Por Yuri Schein
Carregar Ikarus foi a parte mais longa e mais silenciosa da jornada.
Thomas o ergueu com cuidado, as asas meio abertas para equilibrar o peso. A aura dourada e azul ao redor do corpo do guerreiro ainda pulsava de forma fraca e irregular, como um coração que se recusava a parar completamente. A ferida no peito continuava a sangrar luz e sangue, mas a mistura das duas cores parecia impedir que a morte se completasse de imediato. Gillian, com o braço quebrado improvisadamente amarrado contra o peito, caminhava ao lado, a outra mão firme na empunhadura da espada. Raella seguia logo atrás, a capa mágica agora opaca e pesada, os olhos vermelhos de cansaço e de tudo o que haviam perdido.
Ninguém falava.
O caminho de volta para o sul foi marcado por rachaduras no chão, vapor metálico que ainda subia em colunas irregulares e o silêncio opressor de uma terra que parecia estar segurando a respiração. As árvores da Floresta Encantada, que antes tentavam impedi-los de partir, agora estavam quietas demais. Muitas haviam morrido de verdade. Outras inclinavam-se para longe do rastro que o grupo deixava, como se temessem a luz residual que ainda emanava de Ikarus.
Horas se arrastaram.
Depois dias.
Eles evitaram as estradas principais. Seguiram trilhas de caçadores, leitos secos de rios e, quando necessário, o próprio voo curto e exaustivo de Thomas carregando Ikarus por trechos mais perigosos. A cada parada, Raella tentava estabilizar a ferida com o pouco de magia que a capa ainda oferecia. A cada amanhecer, a aura dourada e azul parecia um pouco mais fraca. A cada anoitecer, Ikarus murmurava palavras que nenhum deles compreendia — fragmentos de um idioma antigo, misturado com o som de correntes marinhas que não existiam naquela região.
Quando finalmente avistaram as muralhas de Lenória Imperial, o coração de todos afundou.
A cidade não era mais a mesma.
As altas muralhas de pedra branca, que um dia brilhavam sob o sol e ostentavam o símbolo do grifo em cada torre, agora estavam quebradas em dezenas de pontos. Grandes pedaços de pedra jaziam espalhados do lado de fora, como se um gigante tivesse socado a defesa da cidade até ela ceder. Bandeiras rasgadas e queimadas ainda tremulavam em alguns mastros, o grifo dourado quase irreconhecível sob a fuligem. Fumaça subia de vários bairros. O cheiro de carne queimada, de magia residual e de decomposição pairava no ar como uma névoa permanente.
E havia os mortos.
Não apenas corpos.
Havia mortos-vivos ainda caminhando entre os escombros. Zumbis com armaduras de soldados de Lenória, esqueletos montados em restos de cavalos, criaturas sombrias que se moviam pelas ruas como manchas vivas de escuridão. Em alguns pontos, dragões menores — não os grandes senhores das Montanhas Lendárias, mas bestas corrompidas, de escamas opacas e olhos esverdeados — sobrevoavam os telhados destruídos, soltando sopros de fogo negro que derretiam o que ainda restava de madeira e pedra.
Thomas pousou com cuidado atrás de uma elevação de terra, ainda fora do alcance imediato das criaturas. Gillian se ajoelhou ao lado de Ikarus, verificando a respiração. Raella cobriu o rosto com as mãos por um momento.
— Isso… não é possível — murmurou Gillian. — Lenória Imperial. A cidade do grifo. A sede do regente Oberon.
— Foi — respondeu Thomas, a voz baixa e rouca. — Agora é só mais um campo de batalha.
Eles se aproximaram com cautela, evitando as ruas principais. Pelas vielas laterais e pelos escombros de casas destruídas, conseguiram avançar alguns quarteirões. O que viram pelo caminho confirmava o pior. Cadáveres de civis e soldados misturados. Marcas de feitiçaria necromântica queimadas nas paredes. Portais menores que ainda se abriam e se fechavam em becos, vomitando mais mortos-vivos e seres sombrios de olhos vazios. Em uma praça, um dragão corrompido de tamanho médio destroçava o que restava de uma torre de vigia, enquanto um grupo de esqueletos avançava sobre um punhado de sobreviventes desesperados.
Raella parou de repente.
— Ouçam.
Vozes.
Não gritos de batalha. Sussurros. Conversas abafadas vindas de um porão parcialmente desabado. Thomas se aproximou com cuidado, os montantes prontos. Gillian cobriu a retaguarda. Quando abriram a porta improvisada de madeira quebrada, encontraram um grupo de cerca de vinte sobreviventes — soldados feridos, civis, uma sacerdotisa de Valeth com o rosto coberto de fuligem e uma criança que não parava de tremer.
A sacerdotisa ergueu um cajado improvisado ao vê-los, mas baixou ao reconhecer que não eram inimigos.
— Vocês… vieram de fora? — perguntou ela, a voz rouca. — Ainda existem lugares que não foram atingidos?
Thomas trocou um olhar com Gillian.
— Nós viemos da Costura. Do norte. O que aconteceu aqui?
A mulher soltou uma risada amarga e curta.
— O mesmo que aconteceu em todos os lugares, pelo que dizem os mensageiros que ainda conseguem chegar. Lenória foi só a primeira a cair de forma tão completa. Mas os rumores… os rumores são piores.
Ela se sentou pesadamente sobre um pedaço de muro desabado.
— Aldora foi atacada por legiões de mortos-vivos que saíram do próprio deserto. Sefrion viu suas torres de magia serem corrompidas de dentro para fora por feitiçaria negra. Kallon sofreu com serpentes marinhas corrompidas e portais abertos no fundo do oceano. Valeth, Gallen, até Baltamus… todas as grandes cidades. Todas. Ao mesmo tempo. Ou quase ao mesmo tempo. Mortos-vivos. Seres sombrios. Dragões corrompidos. Feitiçaria que quebra muralhas como se fossem madeira podre. É como se alguém tivesse coordenado tudo. Como se o mundo inteiro tivesse sido marcado no mesmo dia.
Raella sentiu a capa tremer sobre os ombros.
— Vaelthas Levi… — sussurrou ela. — O Necromante. Ele acelerou tudo depois que a Costura foi aberta.
A sacerdotisa ergueu o olhar.
— Vocês sabem o nome dele?
Ninguém respondeu de imediato.
Thomas ajeitou Ikarus com mais cuidado nos braços. A aura dourada e azul ainda pulsava, fraca, mas constante. Os olhos do guerreiro continuavam fechados. A respiração era rasa.
— Precisamos de um lugar seguro — disse Thomas. — Ele está entre a vida e a morte. E o que quer que esteja acontecendo dentro dele… ainda não terminou.
A sacerdotisa olhou para Ikarus por um longo momento. Os olhos dela se estreitaram ao notar a mistura de cores na aura.
— Tragam-no para baixo. Há um espaço mais protegido. Poucos mortos-vivos conseguem atravessar as bênçãos que ainda restam aqui. Mas não se iludam… Lenória Imperial não é mais um refúgio. É apenas um campo de ruínas que ainda resiste por teimosia.
Enquanto desciam as escadas estreitas e escuras do porão, o som distante de um dragão corrompido ecoou sobre a cidade devastada. Em algum lugar, mais muralhas caíam. Em algum lugar, mais portais se abriam.
E, em algum lugar muito mais distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi e Angarkor observavam mapas antigos se atualizarem sozinhos com as marcas de cada cidade que caía.
O mundo de Ad’Heim sangrava.
E Ikarus, carregado nos braços de Thomas, ainda sonhava com um homem de cabelos e olhos azuis no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário