Três anos haviam se passado desde que Ikarus deixara Lenória pela segunda vez. Três anos desde que beijara a testa de Lyra, entregando-a novamente aos braços de Raella, e abraçara Eiran antes de partir. Três anos desde que prometera a Gillian que voltaria. Desta vez, porém, a distância havia sido muito maior. O mundo parecia ter sido desenhado para impedir que ele chegasse ao destino. Ikarus já não viajava como um homem comum. Os sete fragmentos estavam dentro dele e, com eles, algo que nenhum dos antigos portadores parecia ter conseguido dominar: os vínculos com os Guardiões que havia derrotado. Depois da morte de Serenya, a floresta de Khsandra lhe revelou que os seres invocados pelos Guardiões não desapareciam com a morte de seus mestres. Eles permaneciam ligados aos fragmentos. Ikarus descobriu isso quase por acaso. Quando tentou atravessar uma cadeia montanhosa, chamou a Águia de Valeth. A criatura desceu das nuvens, carregou-o por centenas de quilômetros e, em poucas horas, aquilo que levaria semanas havia sido atravessado. Em outra ocasião, quando precisava cruzar uma região coberta por pântanos, chamou o Grifo de Lenória. O enorme animal pousou diante dele e Ikarus percebeu que os antigos Guardiões haviam deixado muito mais do que fragmentos. Haviam deixado companheiros. A Coruja de Sefrion podia atravessar distâncias durante a noite em uma velocidade que nenhum cavalo alcançaria. O Centauro de Gallen podia percorrer planícies inteiras sem descansar. A Serpente de Kallon podia transportá-lo por rios e mares e, em determinadas ocasiões, mergulhá-lo em profundidades onde nenhum homem sobreviveria. A Árvore-Mãe de Khsandra permanecera em seu reino, ligada à floresta, mas havia permitido que algumas de suas raízes vivas acompanhassem o fragmento, formando uma espécie de vínculo espiritual que Ikarus podia sentir quando se aproximava de regiões corrompidas. E, mesmo que ainda não compreendesse completamente a natureza desses poderes, Ikarus aprendeu a utilizá-los. Pela primeira vez desde o início da jornada, ele podia percorrer o mundo em uma velocidade que nenhum viajante comum conseguiria acompanhar. Mas havia um problema. Os seres invocados não atravessavam determinados lugares. Não importava o quanto Ikarus tentasse chamá-los. O Grifo simplesmente não aparecia. A Águia surgia no céu, observava determinada região e desaparecia. O Centauro parava diante de certas fronteiras invisíveis e recusava-se a avançar. A Coruja, que normalmente obedecia sem hesitar, simplesmente batia as asas para longe quando Ikarus tentava enviá-la sobre determinadas montanhas. A Serpente de Kallon era ainda mais estranha. Havia águas nas quais ela jamais entrava. Ikarus não sabia por quê. Nenhum dos seres explicava. Nenhum falava. Eram criaturas ligadas aos fragmentos, e parecia existir uma memória anterior a Ikarus que determinava onde podiam ou não ir. No começo, ele tentou ignorar aquilo. Depois percebeu que não podia. Havia lugares que os próprios Guardiões haviam evitado durante séculos. Lugares que nem mesmo aquelas criaturas ancestrais ousavam atravessar. E, conforme Ikarus avançava em direção ao norte, esses lugares começaram a aparecer com frequência cada vez maior.
Depois de Khsandra, sua jornada levou-o para regiões que nenhum mapa moderno representava corretamente. Passou por aldeias abandonadas, cidades que haviam sido reconstruídas três vezes após ataques de mortos-vivos e fortalezas onde humanos, orcs, goblins e elfos dividiam o mesmo espaço por necessidade. A guerra havia mudado o mundo. O que antes parecia impossível tornara-se cotidiano. Em uma estrada próxima às montanhas, Ikarus encontrou uma patrulha composta por seis humanos, quatro orcs e dois goblins. Um dos goblins estava montado em um cavalo. O fato teria provocado risadas em qualquer época anterior. Agora ninguém achava estranho. Eles estavam procurando mortos-vivos que haviam desaparecido de um vilarejo. O capitão humano perguntou quem Ikarus era. Ele respondeu apenas seu nome. O homem ficou pálido. Um dos orcs reconheceu os símbolos dos fragmentos. — É ele — disse. — O portador. Ikarus percebeu imediatamente que sua fama havia chegado muito mais longe do que imaginava. O capitão não o tratou como inimigo. Apenas disse: — Se você está indo para o norte, não siga a estrada principal. Os mortos estão ocupando as cidades antigas. Ikarus perguntou: — Há mortos-vivos em Arteph? O orc respondeu antes do humano: — Não. Em Arteph, eles fazem parte da paisagem. Ikarus ficou olhando para ele. O orc deu de ombros. — Foi o que ouvi. E seguiu seu caminho.
