terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad'Heim: Os Doze Guardiões

 

Durante séculos, os reis de Ad’Heim acreditaram que seus exércitos eram a última linha de defesa de seus reinos.


Estavam errados.


Espadas, muralhas, catapultas, magos e milhares de soldados podiam proteger uma cidade.


Mas havia coisas contra as quais um exército inteiro não seria suficiente.


Para essas coisas existiam os Guardiões.


Doze homens.


Doze armaduras.


Doze torres.


Doze mantos.


E, acima de tudo, doze criaturas.


Os Guardiões não eram reis.


Não eram generais.


Não obedeciam aos governantes.


Sua lealdade pertencia ao reino.


Cada um havia sido escolhido para proteger uma das terras ligadas aos antigos Hunens.


Suas armaduras eram feitas de um metal dourado cuja origem ninguém conhecia. Não eram simplesmente armaduras de guerra. Eram relíquias.


Diziam que o ouro não refletia a luz.


Refletia aquilo que existia dentro daquele que o vestia.


Por isso nenhum Guardião podia ser escolhido apenas por sua força.


Era necessário possuir algo que correspondia ao próprio espírito do reino.


Cada Guardião também carregava um manto cuja cor representava seu domínio.


E cada um possuía uma torre.


Torres isoladas, construídas em locais onde ninguém além dos Guardiões tinha permissão para entrar.


Ali permaneciam.


Dormindo.


Observando.


Esperando.


Porque um Guardião não precisava aparecer todos os dias.


Na verdade, a maioria dos habitantes jamais havia visto o próprio Guardião.


Eles eram lendas vivas.


Histórias contadas às crianças.


Sombras vistas no alto das montanhas.


Uma silhueta dourada observada durante uma tempestade.


Um homem que aparecia quando tudo já parecia perdido.


E, entre todos eles, existia um que havia se tornado quase uma superstição em Lenória.


Seu nome era Ranur.


Ranur, o Guardião de Lenória


No centro de Lenória existia uma torre.


Era impossível dizer quando havia sido construída.


Nenhum rei possuía registros sobre sua fundação.


Nenhum arquiteto reivindicava sua construção.


E nenhum exército jamais havia conseguido entrar nela.


A torre era alta, estreita e completamente dourada.


Não dourada como ouro.


Dourada como se o próprio sol tivesse sido transformado em pedra.


No topo havia uma única janela.


E atrás dela vivia Ranur.


O Guardião de Lenória.


Diziam que Ranur podia passar anos sem deixar sua torre.


Alguns afirmavam que ele dormia.


Outros diziam que meditava.


Havia ainda aqueles que juravam que ele simplesmente observava o reino através da janela, esperando.


Esperando pelo momento em que Lenória realmente precisasse dele.


Porque havia uma regra antiga:


Ranur só descia da torre quando a coisa fede em Lenória.


Era uma expressão popular.


Os soldados riam dela.


Os nobres fingiam desprezo.


Mas todos conheciam seu significado.


Enquanto Ranur permanecesse na torre, o problema ainda podia ser resolvido pelos homens.


Quando Ranur descia...


significava que o problema havia deixado de ser humano.


Naquela noite, porém, algo estava diferente.


Ranur abriu os olhos.


Sentou-se lentamente.


Durante anos, não havia escutado nada além dos ventos batendo contra as paredes da torre.


Naquela noite, ouviu um som.


Um grito.


Não vinha de uma pessoa.


Vinha de muito longe.


Ranur caminhou até a janela.


Lá embaixo, Lenória permanecia iluminada pelas tochas.


As ruas estavam tranquilas.


As muralhas estavam intactas.


Os soldados patrulhavam.


Os sinos não tocavam.


Nenhum rei havia enviado mensageiros.


Nenhuma bandeira inimiga aparecia no horizonte.


Mas Ranur sabia.


Alguma coisa havia mudado.


Ele colocou a mão sobre a armadura dourada.


As placas começaram a emitir uma luz fraca.


O Guardião respirou profundamente.


— Então chegou a hora.


Ranur desceu.


Pela primeira vez em muitos anos, a porta da torre se abriu.


E quando os habitantes de Lenória viram o homem caminhando pelas ruas com sua armadura dourada e seu enorme manto dourado arrastando-se atrás dele, ninguém precisou perguntar o que estava acontecendo.


Os sinos começaram a tocar.


Não para anunciar uma invasão.


Mas para anunciar que o Guardião havia despertado.


Ranur caminhou até o centro da praça.


Ergueu a mão.


O ar mudou.


O céu escureceu.


Uma sombra gigantesca atravessou as nuvens.


Então veio o rugido.


Um rugido tão poderoso que os cavalos fugiram, as janelas tremeram e centenas de soldados caíram de joelhos.


As nuvens se abriram.


E o Grifo de Lenória desceu.


Era colossal.


Suas asas cobriam o céu.


As garras eram maiores que espadas.


Seu corpo possuía a força de uma fera e a majestade de uma criatura celestial.


Ranur não precisava montá-lo.


Não precisava controlá-lo.


O Grifo reconhecia o Guardião.


Reconhecia Lenória.


Reconhecia o chamado.


E, naquele momento, todos entenderam por que os antigos diziam que os Guardiões não lutavam sozinhos.


Cada um possuía uma criatura.


Cada criatura era uma manifestação do domínio do Hunen.


Cada Guardião era a ponte entre o reino e aquela força.


E Ranur era apenas o primeiro.


Porque existiam outros onze.


Os Doze


Em Aldora, muito além das dunas, existia uma torre enterrada parcialmente na areia.


Ali vivia Aldren, o Guardião do Deserto.


Seu manto era vermelho-escuro, como o céu durante o pôr do sol sobre as dunas.


Quando Aldren despertava, o deserto se movia.


E das areias surgia o Dragão de Aldora.


Uma criatura gigantesca, coberta por escamas que pareciam ter sido moldadas pela própria areia.


Em Sefrion estava Seyron, o Guardião da Magia.


Sua torre era construída no interior de uma montanha e não possuía portas.


Seu manto era violeta.


Diziam que Seyron não precisava de armas.


Bastava-lhe pronunciar uma palavra.


Quando invocava seu poder, uma Fênix surgia envolta em fogo, e as próprias runas da torre começavam a brilhar.


Em Kallon vivia Kael, o Guardião do Mar.


Sua torre ficava sobre um penhasco cercado pelo oceano.


Seu manto era azul profundo.


Durante tempestades, podia permanecer imóvel diante das ondas enquanto navios inteiros desapareciam no horizonte.


Quando o reino era ameaçado, Kael chamava pelo mar.


E das profundezas surgia a Serpente Marinha de Kallon.


Em Baltamus estava Balther, o Guardião da Criação.


Sua torre era diferente das demais.


Não parecia uma fortaleza.


Parecia uma máquina.


Engrenagens antigas giravam em seu interior sem que ninguém soubesse quem as movia.


Balther vestia um manto branco.


Diziam que conseguia compreender qualquer mecanismo depois de observá-lo uma única vez.


Quando invocava seu poder, o chão estremecia.


E o Golem de Baltamus despertava.


Uma montanha de pedra e metal.


Uma criatura criada para fazer aquilo que nenhuma máquina humana conseguiria fazer.


Em Valeth existia Valerian, o Guardião da Coragem.


Sua torre ficava no alto de uma montanha.


Seu manto era verde.


Ele era conhecido por nunca recuar.


Nem diante de monstros.


Nem diante de exércitos.


Nem diante da morte.


Quando Valerian invocava seu poder, os céus se abriam.


E o Pégaso de Valeth descia.


Em Khsandra vivia Kassian, o Guardião da Floresta.


Sua torre estava escondida entre árvores tão antigas que nenhum lenhador ousava aproximar-se.


Seu manto era verde-escuro.


Diziam que ele conseguia ouvir as árvores.


Quando Kassian chamava seu companheiro, as raízes começavam a se mover.


E a Árvore Ancestral de Kassandra despertava.


Não era simplesmente uma árvore.


Era uma criatura.


Uma entidade gigantesca, cujas raízes podiam atravessar quilômetros de floresta.


Em Gallen estava Rhaegon, o Guardião dos Céus.


Sua torre era construída no ponto mais alto das montanhas.


Seu manto era branco.


Ele passava grande parte do tempo observando as nuvens.


Mas quando a ameaça chegava, Rhaegon erguia sua espada.


O vento respondia.


Os trovões começavam.


E o Roc de Rhaegor surgia acima das nuvens.


Em Irdos vivia Damarion, o Guardião da Terra.


Sua torre estava parcialmente enterrada numa montanha.


Seu manto era marrom.


Damarion raramente falava.


Não precisava.


Quando colocava a mão sobre o chão, as pedras respondiam.


E quando invocava seu companheiro, surgia o Titã de Pedra de Damaris.


Uma criatura tão grande que parecia uma montanha caminhando.


Em Setra estava Elyon, o Guardião da Vida.


Sua torre ficava no centro de um vale onde nenhuma planta morria.


Seu manto era branco com detalhes verdes.


Elyon era conhecido por ser capaz de curar ferimentos que nenhum médico conseguia tratar.


Mas seu verdadeiro poder aparecia quando invocava o Cervo Branco de Elyndra.


A criatura não precisava atacar.


Sua simples presença fazia a vida florescer ao redor.


Em Thimos vivia Morvian, o Guardião do Tempo.


Sua torre era a única que não parecia envelhecer.


Enquanto cidades desapareciam, reis morriam e impérios surgiam, a torre permanecia exatamente igual.


Seu manto era cinza.


Morvian raramente aparecia.


Talvez porque soubesse que, para ele, um século não significava mais do que um instante.


Quando finalmente invocava seu companheiro, surgia o Dragão Cronarca de Morvahn.


Uma criatura que parecia existir simultaneamente em diferentes momentos.


E, finalmente...


Arteph.


A terra dos mortos.


Ali estava o último dos Guardiões.


Seu nome era Artheon.


Ninguém sabia há quanto tempo ele estava vivo.


Ou se ainda estava vivo.


Sua torre era negra.


Seu manto era igualmente negro.


E, ao contrário dos demais Guardiões, ninguém jamais o vira caminhar entre os homens.


Havia apenas histórias.


Diziam que sua torre não possuía portas.


Diziam que sua armadura dourada estava coberta por marcas antigas.


Diziam que Artheon permanecia diante de uma passagem que ninguém deveria atravessar.


E que, quando finalmente chamasse seu companheiro...


Cerberus surgiria.


Não para defender os vivos.


Mas para impedir que os mortos retornassem.


A Ordem dos Guardiões


Os doze nunca se reuniam.


Essa era uma das leis mais antigas de Ad’Heim.


Cada Guardião deveria permanecer em seu próprio reino.


Porque enquanto um Guardião protegesse sua terra, os demais poderiam permanecer adormecidos.


Era assim que funcionava.


Uma torre.


Um homem.


Uma armadura.


Um manto.


Uma criatura.


Um reino.


E um Hunen.


Os reis governavam os homens.


Os exércitos defendiam as fronteiras.


Os magos protegiam os conhecimentos.


Mas os Guardiões protegiam aquilo que existia antes dos próprios reis.


A essência do reino.


Durante séculos, isso foi suficiente.


Até aquela noite.


Na torre dourada de Lenória, Ranur observava o horizonte.


O Grifo estava atrás dele.


As asas abertas.


Os olhos fixos na escuridão.


Ranur apertou o punho.


— Algo está errado.


O Grifo soltou um rugido baixo.


Ranur olhou para o céu.


Havia duas luas.


Dois sóis ainda estavam abaixo do horizonte.


Mas, entre as estrelas, uma delas havia desaparecido.


E então Ranur percebeu.


Aquilo não era uma invasão.


Não era um exército.


Não era um monstro.


Era algo muito pior.


Era um chamado.


E, em algum lugar de Ad’Heim...


outras onze torres acabavam de despertar.

Ad'Heim: Os Doze Nomes

 

Os mapas de Ad’Heim estavam errados.

Não porque suas montanhas fossem falsas, nem porque seus mares estivessem nos lugares errados. Os reis conheciam suas fronteiras, os navegadores conheciam suas costas e os cartógrafos conheciam os caminhos que ligavam um reino ao outro.


O erro estava em algo muito mais antigo.


Os homens acreditavam que haviam sido eles que deram nome às terras.


Não haviam.


Muito antes de existirem reis, impérios, fronteiras ou mapas, existiam os Doze.


