terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: O Sonho nas Águas do Retorno


Por Yuri Schein  

O barco cortava o Mar Divisor sob a proteção renovada da corrente azul.  

Ikarus estava acordado a maior parte do tempo agora. A aura azul-dourada ao redor do corpo permanecia estável, controlada, como se os dois domínios finalmente tivessem encontrado um equilíbrio interno. Thomas dormia em turnos curtos, as asas recolhidas. Gillian, mesmo com o braço quebrado, insistia em ajudar com os remos quando a corrente enfraquecia. Raella observava o horizonte leste, onde a fumaça de Lenória Imperial ainda manchava o céu distante.


Foi no meio da segunda noite de retorno que o cansaço venceu Ikarus.


Ele adormeceu no fundo do barco, a cabeça apoiada contra a madeira úmida. O sono veio pesado, profundo — e imediatamente se transformou em outra coisa.


A água o envolveu novamente.  


Mas desta vez não era o fundo escuro e silencioso do primeiro transe. Era uma extensão aberta do domínio de Kallon: um oceano infinito sob um céu de duas luas, a superfície brilhando com luz azul própria. Kallon estava ali, materializado de forma mais nítida do que no Templo. Os cabelos azuis flutuavam como se ainda estivesse submerso. Os olhos profundos fixavam o filho sem o sorriso sereno de antes. Havia gravidade no olhar.


— Você despertou — disse o Hunen. — E está voltando para uma terra que arde.


Ikarus deu um passo sobre a água. A superfície o sustentou como se fosse pedra.


— Eu sei o que preciso fazer. Enfrentar o que Vaelthas Levi e Angarkor soltaram. Proteger o que ainda resta.


— Não — interrompeu Kallon, a voz baixa, mas firme. — Isso é apenas a superfície. O que você carrega agora… o sangue meu e o poder residual de Ranur… não pode se limitar a ser uma arma. Ad’Heim precisa de mais do que um guerreiro. Precisa de continuidade. De linhagem. De um futuro que ainda não foi escrito pelo Necromante.


Ikarus franziu o cenho.


— O que você está dizendo?


Kallon se aproximou. A água ao redor dos dois tremeu.


— Você deve se casar. Com as duas.


O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer pressão de profundidade.


— Gillian e Raella — continuou Kallon. — As duas que restaram ao seu lado. As duas que carregaram seu corpo até o Templo. As duas que ainda respiram enquanto Derek, Rickson e Jetto já não estão.


Ikarus sentiu a aura azul-dourada reagir dentro do sonho, inquieta.


— Casar com as duas? Isso…


— É possível. E necessário. Raella carrega sangue antigo de Lenória. Linha próxima o suficiente da antiga realeza para que, sob as leis que ainda restam, o casamento a torne rainha — e a você, rei por direito de união. Lenória Imperial está em ruínas, mas o título ainda existe. O povo que sobrou precisará de um nome para seguir. O seu. O dela. Juntos.


Kallon fez uma pausa. O olhar se tornou ainda mais antigo.


— Gillian… Gillian gerará um filho. Não agora. Não neste ciclo imediato. Mas no futuro. Um filho que nascerá da união entre o sangue de um Hunen e a força de uma guerreira que sobreviveu a tudo. Esse filho será a queda de Vaelthas Levi. A lâmina que o Necromante não preverá. A rachadura final na obra que ele construiu desde as geleiras de Baltamus.


Ikarus abriu a boca, depois a fechou. A água sob seus pés parecia mais densa.


— Você está me pedindo para…


— Estou lhe revelando o caminho que as águas já viram — corrigiu Kallon. — Eu não ordeno o coração de ninguém. Mas o sangue que corre em você agora é meu. E o poder que Ranur deixou também exige continuidade. Duas esposas. Uma coroa. Um filho que ainda não existe, mas que um dia quebrará o Necromante. Essa é a corrente que as águas me mostraram.


O Hunen ergueu a mão e tocou, pela primeira vez de forma quase tangível, o ombro do filho.


— Quando acordar, a decisão será sua. Mas saiba disto: se você rejeitar o que as águas revelaram, o fortalecimento que recebeu no Templo terá sido apenas metade do que poderia ser. E Levi… Levi continuará escrevendo o fim de Ad’Heim sem oposição verdadeira.


A imagem de Kallon começou a se dissolver em luz azul.


— Pense. Sinta. E escolha. O mar não força. Mas o mar lembra.


Ikarus acordou com um sobressalto.


O barco balançava suavemente sob a corrente azul. As duas luas ainda estavam altas. Thomas dormia com a cabeça apoiada no ombro. Gillian estava acordada, observando o mar com a expressão cansada de sempre. Raella olhava o horizonte, a capa envolta ao redor do corpo.


Nenhum deles havia notado o sonho.


Ikarus ficou sentado em silêncio por um longo tempo, a aura azul-dourada pulsando de forma mais inquieta do que antes. As palavras de Kallon ainda ecoavam dentro dele — pesadas, claras, impossíveis de ignorar.


Duas mulheres.  

Uma coroa.  

Um filho que ainda não existia, mas que um dia seria a queda de Vaelthas Levi.


O Mar Divisor continuava a empurrá-los em direção a Lenória.  


E, pela primeira vez desde que despertara no Templo, Ikarus não sabia se o poder que carregava era uma bênção… ou o início de um destino muito maior e mais complicado do que qualquer batalha.



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