terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: O Voo Sobre a Ferida

 

Por Yuri Schein  

O Grifo de Lenória cortava o céu noturno com uma força que fazia o ar tremer ao redor de suas asas. Cada batida era um trovão contido, um rugido abafado que se espalhava pelas nuvens baixas e fazia as estrelas aparentes tremerem. Ranur permanecia ereto sobre a criatura, a armadura dourada refletindo a luz fraca das duas luas como se fosse um segundo sol cansado e antigo. Seus olhos, no entanto, não olhavam para as luas. Olhavam para frente. Sempre para frente. Para o ponto exato onde a estrela havia desaparecido e para o rastro invisível que agora sangrava pelo tecido do mundo.


Atrás dele, agarrados às placas da armadura e às penas densas do Grifo, estavam os quatro sobreviventes da Clareira da Árvore Negra. Derek mantinha uma mão firme nos Brincos de Valeth, que agora queimavam contra o peito com uma intensidade quase dolorosa. A luz que emanava deles já não era constante. Pulsava de forma errática, como se tentasse se sincronizar com algo distante e hostil. Thomas voava ao lado do Grifo, asas abertas e tensas, o vento batendo em seu rosto e fazendo as escamas rubras brilharem sob a luz irregular. Ikarus e Gillian se seguravam com força, o corpo ainda marcado pelas batalhas anteriores, enquanto Raella mantinha a capa mágica envolvida ao redor do corpo como se fosse o único escudo que ainda lhe restava.


Ninguém falava.


O vento era alto demais. O frio, cortante demais. E a presença que subia da terra, distante mas inevitável, pesava demais sobre a mente de todos.


Horas se passaram.


O terreno abaixo mudou gradualmente. A Floresta Encantada deu lugar a colinas rochosas, depois a planícies rachadas, e finalmente a um território que nenhum deles reconhecia de imediato. A terra parecia ferida. Grandes linhas escuras cortavam o solo como cicatrizes antigas que haviam sido reabertas à força. Em alguns pontos, o vapor metálico ainda subia, formando colunas que o vento dispersava apenas parcialmente. Em outros, a rachadura era tão profunda que a escuridão no fundo parecia absoluta, como se a própria noite tivesse encontrado um caminho para descer até o coração do mundo.


Ranur quebrou o silêncio pela primeira vez desde a decolagem.


— Vocês sentem?


A pergunta não era dirigida a ninguém em particular, mas todos ouviram.


Derek apertou os brincos com mais força.


— Sim. É como se… estivesse puxando.


— Porque está — respondeu o Guardião. — Os Três Desertores não estão apenas se movendo. Eles estão puxando o que foi selado. Cada rachadura que se abre é uma costura antiga sendo desfeita. E quanto mais elas se abrem, mais fácil se torna para aquilo que está embaixo subir.


Thomas se aproximou um pouco mais, as asas batendo com força para manter a velocidade do Grifo.


— O que exatamente está embaixo?


Ranur demorou a responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa, quase como se o próprio vento quisesse engolir as palavras.


— Algo que os Hunens preferiram esquecer. Algo que nem mesmo Korangar, Otroneu e Drodekh ousaram libertar completamente quando desertaram. Eles apenas… abriram a porta. E depois a deixaram entreaberta por tempo demais.


Gillian, segurando-se com uma mão na placa dourada e a outra na espada, ergueu a voz contra o vento.


— E Angarkor? Onde ele entra nisso?


— Angarkor é uma ferramenta — respondeu Ranur. — Uma ferramenta poderosa, antiga e quebrada. Mas ainda assim uma ferramenta. O que está subindo agora não precisa de ferramentas. Precisa apenas de caminhos. E os Três estão abrindo esses caminhos.


O Grifo soltou um rugido baixo, como se concordasse com a avaliação do seu Guardião. As asas bateram com mais força, e a velocidade aumentou. O ar ficou mais frio. As nuvens ao redor começaram a se contorcer de forma antinatural, formando espirais que não seguiam o vento real.


Raella sentiu a capa se contrair novamente. Desta vez, a magia dentro dela respondeu com um calor súbito, quase doloroso.