Os Hunens.


Cada um representava uma dimensão da própria ordem do mundo. Lenoria era a Guerra. Aldora, o Deserto e a Disciplina. Sefrion, a Magia. Kallon, o Mar. Baltamus, a Inteligência e a Criação. Valeth, a Coragem. Kassandra, a Floresta e o Crescimento. Rhaegor, os Céus. Damaris, a Terra. Elyndra, a Vida. Morvahn, o Tempo. E Arteph, a Morte.


Os homens deram nomes diferentes a essas forças ao longo das eras. Alguns nomes foram preservados quase intactos. Outros foram deformados pela passagem dos séculos, pela mudança das línguas e pela ignorância daqueles que vieram depois.


Mas os nomes dos reinos permaneceram.


Eram ecos.


Na língua mais antiga de Ad’Heim existia uma crença segundo a qual aquilo que é verdadeiramente conhecido recebe um nome; aquilo que recebe um nome pode ser lembrado; e aquilo que é lembrado jamais desaparece completamente.


Por isso os nomes dos Hunens não eram simplesmente nomes próprios.


Eram palavras-raiz.


Uma palavra-raiz não descreve apenas alguma coisa. Ela carrega parte de sua essência.


Quando os primeiros povos começaram a estabelecer cidades e reinos, procuraram palavras capazes de representar aquilo que encontravam. Uma terra marcada pela guerra passou a ser chamada de Lenória. Uma civilização erguida entre dunas recebeu o nome de Aldora. Uma região dominada pela magia tornou-se Sefrion. Uma ilha cercada pelo oceano recebeu o nome de Kallon.


E, sem perceber, os homens começaram a reproduzir nos próprios mapas a antiga arquitetura dos Hunens.


Foi assim que os nomes sobreviveram.


Lenória foi o caso mais evidente.


Lenoria era a Hunen da Guerra, a guerreira que atravessava os céus montada em seu grifo. Sua presença estava ligada à batalha, à coragem diante do inimigo e à força necessária para sobreviver quando todas as outras alternativas desapareciam.


Com o passar dos séculos, o nome da Hunen tornou-se o nome da própria terra.


Primeiro existia Lenoria.


Depois, a Terra de Lenoria.


Finalmente, simplesmente Lenória.


E ninguém mais percebia a diferença.


Dizer “vou para Lenória” era, na língua antiga, quase equivalente a dizer “vou para a Terra da Guerra”.


Aldora seguia princípio semelhante.


A Hunen Aldora era associada ao deserto, à disciplina e ao domínio de si mesma. Entre dunas, ruínas e templos esquecidos, ela representava a capacidade de permanecer firme diante de uma paisagem onde tudo parecia destinado a desaparecer.


Seu dragão atravessava as areias como se elas fossem água.


Por isso Aldora tornou-se o nome da região.


A palavra passou de pessoa para território, de território para reino e, finalmente, perdeu seu significado original.


Os homens continuaram dizendo Aldora.


Esqueceram, porém, que antes de ser um reino, Aldora era um nome.


Sefrion é ainda mais curioso.


Sefrion era o Hunen da Magia, o grande conhecedor das artes arcanas, acompanhado por uma Fênix. Sua história foi parcialmente perdida, e justamente por isso os estudiosos jamais conseguiram determinar se o Hunen recebeu o nome da região ou se a região recebeu o nome dele.


Os antigos não teriam considerado essa uma pergunta importante.


Para eles, Sefrion e a magia eram inseparáveis.


Sefrion era a palavra que apontava para aquilo que estava além da compreensão comum. Era a terra onde a magia havia deixado sua marca mais profunda e, ao mesmo tempo, o nome daquele que representava essa força.


Kallon possui uma particularidade.


É uma ilha.


Mas seu Hunen está associado ao Mar.


Isso também não é coincidência.


Kallon era o senhor das águas, e sua criatura era uma serpente marinha colossal. Para os antigos marinheiros, a fronteira entre a ilha e o oceano era quase inexistente. A terra estava cercada pelo domínio do Hunen.


Assim, Kallon tornou-se o nome da ilha, mas também permaneceu ligado ao próprio mar.


Era como se a terra tivesse recebido o nome daquilo que a cercava.


Baltamus representa outra dimensão.


Seu domínio não era simplesmente uma região ou um elemento da natureza. Era a inteligência, a criatividade e a capacidade de transformar aquilo que existe em algo que antes não existia.


Baltamus era aquele que concebia.


Seu companheiro era um Golem, manifestação perfeita daquilo que a mente pode produzir quando transforma matéria em forma.


Por isso, o território que recebeu seu nome tornou-se conhecido por suas invenções, construções e artefatos.


Com o tempo, porém, os homens esqueceram que Baltamus não significava originalmente território.


Significava criação.


Valeth é uma das maiores exceções.


A Hunen Valeth não precisava de um reino específico.


Seu domínio era a Coragem.


Ela era invocada diante do medo, antes das batalhas e diante daquilo que parecia impossível. Seu Pégaso representava a capacidade de avançar mesmo quando todos os instintos ordenavam recuar.


Por isso seu nome passou a ser associado a uma terra.


Mas, nos tempos antigos, dizer que alguém “nasceu em Valeth” podia possuir um significado muito mais profundo.


Poderia significar que aquela pessoa havia nascido sob a virtude da coragem.


O território preservou aquilo que originalmente era uma qualidade espiritual.


Kassandra sofreu uma transformação ainda mais evidente.


Com o passar dos séculos, Kassandra tornou-se Khsandra.


As línguas mudaram. Sons foram perdidos. Vogais desapareceram. Pronúncias foram alteradas.


Mas a raiz permaneceu.


Kassandra era a Hunen da Floresta, do crescimento e dos ciclos naturais. Sua presença estava ligada às árvores, aos animais, às raízes e àquilo que cresce sem depender da vontade dos homens.


Khsandra tornou-se, portanto, a terra daquilo que cresce.


Os habitantes esqueceram a origem do nome, mas continuaram pronunciando uma palavra que carregava, sem que soubessem, a memória da antiga Hunen.


Gallen possui uma história diferente.


Seu nome não corresponde diretamente ao nome de Rhaegor, mas nasceu de sua influência.


Rhaegor era o Hunen dos Céus, dos ventos e das tempestades. Seu Roc atravessava as nuvens e enfrentava os raios como se o próprio céu fosse seu domínio.


A região que posteriormente ficou conhecida como Gallen era considerada a Terra Sob o Céu.


O nome Rhaegor desapareceu do uso cotidiano, mas sua influência permaneceu.


Assim, Gallen tornou-se o nome da terra.


Rhaegor permaneceu como o nome daquele que, segundo os antigos, governava aquilo que nenhuma fronteira poderia conter.


Irdos está ligado a Damaris.


Damaris era o Hunen da Terra, das montanhas, das pedras e das profundezas. Seu Titã de Pedra era tão gigantesco que as antigas histórias diziam que seus passos poderiam alterar a própria geografia.


A terra firme, as montanhas e os abismos eram considerados manifestações de seu domínio.


Irdos tornou-se conhecida como a Terra que Sustenta.


Os homens passaram a chamar o reino simplesmente de Irdos, mas os antigos possuíam um provérbio:


“Quando Irdos termina, Damaris começa.”


Talvez significasse que as montanhas eram apenas a manifestação física do Hunen.


Talvez fosse apenas poesia.


Mas os antigos raramente diziam algo sem motivo.


Setra recebeu o nome ligado ao domínio de Elyndra.


Elyndra era a Hunen da Vida.


Onde sua influência alcançava, sementes brotavam, plantas floresciam e animais feridos encontravam forças para sobreviver.


Seu companheiro era o Cervo Branco ancestral.


Por isso Setra tornou-se símbolo de fertilidade, renovação e continuidade.


Mas a antiga palavra que deu origem ao nome não significava simplesmente “vida”.


Seu sentido era mais profundo.


Aquilo que retorna a crescer.


Porque, em Ad’Heim, vida não significava apenas nascer.


Vida significava retornar.


Thimos talvez seja o mais estranho de todos.


Morvahn era o Hunen do Tempo.


Seu domínio não podia ser limitado por fronteiras, muralhas ou montanhas. Seu reino era o próprio fluxo da existência.


Passado.


Presente.


Futuro.


Memória.


Mudança.


Morvahn observava aquilo que os homens chamavam de tempo como quem observa páginas diferentes do mesmo livro.


Seu companheiro era o Dragão Cronarca.


Então por que existe Thimos?


Porque os homens precisavam transformar aquilo que não podiam possuir em algo que pudessem apontar no mapa.


Thimos tornou-se uma terra associada ao tempo.


Não porque Morvahn precisasse daquele território.


Mas porque os homens precisavam de um lugar para lembrar que o tempo não pertence a ninguém.


Thimos é, portanto, um paradoxo geográfico.


É o reino que pertence àquilo que não pode ser possuído.


E então chegamos a Arteph.


Aqui não houve corrupção linguística.


Não houve tradução.


Não houve tentativa de substituir o nome.


Arteph permaneceu Arteph.


Seu domínio era a Morte.


Seu companheiro era Cerberus, o guardião da passagem.


Arteph não era simplesmente um reino.


Era o lugar onde os vivos terminavam e os mortos começavam.


Por isso os habitantes evitavam dizer simplesmente:


“Vou para Arteph.”


Preferiam:


“Vou ao território de Arteph.”


Existia uma antiga superstição:


“Não confunda o nome da terra com o nome daquele que a possui.”


Porque Arteph não era simplesmente o nome de uma região.


Era o nome daquilo que, um dia, alcançaria todos os reinos.


Assim, quando os antigos mapas são comparados com os registros sobre os Hunens, surge uma correspondência que dificilmente pode ser considerada coincidência.


Lenória preserva o nome de Lenoria, a Guerra.


Aldora preserva o nome de Aldora, o Deserto e a Disciplina.


Sefrion preserva o nome de Sefrion, a Magia.


Kallon preserva o nome de Kallon, o Mar.


Baltamus preserva o nome de Baltamus, a Inteligência e a Criação.


Valeth preserva o nome de Valeth, a Coragem.


Khsandra preserva, deformado pelo tempo, o nome de Kassandra, a Floresta e o Crescimento.


Gallen preserva o território associado a Rhaegor, os Céus.


Irdos preserva o domínio de Damaris, a Terra.


Setra preserva o domínio de Elyndra, a Vida.


Thimos preserva o domínio de Morvahn, o Tempo.


E Arteph preserva o próprio nome de Arteph, a Morte.


Por isso, na linguagem antiga, não havia necessariamente diferença entre dizer “o Reino de Lenória” e “a Terra de Lenoria”.


O mesmo acontecia com os demais.


Os reinos podiam ser chamados pelo nome de seus Hunens porque os nomes não eram considerados simples nomes próprios.


Eram nomes de essência.


O território era a manifestação física.


O Hunen era a manifestação espiritual.


O nome era a ponte entre os dois.


Os homens acreditavam que haviam dado nomes às terras.


Na verdade, haviam herdado os nomes.


E, quando herdaram os nomes, herdaram também aquilo que eles significavam.


É por isso que um homem pode atravessar Lenória sem saber que está caminhando pela terra da Guerra.


Pode viver em Setra sem saber que sua própria casa carrega a memória da Vida.


Pode atravessar Khsandra sem compreender que sua língua ainda pronuncia, deformado pelo tempo, o nome de Kassandra.


Pode navegar por Kallon sem imaginar que a ilha recebeu o nome daquele que governa as águas.


Pode caminhar pelas montanhas de Irdos sem saber que os antigos viam nelas a própria manifestação de Damaris.


E pode entrar em Arteph sem compreender que está pronunciando o nome da Morte.


Esse é o verdadeiro segredo dos mapas de Ad’Heim.


Eles não registram apenas lugares.


Registram memórias.


Cada reino é uma palavra.


Cada palavra é um vestígio.


Cada vestígio aponta para um Hunen.


E os Hunens não são apenas os nomes por trás dos reinos.


São aquilo que os reinos representam.


Por isso existe uma antiga inscrição, encontrada em uma pedra cuja origem ninguém conseguiu determinar:


“Doze eram os nomes.


Doze eram os domínios.


Doze eram aqueles que guardavam a ordem.


Os homens deram nomes às terras.


Os Hunens deram significado aos nomes.


E quando os homens esquecerem os Hunens, os nomes permanecerão.


Quando esquecerem os nomes, as terras recordarão.


E quando as terras esquecerem...


eles despertarão.”


Ninguém sabe quem escreveu aquelas palavras.


Mas existe algo ainda mais estranho.


A inscrição possui doze linhas.


A última está quebrada.


Alguns estudiosos acreditam que havia originalmente uma décima terceira palavra.


Uma palavra que não correspondia a nenhum reino.


Uma palavra que não correspondia a nenhum Hunen.


Uma palavra que os antigos deliberadamente apagaram.


E talvez seja justamente por isso que, séculos depois, quando os mortos começaram a sussurrar novamente e portas antigas começaram a aparecer onde antes não existia nada, os sábios perceberam a verdade que seus antepassados haviam tentado esconder:


Os Hunens nunca foram apenas parte da história.


Eles eram parte da própria estrutura de Ad’Heim.


E se os nomes das terras eram realmente seus ecos...


então o despertar de um Hunen não significaria apenas o retorno de uma criatura.


Significaria que a própria terra começaria a se lembrar.

Ad:heim: O Reino de Gelo


Os anos seguintes transformaram Elias em outra coisa. Não aconteceu de uma vez, e talvez essa tenha sido a parte mais perigosa de sua transformação. Não houve um momento específico em que ele acordou e deixou de ser homem para se tornar o Necromante. Não houve uma cerimônia, uma coroa, um juramento diante de um altar ou uma explosão de poder que o separasse daqueles que havia sido. A transformação aconteceu lentamente, estudo após estudo, cadáver após cadáver, erro após erro, até que um dia os homens perceberam que aquele homem que havia partido em busca de uma única alma havia se tornado alguém capaz de conversar com milhares de mortos. Depois da Guerra dos Duzentos Anos, o mundo estava exausto. Os reinos precisavam reconstruir muralhas, estradas, campos e cidades. Reis assinavam tratados, soldados abandonavam armaduras, famílias procuravam os desaparecidos e os sacerdotes tentavam devolver alguma aparência de normalidade aos lugares onde durante gerações a normalidade havia deixado de existir. Mas a paz não apagava os mortos. Havia valas comuns em praticamente todos os grandes campos de batalha. Havia aldeias inteiras onde os vivos eram minoria. Havia famílias que guardavam ossos de parentes dentro de caixas porque não tinham conseguido enterrá-los. Havia soldados que retornavam para casa sem reconhecer os próprios filhos. E havia milhares de almas que não encontravam descanso porque a própria estrutura que separava os vivos dos mortos havia sido violentamente perturbada durante dois séculos. Elias estudou tudo isso. No começo, procurava apenas uma maneira de encontrar sua amada. Depois começou a estudar a memória. Descobriu que a memória não era a alma. Estudou o corpo e descobriu que o corpo também não era a pessoa. Estudou os espíritos e descobriu que nem todo espírito era aquilo que os vivos chamavam de alma. Estudou os resíduos deixados pelos mortos e descobriu que uma pessoa podia deixar marcas de sua existência em lugares, objetos e até mesmo em outras pessoas. Começou então a fazer algo que os necromantes anteriores jamais haviam feito com tanta profundidade: separar a morte em partes. Para Elias, a morte deixou de ser um acontecimento e tornou-se uma disciplina. Ele criou categorias. Corpo. Memória. Vontade. Identidade. Espírito. Essência. Vínculo. Cada uma obedecia a regras diferentes. Cada uma desaparecia de maneira diferente. Cada uma podia, em determinadas circunstâncias, ser percebida depois da morte. E quanto mais Elias aprendia, mais percebia que os antigos necromantes haviam entendido quase nada. Eles levantavam cadáveres, invocavam espíritos e acreditavam que isso significava dominar a morte. Elias considerava aquilo rudimentar. Um homem que ordenava a um cadáver que se levantasse não compreendia a morte. Apenas havia descoberto como mover matéria morta. A verdadeira necromancia começava depois disso. Ele aprendeu a ouvir os mortos sem invocá-los. Aprendeu a distinguir uma memória de uma presença. Aprendeu a perceber quando uma alma havia passado completamente para o domínio de Arteph e quando algum fragmento permanecia preso ao mundo dos vivos. Aprendeu a conversar com espíritos que haviam esquecido o próprio nome. Aprendeu a fazer perguntas aos cadáveres e, mais importante, aprendeu quando não deveria acreditar nas respostas. Porque os mortos mentiam. Alguns por medo. Outros por confusão. Alguns porque haviam perdido partes daquilo que eram. E outros porque alguma coisa além deles havia aprendido a usar suas vozes. Foi nesse período que Elias começou a ser chamado de Necromante. Primeiro como insulto. Depois como advertência. Mais tarde como título. Reis proibiam sua entrada em cidades. Magos queimavam seus livros. Sacerdotes diziam que ele havia desafiado Arteph. Alguns diziam que Elias era servo de demônios. Outros acreditavam que ele poderia devolver qualquer morto à vida. Essa última crença era a mais perigosa. Pessoas começaram a procurá-lo. Viúvas. Soldados. Reis. Assassinos. Pais. Crianças. Gente desesperada. Todos queriam a mesma coisa: alguém que havia partido. Elias recusava a maioria. Não porque tivesse se tornado misericordioso, mas porque havia aprendido algo que ninguém mais compreendia. Trazer um morto de volta não era o mesmo que devolver uma pessoa. O cadáver podia levantar. A voz podia voltar. A memória podia responder. Mas isso não significava que aquela pessoa estivesse novamente viva. Certa vez, um rei ofereceu metade de seu tesouro para que Elias ressuscitasse sua filha. Elias aceitou o ouro apenas para provar ao homem por que ele estava errado. Encontrou o cadáver, realizou o ritual e fez os olhos da jovem se abrirem. O rei chorou. Abraçou a filha. Chamou pelo nome dela. Ela respondeu. Durante algumas horas, todos acreditaram que Elias havia realizado um milagre. Então a jovem perguntou quem era o homem diante dela. O rei ficou imóvel. Elias encerrou o ritual. O corpo caiu. O rei tentou atacá-lo. — Você prometeu! — gritou. Elias respondeu apenas: — Não. Você prometeu a si mesmo que qualquer coisa que falasse com a voz dela seria ela. O rei não entendeu. Elias foi embora. Aquela experiência ensinou-lhe outra coisa: a necromancia não era perigosa apenas porque podia quebrar leis mágicas. Era perigosa porque oferecia esperança às pessoas erradas. E esperança, quando colocada nas mãos de alguém desesperado, podia ser mais destrutiva que qualquer maldição. Elias continuou estudando. Sua reputação cresceu. Seus inimigos também. Foi então que Baltamus percebeu sua existência. Baltamus, Hunen da criatividade e da inteligência, observava o mundo de maneira diferente dos outros. Não era um guerreiro como Lenoria. Não governava a morte como Arteph. Não dominava os céus, o mar ou a terra. Seu poder estava no pensamento, na criação e na capacidade de transformar uma ideia em realidade. Seu companheiro era um golem gigantesco, uma criatura construída de pedra antiga e força sobrenatural, capaz de atravessar montanhas como se fossem paredes frágeis. Baltamus não odiava Elias. Isso tornava tudo mais complicado. Ele queria compreendê-lo. Durante anos, observou os registros deixados pelo Necromante. Leu relatos de suas experiências. Estudou os rituais. Percebeu que Elias estava construindo uma ciência própria. Uma ciência proibida, perigosa e incompleta, mas ainda assim uma ciência. — Ele não está tentando levantar os mortos — disse Baltamus certa vez. Seu golem permanecia atrás dele. — Está tentando entender por que eles não voltam. O golem não respondeu. Baltamus continuou: — Isso é muito mais perigoso. Porque um homem que deseja poder pode ser detido pelo poder. Um homem que deseja conhecimento pode atravessar qualquer limite. Baltamus tentou encontrá-lo. Elias desapareceu. Durante meses, ninguém soube onde estava. Então desapareceram dois necromantes. Depois três. Depois sete. Todos haviam tentado seguir as pesquisas de Elias. Nenhum retornou. O mundo começou a criar histórias. Diziam que o Necromante havia construído uma fortaleza subterrânea. Diziam que possuía um exército de cadáveres. Diziam que havia aprendido a conversar com Arteph. Diziam que havia matado um Hunen. Nada disso era verdade. Ainda. Elias havia percebido que quanto mais crescia, mais pessoas seriam atraídas para sua pesquisa. E ele precisava desaparecer. Não por medo dos reis. Nem por medo dos magos. E nem mesmo por medo dos Hunens. Ele precisava de um lugar onde pudesse estudar sem ser interrompido. Um lugar onde os vivos não chegassem facilmente. Um lugar onde os mortos permanecessem preservados pelo próprio ambiente. Foi então que olhou para o norte. O continente Norte era uma terra que poucos homens conheciam profundamente. Ao noroeste ficavam as grandes geleiras, uma extensão colossal de montanhas congeladas, vales cobertos por neve e cavernas que permaneciam seladas durante séculos. Grande parte daquela região estava dentro dos domínios de Baltamus. Era uma terra aparentemente inútil para os homens. Poucas cidades existiam ali. Poucas estradas atravessavam o território. O frio matava rapidamente aqueles que viajavam sem preparação. E justamente por isso Elias escolheu aquele lugar. Partiu sozinho. Levou seus livros, seus instrumentos, algumas poções, pergaminhos, ossos e tudo aquilo que considerava indispensável. Não levou exército. Não levou seguidores. Não levou riquezas. Durante semanas caminhou para o norte. Quanto mais avançava, menos sinais de civilização encontrava. Primeiro desapareceram as plantações. Depois as árvores. Depois os animais. Por fim, até mesmo os sons do mundo pareceram desaparecer. A neve cobria tudo. Montanhas brancas se erguiam como muralhas. O vento cortava a pele. O céu permanecia cinzento durante dias. Elias continuou. Certa noite encontrou uma abertura na geleira. Era estreita, quase invisível. Entrou. Caminhou por horas. A caverna se expandia cada vez mais. No fundo encontrou algo impossível. Uma cidade. Não uma cidade construída recentemente, mas ruínas de uma civilização muito antiga, enterrada dentro do gelo. Havia torres congeladas. Escadarias. Estátuas sem rostos. Salões inteiros preservados como se o tempo tivesse parado. Elias ficou parado durante vários minutos. Depois sorriu pela primeira vez em semanas. Não porque tivesse encontrado um tesouro. Havia encontrado algo muito melhor. Um lugar onde o tempo parecia obedecer a regras diferentes. Ele passou meses explorando as ruínas. Descobriu inscrições. Descobriu câmaras. Descobriu túneis que desciam profundamente. E descobriu algo ainda mais importante: os antigos habitantes daquele lugar conheciam Arteph. Não apenas o conheciam. Temiam-no. Em uma das paredes havia uma representação de um homem diante de uma porta. Atrás dele estavam doze figuras. Uma delas segurava uma criatura de três cabeças. Elias passou a mão sobre a inscrição. — Você esteve aqui. A resposta não veio. Mas Elias sabia que Arteph havia passado por aquele lugar. Talvez milhares de anos antes. Talvez antes mesmo da formação dos reinos modernos. Continuou explorando. Encontrou uma sala circular no centro da cidade. No chão havia um símbolo. O mesmo símbolo que encontrara no laboratório do Vale de Arken. O círculo cortado por uma linha. Elias ajoelhou-se. — O que vocês estavam escondendo? O gelo respondeu com silêncio. Ele passou os dedos sobre o símbolo. Então percebeu que havia algo sob ele. Começou a escavar. Trabalhou durante horas. Encontrou uma porta de pedra. Atrás dela havia uma câmara. No centro havia um trono vazio. Ao redor do trono, centenas de pequenas cavidades. Elias examinou algumas. Ossos. Não humanos. Eram ossos de criaturas desconhecidas. Em uma parede havia uma inscrição: “Aquele que conhecer a morte conhecerá o limite.” Elias continuou lendo. “Aquele que atravessar o limite conhecerá os Doze.” E abaixo: “Aquele que compreender os Doze descobrirá que eles também são prisioneiros.” Elias ficou imóvel. Pela primeira vez, sua visão dos Hunens começou a mudar. Até então, acreditava que os Doze eram os carcereiros. Agora havia uma possibilidade diferente. Talvez fossem guardiões presos ao mesmo sistema que protegiam. Talvez Arteph não fosse o senhor da morte. Talvez ele também estivesse submetido a algo maior. Elias saiu da câmara e decidiu ficar. Ali construiria seu domínio. Não um reino. Não ainda. Uma oficina. Um laboratório. Uma biblioteca. Um lugar onde pudesse continuar sua pesquisa sem interferência. Começou sozinho. Escavou túneis. Construiu salas. Criou círculos mágicos. Utilizou ossos antigos como componentes. Aprendeu a preservar corpos dentro do gelo. Descobriu que a baixa temperatura não apenas retardava a decomposição, mas alterava a maneira como certas energias permaneciam ligadas ao corpo. O frio era perfeito para a necromancia. Cadáveres podiam ser preservados durante décadas. Espíritos podiam ser mantidos próximos. Memórias permaneciam mais nítidas. O gelo tornava-se parte de seus experimentos. Elias começou a construir. Primeiro, uma biblioteca. Depois, uma sala para rituais. Depois, uma cripta. Depois, um laboratório. Depois, uma torre subterrânea que atravessava a geleira de cima a baixo. Anos se passaram. Elias mudou. Seu cabelo cresceu. Seu rosto tornou-se mais magro. Seus olhos adquiriram uma aparência cansada. Ele parou de contar os aniversários. Parou de acompanhar o calendário. O mundo exterior continuou mudando. Novos reis surgiram. Novas cidades foram construídas. Antigos soldados morreram de velhice. Crianças nascidas no final da Guerra dos Duzentos Anos tornaram-se adultas. Para eles, a guerra já era história. Para Elias, ela continuava viva em cada cadáver que estudava. Foi nessa época que criou seu primeiro grande exército. Não eram mortos-vivos comuns. Eram corpos preservados no gelo, reconstruídos com ossos de diferentes guerreiros, reforçados por magia e controlados por uma rede de comandos espirituais. Elias os chamava de Guardiões. Eles não possuíam vontade própria. Não sentiam dor. Não cansavam. Não precisavam comer. Eram perfeitos para proteger sua fortaleza. Depois vieram criaturas maiores. Lobos mortos. Ursos. Gigantes congelados. Dragões antigos cujos ossos haviam sido encontrados sob as montanhas. Elias não queria apenas quantidade. Queria compreender até onde a morte podia ser manipulada. E cada experimento o aproximava de uma descoberta terrível. A necromancia não criava vida. Ela reutilizava aquilo que a vida havia deixado para trás. Mas havia uma exceção. Algumas coisas respondiam. Algumas coisas não deveriam responder. E uma dessas coisas respondeu quando Elias realizou um ritual no coração da geleira. Ele havia encontrado o cadáver de um guerreiro antigo. O corpo estava intacto. Não havia decomposição. Não havia danos. Parecia dormir. Elias iniciou o ritual. O cadáver abriu os olhos. — Quem é você? — perguntou Elias. O morto respondeu: — Eu não estou morto. Elias parou. — Todos estão mortos. — Não. — Onde está sua alma? O cadáver começou a sorrir. — Não sei. Elias encerrou o ritual imediatamente. O corpo caiu. Durante horas ele ficou sentado diante dele. Então compreendeu. Alguns mortos não estavam mortos porque nunca haviam atravessado completamente a fronteira. Alguns permaneciam presos entre estados. E isso significava que havia uma categoria de existência que os próprios Hunens talvez não controlassem completamente. Elias começou a procurar esses casos. E encontrou muitos. Alguns estavam enterrados sob geleiras. Outros em ruínas antigas. Outros em campos de batalha. Outros dentro de criaturas. A pesquisa tomou uma nova direção. Elias começou a procurar aquilo que chamou de “mortos incompletos”. E foi essa pesquisa que finalmente atraiu a atenção direta de Arteph. Certa noite, no coração da fortaleza congelada, todas as tochas se apagaram. Elias estava escrevendo quando ouviu três rosnados. Cerberus apareceu na entrada. Elias levantou-se. — Finalmente. Arteph surgiu atrás da criatura. — Você deveria ter parado. Elias fechou o livro. — Há quanto tempo você está me observando? — Desde antes de você entender o que estava procurando. — Então sabe o que encontrei. — Sei. — E vai me impedir? Arteph olhou ao redor. — Não posso. Elias franziu a testa. — Não pode? — Você já atravessou limites demais para que eu possa simplesmente apagar seus passos. Elias deu um passo à frente. — Então por que veio? Arteph respondeu: — Para avisá-lo. — Sobre o quê? — Sobre aquilo que está começando a olhar de volta. Elias ficou em silêncio. — Você acredita que está estudando a morte — continuou Arteph. — Mas a morte também está estudando você. Elias não recuou. — Ela sabe meu nome? Arteph respondeu: — Há muito tempo. Elias olhou para Cerberus. O animal não rosnava. Apenas observava. — E minha amada? — perguntou Elias. Arteph ficou em silêncio. Elias insistiu: — Ela está no seu domínio? — Sim. — Posso encontrá-la? — Não. — Por quê? Arteph respondeu algo que Elias nunca havia esperado ouvir: — Porque ela não quer que você a encontre. Elias ficou imóvel. — Isso é mentira. — Não. — Ela falou com você? — Não. — Então como sabe? Arteph olhou diretamente para ele. — Porque eu conheço o momento em que uma alma deixa de esperar. Elias sentiu algo quebrar dentro dele. — Ela desistiu de mim? — Não. — Então o quê? Arteph respondeu: — Ela aceitou que você precisa continuar vivendo. Elias fechou os olhos. Durante anos havia imaginado que sua amada estava presa em algum lugar, esperando por ele. Agora, pela primeira vez, existia uma possibilidade diferente. Talvez ela não estivesse esperando. Talvez tivesse seguido adiante. Talvez a pessoa que Elias procurava já não existisse como ele lembrava. Arteph desapareceu. Cerberus foi embora com ele. Elias ficou sozinho na fortaleza. Durante três dias não realizou nenhum experimento. Não escreveu. Não estudou. Apenas permaneceu sentado diante do fogo. No quarto dia levantou-se. Pegou seu grimório. Abriu a primeira página. Ali estava escrito o objetivo original: “Encontrá-la.” Elias ficou olhando durante muito tempo. Depois riscou a frase. Abaixo escreveu: “Compreender.” E, depois de hesitar, acrescentou: “Mesmo que a verdade me destrua.” A partir daquele dia, Elias mudou. A busca deixou de ser exclusivamente pessoal. Ele queria entender a morte, os Hunens, a Primeira Ordem e aquilo que existia além da fronteira. E agora possuía algo que nenhum outro necromante havia possuído: tempo. A fortaleza cresceu. Seus corredores se multiplicaram. Seus laboratórios foram enterrados cada vez mais profundamente no gelo. Seus mortos começaram a formar legiões silenciosas. Magos que tentavam encontrá-lo desapareciam. Exploradores que chegavam às geleiras nunca retornavam. Histórias começaram a circular entre os povos do Norte. Falava-se de uma figura que vivia dentro da montanha. Um homem que não envelhecia como os outros. Um homem que podia levantar os mortos com uma palavra. Um homem que possuía uma cidade inteira sob o gelo. Alguns diziam que ele era um demônio. Outros diziam que era um antigo Hunen. Outros afirmavam que ele havia encontrado a própria morte e a escravizado. Nenhuma dessas histórias era completamente verdadeira. Mas todas continham um fragmento da realidade. Elias havia se tornado o maior necromante de sua época. E no fundo das geleiras do noroeste, dentro do território de Baltamus, começava a nascer algo que um dia seria conhecido apenas como o Domínio do Necromante. Baltamus sabia que Elias estava ali. Sabia há anos. Seu gigantesco golem havia encontrado os primeiros túneis muito antes de Elias terminar sua fortaleza. Mas Baltamus não o expulsou. Não ainda. Porque havia uma pergunta que intrigava o Hunen mais do que a ameaça representada pelo Necromante: por que Elias havia escolhido justamente seu território? Baltamus finalmente decidiu descobrir. Montou sobre o ombro de seu golem e atravessou as montanhas. Quando chegou à geleira, parou diante da entrada oculta. Elias já o esperava. — Você demorou — disse o Necromante. Baltamus desceu do golem. — Você sabia que eu viria? Elias respondeu: — Eu sabia que você sabia que eu estava aqui. Baltamus sorriu. — Então somos dois homens inteligentes desperdiçando tempo com formalidades. Elias abriu a passagem. — Entre. Baltamus olhou para a escuridão. — Você não tem medo de mim? Elias respondeu: — Não vim para cá porque tenho medo de vocês. Vim porque precisava de um lugar onde pudesse estudar. Baltamus observou os símbolos nas paredes. — E encontrou? Elias olhou para os túneis que desapareciam sob o gelo. — Encontrei muito mais do que procurava. Baltamus ficou sério. — Isso é justamente o que me preocupa. Os dois entraram. Atrás deles, o golem fechou a passagem. Muito abaixo da superfície, milhares de mortos aguardavam em silêncio. E, nas profundezas da geleira, uma presença antiga observava os dois homens. Um era um Hunen. O outro era um mortal que havia aprendido a conversar com a morte. Nenhum dos dois sabia ainda que aquela reunião seria o início de uma relação que mudaria o equilíbrio do mundo...

