sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Reunindo exército

 Ikarus deixou Lenória sem olhar para trás.


Não porque não amasse aquele lugar.


Mas porque, se olhasse novamente para o túmulo de Raella, talvez não conseguisse partir.


Os doze fragmentos estavam completos.


E com eles havia vindo algo que Ikarus ainda não compreendia completamente.


Uma autoridade.


Desde que tomara o último fragmento, todos os antigos símbolos dos Guardiões haviam respondido a ele. Não eram apenas lembranças. Não eram apenas poderes. Eram marcas de um juramento antigo, uma autoridade que durante milhares de anos havia pertencido aos doze protetores dos reinos.


Agora os doze estavam dentro dele.


E Ikarus compreendeu que não precisava enfrentar Baltamus sozinho.


Ele parou diante das muralhas de Lenória.


Centenas de soldados observavam.


Reis.


Generais.


Cavaleiros.


Magos.


Dragões.


Elfos.


Anões.


Homens que haviam passado anos lutando contra os mortos.


Ikarus ergueu a mão.


Os doze fragmentos apareceram ao seu redor.


Um círculo de luz se formou no céu.


E, naquele instante, algo aconteceu.


Em Kallon, os grandes sinos do mar começaram a tocar.


Em Sefrion, as torres dos magos acenderam-se.


Em Setra, os antigos templos ouviram uma voz que não vinha de nenhuma garganta.


Em Valeth, os grandes pássaros abandonaram os céus e voaram em direção ao sul.


Em Gallen, os exércitos começaram a se reunir.


Em Khsandra, as árvores antigas estremeceram.


Em Arteph, os mortos permaneceram em silêncio.


Em Okhus, os vigias das muralhas ergueram os olhos.


Em Thimos, cavaleiros montados em Pégasos receberam o chamado.


Em Baltamus...


o Necromante também ouviu.


Ikarus falou.


Sua voz não era particularmente alta.


Mas chegou a todos.


— Eu sou Ikarus de Lenória.


O vento parou.


— Durante anos, cada reino lutou sozinho.


As imagens dos onze antigos Guardiões surgiram no céu.


Ranur.


Sahrion.


Eryon.


Darven.


Aren.


Kaeron.


Serenya.


Arenos.


Dhaeron.


Asterion.


Baltar.


E então apareceu Thomas.


Ikarus fechou os olhos por um instante.


— Eles morreram protegendo seus povos.


A imagem de Thomas desapareceu por último.


— E eu não permitirei que suas mortes sejam esquecidas.


Os exércitos começaram a se reunir.


Ikarus continuou:


— O inimigo não está mais escondido.


A voz tornou-se mais firme.


— O Necromante está em Baltamus.


Silêncio.


— Angarkor está com ele.


Alguns soldados começaram a murmurar.


Muitos conheciam o nome.


Outros apenas haviam ouvido histórias.


O homem que aparecia do nada.


O guerreiro de cabelos brancos.


Aquele que destruía cidades e desaparecia.


Aquele que ninguém conseguia prever.


Ikarus levantou a espada.


— Durante anos vocês construíram muralhas para impedir que os mortos chegassem até suas casas.


Os doze fragmentos brilharam.


— Agora nós vamos derrubar as muralhas.


Um dos generais de Lenória aproximou-se.


— Para onde marcharemos?


Ikarus respondeu:


— Baltamus.


O general hesitou.


— É o extremo norte.


— Eu sei.


— É uma distância enorme.


— Eu sei.


— E as forças do Necromante...


Ikarus interrompeu:


— Não estou pedindo que venham comigo porque será fácil.


Olhou para os soldados.


— Estou pedindo porque, se continuarmos esperando que alguém faça isso por nós, não haverá mais reinos para defender.


Ninguém respondeu.


Então um soldado ajoelhou.


Depois outro.


Depois dezenas.


Até que centenas de homens estavam ajoelhados diante de Ikarus.


Um rei perguntou:


— E quem comandará essa guerra?


Ikarus olhou para os doze fragmentos.


— Eu.


Não houve coroação.


Não houve trono.


Não houve cerimônia.


Apenas silêncio.


E então os estandartes começaram a surgir.


Lenória.


Kallon.


Aldora.


Setra.


Valeth.


Sefrion.


Gallen.


Irdos.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Todos os povos começaram a mobilizar suas forças.


Pela primeira vez em gerações, os exércitos dos reinos marchariam sob uma mesma bandeira.


A bandeira dos Doze.


---


Os navios começaram a partir.


Centenas deles.


Navios de guerra.


Navios de transporte.


Navios mercantes adaptados.


Embarcações élficas.


Navios de Kallon capazes de atravessar o Mar Divisor mesmo sob tempestades.


A frota crescia a cada dia.


Ikarus havia compreendido uma coisa.


Baltamus era distante demais para uma marcha convencional.


Precisavam atravessar o mar.


E depois enfrentar o continente do Norte.


A guerra seria gigantesca.


Talvez a maior que Ad'Heim já tivesse conhecido.


