Por Yuri Schein
A Árvore Negra não tremeu por acaso.
No centro da clareira, suas raízes profundas se contorceram sob a terra como se tentassem se afastar de algo que já estava dentro dela. As folhas negras, que normalmente absorviam qualquer luz, brilharam por um instante com um tom esverdeado doentio — o mesmo tom que o Ent usava quando falava de eras que os mortais não deveriam lembrar.
O grupo ainda estava ali.
Derek apertava os Brincos de Valeth contra o peito, sentindo o metal frio queimar a pele. Thomas mantinha os montantes desembainhados, asas meio abertas, instintos em alerta máximo. Raella tinha a mão sobre a capa mágica, que agora pulsava de forma irregular. Ikarus, Gillian e Rickson formavam um semicírculo defensivo, embora nenhum deles soubesse exatamente contra o quê.
O Ent ergueu a cabeça — se é que aquela massa de galhos retorcidos podia ser chamada de cabeça.
— Vocês também ouviram — disse ele, a voz mais baixa e grave do que nunca. — O chamado não foi feito para os mortais. Mas a terra inteira o sentiu.
Derek engoliu em seco.
— O que foi aquilo?
O Ent não respondeu de imediato. Em vez disso, suas raízes se moveram novamente, abrindo uma pequena fenda no chão da clareira. Dela subiu um vapor escuro, carregado de cheiro de terra antiga e algo metálico.
— Os Doze despertaram — murmurou o Ent. — Todos. Ao mesmo tempo. Isso não acontecia desde… desde antes da Guerra de Duzentos Anos. Desde antes dos três irmãos.
Thomas franziu o cenho.
— Angarkor.
O nome pairava no ar como uma maldição.
O Ent inclinou-se ligeiramente na direção do meio-dragão.
— Angarkor é apenas uma peça. Uma peça importante, mas ainda assim uma peça. O chamado que os Guardiões ouviram não veio dele. Veio de mais longe. De mais fundo.
Raella deu um passo à frente, a capa brilhando mais forte.
— De onde?
O Ent demorou a responder. Quando falou, a voz parecia vir de todos os troncos ao mesmo tempo.
— Dos três que desertaram.
Um silêncio pesado caiu sobre a clareira.
Korangar. Otroneu. Drodekh.
Os nomes que o próprio Ent havia revelado pouco tempo antes agora soavam diferentes. Mais próximos. Mais perigosos.
Derek apertou os brincos com mais força.
— Eles voltaram?
— Não — respondeu o Ent. — Eles nunca partiram de verdade. Apenas pararam de se mostrar. Mas algo os fez se mexer novamente. E quando os Três se mexem… os Doze não conseguem permanecer adormecidos.
No alto do céu, muito acima da Floresta Encantada, uma sombra dourada atravessou as nuvens.
O Grifo de Lenória.
Ranur voava baixo o suficiente para que o vento de suas asas sacudisse as copas das árvores. Seus olhos dourados encontraram a clareira por um breve instante. Ele não desceu. Não precisava. O Guardião já sabia que o grupo estava ali. E que a Árvore Negra havia respondido ao mesmo chamado.
Ranur murmurou algo que o vento carregou embora.
— Eles estão mais perto do que pensávamos.
O Grifo rugiu em resposta e bateu as asas com mais força, subindo novamente em direção ao norte.
Na clareira, o Ent observou a sombra dourada desaparecer.
— Um dos Doze já está se movendo — disse ele. — Isso significa que o tempo está se esgotando.
Thomas guardou um dos montantes e olhou para os companheiros.
— Então o que fazemos agora?
O Ent virou-se completamente para o grupo. Pela primeira vez, suas folhas negras pareciam quase… tristes.
— Vocês não têm escolha. O chamado já os tocou. Os Brincos de Valeth, a capa, a maldição de Jetto… tudo isso os tornou parte da mesma corrente. Se os Três Desertores estão se movendo, e se os Guardiões despertaram, então o equilíbrio que sustenta Ad’Heim está prestes a se partir.
Ele fez uma pausa.
— E quando isso acontecer, não haverá reino seguro. Nem torre dourada. Nem Árvore Negra.
Derek olhou para os brincos em sua mão. Eles brilhavam com uma luz fraca e constante, como se respondessem a algo distante.
— Então para onde vamos?
O Ent apontou com um galho longo e retorcido para o norte, na direção em que o Grifo havia voado.
— Sigam o Guardião de Lenória. Ou sigam o rastro do chamado. Ambos os caminhos levam ao mesmo lugar.
A clareira ficou em silêncio novamente.
Só o vento movia as folhas negras.
E, bem no fundo da terra, algo antigo e paciente abriu os olhos pela primeira vez em muito, muito tempo.
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