Ad'heim: O Fim dos Duzentos Anos

 

Elias caminhava havia três dias quando percebeu que alguma coisa estava diferente no mundo. No primeiro dia, atribuiu a sensação ao cansaço. No segundo, à falta de sono. No terceiro, já não conseguia ignorá-la. As estradas estavam cheias de homens armados voltando para casa, caravanas interrompidas, famílias carregando aquilo que haviam conseguido salvar e soldados que caminhavam sem saber exatamente para onde. As cidades que antes viviam sob o ruído constante da guerra começavam a experimentar um silêncio estranho, quase desconfortável, como se ninguém soubesse o que fazer com a ausência dos tambores. Durante duzentos anos, os povos daquele continente haviam aprendido a nascer, trabalhar, amar e morrer dentro da guerra. Reis haviam sido coroados durante batalhas e enterrados antes de aprenderem a governar. Crianças haviam crescido ouvindo que o inimigo estava do outro lado da montanha, do rio ou da muralha. Homens que nunca haviam conhecido uma época sem guerra agora caminhavam pelas estradas tentando descobrir como era viver sem ela. E Elias compreendeu que aquilo que os homens chamavam de fim da guerra não significava que a guerra tivesse realmente terminado. Exércitos estavam recuando, tratados estavam sendo assinados e bandeiras estavam sendo baixadas, mas havia algo muito maior acontecendo por baixo daquela aparente paz. A fronteira entre os vivos e os mortos estava ficando cada vez mais fina. E isso não era consequência da guerra. Era consequência de tudo aquilo que a guerra havia deixado para trás. Elias chegou a uma pequena cidade no final da tarde. O portão estava aberto, mas não havia guardas. Havia uma fogueira apagada junto à entrada e, ao lado dela, três cadáveres cobertos por mantas. Elias parou. Um homem idoso estava sentado próximo aos corpos, segurando um pedaço de madeira. — Não entre — disse ele. Elias olhou para a cidade. — Por quê? — Estão enterrando os mortos. — Isso não me impede de entrar. O velho levantou os olhos. — Não são todos mortos. Elias ficou em silêncio. — O que quer dizer? O homem apontou para os cadáveres. — Alguns levantaram. Elias aproximou-se lentamente. — Mortos-vivos? — Não como nas histórias. — Então como? O velho demorou a responder. — Eles voltaram diferentes. Elias sentiu um arrepio. — Diferentes como? — Um deles abriu os olhos e perguntou onde estava a mãe. A mãe morreu há quarenta anos. Outro chamou pela esposa. A esposa estava enterrada há vinte. O terceiro não disse nada. Apenas ficou olhando para a parede durante horas. Depois começou a caminhar para o norte. — E ninguém o impediu? — Tentaram. Ele continuou andando. — Para onde? O velho apontou para o horizonte. — Para onde todos os mortos parecem querer ir. Elias não precisou perguntar. Sabia a direção. O mundo dos mortos. Pela primeira vez desde que começara sua investigação, Elias percebeu que aquilo que estava fazendo não acontecia apenas dentro de sua casa. A guerra havia produzido milhares de cadáveres. Necromantes menores haviam surgido em diferentes regiões tentando aproveitar o caos. Rituais proibidos haviam sido utilizados pelos dois lados do conflito. Túmulos haviam sido profanados para obter soldados. Espíritos haviam sido invocados para obter informações. Corpos haviam sido usados como recipientes. A morte havia sido transformada em instrumento de guerra. E agora Arteph estava pagando o preço. Elias entrou na cidade. Havia soldados por todos os lados. Alguns tinham perdido braços, outros olhos, outros apenas a vontade de continuar. Em uma praça havia uma fila de pessoas esperando para identificar cadáveres. Elias observou os rostos e percebeu algo que nunca havia considerado. A guerra não estava apenas produzindo mortos. Estava produzindo uma quantidade absurda de pessoas que não conseguiam aceitar que os mortos estavam mortos. E esse era exatamente o tipo de pessoa que poderia ser atraído pela necromancia. Elias seguiu até uma pequena hospedaria. Não pretendia ficar ali por muito tempo, mas precisava descansar. Assim que entrou, ouviu uma conversa no salão. — A guerra terminou. — Terminou para quem? — Para todos. — Meu irmão está morto. — E o seu reino venceu. — Não me importa quem venceu. Meu irmão está morto. Elias parou. Aquela frase atingiu alguma coisa dentro dele. Não porque fosse nova, mas porque era exatamente a frase que ele próprio havia dito durante meses. Meu irmão está morto. Minha esposa está morta. Minha filha está morta. Meu pai está morto. Minha amada está morta. As pessoas não queriam o fim da guerra. Queriam desfazer aquilo que a guerra havia feito. E Elias percebeu que havia encontrado algo muito mais poderoso do que qualquer feitiço. Necessidade. Ele subiu para um quarto, fechou a porta e abriu seu livro. Escreveu: “A guerra dos duzentos anos terminou, mas a morte que ela produziu continuará trabalhando.” Depois acrescentou: “Se os mortos puderem ser chamados, haverá homens dispostos a chamá-los.” Ficou olhando para a frase durante algum tempo. Então acrescentou: “E haverá homens dispostos a pagar.” Naquela noite, Elias ouviu alguém bater à porta. — Entre. Um rapaz entrou. Não devia ter mais de vinte anos. Usava roupas de soldado, embora não tivesse mais uma espada. — Você é Elias? Elias fechou o livro. — Quem quer saber? — Disseram que você entende de mortos. Elias permaneceu em silêncio. — Eu não quero dinheiro — continuou o rapaz. — Quero meu pai. Elias sentiu a antiga dor voltar. — Seu pai está morto? — Há seis meses. — Então ele não está aqui. — Eu sei. — Sabe? — Sim. — Então por que não pode trazê-lo? Elias olhou para ele. — Porque querer uma coisa não significa que ela seja possível. O rapaz apertou os punhos. — Dizem que você pode. — Quem diz? — Todo mundo. Elias quase sorriu. A reputação havia começado antes mesmo de ele perceber. — Quem lhe contou? — Um homem chamado Elias. Elias franziu a testa. — Eu sou Elias. — Não é o único. O rapaz saiu. Elias permaneceu imóvel. A porta fechou. E naquele momento ele percebeu que sua investigação já havia escapado de suas mãos. O nome que ele havia usado para estudar a morte começava a circular entre pessoas desesperadas. Ele ainda não era o Necromante. Ainda não era o homem que um dia seria temido pelos reis. Ainda era apenas Elias. Mas o mundo começava a dar outro nome ao homem que prometia respostas sobre a morte. Naquela mesma noite, muito longe dali, os Doze se reuniram. Arteph chegou primeiro. Lenoria veio depois. Aldora atravessou o salão em silêncio. Kallon surgiu acompanhado pelo cheiro do mar. Baltamus trouxe consigo o peso de seus pensamentos. Valeth permaneceu próximo à entrada. Kassandra parecia ter trazido parte da floresta consigo. Rhaegor estava inquieto. Damaris permanecia imóvel. Elyndra observava os outros. Morvahn segurava seu relógio quebrado. Sefrion chegou por último. Nenhum deles falou sobre a guerra dos duzentos anos. Todos sabiam que ela estava acabando. O assunto era outro. Arteph colocou uma pedra negra sobre a mesa. A mesma marca que Elias havia encontrado. — Ele tocou a primeira fronteira — disse. Lenoria respondeu: — E a guerra terminou. — Não é coincidência — disse Morvahn. Arteph olhou para ele. — Você viu alguma coisa? — O tempo está se reorganizando. — Isso não responde. — Responde mais do que você gostaria. Morvahn abriu o relógio. Os ponteiros estavam imóveis. — Durante duzentos anos, os acontecimentos foram empurrando o mundo para um ponto específico. — Qual? — perguntou Kallon. Morvahn levantou os olhos. — O fim da guerra. Damaris franziu a testa. — Por que o fim? — Porque enquanto os homens estavam ocupados lutando, ninguém percebeu o que acontecia com os mortos. Arteph fechou os olhos. — Os cadáveres. — Sim. Morvahn colocou o relógio sobre a mesa. — Duzentos anos de mortes. Duzentos anos de rituais. Duzentos anos de almas atravessando o domínio de Arteph em quantidade que nenhum dos Doze havia previsto. — E Elias? — perguntou Valeth. — Elias apareceu no final — respondeu Morvahn. — Não no começo. Não durante o auge da guerra. No final. Como se tivesse esperado o momento em que o mundo estivesse cheio de mortos. Arteph olhou para a pedra negra. — Ele não foi escolhido. — Então o que foi? — perguntou Lenoria. Arteph demorou a responder. — Uma oportunidade. Sefrion falou pela primeira vez: — Talvez para nós. Todos olharam para ele. — Ou para aquilo que está atrás da porta. O silêncio que veio depois foi absoluto. Arteph levantou-se. — Elias precisa ser encontrado antes que descubra demais. — E se ele não puder ser parado? — perguntou Aldora. Arteph olhou para ela. — Então teremos que descobrir quem está usando Elias. Porque ainda não acredito que um homem sozinho tenha encontrado aquilo que nem nós conseguimos compreender. Naquele instante, muito abaixo do salão, alguma coisa bateu. Uma única vez. Todos ouviram. Toc. Ninguém se moveu. Depois outra. Toc. Arteph fechou os olhos. — A porta. Morvahn respondeu: — Não. — Então o quê? — O homem. Todos olharam para ele. — Elias está aprendendo a bater de volta. Enquanto isso, Elias havia deixado a cidade. Não sabia que os Doze o procuravam. Não sabia que sua existência havia sido discutida por seres que governavam os grandes domínios do mundo. Sabia apenas que precisava chegar ao norte. O soldado havia mencionado uma coisa antes de sair. Um lugar onde centenas de cadáveres haviam desaparecido durante a guerra. Um antigo campo de batalha chamado Vale de Arken. Durante décadas, os dois exércitos haviam lutado ali. Diziam que, no auge do conflito, a terra ficara tão saturada de sangue que nenhuma planta crescia. Elias caminhou durante dois dias até chegar ao vale. Encontrou milhares de armas quebradas espalhadas pelo chão. Escudos enterrados pela metade. Ossos expostos. Restos de armaduras. Bandeiras apodrecidas. Havia uma coisa estranha, porém. Não havia cadáveres suficientes. Elias conhecia a história do lugar. Mais de cinquenta mil homens haviam morrido ali ao longo de décadas. Mas os ossos que encontrou não correspondiam nem a uma fração disso. Ele começou a procurar. Andou entre as ruínas até encontrar marcas no solo. Trilhas. Muitas. Alguém havia removido os corpos. Não apenas alguns. Todos. Elias seguiu as marcas até uma abertura entre duas rochas. Entrou. O túnel descia. Quanto mais fundo caminhava, mais frio ficava. Depois de quase uma hora encontrou uma porta de pedra. Não era a mesma porta dos sonhos. Era uma porta humana. Feita para ser aberta. Havia símbolos gravados nela. Elias reconheceu alguns. Necromancia. Rituais de preservação. Invocação. Reanimação. E uma marca que ele não conhecia. O mesmo círculo atravessado pela linha vertical. Elias tocou a pedra. A porta abriu. O que encontrou do outro lado fez seu estômago revirar. Corpos. Milhares. Organizados em fileiras. Homens, mulheres, soldados, camponeses. Todos mortos. Mas nenhum estava apodrecendo. Havia magia preservando os cadáveres. Elias caminhou lentamente entre eles. Então percebeu que não estavam ali para serem enterrados. Havia mesas. Ferramentas. Círculos mágicos. Livros. Frascos. Alguém vinha estudando os corpos. Alguém havia transformado aquele lugar em laboratório. Elias encontrou um livro aberto sobre uma mesa. A primeira página dizia: “PROJETO DE RETENÇÃO DA ALMA.” Ele começou a ler. Os registros eram de décadas atrás. Um grupo de magos havia tentado descobrir como impedir que as almas atravessassem para o domínio de Arteph. Não queriam ressuscitar os mortos. Queriam impedir que morressem completamente. Elias continuou. O projeto havia falhado. As almas não permaneciam. Os corpos ficavam vazios. Então descobriram outra coisa. Se uma alma não podia ser mantida no corpo, talvez pudesse ser dividida. Elias parou. Leu a frase novamente. “Fragmentação da identidade.” Ele sentiu náusea. Os magos haviam descoberto uma maneira de separar memória, personalidade e essência. O corpo poderia continuar funcionando enquanto a alma estivesse em outro lugar. Era uma forma grotesca de sobrevivência. Mas havia uma anotação final. “Os resultados atraíram a atenção de Arteph.” Elias fechou o livro. Então ouviu um som atrás dele. Passos. Virou-se. Um homem estava parado na entrada. Era velho. Vestia uma túnica cinza. Não carregava armas. — Você demorou — disse ele. Elias ficou imóvel. — Quem é você? — Alguém que esperava por você. — Como sabia que eu viria? O velho sorriu. — Porque você sempre vem. Elias olhou para os cadáveres. — Você fez isso? — Não. — Então quem fez? — Homens que queriam vencer a morte. Elias apertou o livro. — E conseguiram? — Não. — O que aconteceu? O velho caminhou entre os corpos. — Descobriram que a morte não é uma porta. — Elias permaneceu em silêncio. — É um processo. — E Arteph? — Arteph guarda o final. — E o começo? O velho olhou para Elias. — O começo pertence a algo que nem mesmo os Hunens gostam de lembrar. Elias sentiu a mesma presença que havia sentido diante da porta. — Você sabe o que está atrás dela? — Sei o suficiente para ter medo. — Então me diga. O velho balançou a cabeça. — Ainda não. — Por quê? — Porque você ainda acredita que pode trazer sua amada de volta. Elias ficou em silêncio. — E não posso? — Não dessa maneira. — Então de que maneira? O velho apontou para os corpos. — Você está olhando para a pergunta errada. Elias olhou novamente para as fileiras intermináveis de mortos. — Qual é a pergunta certa? O velho respondeu: — Por que Arteph precisa existir? Elias ficou imóvel. Aquela pergunta era diferente de todas as anteriores. Não perguntava como vencer a morte. Não perguntava como trazer alguém de volta. Perguntava por que o próprio sistema existia. — Se eu descobrir isso — disse Elias — descubro como quebrá-lo. O velho sorriu. — Agora você está começando a entender. Então Elias percebeu que havia mais alguém atrás do velho. Uma silhueta estava parada na escuridão. Alta. Imóvel. Não parecia humana. O velho não olhou para ela. — Ele veio com você? Elias perguntou. O velho respondeu: — Não. Ele estava aqui antes de nós. A silhueta deu um passo. Elias imediatamente levou a mão ao grimório. O homem levantou a mão. — Não faça isso. — O que é aquilo? — Uma consequência. A silhueta deu outro passo. Elias viu apenas dois olhos. Vermelhos. Depois a escuridão se fechou sobre ela. O velho desapareceu. Elias ficou sozinho. A porta atrás dele bateu. Quando tentou abri-la, não conseguiu. Pela primeira vez desde o início de sua investigação, Elias compreendeu que não estava mais procurando uma resposta. Estava dentro da resposta. E, em algum lugar distante, no mesmo instante, Arteph abriu os olhos. Ele havia sentido. A presença de Elias havia atravessado uma fronteira que não deveria existir. Mas não era isso que o preocupava. Era aquilo que havia acompanhado Elias. Arteph levantou-se diante do trono dos mortos e chamou Cerberus. O grande guardião surgiu imediatamente. — Procure-o. Cerberus avançou. Arteph segurou seu ombro. — Não Elias. Cerberus parou. — O outro. O cão infernal rosnou. Arteph olhou para a escuridão. — Existe alguma coisa seguindo aquele homem. E se estiver correta a antiga profecia, então a Guerra dos Duzentos Anos não terminou. Ela apenas mudou de campo. Do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Do aço para a magia. Dos exércitos para os próprios fundamentos da criação. E, sem saber de nada disso, Elias caminhava pelo túnel escuro carregando consigo o livro encontrado no laboratório. Na última página, uma frase havia surgido. Não estava ali antes. Ele reconheceu imediatamente a caligrafia. Era a mesma que aparecera em seus livros desde o início. “Você queria encontrá-la.” Elias ficou olhando. A segunda frase apareceu lentamente. “Então continue procurando.” E uma terceira. “Mas quando finalmente encontrá-la, Elias, talvez precise decidir se ainda quer que ela volte.” Ele fechou o livro. Pela primeira vez, não respondeu. Continuou caminhando. O homem que havia entrado naquele túnel ainda era Elias. Mas alguma coisa começava a desaparecer dentro dele. Não sua humanidade. Ainda não. Era a ingenuidade de acreditar que a morte era apenas uma barreira. A morte era uma ordem. Os Hunens eram parte dessa ordem. A guerra havia abalado essa ordem. E Elias estava prestes a descobrir que, no fim dos duzentos anos de sangue, alguém havia preparado o mundo para que um homem como ele aparecesse. Um homem que não aceitava a morte. Um homem inteligente o bastante para questionar os deuses. Um homem desesperado o bastante para atravessar aquilo que todos os outros temiam. E, muito acima dele, os Doze observavam. Muito abaixo dele, os mortos esperavam. E atrás de uma porta que ninguém deveria abrir, alguma coisa sorria. A Guerra dos Duzentos Anos havia terminado para os homens. Para os Hunens, ela estava apenas começando.