No maior porto de Lenória, Ikarus caminhava entre soldados.


Todos olhavam para ele.


Alguns com admiração.


Outros com medo.


Alguns apenas queriam acreditar que aquela guerra seria diferente das anteriores.


Ikarus não prometeu vitória.


Não prometeu sobrevivência.


Apenas disse:


— Nós vamos até o fim.


E entrou no navio principal.


A embarcação começou a deixar o porto.


Ikarus ficou na proa.


O vento batia em seus cabelos.


O horizonte se estendia diante dele.


Baltamus.


Angarkor.


O Necromante.


E uma guerra que poderia decidir o destino de todo o mundo.


Mas ninguém percebeu duas pequenas sombras escondidas entre os barris no convés inferior.


Eiran estava agachado.


Lyra estava ao lado dele.


Os dois estavam em absoluto silêncio.


Eiran segurava uma pequena espada.


Lyra carregava uma mochila.


Ela sussurrou:


— Você acha que ele vai descobrir?


Eiran respondeu:


— Se descobrir, vai mandar a gente voltar.


— Então não deixa ele descobrir.


— Era exatamente o plano.


Lyra sorriu.


— Você acha que a mãe teria deixado?


Eiran ficou em silêncio.


A pergunta apagou o sorriso dos dois.


Ele abaixou os olhos.


— Não sei.


Lyra também ficou quieta.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.


Então Eiran apertou a espada.


— Mas eu vou com ele.


— Eu também.


— Ele não pode enfrentar isso sozinho.


Lyra assentiu.


Lá em cima, Ikarus continuava olhando para o horizonte.


Ele não fazia ideia de que seus filhos estavam naquele mesmo navio.


Não sabia que Eiran havia decidido seguir seus passos.


Não sabia que Lyra também estava ali.


E muito menos sabia que aquela viagem não seria apenas a marcha de um exército contra o Necromante.


Seria o começo de algo que havia sido anunciado muito antes de qualquer um deles compreender seu significado.


Muito antes da morte de Raella.


Muito antes dos doze fragmentos.


Muito antes de Ikarus sequer saber que era parte de algo maior.


Em algum lugar nas profundezas de Kallon, uma antiga memória ainda permanecia.


Uma profecia.


Uma voz.


E uma frase que ninguém havia conseguido compreender completamente.


Um dos filhos de Ikarus... ou talvez os dois...


A memória terminou antes que o restante pudesse ser ouvido.


Por enquanto.


---


No convés superior, Ikarus sentiu uma presença.


Virou-se.


Nada.


Apenas soldados.


O mar.


E o vento.


Ele franziu a testa.


Por um instante, teve a impressão de ter ouvido uma voz conhecida.


— Pai...


Ikarus olhou para trás.


Nada.


Ele voltou os olhos para o horizonte.


Talvez fosse apenas o vento.


Talvez fosse sua própria mente.


Talvez fosse o peso de tudo aquilo que havia perdido.


No convés inferior, Eiran e Lyra permaneceram escondidos.


A frota avançava.


Milhares de homens estavam a caminho de Baltamus.


E pela primeira vez desde o início da guerra contra os mortos...


os vivos estavam marchando em direção ao inimigo.


Não fugindo.


Não esperando.


Não se defendendo.


Marchando.


No extremo norte do mundo, as enormes muralhas de Baltamus começaram a aparecer no horizonte.


Acima delas...


milhares de mortos aguardavam.


E, no ponto mais alto da fortaleza do Necromante, Angarkor observava o mar.


Ao longe, uma frota inteira se aproximava.


Ele sorriu.


— Então você trouxe todos eles.


Atrás dele, uma presença permaneceu imóvel.


O Necromante.


Angarkor não olhou para trás.


— Ikarus finalmente entendeu.


A voz do Necromante respondeu:


— Entendeu o quê?


Angarkor observou os navios.


— Que não pode lutar sozinho.


O Necromante permaneceu em silêncio.


Angarkor então sorriu.


— Mas ainda não entendeu a parte mais importante.


— Qual?


Angarkor finalmente virou o rosto.


— Essa guerra nunca foi sobre os exércitos.


Lá fora, os sinos de Baltamus começaram a tocar.


Um.


Dois.


Três.


Depois todos ao mesmo tempo.


Ikarus levantou os olhos.


As tropas começaram a se preparar.


Eiran e Lyra permaneceram escondidos.


A frota continuou avançando.


E, no alto da fortaleza, Angarkor pegou suas duas katares.


— Venha, Ikarus.


Os olhos vermelhos brilharam.


— Traga seus doze fragmentos.


Uma pausa.


— Traga seus exércitos.


Ele sorriu.


— Traga seus filhos.


No convés inferior, Lyra abriu os olhos.


Por um instante, teve a estranha sensação de que alguém havia pronunciado seu nome.


Mas não havia ninguém ali.


Apenas o som do mar.


E o navio continuava avançando rumo a Baltamus.


Rumo à guerra.


Rumo ao Necromante.


E rumo ao destino que nenhum dos três ainda compreendia.

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