A horda avançava.
Milhares de mortos-vivos atravessavam a planície diante das muralhas de Okhus, arrastando armas enferrujadas, corpos deformados e restos de armaduras pertencentes a soldados que haviam morrido em guerras muito antigas.
Ikarus permaneceu diante do portão.
Os soldados da cidade estavam atrás dele.
— Você vai enfrentá-los sozinho? — perguntou um deles.
Ikarus desembainhou a espada.
— Não.
O soldado olhou ao redor.
— Onde está o seu exército?
Ikarus encarou a horda.
— Aqui.
Os oito fragmentos começaram a brilhar.
Uma onda dourada atravessou a muralha.
Por um instante, as sombras das criaturas que Ikarus havia derrotado durante sua jornada apareceram atrás dele.
O grifo.
A gigantesca coruja.
A serpente.
O centauro.
A águia.
A serpente marinha.
A árvore.
E a criatura de Arteph.
Não eram os Guardiões.
Não eram suas almas.
Eram apenas as manifestações dos fragmentos.
Mas Ikarus sentiu algo dentro do peito.
Uma lembrança.
Uma responsabilidade.
Ele avançou.
O primeiro morto-vivo caiu.
Depois outro.
E outro.
A batalha tomou a planície.
Ikarus parecia estar lutando contra o próprio exército dos mortos.
A cada golpe, dezenas caíam.
Mas eles continuavam surgindo.
Horas passaram.
A noite tomou completamente Okhus.
E então, quando Ikarus estava cercado, uma luz dourada apareceu no alto da muralha.
O velho que o havia conduzido até a praça olhou para trás.
— Finalmente.
Um homem caminhava sobre a muralha.
Armadura dourada.
Manto negro.
Cabelos longos e completamente brancos.
Um único símbolo estava gravado no peito da armadura.
Um olho.
Ele carregava uma lança dourada.
O homem saltou da muralha.
Caiu diante de Ikarus.
O impacto abriu uma pequena cratera.
Ikarus recuou.
— Você é o Guardião?
O homem levantou os olhos.
— Meu nome é Dhaeron.
Ele ergueu a lança.
— Guardião de Okhus.
Ikarus observou o homem.
— Então você sabe por que estou aqui.
Dhaeron sorriu tristemente.
— Sei.
— E sabe o que precisa acontecer?
O sorriso desapareceu.
— Sei também.
Dhaeron olhou para a própria mão.
— Meu pai morreu defendendo Okhus.
Silêncio.
— Minha mãe morreu três anos depois.
Ele respirou fundo.
— Minha esposa morreu quando os mortos chegaram à cidade pela primeira vez.
Ikarus abaixou ligeiramente a espada.
Dhaeron continuou:
— E meu filho...
Sua voz falhou.
Ele fechou os olhos.
— Meu filho morreu segurando minha mão.
Ikarus permaneceu imóvel.
— Quantos anos?
— Seis.
O vento atravessou o campo de batalha.
— Ele tinha medo de morrer — continuou Dhaeron. — Eu disse que não precisava ter medo.
Ele olhou para Ikarus.
— Mentira.
Ikarus não respondeu.
— Eu também tinha medo.
Dhaeron apertou a lança.
— Depois disso, encontrei o Guardião anterior.
— E você o sucedeu.
— Sim.
— Por quê?
Dhaeron olhou para as muralhas.
— Porque alguém precisava ficar.
Ikarus compreendeu.
Era a mesma história.
A mesma maldição.
Homens e mulheres comuns perdendo tudo e, depois, transformando a própria dor em dever.
— Você não quer lutar comigo — disse Ikarus.
Dhaeron sorriu.
— Não.
— Então não lute.
Dhaeron ergueu a lança.
— Não posso.
Ikarus respirou fundo.
— Por quê?
— Porque você precisa do fragmento.
Ikarus ficou em silêncio.
Dhaeron apontou a lança para ele.
— E eu preciso impedir que você o tome.
A batalha começou.
Dhaeron era diferente dos outros.
Mais rápido.
Mais preciso.
Sua lança parecia desaparecer e reaparecer em diferentes pontos.
Ikarus bloqueou o primeiro golpe.
O segundo.
O terceiro.
No quarto, foi atingido.
Voou vários metros e caiu sobre a terra.
Dhaeron avançou.
Ikarus rolou para o lado.
A lança atravessou o chão.
Ikarus se levantou e atacou.
Dhaeron bloqueou.
