terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: A Estrada que Sangra

 

Por Yuri Schein  

A Floresta Encantada não queria deixá-los partir.


Cada passo do grupo era contestado. Galhos se fechavam atrás deles como dedos. A névoa se adensava sem motivo. O chão, antes firme, agora cedia em pontos aleatórios, como se a própria terra hesitasse em carregá-los.


Derek caminhava na frente, os Brincos de Valeth pendurados no pescoço por um cordão improvisado. A luz que eles emitiam havia mudado. Já não era mais o brilho suave e quase reconfortante de antes. Agora pulsava de forma irregular, como um coração ferido.


— Eles estão reagindo a alguma coisa — murmurou ele, sem olhar para trás.


Thomas, logo atrás, mantinha as asas semiabertas, pronto para voar a qualquer instante.


— Ou a alguém.


Raella não respondeu. A capa mágica havia se tornado quase pesada sobre seus ombros, como se absorvesse a umidade da floresta e a transformasse em peso. Gillian fechava a formação ao lado de Ikarus, que observava cada sombra com a mão firme na espada.


Horas se passaram.


O céu acima deles permanecia estranho. A estrela que sumira não havia voltado. Em seu lugar, havia apenas um vazio que doía nos olhos se alguém olhasse por tempo demais.


Foi Gillian quem notou primeiro.


— Ali.


Ela apontou para uma clareira estreita à frente. No centro, o chão estava rachado. Não como se tivesse sido partido por força, mas como se tivesse sido… aberto por dentro. Uma linha fina e escura atravessava a terra, irradiando um calor quase imperceptível.


Derek se aproximou com cautela.


Os Brincos de Valeth queimaram contra sua pele.


— Isso não é natural.


Thomas ajoelhou-se ao lado da rachadura e passou dois dedos sobre a borda. A pedra estava quente. E, por um segundo, ele jurou ter ouvido um sussurro vindo de baixo.


— Alguém passou por aqui recentemente — disse ele. — Ou alguma coisa.


Ikarus franziu o cenho.


— Ranur?


— Não — respondeu Thomas. — O Grifo voa. Isso… caminhou.


O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som distante.


Não era o rugido do Grifo.  

Não era vento.  

Não era animal.


Era um eco. Um eco de passos pesados, lentos, que vinham de muito longe — e ao mesmo tempo pareciam estar logo abaixo deles.


Raella deu um passo para trás.


— Precisamos sair daqui. Agora.


Ninguém discordou.


Eles aceleraram o passo, seguindo o rastro quase invisível que o Grifo havia deixado no céu. A floresta, aos poucos, começou a rarear. As árvores mortas deram lugar a um terreno mais aberto, rochoso, onde o vento soprava sem obstáculos.


Foi ali que viram.


No horizonte, cortando as nuvens baixas, a silhueta dourada do Grifo de Lenória. Ranur ainda voava, mas agora em círculos amplos, como se estivesse examinando algo no chão.


E abaixo dele…


Uma segunda rachadura.  

Muito maior.  

Muito mais profunda.


A terra havia se aberto em um vale estreito e longo, como se alguém tivesse puxado uma cicatriz antiga e forçado a ferida a sangrar novamente. Do interior da fenda subia um vapor escuro, carregado do mesmo cheiro metálico que haviam sentido na Árvore Negra.


Thomas pousou as asas e observou em silêncio.


— Isso não é obra dos Guardiões.


Derek apertou os brincos.


— Então de quem é?


Ninguém respondeu.


Porque, no fundo da fenda, algo se mexeu.


Não um Guardião.  

Não um Hunen.  

Não Angarkor.


Algo que havia esperado tempo demais.


E que, finalmente, havia encontrado o caminho de volta para a superfície.


Ranur, lá no alto, puxou as rédeas invisíveis do Grifo e desceu em direção ao grupo. Sua armadura dourada brilhava como um sol pequeno e cansado.


Quando pousou a poucos metros deles, o Guardião de Lenória desceu da criatura e os encarou por um longo momento.


— Vocês ouviram o chamado — disse ele, a voz baixa e grave. — E ainda assim vieram.


Não era uma pergunta.


Derek engoliu em seco.


— O Ent disse que não tínhamos escolha.


Ranur assentiu lentamente.


— Ele estava certo.


Então apontou para a enorme rachadura no chão.


— Isso é só o começo. Os Três Desertores não estão apenas se movendo. Eles estão… abrindo caminhos. Caminhos que deveriam ter permanecido selados.


O Grifo rugiu baixo, inquieto.


Ranur olhou para o grupo — agora reduzido a cinco — e pela primeira vez seus olhos dourados mostraram algo parecido com urgência.


— Se vocês ainda querem ter alguma chance de entender o que está acontecendo… e de sobreviver a isso… venham comigo.


Ele montou novamente no Grifo.

— Ou fiquem aqui e assistam o mundo começar a sangrar.

O vento uivou entre as rochas.

E, no fundo da fenda, a coisa antiga sorriu sem boca.

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