sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: Arteph

 Três anos haviam se passado desde que Ikarus deixara Lenória pela segunda vez. Três anos desde que beijara a testa de Lyra, entregando-a novamente aos braços de Raella, e abraçara Eiran antes de partir. Três anos desde que prometera a Gillian que voltaria. Desta vez, porém, a distância havia sido muito maior. O mundo parecia ter sido desenhado para impedir que ele chegasse ao destino. Ikarus já não viajava como um homem comum. Os sete fragmentos estavam dentro dele e, com eles, algo que nenhum dos antigos portadores parecia ter conseguido dominar: os vínculos com os Guardiões que havia derrotado. Depois da morte de Serenya, a floresta de Khsandra lhe revelou que os seres invocados pelos Guardiões não desapareciam com a morte de seus mestres. Eles permaneciam ligados aos fragmentos. Ikarus descobriu isso quase por acaso. Quando tentou atravessar uma cadeia montanhosa, chamou a Águia de Valeth. A criatura desceu das nuvens, carregou-o por centenas de quilômetros e, em poucas horas, aquilo que levaria semanas havia sido atravessado. Em outra ocasião, quando precisava cruzar uma região coberta por pântanos, chamou o Grifo de Lenória. O enorme animal pousou diante dele e Ikarus percebeu que os antigos Guardiões haviam deixado muito mais do que fragmentos. Haviam deixado companheiros. A Coruja de Sefrion podia atravessar distâncias durante a noite em uma velocidade que nenhum cavalo alcançaria. O Centauro de Gallen podia percorrer planícies inteiras sem descansar. A Serpente de Kallon podia transportá-lo por rios e mares e, em determinadas ocasiões, mergulhá-lo em profundidades onde nenhum homem sobreviveria. A Árvore-Mãe de Khsandra permanecera em seu reino, ligada à floresta, mas havia permitido que algumas de suas raízes vivas acompanhassem o fragmento, formando uma espécie de vínculo espiritual que Ikarus podia sentir quando se aproximava de regiões corrompidas. E, mesmo que ainda não compreendesse completamente a natureza desses poderes, Ikarus aprendeu a utilizá-los. Pela primeira vez desde o início da jornada, ele podia percorrer o mundo em uma velocidade que nenhum viajante comum conseguiria acompanhar. Mas havia um problema. Os seres invocados não atravessavam determinados lugares. Não importava o quanto Ikarus tentasse chamá-los. O Grifo simplesmente não aparecia. A Águia surgia no céu, observava determinada região e desaparecia. O Centauro parava diante de certas fronteiras invisíveis e recusava-se a avançar. A Coruja, que normalmente obedecia sem hesitar, simplesmente batia as asas para longe quando Ikarus tentava enviá-la sobre determinadas montanhas. A Serpente de Kallon era ainda mais estranha. Havia águas nas quais ela jamais entrava. Ikarus não sabia por quê. Nenhum dos seres explicava. Nenhum falava. Eram criaturas ligadas aos fragmentos, e parecia existir uma memória anterior a Ikarus que determinava onde podiam ou não ir. No começo, ele tentou ignorar aquilo. Depois percebeu que não podia. Havia lugares que os próprios Guardiões haviam evitado durante séculos. Lugares que nem mesmo aquelas criaturas ancestrais ousavam atravessar. E, conforme Ikarus avançava em direção ao norte, esses lugares começaram a aparecer com frequência cada vez maior.


Depois de Khsandra, sua jornada levou-o para regiões que nenhum mapa moderno representava corretamente. Passou por aldeias abandonadas, cidades que haviam sido reconstruídas três vezes após ataques de mortos-vivos e fortalezas onde humanos, orcs, goblins e elfos dividiam o mesmo espaço por necessidade. A guerra havia mudado o mundo. O que antes parecia impossível tornara-se cotidiano. Em uma estrada próxima às montanhas, Ikarus encontrou uma patrulha composta por seis humanos, quatro orcs e dois goblins. Um dos goblins estava montado em um cavalo. O fato teria provocado risadas em qualquer época anterior. Agora ninguém achava estranho. Eles estavam procurando mortos-vivos que haviam desaparecido de um vilarejo. O capitão humano perguntou quem Ikarus era. Ele respondeu apenas seu nome. O homem ficou pálido. Um dos orcs reconheceu os símbolos dos fragmentos. — É ele — disse. — O portador. Ikarus percebeu imediatamente que sua fama havia chegado muito mais longe do que imaginava. O capitão não o tratou como inimigo. Apenas disse: — Se você está indo para o norte, não siga a estrada principal. Os mortos estão ocupando as cidades antigas. Ikarus perguntou: — Há mortos-vivos em Arteph? O orc respondeu antes do humano: — Não. Em Arteph, eles fazem parte da paisagem. Ikarus ficou olhando para ele. O orc deu de ombros. — Foi o que ouvi. E seguiu seu caminho.


Os meses se transformaram em anos. Ikarus passou por Setra novamente, mas não voltou a Kxin. O simples fato de passar próximo às montanhas fez a Serpente de Kallon se recusar a continuar. Ele chamou a criatura duas vezes. Nas duas, ela mergulhou e desapareceu. Ikarus não insistiu. Seguiu a pé. Depois chamou o Centauro de Gallen para atravessar uma enorme planície. O animal apareceu, caminhou alguns metros e parou. Ikarus montou mesmo assim. A criatura permaneceu imóvel. Ele desceu. — Você também sente? O Centauro apenas olhou para o norte. Ikarus seguiu o olhar. Não havia nada ali além de uma cadeia de montanhas distante. Então compreendeu. Todos os seres estavam evitando alguma coisa. Não era o reino de Arteph em si. Era o caminho para ele.


A viagem a pé tornou-se lenta. Ikarus já não tinha pressa apenas para chegar. Havia aprendido que algumas regiões exigiam que ele caminhasse. Em uma delas, passou quase quatro meses viajando por uma floresta morta. Não havia pássaros. Não havia insetos. Não havia vento. As árvores permaneciam de pé, mas pareciam vazias. Ikarus dormia sob os galhos e acordava com a sensação de estar sendo observado. Em determinada noite, encontrou pegadas humanas ao redor de seu acampamento. Eram dezenas. Ele não ouvira ninguém. Na manhã seguinte, as pegadas haviam desaparecido. Em outra região, atravessou uma cidade onde todas as casas tinham portas abertas. Não havia corpos. Não havia sinais de batalha. Apenas uma cidade inteira vazia. Na praça central encontrou uma fonte seca. Sobre ela havia uma inscrição antiga: “Quando os vivos abandonarem este lugar, os mortos finalmente poderão voltar para casa.” Ikarus não permaneceu ali.


Enquanto isso, as cartas de Lenória continuavam chegando, embora cada vez mais demoradas. A distância e a guerra dificultavam tudo. Gillian escrevia sobre Eiran. O menino estava crescendo. Já não era apenas uma criança que esperava o pai voltar. Começava a compreender que o pai estava em algum lugar distante lutando contra coisas que ele ainda não conseguia imaginar. Uma carta dizia que Eiran havia começado a treinar com uma espada de madeira. Outra dizia que ele perguntava sobre o Grifo de Lenória. Outra dizia apenas: “Ele perguntou se você ainda lembra dele.” Ikarus leu essa carta durante muito tempo. Depois respondeu: “Diga a ele que não existe uma noite em que eu não lembre.”


As cartas de Raella eram diferentes. Ela falava pouco sobre Lyra. Talvez porque soubesse que Ikarus ficaria preocupado. Mas, pouco a pouco, pequenos detalhes apareciam. Lyra começara a andar. Depois começara a falar. Depois começou a perguntar pelo pai. Uma carta dizia: “Ela chama qualquer homem de cabelos escuros de Ikarus.” Outra: “Hoje apontou para o céu quando ouviu o Grifo.” Mas havia uma coisa que Raella nunca mencionava. A pequena marca dourada. Ela continuava aparecendo na mão de Lyra. Nunca por muito tempo. Às vezes durante o sono. Às vezes quando alguém falava sobre Ikarus. Às vezes quando chegavam notícias sobre os fragmentos. Raella guardava aquilo em segredo. Não porque soubesse o que significava, mas porque tinha medo de descobrir.


Ikarus também continuava recebendo notícias de Thomas. As cartas de Aldora eram as mais difíceis de interpretar. Thomas nunca escrevia diretamente sobre aquilo que realmente temia. Falava sobre os movimentos dos mortos-vivos, sobre as caravanas, sobre as alianças entre povos e sobre o Livro da Vida. O livro havia se tornado uma lenda. Havia pessoas procurando por ele em diversos reinos. Alguns queriam trazer familiares de volta. Outros queriam riqueza. Outros acreditavam que poderiam ressuscitar antigos reis. E havia aqueles que simplesmente queriam descobrir se a morte realmente poderia ser derrotada. Thomas dizia que havia grupos inteiros desaparecendo atrás de rumores. Alguns retornavam. Outros não.


Em uma das últimas cartas, Thomas escreveu: “Ikarus, descobri algo que talvez você precise saber. O Livro da Vida não parece estar simplesmente esperando alguém encontrá-lo. Há pessoas dizendo que ele aparece para aqueles que perderam alguém. Se isso for verdade, então talvez não sejamos nós que estamos procurando o livro. Talvez seja ele que esteja escolhendo quem procurar.” Ikarus guardou a carta sem responder. O pensamento o acompanhou durante semanas.


Enquanto caminhava, Ikarus começou a perceber outra coisa. Os mortos-vivos estavam mudando. No início da guerra, eram cadáveres sem inteligência. Depois surgiram grupos organizados. Mais tarde apareceram criaturas capazes de utilizar armas. Depois vieram aqueles que pareciam manter fragmentos de memória. Alguns reconheciam antigos lugares. Alguns tentavam voltar para suas casas. Alguns pronunciavam nomes. Ikarus matou centenas deles durante os três anos. Mas certa noite encontrou algo que o fez parar. Um morto-vivo estava sentado diante de uma casa destruída. Não atacava ninguém. Apenas olhava para a porta. Ikarus aproximou-se com a espada pronta. A criatura virou a cabeça. Seus olhos eram vazios. Mas então falou uma palavra. — Filha. Ikarus ficou imóvel. O morto-vivo repetiu: — Filha. Depois levantou-se e caminhou para dentro da casa. Ikarus entrou atrás dele. Encontrou uma pequena cama coberta de poeira. Um brinquedo quebrado. Um desenho infantil. E, sobre a parede, uma pintura familiar. O morto-vivo permaneceu diante dela durante alguns segundos. Então caiu. Ikarus não precisou matá-lo. Alguma coisa dentro daquele cadáver simplesmente terminou. Ele saiu da casa em silêncio. Naquela noite, entendeu que a praga estava ficando pior. Não porque os mortos estivessem mais fortes. Mas porque estavam começando a lembrar.


A notícia chegou aos outros reinos. Os estudiosos de Sefrion começaram a investigar. Alguns magos acreditavam que os mortos-vivos estavam desenvolvendo consciência. Outros diziam que eram apenas ecos das pessoas que haviam sido. Em Gallen, os cavaleiros começaram a queimar corpos imediatamente após as batalhas. Em Valeth, famílias passaram a enterrar seus mortos longe das cidades. Em Setra, os sacerdotes dos rios desenvolveram rituais para impedir que cadáveres fossem levados pelas águas. Em Kallon, os mortos eram lançados ao mar apenas em regiões onde a Serpente permitia. Em Khsandra, os elfos começaram a plantar árvores sobre os túmulos. Em Aldora, Thomas ordenou que todos os cadáveres encontrados no deserto fossem destruídos antes do anoitecer. O mundo inteiro estava aprendendo uma nova regra: morrer não significava necessariamente descansar.


Ikarus continuava avançando.


Sete fragmentos.


Cinco Guardiões restantes.


E um destino que parecia cada vez mais próximo.


Ele chegou a uma cadeia de montanhas onde nenhum dos summons aceitava entrar. A Águia de Valeth apareceu no céu quando Ikarus a chamou. Voou até a borda das montanhas. Então parou. Não pousou. Não avançou. Apenas observou. Depois retornou.


Ikarus entendeu.


— Então é aqui.


