Ikarus ficou imóvel por alguns segundos. Os onze fragmentos pulsavam em seu corpo como pequenos corações, reagindo à presença do décimo segundo. Nunca haviam respondido daquela maneira. Até então, cada fragmento parecia pertencer a uma história diferente, a uma morte diferente, a um Guardião diferente. Mas agora todos pareciam reconhecer aquele que estava diante deles.
Thomas percebeu.
— Eles querem vir para você.
Ikarus não respondeu.
— Consigo sentir — continuou Thomas. — Desde que você entrou neste templo.
Ikarus apertou a espada.
— Então sabe que isso não precisa terminar assim.
Thomas sorriu tristemente.
— Precisa.
— Não.
— Ikarus...
— Você é rei. Já fez o que precisava fazer por Aldora. Acabou com as guerras. Unificou o reino. As pessoas vivem em paz por sua causa. Você não precisa continuar sendo o Guardião.
Thomas ficou sério.
— Você realmente acredita nisso?
Ikarus não respondeu.
Thomas olhou para as paredes do templo.
— Olhe para elas.
Ikarus acompanhou o olhar.
Nas paredes havia centenas de inscrições antigas. Nomes. Datas. Registros de batalhas. Juramentos de homens que haviam servido como Guardiões antes de Dravion.
Thomas falou:
— Todos eles pensaram a mesma coisa. Que chegaria um dia em que o reino estaria seguro o suficiente para que o Guardião pudesse deixar seu posto.
Ele voltou os olhos para Ikarus.
— Nenhum deles chegou a esse dia.
Ikarus apertou a espada.
— Porque sempre aparece alguma coisa.
— Exatamente.
Thomas caminhou lentamente pelo salão.
— É por isso que o Guardião existe.
— Para sempre lutar?
— Para garantir que os outros possam viver sem precisar lutar.
Ikarus ficou em silêncio.
Thomas parou diante de uma enorme janela.
Lá fora, Aldora se estendia até o horizonte.
As cidades.
As muralhas.
Os campos.
As pessoas.
— Eu vi este reino quando ainda estava dividido — disse Thomas. — Vi homens matarem homens porque nasceram do lado errado de uma fronteira. Vi famílias perderem tudo. Vi crianças aprenderem a reconhecer o som de uma espada antes de aprenderem a ler.
Ele fechou os olhos.
— Eu não vou permitir que aquilo volte.
Ikarus abaixou a espada.
— Eu entendo.
— Não.
Thomas abriu os olhos.
— Você entende porque também perdeu pessoas.
Silêncio.
— Mas existe uma diferença entre nós.
Ikarus olhou para ele.
— Qual?
Thomas respondeu:
— Você ainda acredita que pode terminar sua jornada.
Ikarus ficou imóvel.
Thomas apontou para os onze fragmentos.
— Você acha que quando tiver o décimo segundo tudo estará resolvido.
— Não sei o que acontecerá.
— Mas espera que termine.
Ikarus não respondeu.
Thomas caminhou até ele.
— Eu já aprendi que algumas coisas nunca terminam.
Então Thomas atacou.
Ikarus mal conseguiu erguer a espada.
O primeiro montante bateu contra sua lâmina com uma força brutal.
CLANG!
O impacto lançou Ikarus vários metros para trás.
Ele deslizou pelo chão de pedra e conseguiu recuperar o equilíbrio.
Thomas já estava sobre ele.
Segundo golpe.
Ikarus desviou.
O montante atingiu o chão e abriu uma rachadura.
Ikarus girou o corpo e atacou.
Thomas bloqueou.
Os dois se afastaram.
Ikarus respirou fundo.
— Você ficou forte.
Thomas respondeu:
— Você também.
Ikarus avançou.
Espada contra montantes.
O templo foi preenchido pelo som metálico dos golpes.
Thomas atacava com precisão.
Não havia movimentos desnecessários.
Cada golpe tinha intenção.
Cada passo parecia calculado.
Ikarus percebeu rapidamente.
Thomas não estava lutando como o homem que conhecera anos atrás.
Ele havia se tornado outra coisa.
Um rei.
Um guerreiro.
Um Guardião.
Ikarus tentou atacar pelo lado esquerdo.
Thomas bloqueou.
Tentou novamente.
Thomas desviou.
Um dos montantes passou a centímetros de seu rosto.
Ikarus recuou.
Thomas abriu as asas.
Um golpe de vento atravessou o salão.
Ikarus protegeu o rosto.
Quando baixou o braço, Thomas havia desaparecido.
— Thomas?!
Um golpe atingiu suas costas.
Ikarus foi lançado contra uma coluna.
A pedra rachou.
Ele caiu de joelhos.
Thomas pousou diante dele.
— Levante.
Ikarus ergueu o rosto.
— Você realmente quer fazer isso.
— Sim.
Ikarus levantou-se.
— Então não vou mais segurar.
Os onze fragmentos explodiram em luz.
Thomas sentiu a pressão.
Pela primeira vez, sua expressão mudou.
— Então é verdade...