Ad'heim: O Que Está Atrás da Porta

 


Elias não se moveu.

Durante alguns segundos, talvez minutos, permaneceu diante da parede enquanto a última chama de uma das velas tremulava até desaparecer completamente. A escuridão tomou a casa, mas não era uma escuridão comum. Não havia simplesmente ausência de luz. Era como se a própria luz tivesse sido retirada do ambiente, como se alguma coisa tivesse imposto ao espaço uma regra diferente daquela que Elias conhecia.


Ele podia ouvir a própria respiração.


Podia ouvir o coração.


Podia ouvir o vento do lado de fora.


E, por baixo de tudo aquilo, podia ouvir a porta.


Não havia dobradiças.


Não havia madeira rangendo.


Não havia passos do outro lado.


Havia apenas uma pressão.


Uma presença.


A sensação de que alguma coisa estava esperando.


Elias estendeu a mão, mas parou antes de tocar a superfície.


A parede já não parecia uma parede.


Aquela linha negra havia crescido até formar um retângulo perfeito. As pedras ao redor permaneciam intactas, mas dentro daquele contorno não havia mais pedra. Havia uma superfície escura, lisa e profunda, como se ele estivesse olhando para um pedaço de noite solidificada.


Então veio outra batida.


Toc.


Elias recuou.


A voz voltou.


— Você abriu a primeira porta.


Ele engoliu em seco.


— Quem é você?


Silêncio.


— O que você quer?


Nada.


— Você conhece meu nome.


A superfície negra pareceu estremecer.


— Conheço.


Elias sentiu um frio percorrer a nuca.


— Como?


A resposta demorou.


— Porque você já esteve aqui.


Elias ficou imóvel.


— Nunca estive.


— Esteve.


— Eu nunca vi este lugar.


— Não estou falando deste lugar.


A voz parecia vir de todos os lados.


— Estou falando de antes.


Elias sentiu a cabeça latejar.


— Antes de quê?


A porta permaneceu silenciosa.


Então a voz respondeu:


— Antes de você nascer.


Elias deu um passo para trás.


A razão tentou imediatamente encontrar uma explicação. Magia de memória. Ilusão. Manipulação espiritual. Algum tipo de projeção. Talvez Arteph estivesse tentando confundi-lo. Talvez um dos outros Hunens estivesse interferindo. Talvez aquela coisa fosse apenas uma manifestação criada por sua própria mente.


Mas havia um problema.


A pedra negra ainda estava sobre a mesa.


O pergaminho ainda estava no chão.


E aquela porta estava ali.


Física.


Real.


Ele podia tocá-la.


Elias aproximou-se novamente.


— Se você sabe quem eu sou, então sabe por que estou aqui.


A voz respondeu:


— Você está aqui por ela.


Elias fechou os olhos.


— Sim.


— Mentira.


Ele abriu os olhos.


— O quê?


— Você começou por ela.


A voz ficou mais próxima.


— Mas já não está aqui por ela.


Elias não respondeu.


Porque sabia que havia verdade naquela afirmação.


E essa verdade o incomodava.


No início, tudo havia sido simples.


Ele queria sua amada de volta.


Queria ouvir sua voz novamente.


Queria apenas uma conversa.


Um último momento.


Uma oportunidade de dizer o que não conseguira dizer.


Mas depois vieram as perguntas.


Por que ela precisava morrer?


Por que os mortos não podiam voltar?


Por que Arteph possuía autoridade sobre os mortos?


Por que os Hunens escondiam tantas coisas?


Por que existiam portas que ninguém podia atravessar?


Por que uma ordem supostamente perfeita precisava de proibições?


E, em algum momento, sem perceber, Elias havia deixado de procurar apenas uma pessoa.


Agora procurava a verdade.


E talvez fosse exatamente isso que aquela coisa queria.


— O que existe atrás da porta? — perguntou.


A voz respondeu:


— Depende de qual porta.


Elias olhou para a abertura.


— Desta.


— Essa não é uma porta.


Ele franziu a testa.


— Então o que é?


— Uma ferida.


O silêncio voltou.


Elias sentiu um arrepio.


— Uma ferida em quê?


— No mundo.


A superfície escura pulsou.


Dessa vez Elias viu algo.


Por um instante, apenas um instante, a escuridão desapareceu.


Do outro lado havia um lugar.


Um céu vermelho.


Montanhas negras.


Árvores retorcidas.


E centenas de figuras imóveis.


Mortos.


Centenas.


Talvez milhares.


Todos olhando para ele.


A visão desapareceu.


Elias recuou.


Seu peito subia e descia rapidamente.


— O mundo dos mortos...


— Não.


A voz parecia quase divertida.


— Você ainda acredita que tudo termina lá.


Elias permaneceu em silêncio.


A porta começou a abrir.


Não muito.


Apenas uma fresta.


Mas aquela fresta foi suficiente.


Um cheiro entrou na casa.


Não era cheiro de cadáver.


Não era podridão.


Era algo mais antigo.


Terra molhada.


Cinzas.


Ferro.


E uma coisa que Elias não conseguia identificar.


Então ele ouviu um som.


Um sussurro.


Depois outro.


Depois dezenas.


As vozes vinham de dentro da abertura.


Algumas choravam.


Outras riam.


Outras pronunciavam palavras que ele não compreendia.


Até que uma delas se tornou clara.


— Elias.


Ele congelou.


A voz era dela.


Dessa vez não havia dúvida.


Era exatamente a voz de sua amada.


— Elias...


Ele avançou.


A razão desapareceu.


Por um instante, tudo o que existia era aquela voz.


— Estou aqui.


Ele estendeu a mão.


A voz respondeu:


— Não venha.


Elias parou.


— Você disse...


— Não venha.


A voz estava desesperada.


— Elias, não abra.


Ele sentiu as pernas enfraquecerem.


— É você?


Silêncio.


— É você?


A voz chorou.


— Não sei.


Elias sentiu algo dentro dele quebrar.


— Como assim não sabe?


— Eu me lembro de você.


A voz tremia.


— Mas não me lembro de ser eu.


Elias ficou imóvel.


A porta abriu mais um pouco.


Do outro lado, uma figura apareceu.


Era humana.


Ou parecia humana.


Estava distante.


Muito distante.


Mas Elias reconheceu imediatamente os cabelos, a postura, a maneira de permanecer ligeiramente inclinada quando estava cansada.


Era ela.


Ou alguma coisa usando a memória dela.


— Venha — disse a figura.


Elias não se moveu.


— Não — respondeu.


A figura ficou imóvel.


— Você me procurou.


— Sim.


— Então venha.


Elias respirou profundamente.


— Se você é realmente ela, sabe o que eu prometi.


A figura não respondeu.


— Você me pediu para viver.


Silêncio.


— E eu prometi.


A figura começou a se aproximar.


— Você mentiu.


Elias fechou os olhos.


A voz dela tornou-se mais agressiva.


— Você não viveu.


— Eu sobrevivi.


— Não.


A figura já estava mais próxima.


— Você morreu comigo.


Elias abriu os olhos.


— Talvez.


A criatura sorriu.


— Então venha.


Elias olhou para ela.


Depois olhou para a porta.


E finalmente compreendeu.


A porta não estava oferecendo uma escolha.


Estava tentando fabricar uma.


Ele pegou o pergaminho do chão.


Leu novamente a frase.


Quando o homem aprender a negar a morte, a morte aprenderá a temer o homem.


Então lembrou das palavras de Arteph.


"Você não precisa vencê-la. Precisa compreendê-la."


Elias apertou o pergaminho.


— Você não é ela.


A criatura parou.


— Você não sabe disso.


— Sei.


— Como?


Elias olhou diretamente para os olhos dela.


— Porque ela nunca pediria que eu abandonasse a promessa que fiz.


A expressão da criatura mudou.


Por um instante, o rosto dela pareceu derreter.


Os olhos ficaram negros.


A boca se abriu muito além do possível.


E um grito atravessou a casa.


As janelas explodiram.


Os livros voaram das estantes.


Elias foi arremessado contra a parede.


A porta se abriu completamente.


E então ele viu.


Não havia um mundo atrás dela.


Havia muitos.


Camadas sobrepostas de realidade.


Florestas.


Desertos.


Oceanos.


Cidades mortas.


Campos de batalha.


Montanhas.


Céus.


E, em cada um deles, havia mortos.


Não centenas.


Milhões.


Todos presos em algum lugar entre o fim e aquilo que deveria vir depois.


E no centro daquela visão havia algo colossal.


Uma forma que não possuía corpo definido.


Parecia uma sombra gigantesca atravessando os mundos.


Elias não conseguiu enxergar seu rosto.


Porque ela não tinha rosto.


Tinha olhos.


Milhares.


Talvez milhões.


Todos se abriram ao mesmo tempo.


Todos olharam para Elias.


E uma única frase foi pronunciada.


Não por uma boca.


Pelo próprio espaço.


— Finalmente.


Elias sentiu seu corpo inteiro paralisar.


Então uma força gigantesca atravessou a porta.


Ele caiu de joelhos.


A criatura dentro da passagem desapareceu.


A visão desapareceu.


A porta começou a fechar.


Elias reuniu as forças que ainda possuía e gritou:


— ESPERE!


A porta parou.


Por um segundo.


Elias respirou.


— O que você é?


A resposta veio:


— Aquilo que os Doze esqueceram.


A porta fechou.


A parede voltou ao normal.


A casa ficou silenciosa.


Elias permaneceu ajoelhado.


Por vários minutos não se moveu.


Então percebeu algo.


No chão, ao lado de sua mão, havia uma pequena marca.


Um símbolo.


Um círculo cortado por uma linha vertical.


Ele não conhecia aquele símbolo.


Mas já o havia visto antes.


No manuscrito mais antigo.


No texto sobre a Primeira Ordem.


Elias levantou-se.


Foi até a mesa.


Pegou todos os livros relacionados aos Hunens.


Começou a procurar.


Horas se passaram.


Até que encontrou.


Uma gravura.


A mesma marca.


Abaixo dela havia uma inscrição.


Elias traduziu lentamente.


AQUELE QUE EXISTIA ANTES DOS DOZE.


Ele parou.


Depois leu a linha seguinte.


AQUELE QUE NÃO DEVE SER NOMEADO.


Elias fechou o livro.


Seu rosto estava pálido.


Agora compreendia por que os Hunens haviam escondido aquilo.


Não porque fossem necessariamente seus criadores.


Mas porque, talvez, eles próprios tivessem medo.


---


No mundo dos mortos, Arteph caiu de joelhos.


Cerberus rugiu.


A terra começou a tremer.


Ao longe, rios inteiros mudaram de direção.


As almas que vagavam pelas planícies pararam.


