Elias descobriu que a dor tinha sons.
Até aquela noite, imaginava que a dor fosse apenas uma sensação do corpo, uma reação inevitável diante de um ferimento, de uma doença ou de qualquer outra coisa capaz de romper a carne.
Estava errado.
A dor também podia ser ouvida.
Podia estar no choro de alguém.
No ruído das correntes.
No som de uma respiração interrompida.
No silêncio que vinha depois de um grito.
E havia ainda uma forma pior de dor.
Aquela que não precisava de ferimento.
Aquela que entrava pelos olhos.
Elias estava acorrentado a uma parede de pedra.
Os pulsos estavam machucados.
Havia sangue seco em sua testa.
Seu corpo inteiro doía, mas nada disso importava.
Do outro lado da sala estava ela.
A mulher que ele amava.
A única pessoa que, até aquela noite, fazia Elias acreditar que o mundo ainda possuía alguma beleza.
Ela estava sentada no chão.
Ferida.
Exausta.
Mas viva.
Elias agarrou as correntes.
— Deixem ela ir.
Ninguém respondeu.
Um dos homens caminhou lentamente pela sala.
Não parecia estar com pressa.
Esse detalhe perturbou Elias mais do que qualquer ameaça.
Homens violentos normalmente queriam terminar rápido.
Aquele homem não.
Ele queria assistir.
Queria prolongar.
Queria observar o efeito de cada palavra, cada golpe, cada segundo de desespero.
— Você sabe por que está aqui? — perguntou.
Elias respirou com dificuldade.
— Não.
— Mentira.
— Eu realmente não sei.
O homem se aproximou.
— Você estuda magia.
Elias não respondeu.
— Estuda coisas antigas.
Silêncio.
— Pergunta sobre os mortos.
Elias sentiu um arrepio.
O homem sorriu.
— Agora estamos chegando a algum lugar.
Elias olhou para ela.
Ela estava olhando para ele.
E, apesar de tudo, havia alguma coisa naquele olhar.
Não era medo.
Era uma espécie de pedido.
Não para salvá-la.
Elias percebeu isso imediatamente.
Era um pedido para que ele sobrevivesse.
Mas ele não queria sobreviver.
Não daquele jeito.
Não se sobreviver significasse continuar olhando.
---
A tortura começou naquela noite.
Não foi uma única coisa.
Foi uma sucessão.
Horas.
Talvez dias.
Elias perdeu a noção do tempo.
Às vezes dormia.
Às vezes desmaiava.
Às vezes acordava sem saber onde estava.
Mas sempre havia uma constante.
Ela estava ali.
Eles faziam questão disso.
Era essa a verdadeira tortura.
Não queriam apenas ferir Elias.
Queriam que ele associasse cada segundo de sua existência à incapacidade de protegê-la.
Quando ele fechava os olhos, ouvia a voz dela.
Quando abria, via o sofrimento.
Quando implorava, riam.
Quando ameaçava, batiam nele.
Quando tentava usar magia, anulavam seus feitiços.
Quando permanecia em silêncio, diziam que ela sofreria por causa de seu silêncio.
Era um jogo.
Elias percebeu isso.
Tudo aquilo era calculado.
Eles não estavam simplesmente tentando obter informações.
Estavam tentando destruir sua mente.
E estavam conseguindo.
---
Em determinado momento, Elias percebeu que não conseguia mais sentir os dedos.
Tentou movê-los.
Nada.
Olhou para as próprias mãos.
Elas tremiam.
— Elias...
Ele ergueu a cabeça.
Ela estava olhando para ele.
— Não fale.
— Elias...
— Não fale.
Ele não queria ouvi-la.
Porque sabia que, se ouvisse sua voz, lembraria de como ela era antes.
Da casa.
Da fogueira.
Dos livros.
Das discussões.
Dos pequenos momentos.
Das coisas que nunca haviam parecido importantes.
Ela respirou fundo.
— Olhe para mim.
Elias olhou.
— Não para eles.
Ele desviou os olhos dos torturadores.
Olhou apenas para ela.
— Lembra da nossa casa?
Elias começou a chorar.
— Não.
— Lembra.
— Não consigo.
— Consegue.
Ela sorriu.
Mesmo ferida.
Mesmo exausta.
Mesmo sabendo que provavelmente não sairia dali.
— Você nunca arrumava os livros.
Elias soltou uma pequena risada.
Foi involuntária.
Quase imperceptível.