As duas armas se chocaram.
Uma explosão dourada atravessou o campo.
Então o símbolo de Okhus apareceu no céu.
Um enorme olho.
Dhaeron levantou a mão.
— BEHOLDER DE OKHUS!
A criatura surgiu.
Gigantesca.
Flutuando acima da cidade.
Seus múltiplos olhos se abriram.
Raios de energia começaram a cair sobre a horda.
Ikarus olhou para cima.
Era o mesmo símbolo que havia encontrado durante sua jornada.
Mas agora entendia.
Não era apenas um símbolo.
Era o poder do Guardião.
Dhaeron atacou novamente.
Ikarus bloqueou.
Os dois se afastaram.
— Você é forte — disse Ikarus.
— Eu não preciso ser mais forte que você.
Dhaeron avançou.
— Preciso apenas ser forte o suficiente para morrer aqui.
Ikarus hesitou.
Foi o suficiente.
A lança atravessou sua defesa.
Ikarus sentiu a ponta rasgar sua armadura.
Dhaeron tentou terminar o golpe.
Mas Ikarus segurou a lança.
Com as duas mãos.
— Desculpe.
Dhaeron olhou para ele.
Ikarus avançou.
A espada atravessou sua defesa.
O golpe atingiu o Guardião.
Dhaeron ficou imóvel.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
Então Dhaeron deixou a lança cair.
Ikarus segurou seu corpo antes que ele atingisse o chão.
Dhaeron olhou para o céu.
— Meu filho...
Sua voz era quase inaudível.
— Eu estou indo para casa.
Ikarus apertou os olhos.
— Sim.
Dhaeron sorriu.
E morreu.
O Beholder desapareceu.
A luz dourada sobre Okhus apagou-se.
E então algo caiu do céu.
Um pequeno fragmento dourado.
Ikarus estendeu a mão.
O fragmento tocou sua palma.
Os outros oito reagiram.
Nove.
Nove fragmentos.
Durante alguns segundos, Ikarus viu algo impossível.
Não viu os Guardiões.
Viu a origem.
Doze figuras estavam diante de uma enorme porta.
E atrás delas havia algo.
Algo tão grande que nem mesmo a memória conseguia mostrar sua forma.
Uma voz disse:
— NOVE.
Outra respondeu:
— AINDA FALTAM TRÊS.
Ikarus abriu os olhos.
A visão desapareceu.
O fragmento havia se fundido aos outros.
Nove.
Ele havia conseguido.
Mas então ouviu palmas.
Lentas.
Uma.
Duas.
Três.
Ikarus levantou a cabeça.
No alto de uma das construções destruídas, havia alguém sentado.
Cabelos brancos.
Olhos vermelhos.
Roupa negra.
Duas katares repousavam sobre os joelhos.
Ikarus imediatamente reconheceu.
Seu corpo inteiro ficou imóvel.
— Angarkor.
Angarkor sorriu.
— Finalmente.
Ele saltou do edifício.
Caiu no chão sem fazer esforço.
Olhou para o corpo de Dhaeron.
Depois para Ikarus.
E então para os nove fragmentos.
— Agora ficou interessante.
Ikarus apertou a espada.
— Você veio me matar?
Angarkor inclinou a cabeça.
— Não.
Silêncio.
— Ainda não.
Ikarus deu um passo à frente.
— Então por que está aqui?
Angarkor olhou para o céu.
— Porque durante cinco anos eu ouvi histórias sobre você.
Voltou os olhos para Ikarus.
— O homem que mata Guardiões.
Mais um passo.
— O homem que salva vilas.
Outro.
— O homem que carrega fragmentos.
Angarkor sorriu.
— E agora eu finalmente queria saber uma coisa.
Ikarus manteve a espada erguida.
— O quê?
Angarkor abriu os braços.
— O que acontece quando você encontra alguém que não pode ser convencido?
Silêncio.
Os nove fragmentos começaram a brilhar.
Angarkor desembainhou lentamente uma das katares.
— Vamos descobrir.
E, pela primeira vez desde que havia começado sua jornada, Ikarus não estava diante de um Guardião.
Estava diante de alguém que não queria proteger nada.
Não queria governar nada.
Não queria os fragmentos.
Não queria ser salvo.
Angarkor apenas queria descobrir até onde Ikarus conseguiria chegar.
E os dois ficaram frente a frente, no meio das ruínas de Okhus.
Então Angarkor sorriu.
— Venha.
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