A Águia desapareceu.


Ele começou a caminhar.


Durante quase dois meses, subiu pelas montanhas. A temperatura caiu. A vegetação desapareceu. O céu ficou permanentemente cinzento. Não havia animais. Nem mesmo os mortos-vivos apareciam.


Era isso que mais assustava.


Um território completamente vazio.


Certa tarde, Ikarus encontrou uma estátua antiga enterrada na neve.


Era um Guardião.


Mas não havia símbolo de nenhum reino.


A armadura estava quebrada.


O rosto havia sido destruído.


Abaixo dela havia uma inscrição:


“AQUI TERMINOU O PRIMEIRO.”


Ikarus passou a mão pela pedra.


— Primeiro o quê?


Não houve resposta.


Continuou.


Depois de mais algumas semanas, encontrou outra.


“AQUI TERMINOU O SEGUNDO.”


Mais adiante:


“AQUI TERMINOU O TERCEIRO.”


Ikarus parou.


Havia dezenas.


Não.


Centenas.


Estátuas quebradas cobriam as montanhas.


Algumas eram antigas.


Outras pareciam relativamente recentes.


Todas representavam guerreiros.


Algumas tinham asas.


Outras tinham chifres.


Outras seguravam espadas.


Uma delas possuía uma serpente esculpida sobre os ombros.


Ikarus sentiu os sete fragmentos pulsarem.


— Portadores...


Então compreendeu.


Aqueles eram os que haviam tentado reunir os fragmentos antes dele.


E todos haviam falhado.


A última estátua estava quase intacta.


Era a de um homem ajoelhado.


Na base havia apenas uma frase:


“ELE CHEGOU AO SÉTIMO.”


Ikarus aproximou-se.


Abaixo havia outra inscrição.


“E PAROU.”


Ikarus permaneceu diante da estátua durante muito tempo.


— Por quê?


O vento respondeu.


Nada mais.


Então ele ouviu um som.


Passos.


Ikarus virou-se.


Não havia ninguém.


Sacou a espada.


— Apareça.


Silêncio.


Então uma voz veio das montanhas.


— Você demorou.


Ikarus reconheceu aquela voz.


Não era de um Guardião.


Era de alguém que já havia falado com ele antes.


A voz que surgira nos sonhos.


Ikarus olhou para o horizonte.


— Quem é você?


A resposta veio:


— Você ainda não está pronto para saber.


— Então por que fala comigo?


— Porque está chegando perto demais.


Ikarus apertou a espada.


— Do quê?


— Da verdade.


— Qual verdade?


Silêncio.


Depois:


— Arteph.


Ikarus ficou imóvel.


— O que existe lá?


A voz respondeu:


— O reino que morreu.


— Isso eu já sei.


— Não. Você sabe o que dizem.


A voz ficou mais baixa.


— Eu estou falando do que aconteceu.


Ikarus olhou para o norte.


Finalmente, depois de três anos, ele conseguia ver.


Muito além das montanhas havia uma planície escura.


Nenhuma árvore.


Nenhum rio.


Nenhuma cidade viva.


No horizonte havia torres negras.


Muralhas destruídas.


E uma névoa permanente cobrindo tudo.


Arteph.


Ikarus desceu a última montanha.


Quando chegou ao vale, encontrou uma placa de pedra caída.


Havia apenas uma inscrição:


REINO DE ARTEPH.


Abaixo, quase apagadas pelo tempo, estavam outras palavras:


“AQUI A MORTE NÃO É O FIM.”


Ikarus permaneceu diante da fronteira.


O vento parou.


Os sete fragmentos ficaram completamente silenciosos.


Pela primeira vez desde que começara sua jornada, nenhum deles pulsava.


Nenhum brilho.


Nenhuma voz.


Nada.


Ikarus deu um passo.


A terra do outro lado da fronteira era negra.


Ele deu outro.


Então ouviu um som.


Muito distante.


Um sino.


Uma única badalada.


Depois outra.


E outra.


Ikarus levantou os olhos.


No horizonte de Arteph, uma cidade morta começou a acender suas luzes.


Uma por uma.


Não eram luzes de tochas.


Eram milhares.


E, entre as ruínas, dezenas de milhares de figuras começaram a se mover.


Ikarus segurou a espada.


Então percebeu algo ainda pior.


Nenhuma delas caminhava em sua direção.


Todas estavam olhando para ele.


Como se estivessem esperando.


Como se soubessem que ele finalmente havia chegado.


Ikarus atravessou a fronteira.


E, atrás dele, os sete summons desapareceram simultaneamente.


O Grifo de Lenória.


A Coruja de Sefrion.


A Serpente de Kallon.


O Centauro de Gallen.


A Águia de Valeth.


E os outros vínculos que carregava.


Todos desapareceram.


Ikarus olhou para trás.


Nada.


Ele tentou chamá-los.


Nenhuma resposta.


Pela primeira vez em anos, estava completamente sozinho.


Então, diante dele, uma figura apareceu no alto das muralhas de Arteph.


Usava uma armadura dourada.


Ikarus reconheceu imediatamente.


O oitavo Guardião.


Mas havia algo errado.


Aquele homem não estava esperando para lutar.


Estava ajoelhado.


E, quando levantou o rosto, Ikarus percebeu que o Guardião estava chorando.


— Ikarus...


A voz atravessou a planície.


— Finalmente você chegou.


Ikarus não respondeu.


O Guardião levantou-se lentamente.


Atrás dele, milhares de mortos-vivos começaram a ajoelhar.


Todos ao mesmo tempo.


O Guardião olhou para o exército de cadáveres.


Depois para Ikarus.


— Você precisa entender uma coisa antes de me enfrentar.


Ikarus apertou a espada.


— O quê?


O Guardião respondeu:


— Eu não protejo Arteph dos mortos.


Ele olhou para trás.


— Eu protejo os mortos de você.


E os portões de Arteph começaram a se abrir.:::

Ad'Heim: O fim da floresta?

 O primeiro rugido da criatura de Khsandra fez a própria floresta estremecer.

Não foi como o rugido da Serpente de Kallon. Aquela criatura pertencia ao mar, às profundezas e à violência das águas. O som que agora atravessava Khsandra era diferente. Era grave, lento e profundo, como se uma montanha tivesse despertado depois de milhares de anos de sono.


As raízes da gigantesca árvore se moveram.


Uma delas rompeu o chão atrás de Ikarus.


Ele saltou para o lado.


A raiz atingiu a terra onde seus pés estavam um instante antes e abriu uma enorme fissura.


Ikarus rolou, levantou-se e desembainhou a espada.


Serenya permaneceu imóvel.


— Você ainda pode ir embora.


Ikarus olhou para ela.


— Você sabe que não vou.


— Sei.


— Então por que ofereceu?


Serenya baixou a espada.


— Porque todos os Guardiões precisam oferecer uma última escolha.


Ikarus sentiu um arrepio.


— Todos?


— Todos.


Ela olhou para o chão.


— Talvez alguns tenham esquecido de dizer isso.


Ikarus pensou em Sahrion.


Eryon.


Darven.


Aren.


Kaeron.


Cinco homens.


Cinco mortes.


Cinco vezes em que a mesma escolha havia sido colocada diante dele.


E cinco vezes em que havia avançado.


Serenya percebeu a mudança em seu rosto.


— Você está pensando neles.


— Sim.


— Você se lembra dos nomes?


— De todos.


Serenya fechou os olhos.


— Então talvez exista alguma esperança.


Ikarus franziu a testa.


— Esperança para quê?


Serenya não respondeu.


A criatura atrás dela avançou.


Era colossal.


Seu corpo parecia uma árvore que havia aprendido a caminhar. O tronco principal formava um torso gigantesco, enquanto raízes grossas funcionavam como membros. Galhos se projetavam de seus ombros como chifres. Folhas douradas surgiam em algumas partes do corpo, mas grande parte da madeira estava marcada por veios negros.


Seus olhos eram dois círculos dourados.


Quando deu o primeiro passo, dezenas de árvores menores se curvaram.


Ikarus olhou para cima.


— Como se chama?


Serenya respondeu:


— A Árvore-Mãe.


A criatura ergueu um braço.


Ikarus correu.


O golpe destruiu uma fileira inteira de árvores.


Ele saltou sobre os destroços, avançou e atacou o braço da criatura.


Sua espada cortou a madeira.


Mas não houve sangue.


Apenas seiva dourada.


A Árvore-Mãe recuou.


Ikarus percebeu imediatamente.


— Ela sente dor.


— É claro que sente.


— Você disse que a floresta era a Guardiã.


— E é.


Serenya avançou.


Sua espada dourada encontrou a de Ikarus.


O choque produziu uma explosão de luz.


Ikarus foi empurrado para trás.


Serenya avançou novamente.


Golpe.


Bloqueio.


Golpe.


Desvio.


Golpe.


Ikarus tentou atacar sua lateral.


Serenya girou e atingiu seu peito.


Ele foi lançado contra uma árvore.


O impacto fez seu corpo atravessar o tronco.


Ikarus caiu no chão.


Serenya caminhou até ele.


— Você está mais lento.


Ikarus levantou-se.


— Estou cansado.


— Não.


— Não?


— Você está carregando seis mortes.


Ikarus ficou imóvel.


Serenya abaixou a espada.


— E está começando a lutar contra elas.


Ikarus apertou o cabo da espada.


— Não sabe nada sobre mim.


— Sei mais do que imagina.


— Então diga.


Serenya olhou para a floresta.


— A floresta vê tudo.


— Isso não é resposta.


— É a única que tenho.


Ikarus avançou.


Dessa vez, atacou com toda a força.


Serenya bloqueou.


O primeiro golpe.


O segundo.


O terceiro.


No quarto, Ikarus mudou o ângulo.


Serenya percebeu tarde demais.


A espada de Ikarus passou raspando por sua armadura e abriu um corte em seu braço.


Sangue caiu sobre a terra.


Serenya olhou para o ferimento.


Sorriu.


— Ainda consegue.


Ikarus respirou pesadamente.


— Eu não vim aqui para conversar.


— Eu sei.


Serenya avançou.


A batalha tornou-se brutal.


As duas espadas douradas cortavam o ar entre as árvores.


A cada golpe, folhas caíam.


A cada bloqueio, faíscas iluminavam a clareira.


A Árvore-Mãe começou a se mover ao redor deles.


Ikarus percebeu que ela não estava tentando atacar Serenya.


Estava protegendo-a.


Cada vez que Ikarus conseguia aproximar-se demais, uma raiz surgia.


Ele precisou saltar.


Desviar.


Girar.


Bloquear.


Serenya atacou enquanto ele estava no ar.


Ikarus conseguiu colocar a espada entre os dois.


As lâminas se chocaram.


Os rostos ficaram próximos.


Serenya olhou diretamente nos olhos dele.


— Você sabe por que os Guardiões aceitam morrer?


Ikarus empurrou-a.


— Porque são obrigados?


— Não.


Ela atacou.


— Porque sabem o que acontece se recusarem.


Ikarus bloqueou.


— O quê?


Serenya recuou.


— O fragmento escolhe outro.


Ikarus parou.


— O quê?


Serenya respirou fundo.


— Antes de você, existiram outros portadores.


Ikarus ficou imóvel.


— Quantos?


— Não sei.


— Então eu não sou o primeiro.


— Não.


Ikarus sentiu os seis fragmentos pulsarem.


— Quantos chegaram até aqui?


Serenya olhou para ele.


— Nenhum.


Ikarus estreitou os olhos.


— Nenhum?


— Nenhum chegou ao sétimo.


O silêncio caiu sobre a clareira.


Ikarus olhou para os símbolos brilhando em seu peito.


— Então todos morreram.


— Sim.


— Por quê?


Serenya respondeu:


— Porque os fragmentos não querem apenas um portador.


Ela ergueu a espada.


— Querem alguém capaz de chegar ao fim.


Ikarus apertou o maxilar.


— E o que existe no fim?


Serenya sorriu.


— Se eu soubesse, não estaria protegendo o sétimo.


A Árvore-Mãe rugiu.


Desta vez, o som foi acompanhado por uma onda de energia.


O chão explodiu.


Ikarus foi lançado para trás.


Serenya também.


