Elias fechou os olhos.
— Sim.
— Mentira.
Ele abriu os olhos.
— O quê?
— Você começou por ela.
A voz ficou mais próxima.
— Mas já não está aqui por ela.
Elias não respondeu.
Porque sabia que havia verdade naquela afirmação.
E essa verdade o incomodava.
No início, tudo havia sido simples.
Ele queria sua amada de volta.
Queria ouvir sua voz novamente.
Queria apenas uma conversa.
Um último momento.
Uma oportunidade de dizer o que não conseguira dizer.
Mas depois vieram as perguntas.
Por que ela precisava morrer?
Por que os mortos não podiam voltar?
Por que Arteph possuía autoridade sobre os mortos?
Por que os Hunens escondiam tantas coisas?
Por que existiam portas que ninguém podia atravessar?
Por que uma ordem supostamente perfeita precisava de proibições?
E, em algum momento, sem perceber, Elias havia deixado de procurar apenas uma pessoa.
Agora procurava a verdade.
E talvez fosse exatamente isso que aquela coisa queria.
— O que existe atrás da porta? — perguntou.
A voz respondeu:
— Depende de qual porta.
Elias olhou para a abertura.
— Desta.
— Essa não é uma porta.
Ele franziu a testa.
— Então o que é?
— Uma ferida.
O silêncio voltou.
Elias sentiu um arrepio.
— Uma ferida em quê?
— No mundo.
A superfície escura pulsou.
Dessa vez Elias viu algo.
Por um instante, apenas um instante, a escuridão desapareceu.
Do outro lado havia um lugar.
Um céu vermelho.
Montanhas negras.
Árvores retorcidas.
E centenas de figuras imóveis.
Mortos.
Centenas.
Talvez milhares.
Todos olhando para ele.
A visão desapareceu.
Elias recuou.
Seu peito subia e descia rapidamente.
— O mundo dos mortos...
— Não.
A voz parecia quase divertida.
— Você ainda acredita que tudo termina lá.
Elias permaneceu em silêncio.
A porta começou a abrir.
Não muito.
Apenas uma fresta.
Mas aquela fresta foi suficiente.
Um cheiro entrou na casa.
Não era cheiro de cadáver.
Não era podridão.
Era algo mais antigo.
Terra molhada.
Cinzas.
Ferro.
E uma coisa que Elias não conseguia identificar.
Então ele ouviu um som.
Um sussurro.
Depois outro.
Depois dezenas.
As vozes vinham de dentro da abertura.
Algumas choravam.
Outras riam.
Outras pronunciavam palavras que ele não compreendia.
Até que uma delas se tornou clara.
— Elias.
Ele congelou.
A voz era dela.
Dessa vez não havia dúvida.
Era exatamente a voz de sua amada.
— Elias...
Ele avançou.
A razão desapareceu.
Por um instante, tudo o que existia era aquela voz.
— Estou aqui.
Ele estendeu a mão.
A voz respondeu:
— Não venha.
Elias parou.
— Você disse...
— Não venha.
A voz estava desesperada.
— Elias, não abra.
Ele sentiu as pernas enfraquecerem.
— É você?
Silêncio.
— É você?
A voz chorou.
— Não sei.
Elias sentiu algo dentro dele quebrar.
— Como assim não sabe?
— Eu me lembro de você.
A voz tremia.
— Mas não me lembro de ser eu.
Elias ficou imóvel.
A porta abriu mais um pouco.
Do outro lado, uma figura apareceu.
Era humana.
Ou parecia humana.
Estava distante.
Muito distante.
Mas Elias reconheceu imediatamente os cabelos, a postura, a maneira de permanecer ligeiramente inclinada quando estava cansada.
Era ela.
Ou alguma coisa usando a memória dela.
— Venha — disse a figura.
Elias não se moveu.
— Não — respondeu.
A figura ficou imóvel.
— Você me procurou.