Todas olharam para o mesmo ponto.


Arteph levantou-se lentamente.


— Não.


Cerberus mostrou os dentes.


— Ainda não.


O chão se abriu atrás deles.


Uma rachadura percorreu a paisagem.


Arteph caminhou até ela.


Olhou para dentro.


Não havia fogo.


Não havia escuridão.


Havia vazio.


Um vazio tão profundo que parecia negar até mesmo a existência da morte.


Arteph fechou os olhos.


— Ele acordou.


Cerberus soltou um rugido que atravessou todo o reino.


E, pela primeira vez em milhares de anos, os mortos começaram a fugir.


Não da morte.


Daquilo que existia além dela.


---


Os Doze sentiram simultaneamente.


Lenoria estava em seu reino quando seu grifo começou a se agitar.


O animal abriu as asas e soltou um grito que ecoou pelas montanhas.


— O que foi? — perguntou Lenoria.


O grifo olhava para o céu.


Uma pequena rachadura surgiu entre as nuvens.


Lenoria ficou imóvel.


— Não...


No deserto, Aldora abriu os olhos.


O dragão que dormia atrás dela levantou a cabeça.


As areias começaram a se mover em círculos.


Aldora sussurrou:


— Isso não pode estar acontecendo.


Nos mares, Kallon viu o grande oceano recuar.


Por alguns segundos, o fundo do mar ficou exposto.


Então uma onda colossal voltou.


Mas não veio acompanhada de água.


Veio acompanhada de sombras.


Baltamus observou seu gigantesco golem parar.


A criatura havia recebido uma ordem simples:


proteger seu criador.


Agora estava olhando para o horizonte.


Baltamus perguntou:


— O que você está vendo?


O golem não respondeu.


Porque não possuía palavras.


Mas Baltamus compreendeu.


Alguma coisa estava vindo.


Nos céus, Rhaegor sentiu todas as tempestades do mundo desaparecerem ao mesmo tempo.


Foi pior do que uma tempestade.


Era silêncio.


Um silêncio impossível.


Damaris sentiu montanhas estremecerem.


Elyndra viu uma floresta inteira perder as folhas em segundos.


Morvahn olhou para seu relógio.


O ponteiro havia parado.


Pela primeira vez.


Sefrion permaneceu diante da janela.


O rosto dele estava imóvel.


Mas seus olhos estavam fixos em algum lugar distante.


Algo havia mudado.


Algo antigo.


Algo que nenhum dos Doze queria nomear.


Kassandra foi a primeira a perguntar:


— Arteph sabe?


Ninguém respondeu.


Então uma voz surgiu no centro do salão.


A voz de Arteph.


— Agora sei.


Todos se voltaram.


Arteph apareceu.


Estava diferente.


Mais pálido.


Mais cansado.


Lenoria avançou.


— O que aconteceu?


Arteph olhou para os Doze.


— Elias abriu uma porta.


Valeth perguntou:


— Para o mundo dos mortos?


Arteph respondeu:


— Não.


Silêncio.


— Para algo abaixo dele.


Morvahn apertou o relógio.


— A Primeira Ordem.


Arteph assentiu.


Damaris deu um passo à frente.


— Isso é impossível.


— Não.


Arteph olhou para ele.


— Impossível era apenas o nome que demos ao que não queríamos lembrar.


Sefrion finalmente falou:


— O que Elias viu?


Arteph permaneceu em silêncio.


Então respondeu:


— Ele viu os olhos.


Todos entenderam.


Ninguém perguntou quais olhos.


Porque todos sabiam.


Os olhos que haviam sido apagados das histórias.


Os olhos que pertenciam àquilo que existia antes dos Hunens.


Àquilo que não governava vida, morte, magia, tempo, terra, céu ou qualquer outro domínio.


Porque não precisava governá-los.


Era anterior aos domínios.


Anterior às fronteiras.


Anterior à própria divisão que havia criado os Doze.


Lenoria perguntou:


— E Elias?


Arteph olhou para o chão.


— Ele sobreviveu.


— Então mate-o.


Arteph levantou os olhos.


— Não podemos.


— Por quê?


Arteph respondeu:


— Porque agora ele é uma testemunha.


Morvahn corrigiu:


— Não.


Todos olharam para ele.


Morvahn segurava o relógio parado.


— Ele não é uma testemunha.


Arteph ficou em silêncio.


Morvahn terminou:


— Ele é uma chave.


---


Elias passou os três dias seguintes sem sair de casa.


Não estudava.


Não comia direito.


Não dormia.


Ficava sentado diante dos livros, tentando reconstruir o que havia acontecido.


Uma pergunta retornava continuamente.


Por que ele?


Não era um Hunen.


Não era guerreiro.


Não era rei.


Não era alguém escolhido por profecia.


Era apenas Elias.


Um homem que perdera alguém.


Um homem que não aceitou a morte.


Um homem que começou a fazer perguntas.


Talvez esse fosse o motivo.


Não havia sido escolhido porque era especial.


Havia sido escolhido porque perguntou.


A ideia o perturbou.


Na quarta manhã, ele abriu o livro novamente.


Na última página, onde antes havia escrito:


PROJETO: TRANSPOR A FRONTEIRA ENTRE VIDA E MORTE


havia uma frase nova.


Ele não escreveu.


PROJETO ALTERADO.


Abaixo:


COMPREENDER A ORIGEM DA MORTE.


E, depois:


LOCALIZAR A PRIMEIRA PORTA.


Elias passou os dedos sobre a tinta.


Dessa vez não sentiu medo.


Sentiu algo diferente.


Determinação.


Ele fechou o livro.


Pegou sua capa.


Colocou os manuscritos dentro de uma bolsa.


Antes de sair, olhou para a casa.


Para os livros.


Para a cadeira onde ela costumava sentar.


Para a pequena janela por onde entrava a luz da manhã.


Durante alguns segundos, ficou parado.


Então falou sozinho:


— Eu vou descobrir.


Não disse o nome dela.


Não precisava.


Ele sabia por quem havia começado.


Mas agora sabia também por que continuaria.


Não queria simplesmente trazê-la de volta.


Queria descobrir o que era a morte.


Queria descobrir quem havia estabelecido seus limites.


Queria descobrir por que os Doze guardavam aquelas portas.


E, acima de tudo, queria descobrir o que existia antes deles.


Elias abriu a porta da casa.


Saiu.


Caminhou pela estrada.


Atrás dele, os livros permaneceram em silêncio.


Mas dentro de um deles, em uma página que Elias ainda não havia encontrado, havia uma inscrição.


Uma inscrição escrita milhares de anos antes de seu nascimento.


“Quando ele começar a procurar, não tentem detê-lo.”


E abaixo:


“Deixem-no chegar até nós.”


Naquele mesmo instante, muito longe dali, em uma região esquecida do mundo, alguma coisa abriu os olhos.


Não eram olhos humanos.


Não eram olhos de dragão.


Não eram olhos de demônio.


Eram olhos antigos.


E uma voz, quase inaudível, atravessou a escuridão:


— Elias começou.


Outra voz respondeu:


— Então os Doze cairão.


E uma terceira voz perguntou:


— E o homem?


Houve silêncio.


Então veio a resposta:


— O homem ainda não sabe o que é.


A escuridão se fechou.


E a guerra começou.

Ad'heim: A Porta


Durante sete noites, Elias não dormiu.

Não porque estivesse tentando evitar o sono. O problema era que, quando fechava os olhos, via a mesma porta.

Era sempre a mesma.

Negra, gigantesca, feita de uma matéria que não parecia pedra, madeira ou metal. Não possuía dobradiças, fechadura ou maçaneta. Não havia inscrições em sua superfície, nenhuma ornamentação, nenhum símbolo dos Hunens. Era simplesmente uma porta.


E, atrás dela, havia alguma coisa.


Elias não sabia dizer o quê.


Às vezes imaginava ouvir água escorrendo. Em outras, parecia escutar centenas de vozes falando simultaneamente em uma língua que não conhecia. Certa vez ouviu o som de uma criança chorando. Em outra, ouviu a própria voz chamando por ela.


Mas havia algo ainda mais perturbador.


A porta não aparecia apenas quando dormia.


Começou a aparecer quando estava acordado.


No reflexo de uma janela.


Na superfície de uma poça.


No fundo de uma panela cheia de água.


Na tinta preta de um livro recém-aberto.


Até mesmo quando fechava os olhos por alguns segundos, ela estava lá.


Elias começou a compreender que aquilo não era mais apenas uma visão.


Era uma resposta.


Alguma coisa havia percebido que ele estava procurando.


E agora estava procurando por ele também.


Na oitava noite, finalmente conseguiu dormir.


Ou acreditou ter conseguido.


Abriu os olhos e percebeu imediatamente que não estava em sua casa.


Estava de pé em um corredor.


O chão era coberto por uma névoa fina, branca e imóvel. As paredes se estendiam para cima até desaparecerem em uma escuridão sem teto. Não havia tochas, mas tudo estava iluminado por uma luz azulada, fraca, semelhante àquela que antecede uma tempestade.


Elias olhou para as próprias mãos.


Estavam intactas.


Sem sangue.


Sem feridas.


Sem marcas.


Ele caminhou.


Não sabia para onde estava indo, mas alguma coisa dentro dele dizia que precisava continuar.


O corredor parecia não terminar nunca.


Então ouviu passos.


Parou.


Os passos também pararam.


Olhou para trás.


Nada.


Continuou.


Os passos voltaram.


Dessa vez, mais próximos.


Elias virou-se novamente.


— Quem está aí?


Nenhuma resposta.


— Eu sei que está aí.


Uma voz respondeu atrás dele:


— Você sempre soube.


Elias congelou.


A voz era familiar.


Não porque reconhecesse quem a pronunciava, mas porque parecia ter sido construída a partir de alguma coisa que ele conhecia profundamente.


Uma voz que lembrava a voz dela.


Elias fechou os olhos.


Por alguns segundos, não conseguiu respirar.


— Não...


A voz tornou a falar.


— Elias.


Ele se virou.


Ela estava ali.


Ou parecia estar.


A alguns metros de distância, envolta pela névoa.


Elias não se moveu.


Seu corpo inteiro queria correr até ela.


Mas alguma coisa dentro dele gritava que aquilo era errado.


— Você...


Ela sorriu.


Era o sorriso que ele lembrava.


O mesmo sorriso de quando ele passava horas explicando alguma teoria incompreensível e ela fingia entender apenas para fazê-lo continuar.


O mesmo sorriso que aparecia quando encontrava Elias dormindo sobre algum livro.


O mesmo sorriso que existia antes de tudo ser destruído.


— Você me encontrou — disse ela.


Elias deu um passo.


— Eu procurei por você.


— Eu sei.


Outro passo.


— Eu tentei.


— Eu sei.


— Eu não consegui...


A voz dele se quebrou.


Ela estendeu a mão.


— Então venha.


Elias ficou parado.


Havia algo errado.


Não sabia explicar o quê.


Mas havia.


Ele olhou para a mão estendida.


Depois para os olhos dela.


— O que você disse antes de morrer?


Ela permaneceu imóvel.


O sorriso desapareceu.


— O quê?


— O que você me disse?


Silêncio.


Elias sentiu o coração acelerar.


— Você disse alguma coisa.


A figura permaneceu diante dele.


— Eu disse que precisava que você viesse comigo.


— Não.


Ela inclinou a cabeça.


— Não?


Elias recuou.


— Você me disse para viver.


A expressão dela mudou.


Por uma fração de segundo, o rosto diante dele pareceu perder a forma.


Como uma pintura molhada sendo arrastada por uma mão invisível.


— Não se torne como eles — sussurrou Elias.


A figura parou de sorrir.


Então a pele começou a rachar.


Não como uma pessoa se ferindo, mas como uma máscara se quebrando.


Por baixo daquele rosto havia escuridão.


Uma escuridão absoluta.


Elias deu um passo para trás.


A criatura avançou.


— Você não quer encontrá-la.


A voz já não era dela.


— Você quer apenas provar que pode vencer a morte.


Elias fechou os punhos.


— Quem é você?


A criatura abriu a boca.


Uma quantidade impossível de vozes saiu dela ao mesmo tempo.


— A pergunta errada.


O corredor desapareceu.


Elias acordou violentamente.


Estava no chão de sua casa.


Respirava com dificuldade.


Seu coração parecia querer sair do peito.


Durante vários segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto.


Então percebeu que estava segurando alguma coisa.