Mas ela pousou de pé.


Ikarus caiu sobre uma raiz.


A criatura avançou.


Ikarus correu.


Uma raiz tentou esmagá-lo.


Ele saltou.


Outra veio pela esquerda.


Desviou.


Uma terceira surgiu abaixo.


Ikarus cravou a espada na madeira e usou a lâmina como apoio para impulsionar-se.


Chegou ao ombro da criatura.


A Árvore-Mãe tentou agarrá-lo.


Ikarus correu pelo braço.


Chegou ao pescoço.


Então viu.


Uma fissura negra.


No centro do corpo da criatura havia algo diferente.


Não era madeira.


Era uma espécie de cristal negro.


Ikarus atacou.


A espada atingiu o cristal.


A criatura gritou.


O som atravessou Khsandra inteira.


Serenya caiu de joelhos.


— NÃO!


Ikarus imediatamente percebeu que havia cometido um erro.


— O que é isso?


Serenya levantou-se.


— Não toque!


Tarde demais.


O cristal rachou.


Uma energia negra saiu de dentro dele.


A floresta inteira começou a morrer.


Folhas ficaram cinzentas.


Flores murcharam.


Animais fugiram.


Os elfos que observavam à distância começaram a gritar.


Ikarus saltou para o chão.


— O que eu fiz?


Serenya correu até a criatura.


Colocou as mãos sobre seu tronco.


— Você abriu a ferida.


— Que ferida?


— A que estamos tentando manter fechada.


Ikarus olhou para o cristal.


— É o mesmo poder da porta de Kallon.


Serenya olhou para ele.


— Então você já viu.


— Sim.


— E abriu?


— Não.


— Ótimo.


Ela olhou para a floresta.


— Então talvez ainda haja tempo.


A Árvore-Mãe começou a se contorcer.


As raízes negras começaram a espalhar-se pelo chão.


Ikarus segurou sua espada.


— Diga o que devo fazer.


Serenya o encarou.


— Matar você.


Ikarus ficou imóvel.


— O quê?


— Se você morrer, os fragmentos deixarão seu corpo.


— E isso fechará a ferida?


— Talvez.


— Você não tem certeza.


— Não.


Ikarus olhou para o cristal.


Depois para Serenya.


— Então você está disposta a matar o portador para salvar Khsandra.


— Sim.


— Mesmo que isso condene o resto dos reinos?


Serenya hesitou.


— Talvez.


Ikarus percebeu.


— Você não sabe o que acontecerá.


— Ninguém sabe.


Ela levantou a espada.


— Essa é a diferença entre nós.


— Qual?


— Você está disposto a arriscar o mundo para descobrir a verdade.


Ikarus respondeu:


— E você está disposta a manter o mundo ignorante para impedir uma possibilidade.


Serenya ficou em silêncio.


A Árvore-Mãe rugiu novamente.


As raízes negras começaram a avançar.


Ikarus olhou para elas.


— Acho que já perdemos tempo demais.


Serenya atacou.


O golpe foi tão rápido que Ikarus quase não conseguiu bloquear.


Ele foi empurrado vários metros.


Serenya atacou novamente.


Ikarus desviou.


Ela girou.


Ele bloqueou.


A espada de Serenya acertou seu braço.


Sangue.


Ikarus recuou.


Ela avançou.


Ele bloqueou.


Outra vez.


Outra.


Outra.


Até que Ikarus percebeu algo.


Serenya estava chorando.


As lágrimas desciam pelo rosto enquanto lutava.


— Por que está chorando?


Ela não respondeu.


Ikarus desviou de outro golpe.


— Por quê?


— Porque eu conheço o resultado.


Ela atacou.


— Todos nós conhecemos.


Ikarus bloqueou.


— Então por que continuar?


Serenya respondeu:


— Porque alguém precisa.


Ikarus girou.


A espada dela passou por seu rosto.


Ele acertou o ombro dela.


A armadura rachou.


Serenya recuou.


— Muito bem.


Ikarus respirava com dificuldade.


— Você ainda pode parar.


Ela sorriu.


— Você já sabe que não.


Então Serenya fechou os olhos.


A floresta inteira respondeu.


Milhares de folhas começaram a brilhar.


As raízes da Árvore-Mãe envolveram o corpo de Serenya.


A armadura dourada começou a mudar.


Galhos cresceram sobre as placas.


Seu manto verde tornou-se gigantesco.


Seus olhos ficaram completamente dourados.


E quando ela abriu os olhos novamente, sua voz parecia vir de toda a floresta.


— EU SOU KHsANDRA.


Ikarus ficou imóvel.


A espada dela se transformou.


A lâmina agora parecia feita de madeira dourada.


Atrás de Serenya, a Árvore-Mãe levantou ambos os braços.


Ikarus olhou para cima.


— Então é assim.


Serenya respondeu:


— Sim.


A batalha final começou.


Ikarus correu.


Serenya também.


As duas lâminas colidiram.


A floresta explodiu em luz.


Ikarus foi lançado para trás.


Ele rolou pela terra.


Levantou-se.


Serenya veio novamente.


Ikarus bloqueou.


O impacto quebrou sua espada.


A lâmina de Ikarus caiu no chão.


Serenya parou.


— Acabou.


Ikarus olhou para a espada quebrada.


Depois para ela.


— Não.


Ele segurou apenas o cabo.


Serenya avançou.


Ikarus correu.


A lâmina dourada passou ao lado de sua cabeça.


Ele se abaixou.


Entrou na guarda de Serenya.


E acertou o cabo da espada contra seu peito.


A armadura rachou.


Serenya caiu de joelhos.


Ikarus pegou a espada quebrada do chão.


A lâmina tinha apenas metade do comprimento original.


Ele a segurou.


Serenya levantou os olhos.


— Faça.


Ikarus ficou imóvel.


— Você tem certeza?


— Tenho.


— A floresta morrerá?


— Não.


Ela sorriu.


— A floresta nunca dependeu de mim.


Ikarus percebeu.


— Então de quem?


Serenya olhou para a Árvore-Mãe.


— Dela.


A criatura abaixou-se.


Serenya tocou sua raiz.


— Eu fui apenas a pessoa escolhida para conversar com ela.


Ikarus segurou a espada.


— E quando você morrer?


— Ela escolherá outra.


— E o fragmento?


Serenya sorriu.


— É seu.


Ikarus fechou os olhos.


Então avançou.


A espada atravessou o peito da Guardiã.


Serenya arqueou o corpo.


Por um instante, pareceu não sentir dor.


Então respirou profundamente.


— Ikarus...


— Sim?


— Não deixe que a busca pelos fragmentos faça você esquecer por que começou.


A espada permaneceu cravada.


Serenya segurou o braço de Ikarus.


— Você disse que queria proteger seu mundo.


— Sim.


— Então não abra a porta apenas porque quer saber o que existe atrás dela.


Ikarus ficou em silêncio.


— Às vezes, conhecimento também pode ser uma forma de destruição.


Ele retirou a espada.


Serenya caiu sobre a terra.


A luz dourada surgiu sobre seu corpo.


O sétimo fragmento apareceu.


Mas, antes que entrasse no peito de Ikarus, algo aconteceu.


A floresta inteira começou a brilhar.


A Árvore-Mãe abriu os olhos.


E uma voz falou.


Não era a voz de Serenya.


Era muito mais antiga.


— PORTADOR.


Ikarus levantou o rosto.


— Quem é você?


— AQUILO QUE LEMBRA.


Os sete fragmentos começaram a flutuar ao redor dele.


— O que são eles?


Silêncio.


Então:


— MEMÓRIAS.


Ikarus franziu a testa.


— Memórias de quê?


A resposta veio:


— DAQUILO QUE EXISTIA ANTES DA DIVISÃO.


Ikarus sentiu o coração acelerar.


— Quem dividiu?


A árvore não respondeu.


— Quem criou os Guardiões?


Silêncio.


— O que está atrás da porta?


As folhas começaram a cair.


A voz finalmente respondeu:


— AQUILO QUE FOI SEPARADO.


Ikarus olhou para os fragmentos.


— Separado de quê?


A resposta veio quase como um sussurro:


— DE VOCÊ.


Ikarus congelou.


Os sete fragmentos explodiram em luz.


Uma imagem apareceu em sua mente.


Um homem.


Não conseguia ver o rosto.


Ele estava diante de uma multidão de figuras.


Doze.


Cada uma segurava um fragmento.


O homem levantou as mãos.


— Se permanecerem juntos, serão destruídos.


As doze figuras se separaram.


A imagem mudou.


Um mundo em guerra.


Depois outra.


Uma porta.


Depois outra.


Uma criatura.


Depois...


Um bebê.


Ikarus.


Ele abriu os olhos violentamente.


A visão desapareceu.


O sétimo fragmento entrou em seu peito.


Ikarus caiu de joelhos.


Sete símbolos agora brilhavam sobre sua pele.


Sete.


Ele respirava com dificuldade.


A Árvore-Mãe permaneceu diante dele.


Serenya estava morta.


A floresta começou lentamente a recuperar sua cor.


As manchas negras desapareceram das raízes.


Os elfos saíram de seus esconderijos.


Um deles aproximou-se.


— Ela morreu?


Ikarus assentiu.


O elfo olhou para o corpo.


— Então você a matou.


Ikarus respondeu:


— Sim.


O elfo baixou a cabeça.


— Ela sabia.


— Sabia.


— E aceitou?


Ikarus olhou para Serenya.


— Sim.


O elfo fechou os olhos.


— Então ela cumpriu o dever.


Ikarus ficou em silêncio.


Naquela noite, os elfos prepararam uma cerimônia.


Serenya foi colocada sob a Árvore-Mãe.


Não houve túmulo.


Não houve pedra.


Seu corpo foi enterrado entre as raízes.


A própria árvore abriu a terra.


Quando o corpo desapareceu, pequenas flores douradas nasceram sobre o local.


Ikarus observou tudo à distância.


Um dos elfos aproximou-se.


— Você vai partir amanhã?


— Sim.


— Para onde?


Ikarus olhou para o mapa.


Sete fragmentos.


Cinco reinos ainda pela frente.


Mas agora sabia que o caminho não era simplesmente uma sequência de batalhas.


Cada Guardião conhecia uma parte da verdade.


E cada morte aproximava Ikarus de algo que talvez nem ele estivesse preparado para encontrar.


— Para o próximo reino.


O elfo apontou para o mapa.


— Depois de Khsandra, há Arteph.


Ikarus ficou imóvel.


Arteph.


O reino morto.


O lugar que havia sido destruído muito antes da atual geração.


O reino cujo símbolo era o Cerberus.


O reino onde, segundo as antigas histórias, nenhuma vida permanecia.


Ikarus olhou para o norte.


— Então é para lá que vou.


O elfo ficou sério.


— Ninguém vai para Arteph.


Ikarus respondeu:


— Eu vou.


— Você não entende.


— O que não entendo?


O elfo olhou para a floresta.


— Arteph não é um reino.


Ikarus esperou.


— É um túmulo.


Naquela mesma noite, muito longe dali, Raella estava sentada junto à janela.


Lyra dormia em seu colo.


A pequena menina abriu os olhos.


Raella olhou para ela.


— Você não deveria estar acordada.


Lyra não respondeu.


Seus olhos permaneceram fixos em um ponto vazio do quarto.


Então a pequena marca dourada apareceu novamente em sua mão.


Dessa vez, porém, Raella viu.


Ela segurou a mão da filha.


— O que é isso?


A marca desapareceu.


Lyra começou a chorar.


Raella a apertou contra o peito.


— Calma.


Mas, pela primeira vez, Raella sentiu algo que não conseguia explicar.


Não era medo de Ikarus.


Não era medo dos mortos-vivos.


Era a sensação de que aquela criança havia nascido no momento errado.


Ou talvez...


No momento exato.


Enquanto isso, em algum lugar desconhecido, uma página do Livro da Vida virou sozinha.


O nome ELIAS ainda estava escrito.


Mas abaixo dele surgiu outro.


LYRA.


A tinta permaneceu fresca por alguns segundos.


Depois uma terceira linha apareceu.


IKARUS.


E, abaixo dos três nomes, uma pergunta:


“QUAL DELES DEVE VIVER?”