— Sim.
— Então venha.
Elias respirou profundamente.
— Se você é realmente ela, sabe o que eu prometi.
A figura não respondeu.
— Você me pediu para viver.
Silêncio.
— E eu prometi.
A figura começou a se aproximar.
— Você mentiu.
Elias fechou os olhos.
A voz dela tornou-se mais agressiva.
— Você não viveu.
— Eu sobrevivi.
— Não.
A figura já estava mais próxima.
— Você morreu comigo.
Elias abriu os olhos.
— Talvez.
A criatura sorriu.
— Então venha.
Elias olhou para ela.
Depois olhou para a porta.
E finalmente compreendeu.
A porta não estava oferecendo uma escolha.
Estava tentando fabricar uma.
Ele pegou o pergaminho do chão.
Leu novamente a frase.
Quando o homem aprender a negar a morte, a morte aprenderá a temer o homem.
Então lembrou das palavras de Arteph.
"Você não precisa vencê-la. Precisa compreendê-la."
Elias apertou o pergaminho.
— Você não é ela.
A criatura parou.
— Você não sabe disso.
— Sei.
— Como?
Elias olhou diretamente para os olhos dela.
— Porque ela nunca pediria que eu abandonasse a promessa que fiz.
A expressão da criatura mudou.
Por um instante, o rosto dela pareceu derreter.
Os olhos ficaram negros.
A boca se abriu muito além do possível.
E um grito atravessou a casa.
As janelas explodiram.
Os livros voaram das estantes.
Elias foi arremessado contra a parede.
A porta se abriu completamente.
E então ele viu.
Não havia um mundo atrás dela.
Havia muitos.
Camadas sobrepostas de realidade.
Florestas.
Desertos.
Oceanos.
Cidades mortas.
Campos de batalha.
Montanhas.
Céus.
E, em cada um deles, havia mortos.
Não centenas.
Milhões.
Todos presos em algum lugar entre o fim e aquilo que deveria vir depois.
E no centro daquela visão havia algo colossal.
Uma forma que não possuía corpo definido.
Parecia uma sombra gigantesca atravessando os mundos.
Elias não conseguiu enxergar seu rosto.
Porque ela não tinha rosto.
Tinha olhos.
Milhares.
Talvez milhões.
Todos se abriram ao mesmo tempo.
Todos olharam para Elias.
E uma única frase foi pronunciada.
Não por uma boca.
Pelo próprio espaço.
— Finalmente.
Elias sentiu seu corpo inteiro paralisar.
Então uma força gigantesca atravessou a porta.
Ele caiu de joelhos.
A criatura dentro da passagem desapareceu.
A visão desapareceu.
A porta começou a fechar.
Elias reuniu as forças que ainda possuía e gritou:
— ESPERE!
A porta parou.
Por um segundo.
Elias respirou.
— O que você é?
A resposta veio:
— Aquilo que os Doze esqueceram.
A porta fechou.
A parede voltou ao normal.
A casa ficou silenciosa.
Elias permaneceu ajoelhado.
Por vários minutos não se moveu.
Então percebeu algo.
No chão, ao lado de sua mão, havia uma pequena marca.
Um símbolo.
Um círculo cortado por uma linha vertical.
Ele não conhecia aquele símbolo.
Mas já o havia visto antes.
No manuscrito mais antigo.
No texto sobre a Primeira Ordem.
Elias levantou-se.
Foi até a mesa.
Pegou todos os livros relacionados aos Hunens.
Começou a procurar.
Horas se passaram.
Até que encontrou.
Uma gravura.
A mesma marca.
Abaixo dela havia uma inscrição.
Elias traduziu lentamente.
AQUELE QUE EXISTIA ANTES DOS DOZE.
Ele parou.
Depois leu a linha seguinte.
AQUELE QUE NÃO DEVE SER NOMEADO.
Elias fechou o livro.
Seu rosto estava pálido.