Os meses se transformaram em anos. Ikarus passou por Setra novamente, mas não voltou a Kxin. O simples fato de passar próximo às montanhas fez a Serpente de Kallon se recusar a continuar. Ele chamou a criatura duas vezes. Nas duas, ela mergulhou e desapareceu. Ikarus não insistiu. Seguiu a pé. Depois chamou o Centauro de Gallen para atravessar uma enorme planície. O animal apareceu, caminhou alguns metros e parou. Ikarus montou mesmo assim. A criatura permaneceu imóvel. Ele desceu. — Você também sente? O Centauro apenas olhou para o norte. Ikarus seguiu o olhar. Não havia nada ali além de uma cadeia de montanhas distante. Então compreendeu. Todos os seres estavam evitando alguma coisa. Não era o reino de Arteph em si. Era o caminho para ele.
A viagem a pé tornou-se lenta. Ikarus já não tinha pressa apenas para chegar. Havia aprendido que algumas regiões exigiam que ele caminhasse. Em uma delas, passou quase quatro meses viajando por uma floresta morta. Não havia pássaros. Não havia insetos. Não havia vento. As árvores permaneciam de pé, mas pareciam vazias. Ikarus dormia sob os galhos e acordava com a sensação de estar sendo observado. Em determinada noite, encontrou pegadas humanas ao redor de seu acampamento. Eram dezenas. Ele não ouvira ninguém. Na manhã seguinte, as pegadas haviam desaparecido. Em outra região, atravessou uma cidade onde todas as casas tinham portas abertas. Não havia corpos. Não havia sinais de batalha. Apenas uma cidade inteira vazia. Na praça central encontrou uma fonte seca. Sobre ela havia uma inscrição antiga: “Quando os vivos abandonarem este lugar, os mortos finalmente poderão voltar para casa.” Ikarus não permaneceu ali.
Enquanto isso, as cartas de Lenória continuavam chegando, embora cada vez mais demoradas. A distância e a guerra dificultavam tudo. Gillian escrevia sobre Eiran. O menino estava crescendo. Já não era apenas uma criança que esperava o pai voltar. Começava a compreender que o pai estava em algum lugar distante lutando contra coisas que ele ainda não conseguia imaginar. Uma carta dizia que Eiran havia começado a treinar com uma espada de madeira. Outra dizia que ele perguntava sobre o Grifo de Lenória. Outra dizia apenas: “Ele perguntou se você ainda lembra dele.” Ikarus leu essa carta durante muito tempo. Depois respondeu: “Diga a ele que não existe uma noite em que eu não lembre.”
As cartas de Raella eram diferentes. Ela falava pouco sobre Lyra. Talvez porque soubesse que Ikarus ficaria preocupado. Mas, pouco a pouco, pequenos detalhes apareciam. Lyra começara a andar. Depois começara a falar. Depois começou a perguntar pelo pai. Uma carta dizia: “Ela chama qualquer homem de cabelos escuros de Ikarus.” Outra: “Hoje apontou para o céu quando ouviu o Grifo.” Mas havia uma coisa que Raella nunca mencionava. A pequena marca dourada. Ela continuava aparecendo na mão de Lyra. Nunca por muito tempo. Às vezes durante o sono. Às vezes quando alguém falava sobre Ikarus. Às vezes quando chegavam notícias sobre os fragmentos. Raella guardava aquilo em segredo. Não porque soubesse o que significava, mas porque tinha medo de descobrir.
Ikarus também continuava recebendo notícias de Thomas. As cartas de Aldora eram as mais difíceis de interpretar. Thomas nunca escrevia diretamente sobre aquilo que realmente temia. Falava sobre os movimentos dos mortos-vivos, sobre as caravanas, sobre as alianças entre povos e sobre o Livro da Vida. O livro havia se tornado uma lenda. Havia pessoas procurando por ele em diversos reinos. Alguns queriam trazer familiares de volta. Outros queriam riqueza. Outros acreditavam que poderiam ressuscitar antigos reis. E havia aqueles que simplesmente queriam descobrir se a morte realmente poderia ser derrotada. Thomas dizia que havia grupos inteiros desaparecendo atrás de rumores. Alguns retornavam. Outros não.