Um pequeno pedaço de pedra negra.


Elias lentamente abriu a mão.


A pedra estava fria.


Muito fria.


Ele a aproximou do rosto.


Havia uma inscrição gravada nela.


Três símbolos.


Elias não conhecia aquela escrita.


Mas compreendeu seu significado.


ABRA.


Ele deixou a pedra cair.


Foi até sua mesa.


Seus livros estavam espalhados por toda parte. Alguns estavam abertos. Outros tinham páginas arrancadas. Pergaminhos cobriam o chão.


No centro da mesa estava o livro que ele usara no primeiro ritual.


Elias o abriu.


Na página onde havia escrito o nome de Arteph, havia uma nova frase.


Ele não a escrevera.


A PORTA NÃO É DE ARTEPH.


Elias ficou olhando.


Seu primeiro impulso foi destruir o livro.


Não o fez.


Sentou-se.


Leu novamente.


A porta.


Aquela porta.


A porta que aparecia em seus sonhos.


A porta que existia no mundo dos mortos.


A porta que, segundo as inscrições antigas, permanecia selada havia milhares de anos.


E agora havia uma informação nova.


Ela não pertencia a Arteph.


Elias levantou lentamente os olhos.


— Então de quem é?


A casa permaneceu silenciosa.


Nenhuma resposta veio.


Mas, naquele momento, Elias percebeu uma coisa que mudaria completamente sua investigação.


Durante semanas, ele havia partido de uma premissa.


Acreditava que os Hunens eram os guardiões de todas as fronteiras.


Que Arteph governava a morte.


Que as portas eram parte de sua autoridade.


Que os mortos pertenciam ao seu domínio.


Mas talvez estivesse errado.


Talvez Arteph não tivesse criado a fronteira.


Talvez tivesse apenas recebido a função de guardá-la.


A diferença parecia pequena.


Não era.


Se Arteph era um guardião, então existia algo acima dele.


Algo mais antigo.


Algo que os próprios Hunens talvez temessem.


Elias começou a escrever.


Não parou durante horas.


Escreveu tudo.


Os sonhos.


A pedra.


A inscrição.


A voz.


A falsa aparição dela.


A frase.


A PORTA NÃO É DE ARTEPH.


Depois começou a comparar os textos antigos.


Pegou um manuscrito sobre a origem dos Hunens.


Depois outro.


Depois outro.


Abriu mapas.


Estudou símbolos.


Comparou idiomas mortos.


Passou o dedo por inscrições antigas até encontrar uma palavra que aparecia repetidamente.


Não era o nome de um Hunen.


Era uma palavra.


ORIGEM.


Elias franziu a testa.


Em outro texto, encontrou a mesma palavra acompanhada por uma segunda.


PRIMEIRA ORDEM.


Seu coração acelerou.


Continuou procurando.


Horas depois, encontrou uma referência tão antiga que quase não conseguia lê-la.


O texto dizia:


"Antes dos Doze, havia o Primeiro Limite."


Elias ficou imóvel.


Leu novamente.


Depois outra vez.


O Primeiro Limite.


Não era a morte.


Não era a vida.


Era uma fronteira anterior a ambas.


Elias levantou-se tão rapidamente que derrubou a cadeira.


Começou a andar pela sala.


Se aquilo fosse verdade, então a história conhecida do mundo estava incompleta.


Os Hunens não eram necessariamente os criadores da ordem.


Eram administradores de uma ordem anterior.


Mas por que ninguém falava disso?


Por que os registros haviam sido apagados?


Por que Arteph havia reagido daquela maneira quando Elias tentou atravessar a fronteira?


E, principalmente...


Por que aquela porta estava selada?


Elias olhou para a pedra negra.


A resposta estava diante dele.


Ou pelo menos uma parte dela.


Alguém havia colocado a pedra em sua mão enquanto dormia.


Alguém queria que ele encontrasse a porta.


Elias sentiu um arrepio percorrer o corpo.


Talvez o maior perigo não fosse abrir a porta.


Talvez o maior perigo fosse descobrir quem queria que ele a abrisse.


---


Muito longe dali, no mundo dos mortos, Arteph permanecia diante da porta.


Cerberus estava ao seu lado.


As três cabeças do guardião rosnaram simultaneamente.


Arteph não se moveu.


Durante milhares de anos, aquela porta permanecera intacta.


Nenhum morto havia tentado tocá-la.


Nenhum Hunen falava sobre ela.


Nenhum mortal sequer sabia que existia.


Até Elias.


Arteph estendeu a mão.


Parou antes de tocar a superfície.


— Ele viu.


Cerberus rosnou.


— Sim.


Uma das cabeças aproximou-se da porta.


As três começaram a farejar o ar.


Arteph percebeu.


— Não.


O rosnado tornou-se mais grave.


— Ainda não.


A superfície negra da porta tremeu.


Uma linha fina apareceu no centro.


Não era uma abertura.


Era uma rachadura.


Arteph deu um passo para trás.


Pela primeira vez em milhares de anos, havia medo em seu rosto.


Não medo de Elias.


Medo do que poderia estar atrás daquela porta.


— Os outros precisam saber.


---


O salão dos Hunens estava silencioso quando Arteph chegou.


Lenoria estava sentada próxima às grandes colunas de pedra, ainda vestindo parte de sua armadura. Aldora meditava. Kallon permanecia próximo a uma fonte cuja água subia em espirais impossíveis. Baltamus observava um pequeno mecanismo que havia construído. Valeth permanecia de pé. Kassandra estava acompanhada por raízes que atravessavam o chão do salão.


Rhaegor havia chegado envolto em vento.


Damaris permanecia imóvel como uma montanha.


Elyndra observava todos em silêncio.


Morvahn carregava consigo um relógio antigo cujo ponteiro jamais parava no mesmo lugar.


Sefrion estava sozinho próximo a uma janela.


Arteph entrou.


Todos perceberam imediatamente que havia alguma coisa errada.


Lenoria foi a primeira a falar.


— O que aconteceu?


Arteph olhou para os Doze.


— A porta se moveu.


O salão inteiro ficou em silêncio.


Baltamus deixou cair a peça que segurava.


Kassandra retirou lentamente as raízes do chão.


Damaris abriu os olhos.


Morvahn parou o relógio.


Sefrion não disse nada.


Mas seu olhar mudou.


— Isso é impossível — afirmou Kallon.


Arteph respondeu:


— Era.


Valeth aproximou-se.


— Elias?


Arteph assentiu.


— Ele encontrou uma forma de vê-la.


Lenoria apertou os punhos.


— Então mate-o.


Arteph permaneceu em silêncio.


— Arteph — insistiu Lenoria.


— Não.


— Por quê?


— Porque não sabemos se ele é a causa.


Morvahn finalmente falou:


— Ou se é a consequência.


A frase caiu sobre o salão como uma lâmina.


Arteph olhou para ele.


Morvahn continuou:


— Há uma diferença entre alguém abrir uma porta e alguém ser levado até ela.


Kassandra perguntou:


— Você acredita que Elias está sendo conduzido?


— Não acredito.


Morvahn olhou para o relógio.


— Eu sei.


Todos se voltaram para ele.


— Como?


Morvahn ergueu o relógio.


— O tempo ao redor daquele homem começou a apresentar pequenas inconsistências.


Baltamus franziu a testa.


— Explique.


— Eventos que ainda não aconteceram aparecem em registros anteriores. Sonhos antecipam encontros. Objetos surgem antes de serem criados. Memórias aparecem antes dos acontecimentos que deveriam produzi-las.


Arteph fechou os olhos.


— Então começou.


Lenoria perguntou:


— O quê?


Arteph respondeu:


— A segunda guerra.


Ninguém falou.


Elias não sabia.


Mas a guerra que estava começando não seria travada com exércitos.


Não haveria bandeiras.


Não haveria muralhas sitiadas.


Não haveria cavaleiros marchando sobre reinos.


Seria uma guerra pela própria estrutura do mundo.


E os Doze sabiam que, se perdessem, não perderiam apenas seus domínios.


Perderiam a autoridade sobre aquilo que julgavam eterno.


Sefrion finalmente se manifestou.


— Talvez devêssemos procurar Elias.


Arteph olhou para ele.


— Para quê?


— Para descobrir o que ele sabe.


— E se ele descobrir mais enquanto conversamos?


Sefrion não respondeu.


Arteph virou-se para todos.


— Elias não é nosso maior problema.


Lenoria perguntou:


— Então quem é?


Arteph olhou para a escuridão além das janelas.


— Ainda não sabemos.


---


Naquela mesma noite, Elias encontrou uma nova passagem.


Não estava em um livro.


Não estava em uma ruína.


Estava em sua própria casa.


Atrás de uma parede.


Ele havia percebido que uma das pedras do piso produzia um som diferente quando tocada. Removeu-a.


Abaixo havia outra.


E abaixo dela outra.


Durante quase uma hora, retirou pedras até encontrar uma pequena cavidade.


Dentro havia uma caixa.


A caixa não tinha fechadura.


Quando Elias tocou nela, abriu-se sozinha.


Dentro havia um pergaminho.


O papel era tão antigo que parecia prestes a virar pó.


No centro estava desenhado um símbolo.


Uma porta.


Mas não era a mesma porta dos sonhos.


Era uma porta aberta.


E atrás dela havia apenas um círculo vazio.


Abaixo do desenho havia uma frase.


Elias traduziu lentamente.


“Quando o homem aprender a negar a morte, a morte aprenderá a temer o homem.”


Ele permaneceu olhando.


Então percebeu que havia outra frase, escrita em uma camada muito mais antiga de tinta.


“E quando a morte temer o homem, os Doze lembrarão por que foram criados.”


Elias sentiu o sangue gelar.


Não porque compreendesse.


Mas porque, pela primeira vez, percebeu que alguém havia previsto aquilo.


Alguém havia previsto que um homem tentaria atravessar a fronteira.


Alguém havia previsto Elias.


Ele virou o pergaminho.


No verso havia apenas um nome.


Não era Arteph.


Não era nenhum dos Hunens.


Era um nome que Elias jamais havia visto.


Elias.


Abaixo dele havia uma data.


Uma data anterior ao nascimento de seus pais.


Anterior ao nascimento de seus avós.


Anterior à fundação de sua cidade.


Anterior à maioria dos registros conhecidos.


Elias sentou-se lentamente.


O pergaminho escorregou de suas mãos.


— Não...


Aquela era a primeira vez que sua investigação deixava de parecer uma busca.


Agora parecia uma armadilha.


Ele havia acreditado que estava procurando a porta.


Mas talvez a porta estivesse procurando por ele.


E então ouviu.


Uma batida.


Elias congelou.


Uma batida.


Depois outra.


Vinha de dentro da parede.


Ele se aproximou.


Colocou a mão sobre as pedras.


Toc.


Outra batida.


Toc.


Elias recuou.


A terceira batida veio acompanhada de uma voz.


Uma voz muito baixa.


Uma voz que parecia atravessar pedra, madeira, carne e osso.


— Elias.


Ele não respondeu.


— Elias.


Dessa vez reconheceu.


Não era Arteph.


Não era a voz dela.


Não era a criatura do sonho.


Era outra coisa.


Algo que estava muito mais perto.


A voz sussurrou:


— Você abriu a primeira porta.


Elias ficou imóvel.


— Agora precisa escolher qual delas fechar.


As pedras começaram a rachar.


Uma linha negra surgiu na parede.


E, lentamente, como se alguma coisa estivesse empurrando do outro lado...


uma porta começou a nascer dentro da casa de Elias.


Ele deu um passo para trás.


Depois outro.


A rachadura aumentou.


O ar ficou frio.


Todas as velas se apagaram.


E, no escuro, Elias compreendeu finalmente a verdade mais terrível de todas:


Ele havia passado semanas tentando entrar no mundo dos mortos.


Mas alguma coisa do mundo dos mortos...


já estava tentando entrar no mundo dos vivos.


E, pela primeira vez desde que perdera sua amada, Elias não sentiu apenas tristeza.


Sentiu medo.


Não por si mesmo.


Mas porque uma pergunta surgiu em sua mente:


Se aquilo atravessasse a porta... o que exatamente estaria atravessando com ela?Se quiser, o próximo capítulo pode aprofundar **a primeira manifestação daquilo que está atrás da porta**, enquanto Elias começa a perceber que sua necromancia não está apenas desafiando Arteph — ela está despertando uma ameaça que nem os Doze controlam.