O livro fechou.


E, pela primeira vez desde que havia sido encontrado, alguém do outro lado da sala respondeu:


— Nenhum deles.


Uma mão colocou-se sobre a capa branca.


O Livro da Vida abriu os olhos.


Sim.


Olhos.


Dois pequenos pontos dourados apareceram na capa.


E uma voz respondeu:


— Então teremos que descobrir qual deles deve morrer.:::

Ad'Heim: Serenya

 Ikarus permaneceu diante das ruínas submersas durante alguns segundos, olhando para a porta que havia quase se aberto. A Serpente de Kallon permanecia imóvel diante dela, como se tivesse recebido uma ordem que não precisava ser pronunciada. Kaeron estava morto. O sexto fragmento agora fazia parte de Ikarus. E, pela primeira vez, uma pergunta diferente começava a ocupar sua mente. Até então, ele acreditara que os fragmentos eram apenas partes de alguma coisa que precisava ser reunida. Agora sabia que estavam ligados a uma porta. Uma prisão. Talvez a algo que os antigos Guardiões haviam passado milhares de anos tentando manter escondido. Ikarus olhou uma última vez para o corpo de Kaeron. — Eu vou descobrir o que existe atrás daquela porta. A Serpente ergueu a cabeça. Não respondeu, obviamente. Mas seus olhos dourados permaneceram fixos nele. Ikarus então nadou para a superfície.


Quando voltou a Nora, encontrou a cidade inteira em silêncio. As pessoas haviam visto a batalha de longe. Muitos acreditavam que a Serpente havia destruído Ikarus. Outros já haviam começado a fugir quando o mar se abriu. Mas quando Ikarus caminhou pelo cais, ensanguentado, ferido e carregando a lança dourada de Kaeron, todos compreenderam. O Guardião havia caído.


Ninguém comemorou.


Uma mulher começou a chorar.


Um homem ajoelhou-se.


Um velho pescador simplesmente tirou o chapéu e abaixou a cabeça.


Ikarus passou por eles sem dizer nada.


Antes de deixar Kallon, porém, fez uma última coisa.


Subiu até o antigo santuário onde os Guardiões eram lembrados e colocou a lança de Kaeron diante de uma estátua de pedra.


— Ele morreu protegendo este lugar.


O sacerdote que estava ali perguntou:


— Você o matou?


Ikarus olhou para a lança.


— Sim.


— Então por que o honra?


Ikarus respondeu:


— Porque ele não era meu inimigo.


O sacerdote ficou em silêncio.


Ikarus virou-se.


— Apenas estava no meu caminho.


E partiu.


Dias depois, atravessou o mar em uma embarcação mercante. O ferimento causado pela lança ainda doía, mas Ikarus já havia aprendido a conviver com a dor. Durante a viagem, recebeu uma carta de Lenória.


Era de Gillian.


Ela contava que Eiran havia começado a perguntar diariamente quando o pai voltaria.


Depois havia uma segunda parte.


Raella havia enviado uma pequena mensagem.


Lyra está bem.


Ikarus leu essa frase várias vezes.


Depois encontrou uma segunda folha.


Era pequena.


Havia sido escrita por Raella.


“Ela abriu os olhos hoje e segurou meu dedo. Por um instante, tive a impressão de que ela estava olhando para alguma coisa atrás de mim. Talvez seja apenas imaginação de mãe. Talvez não.”


Ikarus franziu a testa.


Guardou a carta.


Não sabia por quê, mas aquela frase permaneceu em sua cabeça.


Naquela mesma noite, sonhou novamente.


Estava em uma floresta.


Não era uma floresta comum.


As árvores eram tão gigantescas que seus troncos pareciam montanhas. As raízes atravessavam vales inteiros. Havia luz verde entre as folhas e uma névoa constante cobria o chão.


Então ouviu uma voz.


— Você está chegando.


Ikarus virou-se.


Uma mulher estava parada entre as árvores.


Usava uma armadura dourada.


Seu manto era verde-escuro.


Sobre o peito estava gravado um símbolo.


Uma árvore gigantesca.


Ikarus tentou se aproximar.


A mulher desapareceu.


Ele acordou.


E sabia para onde deveria ir.


Khsandra.


O reino das florestas.


O reino onde as árvores eram antigas antes mesmo de muitos dos reinos atuais existirem.


O reino protegido por um Guardião cujo poder estava ligado a uma árvore colossal.


Ikarus deixou Kallon e seguiu para o norte.


A viagem levou semanas.


Quanto mais avançava, mais o mundo mudava.


As cidades humanas começaram a desaparecer.


As estradas deram lugar a trilhas.


As trilhas desapareceram.


Então vieram as árvores.


Primeiro pequenas.


Depois enormes.


Depois impossíveis.


Quando Ikarus finalmente entrou em Khsandra, percebeu que havia algo errado.


Nenhum pássaro cantava.


Nenhum animal se movia.


As folhas estavam completamente imóveis.


E havia marcas de batalha nas árvores.


Grandes cortes.


Queimaduras.


Sangue seco.


Ikarus caminhou mais algumas horas até encontrar um grupo de elfos.


Eles estavam feridos.


Um deles levantou o arco.


— Pare!


Ikarus ergueu as mãos.


— Não quero lutar.


O elfo olhou para sua espada.


— Você é o homem dos fragmentos.


Ikarus ficou imóvel.


— Como sabe?


O elfo respondeu:


— A floresta sabe.


Ikarus olhou ao redor.


— O que aconteceu aqui?


O elfo hesitou.


— Os mortos-vivos.


— Aqui também?


— Eles estão em toda parte.


Outro elfo se aproximou.


— Mas não são apenas mortos-vivos.


Ikarus franziu a testa.


— O que quer dizer?


O elfo apontou para o interior da floresta.


— Algo está corrompendo as árvores.


Ikarus seguiu seu dedo.


Muito longe, entre os troncos, havia uma luz negra.


— Desde quando?


— Desde que o Guardião desapareceu.


Ikarus parou.


— O Guardião de Khsandra?


Os elfos se entreolharam.


— Ele não desapareceu.


— Então onde está?


O primeiro elfo respondeu:


— Nós não sabemos.


Ikarus continuou avançando.


A floresta parecia observá-lo.


A cada passo, os troncos ficavam maiores.


As raízes surgiam do chão como serpentes.


Até que encontrou uma clareira.


No centro havia uma árvore colossal.


Era tão grande que Ikarus não conseguia enxergar seu topo.


O tronco possuía milhares de metros de largura.


As raízes atravessavam toda a região.


E, diante dela, havia uma mulher.


Ela estava sentada no chão.


Sem armadura.


Sem espada.


Sem manto.


Apenas uma mulher de cabelos verdes escuros, envelhecida, com as mãos cobertas de terra.


Ikarus aproximou-se.


— Você é a Guardiã?


Ela não respondeu.


— Qual é o seu nome?


A mulher levantou os olhos.


Eram dourados.


— Serenya.


Ikarus segurou a espada.


Serenya percebeu.


— Você veio buscar o fragmento.


— Sim.


Ela sorriu.


— Então chegou tarde.


Ikarus franziu a testa.


— O que aconteceu?


Serenya colocou a mão sobre a terra.


— Minha floresta está morrendo.


Ikarus olhou para a árvore gigantesca.


— Por causa dos mortos-vivos?


— Não.


Ela apontou para as raízes.


— Por causa deles.


Ikarus se aproximou.


Nas raízes havia pequenas manchas negras.


Pareciam veias.


— O que é isso?


Serenya respondeu:


— Algo que existe antes dos mortos-vivos.


Ikarus sentiu os seis fragmentos reagirem.


— O que você sabe sobre os fragmentos?


Serenya levantou-se.


— Sei que vocês estão abrindo aquilo que os antigos fecharam.


— Quem são vocês?


— Nós somos os Guardiões.


— Não.


Ikarus encarou-a.


— Não perguntei sobre os Guardiões. Perguntei quem criou os fragmentos.


Serenya permaneceu em silêncio.


Então disse:


— Finalmente alguém fez a pergunta certa.


O vento atravessou a floresta.


As folhas começaram a se mover.


A gigantesca árvore atrás dela começou a emitir uma luz dourada.


E seis símbolos apareceram no tronco.


Grifo.


Coruja.


Serpente.


Centauro.


Águia.


E a marca de Khsandra.


Serenya retirou lentamente a própria capa.


Abaixo dela surgiu uma armadura dourada.


As placas pareciam feitas de madeira viva e metal.


Seu manto verde cobriu o chão.


E atrás dela, entre as raízes, algo começou a despertar.


Uma criatura gigantesca abriu os olhos.


Não era um animal.


Era uma árvore.


Um ser colossal formado por tronco, raízes e galhos, com dois olhos dourados brilhando no centro da madeira.


O Guardião da Floresta de Khsandra.


Serenya segurou sua espada.


— Ikarus.


Ele desembainhou a própria lâmina.


— Sim?


— Se você me matar, a floresta começará a morrer.


Ikarus olhou para a árvore.


— Então não vou matar você.


Serenya sorriu.


— Você ainda não entendeu.


A criatura atrás dela ergueu-se.


O chão tremeu.


— Eu não sou a Guardiã porque protejo a floresta.


Ela apontou a espada para Ikarus.


— A floresta é a Guardiã.


Ikarus apertou o cabo da espada.


Serenya avançou.


E, no mesmo instante, em Lenória, Lyra abriu os olhos novamente.


Desta vez, porém, a pequena marca dourada apareceu em sua mão.


E uma voz que ninguém mais podia ouvir sussurrou:


— Sete.


Lyra sorriu.


Muito longe dali, Ikarus ouviu o primeiro rugido da criatura de Khsandra.


A batalha pelo sétimo fragmento havia começado.:::