Em uma das últimas cartas, Thomas escreveu: “Ikarus, descobri algo que talvez você precise saber. O Livro da Vida não parece estar simplesmente esperando alguém encontrá-lo. Há pessoas dizendo que ele aparece para aqueles que perderam alguém. Se isso for verdade, então talvez não sejamos nós que estamos procurando o livro. Talvez seja ele que esteja escolhendo quem procurar.” Ikarus guardou a carta sem responder. O pensamento o acompanhou durante semanas.
Enquanto caminhava, Ikarus começou a perceber outra coisa. Os mortos-vivos estavam mudando. No início da guerra, eram cadáveres sem inteligência. Depois surgiram grupos organizados. Mais tarde apareceram criaturas capazes de utilizar armas. Depois vieram aqueles que pareciam manter fragmentos de memória. Alguns reconheciam antigos lugares. Alguns tentavam voltar para suas casas. Alguns pronunciavam nomes. Ikarus matou centenas deles durante os três anos. Mas certa noite encontrou algo que o fez parar. Um morto-vivo estava sentado diante de uma casa destruída. Não atacava ninguém. Apenas olhava para a porta. Ikarus aproximou-se com a espada pronta. A criatura virou a cabeça. Seus olhos eram vazios. Mas então falou uma palavra. — Filha. Ikarus ficou imóvel. O morto-vivo repetiu: — Filha. Depois levantou-se e caminhou para dentro da casa. Ikarus entrou atrás dele. Encontrou uma pequena cama coberta de poeira. Um brinquedo quebrado. Um desenho infantil. E, sobre a parede, uma pintura familiar. O morto-vivo permaneceu diante dela durante alguns segundos. Então caiu. Ikarus não precisou matá-lo. Alguma coisa dentro daquele cadáver simplesmente terminou. Ele saiu da casa em silêncio. Naquela noite, entendeu que a praga estava ficando pior. Não porque os mortos estivessem mais fortes. Mas porque estavam começando a lembrar.
A notícia chegou aos outros reinos. Os estudiosos de Sefrion começaram a investigar. Alguns magos acreditavam que os mortos-vivos estavam desenvolvendo consciência. Outros diziam que eram apenas ecos das pessoas que haviam sido. Em Gallen, os cavaleiros começaram a queimar corpos imediatamente após as batalhas. Em Valeth, famílias passaram a enterrar seus mortos longe das cidades. Em Setra, os sacerdotes dos rios desenvolveram rituais para impedir que cadáveres fossem levados pelas águas. Em Kallon, os mortos eram lançados ao mar apenas em regiões onde a Serpente permitia. Em Khsandra, os elfos começaram a plantar árvores sobre os túmulos. Em Aldora, Thomas ordenou que todos os cadáveres encontrados no deserto fossem destruídos antes do anoitecer. O mundo inteiro estava aprendendo uma nova regra: morrer não significava necessariamente descansar.
Ikarus continuava avançando.
Sete fragmentos.
Cinco Guardiões restantes.
E um destino que parecia cada vez mais próximo.
Ele chegou a uma cadeia de montanhas onde nenhum dos summons aceitava entrar. A Águia de Valeth apareceu no céu quando Ikarus a chamou. Voou até a borda das montanhas. Então parou. Não pousou. Não avançou. Apenas observou. Depois retornou.
Ikarus entendeu.
— Então é aqui.
A Águia desapareceu.
Ele começou a caminhar.
Durante quase dois meses, subiu pelas montanhas. A temperatura caiu. A vegetação desapareceu. O céu ficou permanentemente cinzento. Não havia animais. Nem mesmo os mortos-vivos apareciam.
Era isso que mais assustava.
Um território completamente vazio.
Certa tarde, Ikarus encontrou uma estátua antiga enterrada na neve.
Era um Guardião.
Mas não havia símbolo de nenhum reino.
A armadura estava quebrada.
O rosto havia sido destruído.
Abaixo dela havia uma inscrição:
“AQUI TERMINOU O PRIMEIRO.”
Ikarus passou a mão pela pedra.
— Primeiro o quê?
Não houve resposta.
Continuou.
Depois de mais algumas semanas, encontrou outra.
“AQUI TERMINOU O SEGUNDO.”
Mais adiante:
“AQUI TERMINOU O TERCEIRO.”
Ikarus parou.
Havia dezenas.
Não.
Centenas.
Estátuas quebradas cobriam as montanhas.
Algumas eram antigas.
Outras pareciam relativamente recentes.
Todas representavam guerreiros.
Algumas tinham asas.
Outras tinham chifres.
Outras seguravam espadas.
Uma delas possuía uma serpente esculpida sobre os ombros.
Ikarus sentiu os sete fragmentos pulsarem.
