Por Yuri Schein
O primeiro raio de sol atravessou o teto parcial do Templo exatamente quando a água da bacia parou de se mover.
A luz azul-dourada ao redor de Ikarus atingiu um pico de intensidade tão forte que Thomas, Gillian e Raella precisaram desviar o olhar por um instante. Quando voltaram a enxergar, a água luminosa estava descendo lentamente, retornando ao nível normal da bacia. O corpo de Ikarus, que até então flutuara sustentado pela magia, agora repousava sobre a pedra rasa, completamente imóvel.
Depois, ele abriu os olhos.
Não eram mais apenas os olhos do guerreiro que haviam conhecido. O azul profundo de Kallon dominava as íris, mas fios dourados residuais de Ranur ainda atravessavam o olhar como veios de luz. A ferida no peito havia desaparecido por completo, deixando apenas uma cicatriz fina e luminosa que brilhava com as duas cores fundidas. A aura ao redor do corpo se estabilizou em um brilho constante e controlado — azul-dourado, denso, vivo.
Ikarus sentou-se devagar dentro da bacia. A água escorreu pelos ombros e pelo peito. Ele olhou para as próprias mãos, depois para os três companheiros que o observavam em silêncio absoluto.
— Eu… ouvi tudo — disse ele, a voz rouca, mas firme. — Kallon. O Templo. O que eu sou.
Thomas deu um passo à frente, ainda segurando os montantes, como se não tivesse certeza se o homem à frente era completamente o mesmo.
— Você está… diferente.
— Estou — confirmou Ikarus. Ele se levantou. A água não o segurou. A aura se moveu com ele, como uma segunda pele. — O poder de Ranur não desapareceu. O sangue de Kallon não está mais adormecido. Os dois se acomodaram. Eu consigo sentir o mar… e consigo sentir a guerra. Ao mesmo tempo.
Gillian engoliu em seco, o braço quebrado ainda pressionado contra o peito.
— E agora? O que você pretende fazer?
Ikarus olhou para a entrada do Templo, na direção leste, onde, além do Mar Divisor, Lenória Imperial ainda ardia em algum lugar distante.
— Agora eu volto. Kallon disse que o fortalecimento que recebi aqui seria o suficiente para eu retornar a Lenória. Então é isso que vou fazer. Vaelthas Levi abriu a Costura. Angarkor ainda está solto. As cidades estão caindo. Eu não posso permanecer na ilha enquanto o resto de Ad’Heim sangra.
Raella se aproximou, a capa finalmente recuperando um brilho mais estável.
— Você acabou de acordar de algo que quase te matou. Tem certeza de que já está pronto?
Ikarus ergueu a mão. A água da bacia respondeu imediatamente, elevando-se em um filamento fluido que orbitou ao redor de seus dedos antes de voltar a cair. Em seguida, a aura dourada residual se concentrou na mesma mão, formando por um instante a silhueta de uma lâmina de luz.
— Eu não estou completo. Ainda preciso aprender a usar o que carrego. Mas estou vivo. E estou mais forte do que quando caí diante de Angarkor. Isso vai ter que ser o suficiente por enquanto.
Ele saiu da bacia. A pedra sob seus pés não ecoou como antes. Cada passo parecia mais firme, mais consciente. Quando passou pela entrada do Templo, a poça luminosa do pátio reagiu, enviando ondulações azuis em sua direção como se o próprio domínio de Kallon o reconhecesse e o abençoasse uma última vez.
Thomas trocou um olhar com as outras duas.
— Então vamos. Se ele está voltando para Lenória… nós também.
Gillian assentiu, mesmo exausta.
— Não vamos deixá-lo ir sozinho.
Raella ajustou a capa nos ombros.
— Nunca deixamos.
Ikarus parou na beira dos penhascos e olhou para o Mar Divisor. As águas ainda estavam escuras em muitos pontos, mas a corrente azul que os havia trazido agora parecia responder à sua presença, formando um caminho luminoso e estreito que apontava de volta para o leste.
— Kallon ainda está protegendo a travessia — murmurou ele. — Pelo menos até chegarmos perto da costa de Lenória.
Ele olhou para os três companheiros — os únicos que restavam do grupo que um dia havia entrado na Clareira da Árvore Negra.
— Obrigado. Por me carregarem até aqui. Por não desistirem.
Thomas deu um meio sorriso cansado.
— Não foi por favor. Foi porque ainda precisamos de você.
Ikarus assentiu uma única vez. Depois, sem mais palavras, começou a descer a trilha em direção à praia onde o barco ainda os esperava. A aura azul-dourada se movia com ele, discreta, mas inegável.
Atrás deles, o Templo de Kallon permaneceu em silêncio.
A água da bacia sagrada voltou a ficar imóvel.
E, em algum lugar nas profundezas do domínio das águas, o Hunen observava o filho partir — não mais como um mortal ferido, mas como o único ser em Ad’Heim que carregava, ao mesmo tempo, o ouro de um Guardião e o azul de um senhor dos mares.
A volta para Lenória havia começado.
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