terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: A Realidade que Sangra

 

Por Yuri Schein  


O duelo entre Ikarus e Angarkor havia se tornado um furacão de luz dourada e energia necromântica. Cada impacto de lâminas fazia a borda da Costura tremer. O vapor esverdeado subia cada vez mais alto, e o chão sob os pés dos dois guerreiros rachava em padrões irregulares, como se a própria terra não soubesse mais qual forma manter.


Foi então que Thomas gritou.


— Agora!


O meio-dragão lançou-se do ar com as asas abertas e os dois montantes em chamas de fúria. Gillian avançou pelo lado esquerdo, a espada cortando o vapor esverdeado. Raella, mesmo com o corpo ainda abalado pela morte de Derek, ergueu as mãos e liberou a magia residual da capa em um feixe de energia prateada que tentou envolver Angarkor.


Pela primeira vez desde o início do combate, Angarkor foi forçado a se dividir.


Ele desviou o golpe de Thomas com um giro rápido, bloqueou a estocada de Gillian com a lateral da espada e dissipou a magia de Raella com um movimento do ombro, como se estivesse apenas afastando uma mosca. Mas o impacto combinado o fez recuar dois passos. A luz dourada ao redor de Ikarus se intensificou, aproveitando a abertura.


— Vocês ainda não entenderam — disse Angarkor, a voz baixa e quase cansada. — Não é força que decide isso.


Ele cravou a ponta da espada no chão.


A realidade ao redor se contorceu.


Não foi magia comum. Não foi necromancia. Foi algo mais antigo e mais cruel. O ar se dobrou. O chão se alongou e depois se encolheu. As distâncias mudaram. Thomas, que estava a poucos metros, de repente se viu a dezenas de passos de distância, como se o espaço tivesse sido esticado à força. Gillian deu um passo à frente e encontrou o próprio pé afundando em um chão que não existia mais, uma ilusão tão real que a carne doía. Raella lançou outra magia, mas a energia se curvou no ar e voltou contra ela, arremessando-a violentamente contra uma pedra rachada.


Angarkor ergueu a mão esquerda.


— Eu distorço o que quiser. Quando quiser. A realidade é apenas uma sugestão para quem já viu o outro lado da porta.


Uma onda invisível se expandiu a partir dele.  


Thomas gritou quando suas asas foram dobradas de forma antinatural, os ossos rangendo sob uma pressão que não vinha de nenhum golpe físico. Gillian caiu de joelhos, o braço esquerdo torcido em um ângulo impossível, o sangue escorrendo por entre os dedos. Raella foi erguida do chão por uma força invisível e arremessada contra o chão rachado com violência suficiente para fazê-la perder a consciência por alguns segundos. O vapor esverdeado da Costura parecia dançar ao redor de Angarkor, alimentando o poder que ele liberava.


Ikarus rugiu e avançou através da distorção.


A luz dourada de Ranur ao redor de seu corpo resistia parcialmente à quebra da realidade, mas não o suficiente. Cada passo era uma luta contra um mundo que se recusava a permanecer estável. O chão subia e descia sob seus pés. O ar se tornava sólido e depois líquido. A espada de Angarkor parecia estar em três lugares ao mesmo tempo.


Ainda assim, Ikarus atacou.


O golpe carregava tudo o que restava: a morte de Derek, o sacrifício de Ranur, a fúria acumulada desde a Clareira da Árvore Negra. A lâmina dourada cortou o espaço distorcido e encontrou a armadura de Angarkor no ombro, abrindo uma ferida profunda que fez o guerreiro antigo recuar e soltar um grunhido de dor genuína.


Angarkor olhou para o próprio sangue escuro escorrendo pela armadura.


— Bom — murmurou ele. — Você ainda consegue me alcançar.


Então ele moveu os dedos.


A realidade ao redor de Ikarus se quebrou de forma brutal.


O espaço se comprimiu. O ar se tornou uma prensa invisível. A luz dourada ao redor do corpo de Ikarus cintilou desesperadamente, tentando proteger o portador, mas não foi suficiente. Uma força invisível atravessou o peito do guerreiro como uma lança feita de espaço distorcido. O impacto foi tão violento que Ikarus foi arremessado para trás, a espada dourada caindo de sua mão e se apagando parcialmente ao tocar o chão.


Ele caiu de joelhos, depois de lado.  


O sangue — misturado com residual de luz dourada — se espalhou pelo chão rachado. A ferida no peito era profunda, irregular, como se a própria realidade tivesse tentado arrancar algo de dentro dele. A armadura residual de Ranur se rachava e se desfazia em fragmentos de luz. A respiração de Ikarus saía em engasgos curtos e molhados.


Thomas gritou o nome dele e tentou se aproximar, mas a distorção ainda o mantinha afastado. Gillian, com o braço quebrado, rastejava em direção ao companheiro. Raella, ainda atordoada, tentava reunir magia suficiente para alcançar Ikarus.


Angarkor caminhou até ficar a poucos passos do corpo caído. A espada longa ainda gotejava o sangue escuro da ferida no ombro. Ele observou Ikarus por um longo momento, a expressão quase… pensativa.


— Você lutou melhor do que a maioria — disse ele, a voz baixa. — O presente de Ranur te deu uma chance. Mas a realidade… a realidade sempre pertenceu a quem está disposto a quebrá-la.


Ikarus tentou se levantar. Conseguiu apenas erguer a cabeça. Os olhos ainda brilhavam com residual dourado, mas a luz estava se apagando rapidamente. O sangue continuava a escorrer.


— Ainda… não… terminou… — conseguiu sussurrar, a voz quase inaudível.


Angarkor inclinou a cabeça levemente.


— Para você, quase.


Ele ergueu a espada novamente, preparando o golpe final.


A Costura sob eles pulsou com mais força.  


E, em algum lugar distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava através do espelho de osso, o sorriso discreto ainda nos lábios.


A ferida de Ikarus continuava a sangrar luz e sangue.  


E a realidade ao redor permanecia quebrada.


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