Por Yuri Schein
A Floresta Encantada não queria deixá-los partir.
Cada passo do grupo era contestado. Galhos se fechavam atrás deles como dedos. A névoa se adensava sem motivo. O chão, antes firme, agora cedia em pontos aleatórios, como se a própria terra hesitasse em carregá-los.
Derek caminhava na frente, os Brincos de Valeth pendurados no pescoço por um cordão improvisado. A luz que eles emitiam havia mudado. Já não era mais o brilho suave e quase reconfortante de antes. Agora pulsava de forma irregular, como um coração ferido.
— Eles estão reagindo a alguma coisa — murmurou ele, sem olhar para trás.
Thomas, logo atrás, mantinha as asas semiabertas, pronto para voar a qualquer instante.
— Ou a alguém.
Raella não respondeu. A capa mágica havia se tornado quase pesada sobre seus ombros, como se absorvesse a umidade da floresta e a transformasse em peso. Gillian fechava a formação ao lado de Ikarus, que observava cada sombra com a mão firme na espada.
Horas se passaram.
O céu acima deles permanecia estranho. A estrela que sumira não havia voltado. Em seu lugar, havia apenas um vazio que doía nos olhos se alguém olhasse por tempo demais.
Foi Gillian quem notou primeiro.
— Ali.
Ela apontou para uma clareira estreita à frente. No centro, o chão estava rachado. Não como se tivesse sido partido por força, mas como se tivesse sido… aberto por dentro. Uma linha fina e escura atravessava a terra, irradiando um calor quase imperceptível.
Derek se aproximou com cautela.
Os Brincos de Valeth queimaram contra sua pele.
— Isso não é natural.
Thomas ajoelhou-se ao lado da rachadura e passou dois dedos sobre a borda. A pedra estava quente. E, por um segundo, ele jurou ter ouvido um sussurro vindo de baixo.
— Alguém passou por aqui recentemente — disse ele. — Ou alguma coisa.
Ikarus franziu o cenho.
— Ranur?
— Não — respondeu Thomas. — O Grifo voa. Isso… caminhou.
O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som distante.
Não era o rugido do Grifo.
Não era vento.
Não era animal.
Era um eco. Um eco de passos pesados, lentos, que vinham de muito longe — e ao mesmo tempo pareciam estar logo abaixo deles.
Raella deu um passo para trás.
— Precisamos sair daqui. Agora.
Ninguém discordou.
Eles aceleraram o passo, seguindo o rastro quase invisível que o Grifo havia deixado no céu. A floresta, aos poucos, começou a rarear. As árvores mortas deram lugar a um terreno mais aberto, rochoso, onde o vento soprava sem obstáculos.
Foi ali que viram.
No horizonte, cortando as nuvens baixas, a silhueta dourada do Grifo de Lenória. Ranur ainda voava, mas agora em círculos amplos, como se estivesse examinando algo no chão.
E abaixo dele…
Uma segunda rachadura.
Muito maior.
Muito mais profunda.
A terra havia se aberto em um vale estreito e longo, como se alguém tivesse puxado uma cicatriz antiga e forçado a ferida a sangrar novamente. Do interior da fenda subia um vapor escuro, carregado do mesmo cheiro metálico que haviam sentido na Árvore Negra.
Thomas pousou as asas e observou em silêncio.
— Isso não é obra dos Guardiões.
Derek apertou os brincos.
— Então de quem é?
Ninguém respondeu.
Porque, no fundo da fenda, algo se mexeu.
Não um Guardião.
Não um Hunen.
Não Angarkor.
Algo que havia esperado tempo demais.
E que, finalmente, havia encontrado o caminho de volta para a superfície.
Ranur, lá no alto, puxou as rédeas invisíveis do Grifo e desceu em direção ao grupo. Sua armadura dourada brilhava como um sol pequeno e cansado.
Quando pousou a poucos metros deles, o Guardião de Lenória desceu da criatura e os encarou por um longo momento.
— Vocês ouviram o chamado — disse ele, a voz baixa e grave. — E ainda assim vieram.
Não era uma pergunta.
Derek engoliu em seco.
— O Ent disse que não tínhamos escolha.
Ranur assentiu lentamente.
— Ele estava certo.
Então apontou para a enorme rachadura no chão.
— Isso é só o começo. Os Três Desertores não estão apenas se movendo. Eles estão… abrindo caminhos. Caminhos que deveriam ter permanecido selados.
O Grifo rugiu baixo, inquieto.
Ranur olhou para o grupo — agora reduzido a cinco — e pela primeira vez seus olhos dourados mostraram algo parecido com urgência.
— Se vocês ainda querem ter alguma chance de entender o que está acontecendo… e de sobreviver a isso… venham comigo.
Ele montou novamente no Grifo.
— Ou fiquem aqui e assistam o mundo começar a sangrar.
O vento uivou entre as rochas.
E, no fundo da fenda, a coisa antiga sorriu sem boca.
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