Por Yuri Schein
O interior do Templo de Kallon era mais frio do que o lado de fora.
A pedra clara das paredes e colunas brilhava com um azul fraco e constante, alimentado por runas antigas que pareciam ter sido esculpidas diretamente pela água ao longo de séculos. O teto parcial deixava entrar a luz das duas luas, projetando faixas prateadas sobre o chão de pedra lisa. No centro do salão principal havia uma depressão circular rasa — uma bacia natural preenchida por água cristalina e luminosa, a mesma água que brotava no pátio externo, mas aqui mais pura, mais densa, mais viva.
Thomas depositou Ikarus com cuidado dentro da bacia.
A água subiu até a altura do peito do guerreiro. A aura dourada e azul reagiu imediatamente, expandindo-se em ondulações que faziam a superfície brilhar com intensidade renovada. A ferida no peito, ainda aberta, parou de sangrar no instante em que a água a tocou. Filamentos de luz dourada e azul se misturaram à água, como se o próprio domínio de Kallon estivesse examinando cada camada do corpo e da essência de Ikarus.
Raella ajoelhou-se na beira da bacia, a capa mágica finalmente respondendo com um brilho mais estável.
— Está funcionando…
Gillian sentou-se contra uma coluna, o braço quebrado latejando, mas os olhos fixos no companheiro.
— E agora?
A resposta não veio de nenhum deles.
A água da bacia se ergueu.
Não de forma violenta. De forma deliberada. Uma coluna líquida e luminosa se formou acima do corpo de Ikarus, tomando a forma parcial de um homem — cabelos longos e azuis, olhos do mesmo tom profundo, o mesmo sorriso sereno que Ikarus havia visto no fundo do mar. Kallon não estava completamente materializado. Era uma projeção, uma extensão da presença do Hunen através da água sagrada do Templo. Ainda assim, a força que emanava dele fazia o ar tremer suavemente.
— Vocês o trouxeram a tempo — disse a voz de Kallon, ecoando tanto no salão quanto dentro da mente dos três. — A mistura dos domínios estava prestes a se tornar instável demais.
Thomas deu um passo à frente, as asas meio abertas por instinto.
— Ele vai sobreviver?
— Vai — respondeu Kallon. — Mas o processo não será rápido nem indolor. O dourado de Ranur e o azul do meu sangue precisam se acomodar um ao outro. Ranur ofereceu o poder de um Guardião no momento da morte. Eu ofereço o domínio das águas e a herança que sempre foi dele. Os dois precisam se tornar um só dentro de Ikarus… ou ele se quebrará entre eles.
A coluna de água se inclinou sobre o corpo do guerreiro. Filamentos luminosos desceram e penetraram a ferida no peito, a aura, a própria pele. Ikarus se arqueou dentro da bacia, um gemido baixo escapando dos lábios. A luz ao redor dele explodiu em intensidade — dourado e azul girando um em torno do outro como duas tempestades tentando se fundir.
Raella estendeu a mão, mas não tocou a água.
— Isso está doendo nele.
— Está — confirmou Kallon, sem suavizar a verdade. — Dor é o preço de carregar dois domínios. Mas a dor agora é necessária. Se eu tentar apressar… ou se tentar separar o que já começou a se misturar… ele morre.
Gillian apertou os dentes.
— Quanto tempo?
— Horas. Talvez o resto da noite. Talvez até o amanhecer. Enquanto isso, a ilha ainda não está segura. Os ataques necromânticos foram repelidos em grande parte, mas não completamente. Criaturas ainda rondam as florestas e as costas. Vocês precisarão proteger este lugar até que o processo termine.
Thomas ergueu os montantes, o olhar endurecido.
— Então protegemos.
Kallon inclinou a cabeça em um gesto que quase parecia gratidão.
— Façam isso. E quando Ikarus despertar… ele não será mais apenas o guerreiro que caiu diante de Angarkor. Nem apenas o portador residual de Ranur. Será meu filho, consciente do que carrega. E o fortalecimento que receberá aqui será o suficiente para que ele retorne a Lenória… e enfrente o que ainda está por vir.
A projeção de água começou a se dissipar lentamente, retornando à bacia. A voz de Kallon ecoou uma última vez, mais baixa, dirigida apenas a Ikarus:
— Aguente, meu filho. Eu estou aqui agora.
A luz dourada e azul ao redor de Ikarus se estabilizou em um brilho intenso e constante. O corpo dele parou de se contorcer. A respiração se tornou mais profunda, mais regular. A ferida no peito começou a se fechar sob a água luminosa, não com cicatrizes comuns, mas com linhas finas de luz entrelaçada.
Lá fora, o vento uivava entre os penhascos.
Em algum ponto da floresta abaixo, algo grande se movia entre as árvores carbonizadas.
Thomas posicionou-se na entrada do Templo, montantes prontos. Gillian se levantou com dificuldade, a espada na mão boa. Raella ficou perto da bacia, a capa finalmente recuperando um pouco de brilho, pronta para defender o processo que ainda estava longe de terminar.
A noite na Ilha de Kallon havia apenas começado.
E, dentro da água sagrada, o único filho de um Hunen com uma mortal começava, finalmente, a se tornar o que sempre deveria ter sido.
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