Ad'Heim: Kallon

 O mar permaneceu imóvel por alguns segundos depois do rugido da Serpente de Kallon. Ikarus estava no cais, espada desembainhada, enquanto centenas de pessoas observavam das muralhas de Nora. Kaeron permanecia sobre a cabeça da criatura, sua armadura dourada refletindo a luz dos dois sóis. Diferente dos outros Guardiões, ele não parecia velho. Seu rosto era de um homem ainda jovem, talvez pouco mais velho que Ikarus. Seus cabelos eram negros e longos, presos atrás da cabeça, e seus olhos tinham a mesma tonalidade azul-escura do mar antes de uma tempestade. — Você sabe por que os Guardiões existem? — perguntou Kaeron. Ikarus não respondeu. — Os outros provavelmente lhe contaram suas histórias. Talvez tenham tentado explicar o que você está fazendo. Mas cada um deles guardava apenas uma parte da verdade. Ikarus apertou a espada. — Então me conte a sua. Kaeron sorriu. — Depois da luta. Ikarus avançou pelo cais. A Serpente ergueu a cabeça e mergulhou violentamente. Uma onda gigantesca atingiu o porto. Ikarus foi lançado para trás, atravessou uma parede de madeira e caiu dentro de uma pequena embarcação. Antes que pudesse se levantar, ouviu o som da água sendo cortada. Saltou. Uma cauda colossal atingiu o barco e o destruiu completamente. Ikarus caiu no mar. Durante alguns segundos, tudo ficou escuro. Ele abriu os olhos debaixo d'água. A luz dos dois sóis chegava fraca até aquela profundidade. Então viu os olhos da Serpente. Enormes. Dourados. Fixos nele. A criatura abriu a boca. Ikarus nadou para o lado no último instante. As presas atravessaram a água onde seu corpo estava. Ele alcançou uma rocha submersa e impulsionou-se para cima. Quando emergiu, Kaeron já estava diante dele. A lança dourada veio em direção ao seu peito. Ikarus bloqueou. O impacto fez seu braço inteiro tremer. — Você é diferente dos outros — disse Kaeron. — Como? — Você luta como alguém que quer sobreviver. Os outros lutavam como homens que já haviam aceitado morrer. Ikarus empurrou a lança. — Talvez eu ainda tenha alguém esperando por mim. Kaeron recuou. — Filhos? Ikarus hesitou. — Dois. Kaeron baixou a lança por um instante. — Então você entende por que eu preciso impedir você. — Não. — Minha família também está esperando por mim. Ikarus ficou imóvel. Kaeron olhou para a cidade de Nora. — Minha mulher morreu há vinte anos. Meu filho morreu há onze. Minha filha morreu há cinco. — Então por que continua aqui? — Porque Kallon ainda está viva. Ikarus não respondeu. Kaeron continuou: — Quando fui escolhido, pensei que seria uma honra. Depois descobri que ser Guardião era assistir todos aqueles que você ama envelhecerem enquanto você continua preso ao mesmo dever. Minha família morreu. Meus amigos morreram. As pessoas que conheci morreram. Mas Kallon permaneceu. — E você aceitou isso? — No começo, não. Depois compreendi. Kaeron apontou a lança para o mar. — A Serpente não protege Kallon porque gosta dos homens. Ela protege porque Kallon é uma das últimas coisas que ainda impede aquilo que dorme abaixo dela de alcançar a superfície. Ikarus sentiu os fragmentos dentro de seu peito pulsarem. — O que existe lá embaixo? Kaeron respondeu apenas: — Algo que nem os mortos-vivos conseguiram matar. A Serpente rugiu novamente. Dessa vez, porém, o rugido não parecia um ataque. Parecia um aviso. Kaeron ergueu a lança. — Venha, Ikarus. Se quer o fragmento, terá que atravessar o mar. Ikarus guardou a espada por um instante. — Então vamos. Kaeron pareceu surpreso. — Você não vai lutar aqui? — Não. Ikarus olhou para Nora. — Se lutarmos aqui, essa cidade será destruída. Kaeron permaneceu em silêncio. Então sorriu. — Agora entendo por que eles escolheram você. A Serpente mergulhou. Kaeron saltou sobre suas costas. Ikarus correu pelo cais e saltou atrás deles. A criatura desapareceu nas profundezas. Ikarus sentiu a pressão da água aumentar enquanto desciam. Ao redor deles havia ruínas. Estruturas antigas cobertas por algas. Estátuas quebradas. Restos de uma cidade que não aparecia em nenhum mapa. Ikarus olhou para Kaeron. O Guardião apontou para baixo. No fundo do oceano havia uma gigantesca porta de pedra. Sobre ela estavam gravados doze símbolos. Ikarus reconheceu cinco. O grifo. A coruja. A serpente. O centauro. A águia. E sete símbolos que ainda não conhecia. Kaeron pousou diante da porta. — Antes dos reinos existirem, existia isso. Ikarus aproximou-se. — O que é? — Uma prisão. — Para quem? Kaeron olhou para a escuridão abaixo. — Para aquilo que os primeiros Guardiões chamavam de Abismo. Ikarus colocou a mão sobre a pedra. Os cinco fragmentos reagiram. A porta começou a emitir uma luz dourada. Kaeron imediatamente segurou seu braço. — Não toque. Ikarus olhou para ele. — Por quê? — Porque você ainda não possui todos os fragmentos. — E o que acontece quando possuir? Kaeron soltou seu braço. — Talvez a porta abra. Talvez seja exatamente isso que os fragmentos querem. Ikarus ficou em silêncio. — Você não sabe? — Ninguém sabe. Essa é a parte que os Guardiões esconderam. Ikarus olhou para os símbolos. — Então por que continuar protegendo isso? Kaeron respondeu: — Porque não saber o que existe atrás de uma porta não significa que devemos abri-la. Ikarus respirou profundamente. — E você pretende morrer para impedir que eu consiga o sexto fragmento. — Sim. — Mesmo sabendo que talvez eu precise dele para impedir algo pior? Kaeron apertou a lança. — Sim. — Então você acredita que eu estou errado. — Não. Kaeron levantou os olhos. — Eu acredito que você pode estar certo. E é justamente isso que me assusta. A Serpente começou a circular as ruínas. A água ficou turbulenta. Kaeron levantou sua lança. — Vamos terminar isso. Ikarus desembainhou a espada. A batalha começou. Kaeron era extraordinário dentro da água. Seus movimentos pareciam fazer parte do próprio oceano. A lança dourada cortava a água com velocidade impossível. Ikarus bloqueava, desviava e atacava, mas cada golpe parecia mais lento. A Serpente circulava ao redor deles, criando correntes que alteravam seus movimentos. Ikarus foi atingido no peito e lançado contra uma coluna antiga. Sua armadura rachou. Sangue começou a se misturar à água. Kaeron avançou para o golpe final. Ikarus esperou. Quando a lança estava a centímetros de seu peito, ele girou o corpo, agarrou a haste e puxou. Kaeron perdeu o equilíbrio. Ikarus acertou seu rosto com o cabo da espada. O Guardião recuou. Ikarus avançou. Uma troca de golpes começou entre as ruínas submersas. A Serpente atacou. Ikarus desviou. Kaeron aproveitou a abertura. A lança atravessou sua lateral. Ikarus gritou. Kaeron retirou a arma. — Desista. — Não. — Você tem uma família. — Eu sei. — Então viva por ela. Ikarus olhou para o sangue que saía de seu corpo. Pensou em Gillian. Pensou em Eiran. Pensou em Raella. Pensou em Lyra. Então segurou a espada com força. — É exatamente por eles que eu não posso parar. Kaeron fechou os olhos. — Então me perdoe. A lança dourada veio novamente. Ikarus desviou. Girou. E sua espada atravessou a armadura de Kaeron. O Guardião parou. A ponta da espada havia atravessado seu peito. A Serpente ficou imóvel. Kaeron olhou para baixo. Depois para Ikarus. — Você venceu. Ikarus segurou o corpo dele para que não afundasse. — Kaeron... — Não. Escute. O Guardião respirou com dificuldade. — Quando encontrar os outros... não pense que todos estão apenas esperando para morrer. Alguns vão tentar impedir você porque acreditam que estão salvando o mundo. Ikarus assentiu. — Eu sei. — Não sabe. Kaeron sorriu fracamente. — Ainda não. Então olhou para a Serpente. — Proteja Kallon. A criatura aproximou a cabeça. Kaeron tocou suas escamas pela última vez. — Você foi minha família durante mais tempo do que qualquer homem. A Serpente fechou os olhos. Kaeron voltou-se para Ikarus. — Agora termine. Ikarus hesitou. — Você já está morto. — Ainda não. Faça isso. Ikarus empurrou a espada. O corpo de Kaeron perdeu a força. E o sexto fragmento apareceu. A luz dourada atravessou a água e entrou no peito de Ikarus. Os seis símbolos começaram a girar dentro dele. Então algo inesperado aconteceu. A porta antiga atrás deles começou a tremer. Ikarus virou-se. — Kaeron... — Eu sei. A Serpente rugiu. A pedra começou a rachar. Uma linha negra surgiu no centro da porta. Ikarus recuou. Kaeron já estava morto. Não havia ninguém para explicar. A rachadura aumentou. Então uma mão apareceu do outro lado. Uma mão enorme. Escura. Coberta por escamas. Ikarus segurou a espada. A Serpente posicionou-se diante da porta. Por alguns segundos, parecia que uma batalha muito maior começaria ali. Mas então os seis fragmentos dentro de Ikarus brilharam simultaneamente. A porta parou. A mão desapareceu. A rachadura fechou-se. O oceano voltou ao silêncio. Ikarus permaneceu olhando para aquilo. Então ouviu uma voz. Não vinha de Kaeron. Não vinha da Serpente. Não vinha da porta. Vinha de dentro dele. — Seis. Faltam seis. Ikarus fechou os olhos. E, pela primeira vez desde que começara aquela jornada, compreendeu que talvez os fragmentos não estivessem apenas reunindo uma força perdida. Talvez estivessem reunindo uma chave. E, muito longe dali, em Lenória, uma criança recém-nascida dormia nos braços de Raella. Lyra abriu os olhos. Por um breve instante, uma pequena marca dourada apareceu em sua mão. Depois desapareceu. Ninguém percebeu. Ainda.:

Ad'Heim: Fim da pausa

 Durante algum tempo, Ikarus permaneceu em Lenória. Pela primeira vez em muitos anos, não havia uma montanha desconhecida esperando por ele, nenhum Guardião oculto em uma fortaleza distante e nenhuma estrada levando a uma batalha inevitável. Havia apenas sua casa, Gillian, Eiran e os dias que ele havia perdido enquanto caminhava pelo mundo. Mas a paz nunca permaneceu completamente dentro daquela casa. Havia coisas que não podiam ser simplesmente esquecidas. Raella continuava próxima de Ikarus, como sempre estivera desde os primeiros anos de sua jornada. Entre os dois existia uma ligação que havia sobrevivido a guerras, separações e mudanças, uma ligação que nenhum dos dois conseguia explicar completamente. E, naquela pausa, enquanto o mundo lutava contra os mortos-vivos e os fragmentos continuavam chamando Ikarus para longe, essa proximidade tornou-se algo maior. Raella descobriu que estava grávida. Quando contou a Ikarus, ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Não porque estivesse surpreso com a ideia de uma criança, mas porque compreendia imediatamente o peso daquela notícia. Ele já sabia o que significava partir deixando um filho para trás. Sabia o que significava carregar a imagem de uma criança na memória enquanto atravessava um campo de batalha. Sabia o que significava não ter certeza de que voltaria. E agora existia outra vida ligada a ele. Uma vida que ainda nem havia visto o mundo. Raella colocou a mão sobre o próprio ventre. — Você vai embora novamente? Ikarus não respondeu imediatamente. — Eu ainda preciso terminar. Raella baixou os olhos. — Eu sabia que diria isso. — Raella... — Não precisa explicar. Eu conheço você. Talvez melhor do que deveria. Ikarus aproximou-se. — Eu não quero abandonar vocês. — Mas vai. Ele ficou em silêncio. Raella então levantou os olhos. — Só me prometa uma coisa. — O quê? — Que ela vai saber quem você é. Ikarus franziu a testa. — Ela? Raella sorriu. — Eu tenho certeza de que é uma menina. — Como pode saber? — Não sei. Apenas sei. E estava certa. Meses depois, nasceu uma menina. Pequena, saudável e silenciosa durante os primeiros instantes, até abrir os olhos. Raella a segurou contra o peito enquanto Ikarus permanecia ao lado da cama. Ele tocou cuidadosamente a mão da criança. Os dedos minúsculos fecharam-se em torno de um dos seus. Ikarus ficou imóvel. E, pela segunda vez em sua vida, sentiu que todo o peso do mundo podia desaparecer diante de uma criança. — Qual será o nome dela? — perguntou Raella. Ikarus olhou para a menina. — Você já escolheu? Raella sorriu. — Lyra. Ikarus repetiu baixinho: — Lyra... A menina abriu os olhos. Por um instante, Ikarus esqueceu todos os fragmentos. Esqueceu os Guardiões. Esqueceu a guerra. Esqueceu os mortos-vivos. Mas apenas por um instante. Porque naquela mesma noite, enquanto segurava Lyra nos braços, Ikarus sentiu novamente o chamado dos fragmentos. Os cinco símbolos apareceram diante de sua mente. O grifo. A coruja. A serpente. O centauro. A águia. Cinco luzes brilhavam na escuridão. E uma sexta luz apareceu ao longe. Ikarus fechou os olhos. Já sabia. Seu tempo em Lenória estava acabando. Na manhã seguinte, preparou suas coisas. Eiran o observava enquanto ele colocava a espada nas costas. — Você vai embora de novo? Ikarus ajoelhou-se diante dele. — Vou. — Para lutar? Ikarus hesitou. — Para terminar uma coisa que comecei. Eiran ficou pensativo. — Você volta? Ikarus sorriu. — Eu sempre volto. Então o menino abraçou o pai. Ikarus fechou os olhos. Aquela frase era diferente agora. Na primeira vez que partira, Eiran era apenas um bebê em seus braços. Agora podia perguntar. Agora podia sentir a ausência. Agora saberia quando o pai partisse. Ikarus levantou-se e abraçou Gillian. Não havia necessidade de explicar. Ela sabia. — Tome cuidado — disse ela. — Sempre. Depois foi até Raella. Lyra dormia em seus braços. Ikarus aproximou-se lentamente. Raella entregou a menina a ele. Ikarus a segurou durante alguns segundos. — Ela vai perguntar por você. — Eu sei. — O que devo dizer? Ikarus olhou para a filha. — Diga a verdade. Diga que eu precisei partir. Diga que pensei nela. Diga que eu queria voltar. Raella assentiu. Ikarus beijou a testa da menina e devolveu-a à mãe. Então saiu. Dessa vez, porém, havia algo diferente em seu coração. Antes, ele caminhava carregando a obrigação de terminar sua missão. Agora carregava também dois filhos que estavam esperando seu retorno. E isso tornava cada passo mais pesado. Ao deixar Lenória, Ikarus seguiu para o oeste. Seu destino era o reino de Kallon. Kallon não era como os outros reinos. Era uma ilha. Suas montanhas erguiam-se diretamente do mar, enquanto florestas densas cobriam grande parte do território. Havia apenas uma grande cidade conhecida por estrangeiros: Nora. O símbolo de Kallon era uma criatura que os pescadores raramente ousavam mencionar em voz alta. Uma serpente marinha colossal. Durante séculos, histórias sobre ela haviam sido tratadas como lendas. Até que começaram os ataques. Navios desapareciam. Portos eram encontrados destruídos. Criaturas mortas-vivas começaram a surgir nas praias. E os habitantes de Kallon descobriram uma coisa assustadora: algo antigo vivia sob aquelas águas. Ikarus chegou ao porto de Nora ao amanhecer. O mar estava completamente parado. Nenhuma onda. Nenhuma gaivota. Nenhum barco se movia. Aquilo chamou sua atenção imediatamente. Um pescador idoso estava sentado na madeira do cais, olhando para o oceano. Ikarus aproximou-se. — O que aconteceu aqui? O homem não respondeu. Continuou olhando para a água. — Ei. O pescador finalmente falou: — Ela sabe que você chegou. Ikarus olhou para o mar. — Quem? O velho apontou para as profundezas. — A Guardiã. Ikarus ficou imóvel. — Onde está o Guardião de Kallon? O homem virou lentamente o rosto. — Você não entende. Ikarus franziu a testa. — Então me explique. O velho apontou novamente para o oceano. — Em Kallon, o Guardião não vive na terra. Ikarus olhou para o horizonte. O mar começou a se mover. Primeiro lentamente. Depois com força. Uma enorme coluna de água surgiu a quilômetros da costa. Algo gigantesco estava passando sob a superfície. Os navios ancorados começaram a balançar violentamente. Os sinos da cidade tocaram. Pessoas correram pelas ruas. Soldados apareceram nas muralhas. E então o oceano se abriu. Uma cabeça colossal surgiu das águas. Escamas negras cobertas por linhas douradas. Olhos antigos. Presas enormes. A mesma criatura que, séculos antes, havia sido chamada de lenda. A Serpente de Kallon. Mas havia alguém sobre sua cabeça. Uma figura usando armadura dourada. Um manto azul-escuro flutuava atrás de seus ombros. Na mão direita segurava uma lança dourada. O símbolo da serpente brilhava sobre seu peito. Ikarus sentiu os cinco fragmentos reagirem. O sexto Guardião havia encontrado seu portador. A criatura levantou a cabeça. O Guardião olhou diretamente para Ikarus. E sua voz atravessou o porto. — Ikarus de Lenória. Você demorou. Ikarus colocou a mão sobre a espada. — Qual é o seu nome? O Guardião ergueu a lança. — Meu nome é Kaeron. Guardião de Kallon. Então a Serpente abriu a boca e rugiu. O som atravessou o mar. Ikarus desembainhou a espada. Pela sexta vez, o caminho o havia levado até um homem que precisava morrer para que ele pudesse continuar. Mas, dessa vez, havia algo diferente. A Serpente não parecia apenas proteger seu Guardião. Ela parecia reconhecê-lo. E, nas profundezas do oceano, muito abaixo deles, alguma coisa ainda maior começou a despertar.:::