Agora compreendia por que os Hunens haviam escondido aquilo.
Não porque fossem necessariamente seus criadores.
Mas porque, talvez, eles próprios tivessem medo.
---
No mundo dos mortos, Arteph caiu de joelhos.
Cerberus rugiu.
A terra começou a tremer.
Ao longe, rios inteiros mudaram de direção.
As almas que vagavam pelas planícies pararam.
Todas olharam para o mesmo ponto.
Arteph levantou-se lentamente.
— Não.
Cerberus mostrou os dentes.
— Ainda não.
O chão se abriu atrás deles.
Uma rachadura percorreu a paisagem.
Arteph caminhou até ela.
Olhou para dentro.
Não havia fogo.
Não havia escuridão.
Havia vazio.
Um vazio tão profundo que parecia negar até mesmo a existência da morte.
Arteph fechou os olhos.
— Ele acordou.
Cerberus soltou um rugido que atravessou todo o reino.
E, pela primeira vez em milhares de anos, os mortos começaram a fugir.
Não da morte.
Daquilo que existia além dela.
---
Os Doze sentiram simultaneamente.
Lenoria estava em seu reino quando seu grifo começou a se agitar.
O animal abriu as asas e soltou um grito que ecoou pelas montanhas.
— O que foi? — perguntou Lenoria.
O grifo olhava para o céu.
Uma pequena rachadura surgiu entre as nuvens.
Lenoria ficou imóvel.
— Não...
No deserto, Aldora abriu os olhos.
O dragão que dormia atrás dela levantou a cabeça.
As areias começaram a se mover em círculos.
Aldora sussurrou:
— Isso não pode estar acontecendo.
Nos mares, Kallon viu o grande oceano recuar.
Por alguns segundos, o fundo do mar ficou exposto.
Então uma onda colossal voltou.
Mas não veio acompanhada de água.
Veio acompanhada de sombras.
Baltamus observou seu gigantesco golem parar.
A criatura havia recebido uma ordem simples:
proteger seu criador.
Agora estava olhando para o horizonte.
Baltamus perguntou:
— O que você está vendo?
O golem não respondeu.
Porque não possuía palavras.
Mas Baltamus compreendeu.
Alguma coisa estava vindo.
Nos céus, Rhaegor sentiu todas as tempestades do mundo desaparecerem ao mesmo tempo.
Foi pior do que uma tempestade.
Era silêncio.
Um silêncio impossível.
Damaris sentiu montanhas estremecerem.
Elyndra viu uma floresta inteira perder as folhas em segundos.
Morvahn olhou para seu relógio.
O ponteiro havia parado.
Pela primeira vez.
Sefrion permaneceu diante da janela.
O rosto dele estava imóvel.
Mas seus olhos estavam fixos em algum lugar distante.
Algo havia mudado.
Algo antigo.
Algo que nenhum dos Doze queria nomear.
Kassandra foi a primeira a perguntar:
— Arteph sabe?
Ninguém respondeu.
Então uma voz surgiu no centro do salão.
A voz de Arteph.
— Agora sei.
Todos se voltaram.
Arteph apareceu.
Estava diferente.
Mais pálido.
Mais cansado.
Lenoria avançou.
— O que aconteceu?
Arteph olhou para os Doze.
— Elias abriu uma porta.
Valeth perguntou:
— Para o mundo dos mortos?
Arteph respondeu:
— Não.
Silêncio.
— Para algo abaixo dele.
Morvahn apertou o relógio.
— A Primeira Ordem.
Arteph assentiu.
Damaris deu um passo à frente.
— Isso é impossível.
— Não.
Arteph olhou para ele.
— Impossível era apenas o nome que demos ao que não queríamos lembrar.
Sefrion finalmente falou:
— O que Elias viu?
Arteph permaneceu em silêncio.
Então respondeu:
— Ele viu os olhos.
Todos entenderam.