— Portadores...
Então compreendeu.
Aqueles eram os que haviam tentado reunir os fragmentos antes dele.
E todos haviam falhado.
A última estátua estava quase intacta.
Era a de um homem ajoelhado.
Na base havia apenas uma frase:
“ELE CHEGOU AO SÉTIMO.”
Ikarus aproximou-se.
Abaixo havia outra inscrição.
“E PAROU.”
Ikarus permaneceu diante da estátua durante muito tempo.
— Por quê?
O vento respondeu.
Nada mais.
Então ele ouviu um som.
Passos.
Ikarus virou-se.
Não havia ninguém.
Sacou a espada.
— Apareça.
Silêncio.
Então uma voz veio das montanhas.
— Você demorou.
Ikarus reconheceu aquela voz.
Não era de um Guardião.
Era de alguém que já havia falado com ele antes.
A voz que surgira nos sonhos.
Ikarus olhou para o horizonte.
— Quem é você?
A resposta veio:
— Você ainda não está pronto para saber.
— Então por que fala comigo?
— Porque está chegando perto demais.
Ikarus apertou a espada.
— Do quê?
— Da verdade.
— Qual verdade?
Silêncio.
Depois:
— Arteph.
Ikarus ficou imóvel.
— O que existe lá?
A voz respondeu:
— O reino que morreu.
— Isso eu já sei.
— Não. Você sabe o que dizem.
A voz ficou mais baixa.
— Eu estou falando do que aconteceu.
Ikarus olhou para o norte.
Finalmente, depois de três anos, ele conseguia ver.
Muito além das montanhas havia uma planície escura.
Nenhuma árvore.
Nenhum rio.
Nenhuma cidade viva.
No horizonte havia torres negras.
Muralhas destruídas.
E uma névoa permanente cobrindo tudo.
Arteph.
Ikarus desceu a última montanha.
Quando chegou ao vale, encontrou uma placa de pedra caída.
Havia apenas uma inscrição:
REINO DE ARTEPH.
Abaixo, quase apagadas pelo tempo, estavam outras palavras:
“AQUI A MORTE NÃO É O FIM.”
Ikarus permaneceu diante da fronteira.
O vento parou.
Os sete fragmentos ficaram completamente silenciosos.
Pela primeira vez desde que começara sua jornada, nenhum deles pulsava.
Nenhum brilho.
Nenhuma voz.
Nada.
Ikarus deu um passo.
A terra do outro lado da fronteira era negra.
Ele deu outro.
Então ouviu um som.
Muito distante.
Um sino.
Uma única badalada.
Depois outra.
E outra.
Ikarus levantou os olhos.
No horizonte de Arteph, uma cidade morta começou a acender suas luzes.
Uma por uma.
Não eram luzes de tochas.
Eram milhares.
E, entre as ruínas, dezenas de milhares de figuras começaram a se mover.
Ikarus segurou a espada.
Então percebeu algo ainda pior.
Nenhuma delas caminhava em sua direção.
Todas estavam olhando para ele.
Como se estivessem esperando.
Como se soubessem que ele finalmente havia chegado.
Ikarus atravessou a fronteira.
E, atrás dele, os sete summons desapareceram simultaneamente.
O Grifo de Lenória.
A Coruja de Sefrion.
A Serpente de Kallon.
O Centauro de Gallen.
A Águia de Valeth.
E os outros vínculos que carregava.
Todos desapareceram.
Ikarus olhou para trás.
Nada.
Ele tentou chamá-los.
Nenhuma resposta.
Pela primeira vez em anos, estava completamente sozinho.
Então, diante dele, uma figura apareceu no alto das muralhas de Arteph.
Usava uma armadura dourada.
Ikarus reconheceu imediatamente.
O oitavo Guardião.
Mas havia algo errado.
Aquele homem não estava esperando para lutar.
Estava ajoelhado.
E, quando levantou o rosto, Ikarus percebeu que o Guardião estava chorando.
— Ikarus...
A voz atravessou a planície.
— Finalmente você chegou.
Ikarus não respondeu.
O Guardião levantou-se lentamente.
Atrás dele, milhares de mortos-vivos começaram a ajoelhar.
Todos ao mesmo tempo.
O Guardião olhou para o exército de cadáveres.
Depois para Ikarus.
— Você precisa entender uma coisa antes de me enfrentar.
Ikarus apertou a espada.
— O quê?
O Guardião respondeu:
— Eu não protejo Arteph dos mortos.
Ele olhou para trás.
— Eu protejo os mortos de você.
E os portões de Arteph começaram a se abrir.:::