— A capa… está reagindo. Como se reconhecesse o que está vindo.


Ranur olhou por cima do ombro.


— Porque reconhece. Tudo o que carrega magia antiga em Ad’Heim está reagindo. Os Brincos de Valeth. A capa. Até a maldição que matou Jetto e Rickson na Clareira. Tudo isso são fragmentos de um mesmo tecido. E o tecido está sendo puxado.


Derek sentiu um arrepio percorrer a espinha.


— Então nós já estamos ligados a isso desde o começo.


— Desde antes de vocês sequer saberem que o chamado existia — confirmou o Guardião. — A Árvore Negra não os testou por acaso. Os Brincos não caíram em suas mãos por acaso. A capa não escolheu Raella por acaso. Vocês foram marcados. E agora o que está subindo sabe que vocês existem.


O silêncio voltou, mais pesado do que antes.


Abaixo deles, uma nova rachadura se abria. Desta vez não era uma linha fina. Era um vale inteiro se partindo ao meio, a terra se abrindo com um som abafado que ecoava mesmo a essa altura. Do interior da fenda subiu não apenas vapor, mas uma luz fraca e esverdeada, doentia, que iluminava as paredes de pedra como se viesse de um coração antigo e podre.


Thomas sentiu o instinto gritar.


— Aquilo não é magia comum.


— Não — concordou Ranur. — É memória. Memória de algo que deveria ter permanecido esquecido.


O Grifo desceu um pouco, o suficiente para que todos pudessem ver melhor. A luz esverdeada pulsava no mesmo ritmo irregular dos Brincos de Valeth. E, por um instante breve e terrível, Derek teve a certeza de que a luz o olhava de volta.


Ranur puxou as rédeas invisíveis e a criatura voltou a subir.


— Ainda não. Ainda não estamos prontos para olhar diretamente para dentro.


Ikarus, que até então permanecia em silêncio, finalmente falou. A voz saiu rouca, cansada, mas firme.


— Então para onde exatamente estamos indo? Você falou de um lugar onde os caminhos estão sendo reabertos. Onde fica isso?


Ranur apontou para o horizonte, onde o céu se tornava mais escuro e as nuvens se acumulavam de forma antinatural.


— Ao norte. Muito ao norte. Além das últimas montanhas que os mapas conhecem. Além do ponto onde os reinos terminam e o que sobrou da ordem antiga ainda tenta se manter de pé. Lá existe um lugar que os antigos chamavam de a Costura Primeira. O ponto onde os Hunens selaram aquilo que não podiam destruir. Os Três Desertores estão forçando essa costura. E se ela se romper completamente…


Ele não terminou a frase.


Não precisava.


Todos entenderam.


O Grifo continuou voando.


Horas se arrastaram. O frio aumentou. A presença sob a terra cresceu. Em determinado momento, Raella começou a tremer de forma incontrolável, a capa brilhando e apagando em intervalos irregulares. Gillian precisou segurá-la para que não caísse. Derek sentiu os Brincos queimarem tanto que chegou a gemer de dor, mas não os tirou do pescoço. Thomas voava cada vez mais próximo do Grifo, como se a proximidade do Guardião fosse o único ponto estável em um céu que parecia se desfazer.


Foi então que Ranur falou novamente, a voz quase um sussurro contra o vento.


— Quando chegarmos, não haverá tempo para hesitação. O que está subindo já sabe que estamos vindo. E vai tentar nos usar. Ou nos quebrar. Ou ambos.


Derek ergueu o olhar para o Guardião.


— E se não formos fortes o suficiente?


Ranur olhou para ele por um longo momento. Nos olhos dourados havia algo que quase parecia compaixão.


— Então Ad’Heim sangra. E os Doze sangram com ele.


O Grifo rugiu mais uma vez, mais alto, mais urgente.


À frente, no horizonte distante, uma coluna de luz esverdeada subiu do chão até as nuvens, rasgando o céu como uma ferida aberta.


A Costura Primeira estava mais perto do que qualquer um deles imaginava.


E o que esperava por eles do outro lado já havia começado a sorrir.


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