Ikarus ergueu a espada.
— O quê?
Thomas apertou os montantes.
— Você realmente carregou onze deles dentro de si.
— Sim.
— Então me mostre.
Ikarus desapareceu.
Thomas ergueu as armas.
O impacto veio tão forte que o chão sob os dois se partiu.
Thomas foi empurrado vários metros.
Ikarus apareceu diante dele e desferiu outro golpe.
Thomas bloqueou.
Outro.
Outro.
Outro.
Os movimentos de Ikarus haviam mudado.
Os fragmentos não apenas lhe davam poder.
Eles estavam sincronizando-se.
Onze forças.
Onze memórias.
Onze mortes.
Tudo convergia dentro dele.
Thomas foi obrigado a recuar.
Mas não caiu.
Pelo contrário.
Ele sorriu.
— Agora sim.
Ikarus parou.
— O quê?
Thomas abriu completamente as asas.
— Agora você parece o homem que todos eles morreram para tornar possível.
O céu de Aldora escureceu.
O rugido do dragão ecoou novamente.
Thomas levantou os dois montantes.
— Mas você esqueceu uma coisa.
Ikarus olhou para ele.
— O quê?
Thomas respondeu:
— Eu também matei meu Guardião.
Então o poder dracônico explodiu ao redor de seu corpo.
As pedras do templo começaram a flutuar.
As colunas tremeram.
O ouro da armadura de Thomas tornou-se quase branco.
Atrás dele, o dragão abriu os olhos.
Ikarus sentiu algo que não sentia havia muito tempo.
Medo.
Não por si.
Por Thomas.
Porque naquele momento compreendeu que Thomas não estava apenas defendendo o fragmento.
Estava disposto a morrer para cumprir o juramento que fizera.
Ikarus abaixou a espada por um instante.
— Thomas...
— Não.
— Eu não quero matar você.
Thomas respondeu:
— Então você vai morrer.
Ikarus fechou os olhos.
Pensou em Raella.
Pensou em Eiran.
Pensou em Lyra.
Pensou em Gillian.
Pensou em todos os que havia perdido.
E lembrou-se das palavras que ouvira antes de partir.
Volte.
Ikarus abriu os olhos.
— Eu preciso voltar.
Thomas ouviu.
— Então lute.
Ikarus segurou a espada com as duas mãos.
— Eu vou voltar.
Thomas sorriu.
— É por isso que eu preciso fazer você lutar de verdade.
Os dois avançaram ao mesmo tempo.
O choque das armas fez o templo inteiro estremecer.
E, muito distante dali, em algum lugar onde nenhuma voz humana poderia alcançar...
um homem de cabelos brancos abriu os olhos.
Vermelhos.
Angarkor.
Ele permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então sorriu.
— Finalmente...
Seus olhos se voltaram para o horizonte.
— O último fragmento.
Ele não precisava ir até Aldora.
Não precisava interferir.
Não precisava ajudar ninguém.
Porque sabia que Ikarus chegaria até o fim.
E quando chegasse...
seria finalmente digno.
Angarkor fechou os olhos.
— Pegue-o, Ikarus.
Um sorriso quase imperceptível surgiu em seu rosto.
— Depois venha até mim.
Enquanto isso, dentro do templo de Aldora, Ikarus e Thomas continuavam lutando.
Dois amigos.
Dois reis em sentidos diferentes.
Dois homens que haviam perdido demais.
E entre eles...
o último fragmento.
O décimo segundo.
O fragmento que finalmente completaria aquilo que havia sido dividido.
Mas Ikarus ainda não sabia o que aconteceria quando colocasse as mãos nele.
E talvez Thomas soubesse.
Porque, enquanto os dois lutavam, o antigo altar atrás deles começava lentamente a despertar.
Uma inscrição que permanecera apagada durante milhares de anos começava a brilhar.
Primeiro uma palavra.
Depois outra.
E então uma frase inteira surgiu na pedra.
O QUE FOI UM DIA UM...
Ikarus viu.
Thomas também.
Os dois pararam por um instante.
A segunda linha apareceu.
...PROCURA SUA TOTALIDADE.
Ikarus sentiu todos os onze fragmentos vibrarem.
Thomas olhou para o décimo segundo.
E, pela primeira vez desde o início daquela batalha, seu rosto demonstrou medo.
— Ikarus...
— O quê?
Thomas olhou para ele.
— Talvez você não devesse pegar esse fragmento.
Ikarus ficou imóvel.
— Por quê?
Thomas não respondeu.
Porque naquele instante o décimo segundo fragmento começou a flutuar sozinho.
E todos os onze fragmentos de Ikarus responderam.
O templo inteiro começou a tremer.
As paredes começaram a rachar.
E uma voz antiga, impossível de identificar como masculina ou feminina, ecoou pelo templo:
— VINTE E QUATRO ANOS DEPOIS... A ORIGEM VOLTARÁ A SER UMA.
Ikarus arregalou os olhos.
Thomas apertou os montantes.
E o fragmento começou a voar em direção a Ikarus.
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