Ninguém perguntou quais olhos.
Porque todos sabiam.
Os olhos que haviam sido apagados das histórias.
Os olhos que pertenciam àquilo que existia antes dos Hunens.
Àquilo que não governava vida, morte, magia, tempo, terra, céu ou qualquer outro domínio.
Porque não precisava governá-los.
Era anterior aos domínios.
Anterior às fronteiras.
Anterior à própria divisão que havia criado os Doze.
Lenoria perguntou:
— E Elias?
Arteph olhou para o chão.
— Ele sobreviveu.
— Então mate-o.
Arteph levantou os olhos.
— Não podemos.
— Por quê?
Arteph respondeu:
— Porque agora ele é uma testemunha.
Morvahn corrigiu:
— Não.
Todos olharam para ele.
Morvahn segurava o relógio parado.
— Ele não é uma testemunha.
Arteph ficou em silêncio.
Morvahn terminou:
— Ele é uma chave.
---
Elias passou os três dias seguintes sem sair de casa.
Não estudava.
Não comia direito.
Não dormia.
Ficava sentado diante dos livros, tentando reconstruir o que havia acontecido.
Uma pergunta retornava continuamente.
Por que ele?
Não era um Hunen.
Não era guerreiro.
Não era rei.
Não era alguém escolhido por profecia.
Era apenas Elias.
Um homem que perdera alguém.
Um homem que não aceitou a morte.
Um homem que começou a fazer perguntas.
Talvez esse fosse o motivo.
Não havia sido escolhido porque era especial.
Havia sido escolhido porque perguntou.
A ideia o perturbou.
Na quarta manhã, ele abriu o livro novamente.
Na última página, onde antes havia escrito:
PROJETO: TRANSPOR A FRONTEIRA ENTRE VIDA E MORTE
havia uma frase nova.
Ele não escreveu.
PROJETO ALTERADO.
Abaixo:
COMPREENDER A ORIGEM DA MORTE.
E, depois:
LOCALIZAR A PRIMEIRA PORTA.
Elias passou os dedos sobre a tinta.
Dessa vez não sentiu medo.
Sentiu algo diferente.
Determinação.
Ele fechou o livro.
Pegou sua capa.
Colocou os manuscritos dentro de uma bolsa.
Antes de sair, olhou para a casa.
Para os livros.
Para a cadeira onde ela costumava sentar.
Para a pequena janela por onde entrava a luz da manhã.
Durante alguns segundos, ficou parado.
Então falou sozinho:
— Eu vou descobrir.
Não disse o nome dela.
Não precisava.
Ele sabia por quem havia começado.
Mas agora sabia também por que continuaria.
Não queria simplesmente trazê-la de volta.
Queria descobrir o que era a morte.
Queria descobrir quem havia estabelecido seus limites.
Queria descobrir por que os Doze guardavam aquelas portas.
E, acima de tudo, queria descobrir o que existia antes deles.
Elias abriu a porta da casa.
Saiu.
Caminhou pela estrada.
Atrás dele, os livros permaneceram em silêncio.
Mas dentro de um deles, em uma página que Elias ainda não havia encontrado, havia uma inscrição.
Uma inscrição escrita milhares de anos antes de seu nascimento.
“Quando ele começar a procurar, não tentem detê-lo.”
E abaixo:
“Deixem-no chegar até nós.”
Naquele mesmo instante, muito longe dali, em uma região esquecida do mundo, alguma coisa abriu os olhos.
Não eram olhos humanos.
Não eram olhos de dragão.
Não eram olhos de demônio.
Eram olhos antigos.
E uma voz, quase inaudível, atravessou a escuridão:
— Elias começou.
Outra voz respondeu:
— Então os Doze cairão.
E uma terceira voz perguntou:
— E o homem?
Houve silêncio.
Então veio a resposta:
— O homem ainda não sabe o que é.
A escuridão se fechou.
E a guerra começou.
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