Mas aconteceu.
Ela sorriu também.
— Eu sabia.
— Você escondia meus livros.
— Porque você precisava sair de casa.
— Eu sempre encontrava.
— Porque você era irritante.
— Você gostava.
Ela respirou.
— Gostava.
Por alguns segundos, não havia tortura.
Não havia homens.
Não havia correntes.
Não havia Hunens.
Não havia morte.
Havia apenas os dois.
Elias fechou os olhos.
Queria permanecer naquele instante para sempre.
Mas o mundo não permitiu.
---
A porta se abriu.
Um dos homens entrou.
O momento acabou.
Elias abriu os olhos.
O homem olhou para os dois.
— Bonito.
Ninguém respondeu.
Ele caminhou até ela.
Elias puxou as correntes.
— Não.
O homem continuou.
— Eu disse não!
Elias tentou conjurar magia.
Nada.
Tentou novamente.
Nada.
Seu corpo estava fraco.
O homem olhou para ele.
— Você ainda não entendeu.
Elias respirou violentamente.
— O quê?
— Aqui, você não tem poder.
Então aconteceu.
Elias compreendeu algo que levaria anos para aceitar.
Poder não era aquilo que você conseguia fazer.
Poder era aquilo que você conseguia impedir.
E naquele momento...
Elias não conseguia impedir nada.
---
A noite terminou.
Ou começou.
Ele não sabia.
O tempo havia perdido significado.
Até que ela olhou para ele uma última vez.
Elias percebeu.
Não porque alguém disse.
Não porque algum presságio surgiu.
Não porque os Hunens anunciaram.
Ele simplesmente soube.
Ela estava morrendo.
— Não...
Ele se arrastou.
As correntes rasgaram sua pele.
— Não.
Ela olhou para ele.
— Elias...
— Não.
— Escute.
— Não.
— Escute.
Ele chorava.
— Eu estou aqui.
Ela sorriu.
— Eu sei.
— Eu vou tirar você daqui.
Ela balançou a cabeça.
— Não.
— Vou.
— Elias...
— Eu vou.
Ela respirou com dificuldade.
— Você precisa viver.
— Não sem você.
Ela fechou os olhos por um instante.
Depois abriu.
— Principalmente sem mim.
Elias ficou imóvel.
— Prometa.
Ele não respondeu.
— Prometa.
— Eu prometo.
Ela sorriu.
Então disse:
— Não se torne como eles.
Elias chorou.
— Eu prometo.
Ela fechou os olhos.
Dessa vez...
não abriu novamente.
---
O mundo parou.
Elias continuou olhando.
Esperou.
Talvez ela respirasse novamente.
Talvez algum milagre acontecesse.
Talvez Elyndra, a Hunen da Vida, escutasse.
Talvez os deuses não fossem indiferentes.
Talvez alguém aparecesse.
Talvez Arteph viesse buscá-la.
Talvez...
Nada.
O corpo permaneceu imóvel.
Elias olhou para os homens.
Ninguém disse nada.
Um deles simplesmente virou as costas.
Como se aquilo tivesse sido apenas mais uma tarefa.
E foi nesse momento que alguma coisa dentro de Elias se rompeu.
Não foi uma explosão.
Não houve grito.
Não houve magia.
Foi muito pior.
Foi silêncio.
Elias parou de chorar.
Parou de lutar.
Parou de falar.
Apenas ficou olhando para ela.
Por horas.
Talvez dias.
Até que alguém finalmente abriu a porta.
— Levante.
Elias não respondeu.
— Levante!
Nada.
O homem aproximou-se.
— Você está livre.
Elias levantou os olhos.
— Livre?
— Sim.
Ele olhou para o corpo dela.
— Ela também?
O homem não respondeu.
Elias sorriu.
Não havia humor naquele sorriso.
Era apenas vazio.
— Então eu não estou livre.
---
Elias foi deixado em uma estrada.
Sozinho.
Ferido.
Sem dinheiro.
Sem casa.
Sem ela.
Sem respostas.
Andou durante horas.
Depois dias.
Não sabia para onde estava indo.
Talvez estivesse voltando para casa.
Talvez estivesse fugindo dela.
Quando finalmente chegou à sua antiga comunidade, encontrou apenas cinzas.
A casa havia sido destruída.
Os livros haviam queimado.
A mesa onde ela costumava sentar estava reduzida a pedaços.
O pequeno jardim estava morto.
Elias entrou.