Ad'Heim: Uma pausa

 Ikarus voltou para Lenória.

Não voltou como havia partido.

Três anos antes, quando deixara sua terra, ainda carregava nos braços um filho recém-nascido. Eiran era apenas um bebê naquela época, pequeno demais para compreender o rosto do pai, pequeno demais para saber que aquele homem que o segurava talvez estivesse partindo para uma guerra que poderia durar anos. Agora, quando Ikarus atravessou novamente os portões de Lenória, Eiran já tinha idade suficiente para correr.


E correu.


Gillian estava na entrada da cidade.


Por alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu dizer nada.


Ikarus apenas olhou para ela.


Depois olhou para o menino ao seu lado.


Eiran tinha os cabelos semelhantes aos do pai. Os olhos, porém, eram de Gillian.


O garoto observou aquele homem coberto por cicatrizes, com uma espada nas costas e uma expressão cansada, como se tentasse descobrir quem ele era.


Ikarus ajoelhou-se.


— Eiran?


O menino não respondeu.


Gillian segurou sua mão.


— É seu pai.


Eiran continuou olhando.


Ikarus abriu os braços.


— Eu voltei.


O garoto hesitou.


Um segundo.


Dois.


Então correu.


Ikarus o recebeu nos braços.


E, naquele instante, todos os anos de caminhada pareceram desaparecer.


Ele apertou o filho contra o peito e fechou os olhos.


Não havia fragmentos.


Não havia Guardiões.


Não havia mortos-vivos.


Não havia profecias.


Havia apenas seu filho.


Gillian aproximou-se.


Ikarus levantou os olhos.


— Eu prometi.


Ela respondeu:


— Eu sei.


— Demorei.


— Eu sei.


— Sinto muito.


Gillian colocou a mão sobre seu rosto.


— Você voltou.


E isso bastava.


Mas o mundo para o qual Ikarus havia retornado já não era o mesmo que ele havia deixado.


Enquanto ele atravessava os reinos em busca dos fragmentos, outra guerra havia crescido.


Os mortos-vivos não desapareceram.


Ao contrário.


A praga havia se espalhado.


Vilarejos inteiros foram abandonados. Estradas comerciais foram destruídas. Cemitérios precisaram ser queimados. Cidades construíram muralhas não apenas contra exércitos humanos, mas contra cadáveres que caminhavam durante a noite.


Durante anos, os reinos lutaram praticamente sozinhos.


Lenória defendia suas fronteiras.


Sefrion utilizava seus magos.


Setra fechava seus caminhos e protegia seus rios.


Gallen mobilizava cavaleiros.


Valeth transformava fazendas em fortalezas.


Kallon defendia suas costas contra criaturas vindas do mar.


E Aldora...


Aldora permanecia distante.


Mas a ameaça era grande demais.


Nenhum reino conseguia vencer sozinho.


Então aconteceu algo que, poucos anos antes, teria sido considerado impossível.


Os orcs começaram a lutar ao lado dos humanos.


No início, ninguém confiava neles.


Os humanos mantinham suas espadas desembainhadas.


Os orcs mantinham seus machados nas mãos.


Ambos esperavam que o outro atacasse primeiro.


Mas então os mortos-vivos chegaram.


E não perguntaram quem era humano.


Não perguntaram quem era orc.


Não perguntaram quem era elfo.


Não perguntaram quem era anão.


Eles simplesmente mataram.


Um grupo de orcs encontrou uma aldeia humana cercada por mortos-vivos.


Poderiam ter seguido caminho.


Não seguiram.


Atacaram.


Horas depois, humanos e orcs estavam lutando lado a lado.


A mesma coisa aconteceu em outros lugares.


Depois vieram os goblins.


Alguns haviam sido perseguidos pelos próprios humanos durante gerações. Outros eram saqueadores. Outros simplesmente tentavam sobreviver.


Mas os mortos-vivos não faziam distinção.


E, pouco a pouco, uma nova realidade surgiu.


Orcs passaram a guardar estradas humanas.


Goblins começaram a trabalhar como batedores.


Elfos passaram a negociar armas e conhecimento com povos que antes desprezavam.


Anões abriram antigas minas para produzir armas em escala jamais vista.


Humanos começaram a aceitar criaturas que antes consideravam inimigas.


Não porque todos tivessem aprendido a amar uns aos outros.


Não tinham.


A desconfiança permanecia.


Os preconceitos permaneciam.


As guerras antigas não foram esquecidas.


Mas havia uma ameaça maior.


Os vivos começaram a compreender que poderiam continuar brigando entre si...


Ou poderiam morrer juntos.


E assim nasceu algo que nenhum rei havia planejado.


Uma aliança.


Não uma aliança perfeita.


Não uma paz.


Uma necessidade.


Os povos do mundo passaram a chamar aqueles acordos de Alianças Convencionais.


Era uma expressão estranha.


Mas funcionava.


Orcs continuavam sendo orcs.


Goblins continuavam sendo goblins.


Humanos continuavam sendo humanos.


Elfos continuavam sendo elfos.


Porém, quando os mortos-vivos apareciam no horizonte, todos lutavam do mesmo lado.


E a guerra continuava.


Até aquele momento, Ikarus havia conhecido apenas uma parte desse conflito.


Ao retornar a Lenória, começou a ouvir histórias.


Histórias sobre cidades inteiras desaparecendo.


Sobre exércitos mortos voltando a caminhar.


Sobre necromantes desconhecidos.


Sobre criaturas que pareciam não obedecer a nenhum senhor.


E, principalmente, sobre uma pergunta que começou a aparecer em todas as tavernas, fortalezas e salas de conselho:


De onde estavam vindo tantos mortos?


Ikarus não tinha resposta.


Mas havia outra coisa que o preocupava.


Aldora.


Ele ainda não havia ido até lá.


E, pela primeira vez, não era por falta de caminho.


Durante uma noite, depois de voltar para Lenória, Ikarus sonhou.


Estava em um lugar completamente branco.


Não havia chão.


Não havia céu.


Não havia horizonte.


Apenas vazio.


Então uma voz falou.


— Ainda não.


Ikarus olhou ao redor.


— Quem está aí?


Nenhuma resposta.


— Aldora?


Silêncio.


Então a voz voltou.


— Ainda não vá para Aldora.


Ikarus tentou avançar.


Não conseguiu.


— Por quê?


A resposta veio apenas depois de alguns segundos.


— Porque aquilo que está esperando por você ainda não despertou.


Ikarus acordou.


Estava sentado na cama.


O coração batia violentamente.


Gillian dormia ao seu lado.


Ele olhou para ela.


Depois para a janela.


O céu começava a clarear.


Desde aquele sonho, Ikarus passou a evitar Aldora.


Não por medo.


Por necessidade.


Havia alguma coisa naquele reino que ainda não deveria ser enfrentada.


E Ikarus aprendera, depois de cinco Guardiões, que nem toda batalha deveria ser travada no momento em que aparecia diante de seus olhos.


Thomas foi a primeira pessoa a quem contou.


Não pessoalmente.


Por cartas.


As cartas entre os dois começaram lentamente.


No começo eram apenas mensagens curtas.


Informações sobre Aldora.


Notícias sobre os mortos-vivos.


Relatos sobre os movimentos das criaturas.


Depois começaram a conversar sobre coisas mais simples.


Sobre Eiran.


Sobre Gillian.


Sobre a vida em Aldora.


Thomas perguntava pelos fragmentos.


Ikarus respondia apenas o necessário.


Ambos sabiam que havia coisas que não deveriam ser escritas em uma carta.


Mas Thomas também começou a enviar informações.


E uma delas chamou imediatamente a atenção de Ikarus.


O Livro da Vida.


Thomas havia ouvido rumores através das rotas comerciais que atravessavam o deserto.


Um grupo de aventureiros havia encontrado um antigo livro branco.


Um livro que supostamente poderia devolver os mortos.


Ikarus leu a carta duas vezes.


Depois uma terceira.


Naquela noite, escreveu:


“Thomas, descubra tudo o que puder sobre esse livro. Não permita que ninguém o leia. Não permita que ninguém tente usar seu poder. Quero saber onde ele está, quem o encontrou e o que aconteceu com aqueles que tiveram contato com ele.”


A resposta demorou quase três semanas.


Quando chegou, Ikarus abriu o envelope sozinho.


Thomas havia escrito:


“Meu irmão, talvez você esteja procurando exatamente aquilo que eu temo que tenha encontrado você primeiro.”


