Por Yuri Schein
A noite em Lenória não era mais a mesma.
Ranur permanecia imóvel no centro da praça principal, a armadura dourada ainda pulsando com uma luz fraca e constante. O Grifo de Lenória pairava acima dele, asas abertas o suficiente para cobrir metade do céu da cidade. Seus olhos âmbar varriam o horizonte como se procurassem algo que ainda não havia se revelado.
Os sinos continuavam tocando.
Não o toque apressado de alarme, nem o ritmo solenemente marcado de uma cerimônia. Era um som antigo, irregular, quase hesitante — como se os próprios sinos estivessem tentando lembrar uma melodia que ninguém havia tocado em séculos.
Ranur ergueu o olhar para o ponto do céu onde a estrela havia desaparecido.
Não havia buraco. Não havia sombra. Apenas ausência.
E a ausência doía.
— Não é um inimigo que se aproxima — murmurou o Guardião, a voz baixa o bastante para que apenas o Grifo o ouvisse. — É algo que já está aqui. Algo que sempre esteve.
O Grifo soltou um rugido curto, quase um rosnado de reconhecimento. As garras se cerraram no ar, e uma rajada de vento desceu sobre a praça, apagando dezenas de tochas de uma só vez. As pessoas que ainda ousavam permanecer nas ruas recuaram em silêncio. Ninguém ousou gritar. Ninguém ousou perguntar.
Porque todos sabiam.
Quando Ranur descia, a pergunta já havia se tornado irrelevante.
Enquanto isso, em outras onze torres espalhadas por Ad’Heim, o mesmo eco chegava.
Em Aldora, Aldren abriu os olhos no interior de sua torre parcialmente soterrada. A areia ao redor começou a se mover sozinha, formando padrões que nenhum vento poderia desenhar. Do deserto ergueram-se escamas, depois asas, depois o corpo inteiro do Dragão de Aldora — uma criatura tão grande que as dunas pareciam grãos de poeira sob suas garras. Aldren colocou a mão sobre o peito da armadura e sentiu o mesmo chamado que Ranur havia sentido.
— Chegou a hora de lembrar — disse ele ao dragão. — E de fazer com que os outros também lembrem.
Em Sefrion, Seyron pronunciou uma única palavra. A montanha onde sua torre estava escondida tremeu. Runas antigas se acenderam nas paredes internas, e do fogo que nunca se apagava nasceu a Fênix. Suas penas não queimavam — elas consumiam a própria escuridão.
Em Kallon, as ondas pararam de bater contra os penhascos por um instante. Kael desceu os degraus de sua torre e estendeu a mão para o oceano. A Serpente Marinha emergiu das profundezas, olhos enormes refletindo as duas luas. O Guardião do Mar não precisou falar. O mar já sabia.
Em Baltamus, engrenagens que não giravam há gerações começaram a se mover. Balther observou o Golem despertar — pedra e metal se erguendo como se a própria montanha tivesse decidido caminhar.
Em Valeth, o Pégaso desceu em silêncio absoluto.
Em Khsandra, as raízes da Árvore Ancestral se moveram sob a terra.
Em Gallen, o Roc atravessou as nuvens com um grito que fez os trovões responderem.
Em Irdos, o Titã de Pedra ergueu a cabeça.
Em Setra, o Cervo Branco apareceu entre as árvores, e a vida floresceu onde seus cascos tocavam o chão.
Em Thimos, o tempo hesitou por um segundo — apenas um segundo — e o Dragão Cronarca abriu os olhos em três eras diferentes ao mesmo tempo.
E em Arteph…
A torre negra permaneceu silenciosa por mais tempo que as outras.
Artheon não desceu.
Não precisava.
Do outro lado da passagem que ele guardava, Cerberus já estava acordado. Três cabeças. Três pares de olhos. E um rosnado baixo que ecoou não apenas na torre, mas em todos os lugares onde os mortos ainda sonhavam.
De volta a Lenória, Ranur sentiu cada um desses despertares como se fossem cordas sendo puxadas em sua própria alma.
O Grifo abaixou a cabeça até ficar quase no mesmo nível do Guardião.
— Eles também ouviram — disse Ranur. — Todos nós ouvimos.
Ele olhou novamente para o céu vazio onde a estrela deveria estar.
— Não é Angarkor. Ainda não.
Mas está ligado a ele.
E aos três que desertaram.
O vento mudou de direção. Pela primeira vez em séculos, Ranur sentiu algo que quase nunca experimentava: urgência.
— Prepare-se — ordenou ao Grifo. — Vamos precisar voar mais longe do que já voamos em muito tempo.
Enquanto a criatura batia as asas e se elevava, levando o Guardião consigo, um pensamento cruzou a mente de Ranur como uma lâmina fria:
Os Doze haviam sido criados para manter a ordem.
Mas a ordem só precisava ser defendida quando alguém tentava quebrá-la de propósito.
E alguém — ou alguma coisa — acabara de tentar.
No alto do céu, acima de Lenória, o Grifo rugiu mais uma vez.
Desta vez, o rugido não foi apenas de aviso.
Foi de resposta.
E, em algum lugar muito distante, no coração da Floresta Encantada, a Árvore Negra estremeceu.
Como se, pela primeira vez em eras, também estivesse ouvindo o mesmo chamado.
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