Caminhou entre os escombros.
Encontrou uma página parcialmente queimada.
Reconheceu sua própria letra.
Segurou o papel.
Depois sentou-se no chão.
E ficou ali.
Não chorou.
Não gritou.
Não fez nada.
Apenas ficou.
---
Naquela noite, pela primeira vez, Elias tentou falar com os mortos.
Não porque fosse um necromante.
Não porque desejasse poder.
Não porque quisesse desafiar os Hunens.
Ele queria apenas uma coisa.
Ouvir a voz dela novamente.
Foi até o lugar onde havia estudado magia anos antes.
Encontrou velas.
Pegou giz.
Desenhou um círculo.
As mãos tremiam.
Ele abriu livros antigos.
Consultou símbolos.
Repetiu palavras.
Nada.
Tentou novamente.
Nada.
Acendeu outra vela.
Refez o círculo.
Derramou sangue.
Pronunciou o nome dela.
Nada.
Elias bateu as mãos sobre a mesa.
— Responda!
Silêncio.
— Eu sei que você está aí!
Silêncio.
— Responda!
Nada.
Ele respirou.
Tentou novamente.
Dessa vez não pediu.
Ordenou.
— Pelo sangue.
Nada.
— Pela memória.
Nada.
— Pela vida que compartilhamos.
Nada.
Elias fechou os olhos.
— Pelo amor...
A vela apagou.
Elias abriu os olhos.
A sala estava escura.
Então ouviu alguma coisa.
Um som.
Muito baixo.
Atrás dele.
Elias ficou imóvel.
Era uma voz.
Fraca.
Distante.
Quase um sussurro.
— Elias...
Seu coração parou.
Ele virou-se.
Não havia ninguém.
— Você está aí?
Silêncio.
— Sou eu.
Nada.
Elias levantou-se.
— Eu sabia.
A voz voltou.
— Elias...
Ele correu para o centro do círculo.
— Onde você está?
A resposta veio de algum lugar que ele não conseguia localizar.
— Não é ela.
Elias congelou.
— O quê?
Silêncio.
— Quem é você?
Nenhuma resposta.
— Quem está falando comigo?
A vela reacendeu sozinha.
Elias recuou.
O símbolo no chão começou a brilhar.
Então uma segunda voz surgiu.
Mais profunda.
Mais distante.
E muito mais antiga.
— Você não deveria ter aberto essa porta.
Elias olhou para o círculo.
— Quem é você?
— Alguém que conhece o lugar para onde você enviou sua pergunta.
Elias respirou.
— Onde ela está?
A voz respondeu:
— Morta.
Elias fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não. Você não sabe.
Elias abriu os olhos.
— Então me diga.
Silêncio.
— Diga!
A voz respondeu:
— Você acredita que os mortos simplesmente desaparecem.
— Não.
— Você acredita que Arteph os recebe.
Elias ficou imóvel.
— Não sei.
— Mas você quer saber.
Elias olhou para o círculo.
— Quero.
A voz riu.
Não foi uma risada humana.
Foi como ouvir várias pessoas rindo ao mesmo tempo, em lugares diferentes.
— Então procure.
A chama da vela aumentou.
Elias olhou para o símbolo.
— Onde?
A voz respondeu:
— Na morte.
E desapareceu.
---
Na manhã seguinte, Elias começou sua pesquisa.
Não procurou mais feitiços comuns.
Não procurou mais encantamentos elementais.
Não estudou mais poções.
Não queria controlar fogo.
Não queria controlar água.
Não queria invocar criaturas.
Queria compreender a morte.
E quanto mais pesquisava, mais percebia que quase todos os livros importantes haviam sido destruídos.
Alguns estavam proibidos.
Outros eram considerados heréticos.
Alguns simplesmente não existiam mais.
Mas havia fragmentos.
Pedaços.
Notas.
Inscrições.
Relatos de antigos magos.
E, em quase todos eles, aparecia o mesmo nome.
Arteph.
Elias começou a reunir informações.
Descobriu que Arteph não era simplesmente aquele que "recebia os mortos".
Era o guardião de uma estrutura inteira.
Um mundo.
Um domínio.
Um lugar que os vivos não deveriam alcançar.
Os mortos eram conduzidos para lá.
Memórias eram separadas.
Espíritos eram julgados.
Caminhos eram definidos.
Portas eram fechadas.
E, acima de tudo...
a comunicação entre os dois mundos era proibida.