Ikarus continuou lendo.


“Ouvi falar de um grupo que entrou em uma ruína ao norte. Dizem que encontraram um livro branco chamado VIDA. Alguns voltaram. Outros não. Um homem que estava entre eles desapareceu depois. Não sei se o livro realmente ressuscita os mortos. Há histórias contraditórias.”


Ikarus parou.


No final da carta havia uma frase.


“Mas existe uma coisa que me preocupa mais. Pessoas estão procurando esse livro.”


Ikarus colocou a carta sobre a mesa.


Naquele momento, alguém bateu à porta.


Era Gillian.


— Notícias ruins?


Ikarus olhou para ela.


— Talvez.


— Dos Guardiões?


— Não.


Ele entregou a carta.


Gillian leu.


Quando terminou, permaneceu em silêncio.


— O Livro da Vida...


Ikarus assentiu.


— Se existe algo capaz de trazer alguém de volta...


Gillian interrompeu:


— Ikarus.


Ele olhou para ela.


— Não pense nos Guardiões.


Ikarus ficou imóvel.


Ela continuou:


— Eles morreram.


— Eu sei.


— Não. Você sabe com a cabeça. Não sei se sabe com o coração.


Ikarus desviou o olhar.


Gillian aproximou-se.


— Sahrion morreu. Eryon morreu. Darven morreu. Aren morreu. Eles escolheram lutar. Você venceu. A história deles terminou ali.


Ikarus apertou a carta.


— E se o livro puder—


— Não.


A palavra foi firme.


— E se puder?


Gillian respondeu:


— Então descubra primeiro o que ele realmente faz.


Ikarus ficou em silêncio.


Ela continuou:


— Não deixe que a saudade faça você acreditar em qualquer coisa que prometa devolver quem perdemos.


Ikarus olhou para o filho dormindo no quarto ao lado.


Então guardou a carta.


— Thomas precisa descobrir mais.


— E você?


— Eu vou esperar.


— Esperar o quê?


Ikarus olhou pela janela.


Ao longe, além das muralhas de Lenória, havia uma coluna de fumaça.


Mais um ataque.


Mais mortos-vivos.


Mais uma batalha.


— O próximo Guardião.


Mas, naquela mesma noite, muito longe dali, uma página branca começou a virar sozinha.


O Livro da Vida estava aberto.


Não havia ninguém tocando nele.


Nenhuma mão.


Nenhum vento.


A página permaneceu completamente vazia durante alguns segundos.


Então letras começaram a surgir.


Primeiro uma.


Depois outra.


Até formar uma frase:


“OS MORTOS NÃO SÃO TODOS IGUAIS.”


A página virou.


Outra frase apareceu.


“ALGUNS DEVEM PERMANECER MORTOS.”


A página seguinte começou a se escrever.


E, pela primeira vez, surgiu um nome.


Um nome que ninguém naquela sala conhecia.


ELIAS.


Então, em algum lugar nas profundezas do mundo, uma coisa que estava morta havia mais de mil anos abriu os olhos.


E o Livro da Vida fechou-se sozinho.


Porque talvez o maior perigo daquele livro nunca tivesse sido devolver os mortos.


Talvez fosse decidir...


quem deveria continuar morto.:::

Ad'Heim: Valeth

 Três anos haviam passado desde que Ikarus deixara sua casa. Três anos desde a última vez que segurara Eiran nos braços. Naquela época, seu filho ainda era pequeno demais para compreender que o homem que o carregava nos braços estava prestes a partir para uma jornada da qual talvez jamais retornasse. Agora Eiran já caminhava, já falava, já começava a formar suas próprias lembranças. E Ikarus não estava lá para nenhuma delas. Durante três anos, o mundo havia mudado. E ele também. A estrada até Valeth atravessava campos cada vez mais extensos. Depois das montanhas de Gallen, a paisagem se abriu diante dele como um mar verde e dourado. Plantações cobriam as colinas, rebanhos pastavam nos vales e pequenas aldeias apareciam ao longo das estradas. Pela primeira vez em muito tempo, Ikarus encontrou um reino que parecia não estar esperando uma guerra. Valeth vivia. Pessoas riam nas praças. Crianças corriam entre carroças. Agricultores voltavam dos campos ao entardecer. Mercadores atravessavam as estradas levando trigo, lã e animais. Ikarus desmontou do cavalo diante de uma pequena hospedaria. O proprietário olhou para ele durante alguns segundos. A armadura, as cicatrizes, a espada e principalmente aquele olhar cansado denunciavam que aquele homem não era um viajante comum. — De onde vem? — perguntou o proprietário. Ikarus respondeu apenas: — Gallen. O homem sorriu. — Então veio da terra dos cavaleiros. Seja bem-vindo a Valeth. Ikarus agradeceu e entrou. Sentou-se próximo à janela. Pediu água e comida. Enquanto esperava, observou uma família sentada à mesa ao lado. Um pai brincava com o filho pequeno enquanto a mãe tentava fazê-lo comer. Ikarus desviou os olhos. Não conseguiu continuar olhando. Durante três anos, aquela era a pior parte da viagem. Não eram as batalhas. Não eram os ferimentos. Não eram os quatro Guardiões que havia matado. Era ver famílias vivendo aquilo que ele próprio havia abandonado. Naquela noite, dormiu pouco. Sonhou com Eiran. No sonho, o menino estava mais velho. Corria em sua direção. Ikarus se ajoelhava para abraçá-lo. Mas, quando tentava tocá-lo, Eiran passava através de seus braços como fumaça. Ikarus acordou antes do amanhecer. Ficou sentado na cama durante alguns minutos, olhando para as próprias mãos. Quatro marcas douradas brilhavam discretamente em seu peito. Quatro fragmentos. Quatro mortos. Quatro famílias. E ainda faltavam oito. Ele se levantou, vestiu a armadura e partiu.


Ao chegar a Gilleth, Ikarus percebeu que havia algo diferente na cidade. Pessoas falavam sobre uma presença nas montanhas. Alguns diziam que era uma criatura. Outros diziam que era um espírito. Um velho comerciante mencionou um homem de armadura dourada que vivia além das estradas. Ikarus não precisou perguntar mais nada. — Onde? O comerciante apontou para o norte. — Nas montanhas. Mas ninguém vai até lá. — Por quê? — Porque aquele caminho pertence à Águia. Ikarus ficou em silêncio. A palavra despertou algo dentro dos fragmentos. Pela primeira vez desde Gallen, as quatro marcas em seu peito começaram a brilhar. O comerciante percebeu. — Você... é um dos homens que procuram os Guardiões? Ikarus levantou-se. — Não procuro homens. Procuro fragmentos. O velho ficou pálido. Ikarus deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu.


A estrada para a montanha era estreita e quase abandonada. Conforme subia, as plantações desapareciam e davam lugar a pedras, árvores e campos abertos. O vento tornava-se mais forte. Ikarus continuou andando durante horas. Ao cair da tarde, encontrou uma pequena casa de madeira. Havia lenha empilhada ao lado da porta. Um banco. Uma velha espada enferrujada pendurada sobre a parede externa. Ikarus parou. Algo naquele lugar parecia familiar. Não porque conhecesse aquela casa, mas porque parecia um lugar onde alguém havia vivido esperando. A porta estava aberta. Ikarus entrou. Não havia ninguém. Sobre a mesa encontrou uma pequena caixa de madeira. Dentro havia cartas antigas. Ele não deveria tê-las lido. Mas uma delas estava aberta. O nome no topo chamou sua atenção.


Aren.


Ikarus leu apenas algumas linhas.


“Pai, você passou tantos anos protegendo pessoas que esqueceu que também era uma delas. Se algum dia voltar, não precisa ser um Guardião. Volte apenas como meu pai.”


Ikarus fechou a carta.


Então ouviu uma voz atrás dele.


— Você não deveria estar lendo isso.


Ikarus virou-se.


Um homem idoso estava parado na porta.


Cabelos brancos. Rosto marcado pelo tempo. Olhos dourados.


E uma espada dourada presa à cintura.


Ikarus imediatamente levou a mão à própria arma.


O homem não fez o mesmo.


— Você é Aren.


— E você é Ikarus.


Ikarus ficou imóvel.


— Como sabe meu nome?


Aren olhou para o peito dele.


— Porque os quatro fragmentos já sabem que você chegou.


O vento entrou pela porta.


As marcas douradas no corpo de Ikarus começaram a brilhar.


Aren olhou para elas e suspirou.


— Então é verdade.


— O quê?


— Que eles realmente escolheram você.


Ikarus franziu a testa.


— Quem?


Aren caminhou até a mesa e pegou a carta.


— Os fragmentos.


Ele guardou o papel.


— Há quanto tempo você sabe que eu viria?


— Desde o dia em que fui escolhido.


— Então você sabe o que vai acontecer.


Aren finalmente olhou diretamente para ele.


— Sei.


Ikarus ficou em silêncio.


Aren continuou:


— Você veio para me matar.


A frase atingiu Ikarus com a mesma força de um golpe.


Mesmo depois de quatro mortes, ainda havia algo diferente quando alguém dizia aquilo em voz alta.


— Eu não quero matá-lo.


Aren sorriu.


— Eu também não quero morrer.


Ikarus ergueu os olhos.


— Então por que continua aqui?


Aren respondeu:


— Porque querer viver não é a mesma coisa que ter o direito de abandonar aquilo que juramos proteger.


Ele saiu da casa.


Ikarus o acompanhou.


Do lado de fora, o céu estava ficando vermelho com o pôr do sol.


Aren caminhou até a borda da montanha.


— Está vendo Valeth?


Ikarus olhou para baixo.


O reino inteiro se estendia diante deles.


Gilleth brilhava ao longe. Os campos pareciam infinitos. Pequenas luzes começavam a surgir nas aldeias.


— Tudo isso — disse Aren — é o motivo pelo qual estou aqui.


Ikarus respondeu:


— E o fragmento?


— O fragmento é apenas uma coisa. As pessoas são o motivo.


Aren olhou para ele.


— Sahrion morreu protegendo seu povo. Eryon morreu protegendo sua filha e seu reino. Darven morreu protegendo aquilo que amava.


Ikarus ficou imóvel.


— Você conhece os nomes deles?


— Os Guardiões sabem quando um deles cai.


Aren respirou profundamente.


— Eu senti cada morte.


Ikarus apertou a mão.


— Então sabe que não faço isso por prazer.


— Eu sei.


— Então por que me enfrenta?


Aren olhou novamente para Valeth.


— Porque amanhã você tentará atravessar esta montanha. E eu tentarei impedir.


— Mesmo sabendo que vai morrer?


— Principalmente por saber.


Ikarus abaixou a cabeça.


Aren então perguntou:


— Você tem uma família?


A pergunta fez Ikarus congelar.


— Tenho.


— Esposa?


— Gillian.


— Filhos?


Ikarus demorou alguns segundos.


— Um filho. Eiran.


Aren fechou os olhos.


— Quantos anos?


— Três.


Aren ficou em silêncio.


Então sorriu tristemente.


— Então você ainda pode voltar.


Ikarus olhou para ele.


— O quê?


— Eu já não posso.


Aren caminhou até uma pequena pedra próxima à borda e sentou-se.


— Minha esposa morreu. Meus filhos morreram. Meus netos morreram. Minha família inteira desapareceu enquanto eu continuava aqui em cima, usando uma armadura que não envelhecia. Durante anos, pensei que isso fosse uma bênção.


Ele olhou para as próprias mãos.


— Depois compreendi que também era uma prisão.


Ikarus sentou-se a alguns metros dele.


Pela primeira vez desde que chegara a Valeth, os dois não eram inimigos.


Eram apenas dois homens.


Um que havia deixado a família para cumprir uma missão.


Outro que havia perdido a família enquanto cumpria a sua.


Aren olhou para o horizonte.


— Amanhã lutaremos.


Ikarus assentiu.


— Sim.


— E um de nós morrerá.


— Sim.


Aren levantou-se.


— Então esta noite não somos inimigos.


Ikarus olhou para ele.


— O que somos?


Aren respondeu:


— Dois homens que sabem exatamente o que estão prestes a perder.


Ele voltou para a casa.


Ikarus permaneceu do lado de fora.