Elias leu aquela informação várias vezes.
Depois sorriu.
Pela primeira vez desde a morte dela.
Não era um sorriso feliz.
Era um sorriso de compreensão.
— Então é isso.
Ele fechou o livro.
— Você não está apenas morto.
Olhou para o símbolo que havia desenhado.
— Você está longe.
E havia uma diferença enorme entre as duas coisas.
---
Os meses seguintes transformaram Elias.
Ele parou de viver como antes.
Dormia pouco.
Comia apenas o suficiente.
Estudava durante horas.
Testava rituais.
Conversava com espíritos menores.
Aprendeu a reconhecer ecos de almas.
Descobriu que nem todo cadáver estava vazio.
Alguns continham fragmentos.
Memórias.
Sensações.
Traços da personalidade.
Informações.
E Elias descobriu algo ainda mais perturbador.
Os mortos sabiam coisas que os vivos não sabiam.
Eles haviam visto o outro lado.
Conheciam lugares esquecidos.
Conheciam pessoas mortas.
Conheciam acontecimentos que jamais haviam sido registrados.
Elias começou a conversar com eles.
No começo, eram respostas fragmentadas.
Depois vieram diálogos.
Então informações.
Ele aprendeu a prender espíritos.
A libertá-los.
A obrigá-los a responder.
A proteger-se deles.
A utilizar ossos como receptáculos.
A preservar memórias.
A manipular energia vital.
A chamar aquilo que estava do outro lado.
E, lentamente...
a palavra começou a aparecer.
Primeiro em sussurros.
Depois em acusações.
Finalmente em histórias.
Necromancia.
---
Um antigo sacerdote encontrou Elias em uma biblioteca.
Observou os livros espalhados.
Olhou para os símbolos.
Depois olhou para ele.
— Pare.
Elias continuou escrevendo.
— Você ouviu?
— Ouvi.
— Então pare.
Elias levantou os olhos.
— Por quê?
O sacerdote respirou fundo.
— Porque isso pertence a Arteph.
Elias ficou em silêncio.
— Você está atravessando uma fronteira que não pertence aos homens.
— Quem decidiu isso?
— Os Hunens.
— Qual deles?
O sacerdote hesitou.
— Todos.
Elias sorriu.
— Então é uma lei.
— Sim.
— Não uma lei da natureza.
O sacerdote franziu a testa.
— O que isso significa?
Elias voltou aos livros.
— Significa que alguém decidiu que eu não posso fazer isso.
— Elias...
— Então existe uma razão.
— Existe.
— Qual?
O sacerdote ficou em silêncio.
Elias olhou para ele.
— É isso que ninguém consegue me responder.
O sacerdote aproximou-se.
— Você está brincando com forças que não entende.
Elias respondeu calmamente:
— É por isso que estou estudando.
---
Foi nesse momento que Elias deixou de estudar necromancia apenas para encontrar sua amada.
Ele passou a estudá-la para compreender Arteph.
E, quanto mais aprendia sobre Arteph...
mais percebia que o verdadeiro alvo não era apenas ele.
Arteph fazia parte de algo maior.
Os doze Hunens governavam o mundo.
Cada um possuía seu domínio.
Cada um possuía sua autoridade.
E, juntos, mantinham uma ordem.
Uma ordem que parecia perfeita.
Mas Elias começou a perceber pequenas rachaduras.
Contradições.
Mortos que não deveriam existir.
Espíritos que desapareciam.
Almas que não chegavam ao destino.
Memórias apagadas.
Registros contraditórios.
E, principalmente...
pessoas que haviam tentado atravessar a fronteira antes dele.
Todas haviam desaparecido.
Elias escreveu uma frase em seu livro.
Uma frase que permaneceria ali pelo resto de sua vida:
> "Se a ordem é perfeita, por que precisa esconder tanto?"
Ele fechou o livro.
Apagou a vela.
E saiu para a noite.
Sem saber que, naquele exato momento, muito acima dele, em um lugar que nenhum mortal poderia alcançar...
Arteph havia acabado de ouvir seu nome.
E, pela primeira vez em muitos séculos, o guardião do mundo dos mortos voltou sua atenção para um homem vivo.
Um homem insignificante.
Um homem sem exército.
Sem reino.
Sem sangue divino.
Sem criatura lendária.
Sem sequer saber o tamanho da guerra que estava começando.
Um homem chamado Elias.
E Arteph pronunciou seu nome:
— Necromante.
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