Naquela noite, pela primeira vez em três anos, escreveu uma carta para Gillian.


Não escreveu sobre os fragmentos.


Não escreveu sobre os Guardiões.


Não escreveu sobre as mortes.


Escreveu apenas sobre Eiran.


“Gillian, se um dia nosso filho perguntar por que eu fui embora, diga a ele que não foi porque eu queria ficar longe dele. Foi porque eu queria que ele tivesse um mundo para onde pudesse voltar. Diga que eu pensei nele todas as noites. E diga que, mesmo que eu não consiga voltar, ele foi a razão pela qual continuei caminhando.”


Ikarus dobrou a carta.


Mas não tinha como enviá-la.


Guardou-a dentro da armadura.


Na manhã seguinte, os sinos de Gilleth tocaram.


Uma vez.


Duas.


Três.


Então uma sombra gigantesca cobriu os campos.


Ikarus saiu da casa.


Olhou para o céu.


A Águia de Valeth descia das nuvens.


Era gigantesca.


Suas asas cobriram o sol.


Aren apareceu atrás de Ikarus já vestido com sua armadura dourada.


A espada estava em sua mão.


— Chegou a hora.


Ikarus desembainhou a própria espada.


— Sim.


Aren ergueu a lâmina.


A Águia pousou atrás dele.


O vento explodiu pela montanha.


E, enquanto os habitantes de Valeth olhavam para o céu sem compreender o que estava acontecendo, o quinto combate entre um portador e um Guardião estava prestes a começar.


As badaladas de Gilleth atravessaram os campos naquela manhã. Uma após outra, ecoaram pelas montanhas, pelos telhados da cidade e pelas estradas que levavam ao norte. Os camponeses pararam o trabalho. Os cavaleiros deixaram as muralhas. Até os animais pareceram inquietos. Todos em Valeth conheciam aquele som. Não era um chamado para a guerra. Era o aviso de que o Guardião havia despertado.


Ikarus permaneceu imóvel no campo aberto, a alguns metros de Aren. O vento passava entre os dois, fazendo o manto do antigo Guardião ondular. À sua frente, Aren já não parecia o velho homem que havia compartilhado uma noite silenciosa com ele. A armadura dourada cobria seu corpo inteiro, formada por placas que lembravam penas sobrepostas. O manto branco e dourado caía de seus ombros, e sobre seu peito brilhava o símbolo da águia.


Aren segurava a espada dourada com as duas mãos.


Acima deles, uma sombra cobriu o céu.


Ikarus levantou os olhos.


A Águia de Valeth descia das nuvens.


Era gigantesca.


Suas asas abertas pareciam cobrir o próprio horizonte. As penas eram predominantemente brancas, mas cada uma possuía reflexos dourados que brilhavam sob a luz dos dois sóis. Seus olhos eram intensamente dourados, antigos demais para pertencerem a qualquer criatura comum.


Quando pousou atrás de Aren, o impacto fez a terra tremer.


Aren não olhou para trás.


— Ela nunca me abandonou.


Ikarus segurou sua espada.


— Você também nunca abandonou Valeth.


Aren sorriu.


— Talvez esse tenha sido meu problema.


Ikarus franziu a testa.


— Como assim?


Aren respirou profundamente.


— Eu passei tanto tempo protegendo este reino que esqueci que minha vida também fazia parte dele.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.


Então Aren olhou para a espada de Ikarus.


— Quatro fragmentos.


Ikarus confirmou com um movimento de cabeça.


— Quatro.


— E quatro Guardiões mortos.


Ikarus baixou os olhos.


— Sim.


Aren fechou os olhos.


— Então você já sabe o que acontecerá aqui.


— Sei.


— E mesmo assim continua.


— Preciso continuar.


Aren abriu os olhos.


— Não. Você quer continuar.


Ikarus ficou em silêncio.


Aren continuou:


— Há diferença.


Ikarus apertou o punho.


— Minha família está esperando por mim.


Aren olhou para ele durante alguns segundos.


— Então volte para ela.


Ikarus levantou os olhos.


— Não posso.


— Pode.


— Não enquanto esses fragmentos estiverem espalhados.


Aren sorriu tristemente.


— Foi exatamente isso que pensei quando aceitei minha armadura.


Ele levantou a espada.


— E olha onde isso me trouxe.


O vento aumentou.


A Águia de Valeth abriu as asas.


Aren assumiu posição.


— Ikarus.


— Sim?


— Se você me derrotar...


Ele fez uma pausa.


— Não olhe para trás.


Ikarus não respondeu.


— Não transforme minha morte em uma corrente que carregará pelo resto da vida. Você já carrega quatro homens dentro de si. Se começar a carregar também a culpa por cada um deles, não chegará ao décimo segundo.


Os olhos de Ikarus ficaram mais sérios.


Aren sorriu.


— E eu quero que você chegue.


A Águia soltou um grito.


O som atravessou o vale como um trovão.


Ikarus avançou.


A primeira colisão das espadas explodiu em faíscas douradas.


Aren era rápido.


Muito mais rápido do que sua idade permitia.


Ele girou o corpo e desferiu um golpe horizontal. Ikarus abaixou-se por uma fração de segundo e sentiu a lâmina passar acima de sua cabeça.


Contra-atacou.


Aren bloqueou.


O impacto o fez recuar vários metros.


— Você aprendeu — disse Aren.


Ikarus avançou novamente.


As espadas se encontraram uma, duas, três vezes.


A cada golpe, o som metálico se espalhava pelo vale.


Então a Águia atacou.


Ikarus percebeu a sombra antes mesmo de ouvir o vento.


Saltou.


As garras da criatura rasgaram o chão onde ele estava.


Ikarus pousou sobre uma pedra e olhou para cima.


A Águia voltou para o céu.


Aren avançou.


Ikarus bloqueou.


O golpe seguinte quebrou sua defesa.


A espada dourada atingiu seu ombro.


Sangue caiu sobre a terra.


Ikarus recuou.


Aren não o perseguiu.


— Ainda pode desistir.


Ikarus segurou o ombro ferido.


— Não.


— Por quê?


Ikarus respirou fundo.


— Porque alguém precisa chegar ao fim.


Aren fechou os olhos por um instante.


— Então venha.


Ikarus correu.


Dessa vez, não houve hesitação.


Os dois desapareceram entre os golpes.


Aren era experiência.


Ikarus era sobrevivência.


O Guardião conhecia cada movimento de sua espada. Ikarus conhecia a sensação de estar a um passo da morte.


E, naquele momento, isso fazia toda a diferença.


Aren desferiu um golpe vertical.


Ikarus desviou.


O Guardião girou.


Outro golpe.


Ikarus bloqueou.


Aren atacou novamente.


Ikarus recuou.


Mais um.


Ikarus caiu de joelhos.


A espada de Aren parou diante de seu rosto.


— Você está cansado.


Ikarus levantou os olhos.


— Estou.


— Então levante-se.


Ikarus ficou surpreso.


— Por quê?


Aren abaixou a espada.


— Porque eu não quero vencer você assim.


Ikarus levantou-se lentamente.


Aren respirou.


— Quando eu era jovem, acreditava que proteger alguém significava impedir que essa pessoa sofresse.


Ele olhou para a Águia.


— Depois descobri que algumas dores não podem ser evitadas. Apenas atravessadas.


Aren ergueu a espada.


— Seu filho vai sofrer um dia.


Ikarus congelou.


— Sua esposa também.


Aren continuou:


— Você também.


O olhar de Ikarus endureceu.


— Não use minha família contra mim.


— Não estou usando.


Aren apontou a espada para ele.


— Estou lembrando você do motivo pelo qual precisa voltar.


Ikarus apertou os dentes.


Aren avançou.


Dessa vez, Ikarus não tentou bloquear.


Esperou.


Um segundo.


Meio segundo.


Quando a espada de Aren passou por ele, Ikarus girou.


A lâmina de Ikarus atravessou a armadura dourada.


Aren parou.


O mundo pareceu ficar silencioso.


Ikarus segurava a espada contra o peito do Guardião.


Aren olhou para baixo.


Depois olhou para Ikarus.


Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.


— Finalmente...


Ikarus começou a retirar a espada.


Aren segurou seu braço.


— Não.


Ikarus parou.


— Termine.


Os olhos de Ikarus se fecharam.


Por um instante, ele viu Sahrion.


Depois Eryon.


Depois Darven.


Quatro homens.


Quatro histórias.


Quatro famílias.


E agora...


Aren.


Ikarus empurrou a espada até o fim.


O corpo do Guardião perdeu a força.


Aren caiu de joelhos.


A Águia de Valeth gritou.


O som foi tão forte que as janelas de Gilleth tremeram.


Aren olhou uma última vez para o céu.


— Eu consigo ver...


Ikarus ajoelhou-se diante dele.


— O quê?


Aren sorriu.


— O horizonte.


Então morreu.


A espada caiu de sua mão.


A armadura dourada começou a desaparecer.


A Águia pousou ao lado do corpo de seu Guardião e abaixou a cabeça.


Ikarus permaneceu ajoelhado.


Não havia celebração.


Não havia vitória.


Apenas silêncio.


Então o símbolo da águia apareceu no chão.


Uma luz dourada surgiu sobre o corpo de Aren.


O quinto fragmento apareceu.


Ele flutuou lentamente até Ikarus.


Quando tocou seu peito, os quatro fragmentos anteriores reagiram.


Cinco luzes.


Cinco símbolos.


Cinco Guardiões mortos.


Ikarus levou a mão ao peito.


Por um instante, ouviu vozes.


Sahrion.


Eryon.


Darven.


Aren.


Não eram palavras claras.


Eram apenas lembranças.


Então uma quinta voz surgiu.


— Continue...


Ikarus abriu os olhos.


A luz desapareceu.


Ele se levantou.


Antes de partir, colocou a mão sobre o ombro de Aren.


— Eu vou voltar para casa.


O vento passou pelo campo.


A Águia levantou voo.


Ikarus observou a criatura desaparecer entre as nuvens.


Então ouviu um som atrás de si.


Passos.


Uma mulher idosa caminhava lentamente pela estrada.


Ela olhou para o corpo de Aren.


Depois para Ikarus.


Não havia ódio em seus olhos.


Havia tristeza.


— Ele esperou por você.


Ikarus não respondeu.


A mulher continuou:


— Durante muitos anos, ele dizia que um dia alguém viria.


Ela se aproximou do corpo.


— Eu não acreditava.


Ikarus abaixou a cabeça.


— Ele tinha uma família?


A mulher sorriu tristemente.


— Tinha.


— Onde estão?


Ela olhou para o céu.


— Mortos.


Ikarus ficou imóvel.


— Todos?


— Todos.


A mulher tocou a armadura desaparecida de Aren.


— Ele continuou protegendo pessoas depois que não havia mais ninguém esperando por ele.


Ikarus fechou os olhos.


Aquela frase atravessou seu peito.


Porque, pela primeira vez, compreendeu algo que os quatro Guardiões anteriores haviam tentado ensinar de maneiras diferentes.


O fragmento não estava escolhendo guerreiros.


Estava escolhendo homens que haviam perdido alguma coisa.


Homens que continuaram caminhando depois que perderam.


Ikarus olhou para o norte.


Cinco fragmentos.


Ainda faltavam sete.


Mas havia algo diferente agora.


No instante em que o quinto fragmento se fundira aos outros, uma imagem surgira em sua mente.


Uma montanha.


Um bosque.


Uma torre negra.


E, diante dela, uma figura usando uma armadura dourada.


Não era Aren.


Não era Sahrion.


Não era Darven.


Era outro Guardião.


E atrás dele...


Uma criatura gigantesca que Ikarus nunca havia visto.


Ikarus abriu os olhos.


— Mais um...


Muito longe dali, em algum lugar além das montanhas, uma voz despertou.


— Ele já possui cinco.


Uma segunda voz respondeu:


— Então os outros precisam se preparar.


A primeira ficou em silêncio.


— Não.


— Não?


— Já não importa se estão preparados.


Uma pausa.


— O portador está vindo.


E, nas profundezas de um reino que ainda não havia sido alcançado por Ikarus, uma armadura dourada abriu os olhos.


O sexto Guardião havia despertado.:::