O caminho até Okhus não levou semanas. Não levou meses. Levou anos.
Depois de deixar Arteph, Ikarus acreditou que finalmente conseguiria avançar rapidamente. O oitavo fragmento pulsava junto aos outros sete, e pela primeira vez ele sentia que compreendia parcialmente aquilo que carregava. Não eram apenas armas. Não eram apenas poderes. Cada fragmento trazia consigo a memória de alguém que havia vivido, amado, sofrido e morrido para cumprir uma função que ninguém além deles parecia compreender.
Mas o mundo não permitiu que Ikarus simplesmente continuasse.
A fronteira entre Arteph e as terras mais ao norte havia se transformado em uma sucessão de campos de batalha. Exércitos humanos disputavam cidades, clãs antigos aproveitavam o caos para atacar territórios vizinhos e, no meio de tudo aquilo, os mortos continuavam surgindo.
Ikarus chegou a uma pequena vila pouco antes do amanhecer.
Encontrou casas queimadas.
Encontrou homens carregando feridos.
Encontrou crianças escondidas dentro de celeiros.
E encontrou, na estrada, sete soldados mortos.
Quando percebeu que os cadáveres começavam a se levantar, Ikarus desembainhou a espada.
— Fiquem atrás de mim.
Um dos homens da vila olhou para ele.
— Quem é você?
Ikarus não respondeu.
Avançou.
A primeira criatura perdeu a cabeça antes mesmo de conseguir levantar completamente. A segunda teve o peito atravessado. A terceira foi atingida pelo punho da espada e lançada contra uma parede.
Quando tudo terminou, Ikarus permaneceu parado no meio da estrada.
O homem que havia perguntado quem ele era aproximou-se lentamente.
— Você... matou todos eles.
Ikarus limpou a lâmina.
— Eles já estavam mortos.
— E você vai embora?
Ikarus olhou para a vila.
Havia casas destruídas.
Não havia comida suficiente.
Não havia homens suficientes para reconstruí-la.
E, durante alguns segundos, ele pensou em simplesmente seguir.
Então ouviu uma criança chorando.
Fechou os olhos.
— Não.
Foi assim que começou o primeiro atraso.
Ikarus permaneceu três meses naquela região.
Ajudou a reconstruir casas. Protegeu caravanas. Ensinou os sobreviventes a lutar contra os mortos. Ajudou a organizar vigias durante a noite e acompanhou os homens da vila até as cidades próximas em busca de alimento.
Quando finalmente partiu, o homem que o havia encontrado naquela primeira manhã lhe perguntou:
— Para onde você vai?
Ikarus olhou para o norte.
— Okhus.
— E por quê?
Ikarus tocou o peito.
Os oito fragmentos responderam com um brilho quase imperceptível.
— Porque ainda faltam quatro.
E partiu.
Mas aquela não seria a última vila.
Nem a segunda.
Nem a décima.
A guerra havia transformado as fronteiras em um labirinto.
Em determinado momento, Ikarus passou quase um ano inteiro entre pequenas comunidades que sequer apareciam nos mapas. Algumas eram atacadas por exércitos. Outras por monstros. Outras simplesmente desapareciam durante a noite.
Ele começou a perceber algo que não havia compreendido durante sua jornada pelos Guardiões.
Aqueles homens e mulheres que ele enfrentara eram apenas uma parte da história.
Os Guardiões haviam protegido seus reinos.
Ikarus estava começando a compreender o que significava proteger pessoas.
Não havia glória nisso.
Não havia templos.
Não havia estátuas.
Às vezes, proteger significava carregar uma criança por quilômetros.
Às vezes, significava dividir o último pedaço de pão.
Às vezes, significava permanecer acordado durante três noites enquanto todos os outros dormiam.
E algumas vezes significava matar.
Ikarus começou a ficar conhecido nas fronteiras.
Não como o portador dos fragmentos.
Não como o homem que havia derrotado os Guardiões.
Mas simplesmente como Ikarus.
O homem que aparecia quando uma vila estava prestes a cair.
Em uma aldeia, salvou um grupo de camponeses de uma tropa de saqueadores.
Em outra, enfrentou criaturas que haviam surgido de uma floresta morta.
Em outra, passou seis meses ajudando a reconstruir uma ponte destruída pela guerra.
Em outra, simplesmente enterrou os mortos.
E, em certa ocasião, encontrou um velho sentado diante de uma casa destruída.
— Minha família morreu — disse o homem.
Ikarus permaneceu em silêncio.
O velho levantou os olhos.
— Você vai me dizer que tudo ficará bem?
Ikarus olhou para as ruínas.
Depois respondeu:
— Não.
O velho pareceu surpreso.
— Então o que vai dizer?
— Que eles não serão esquecidos.
O velho abaixou a cabeça.
E chorou.
Ikarus ficou ao lado dele.
Não tentou consertar a dor.
Não tentou explicar a morte.
Apenas permaneceu.
Porque havia aprendido alguma coisa em Arteph.
Nem toda morte podia ser revertida.
Nem todo sofrimento possuía uma resposta imediata.
E algumas pessoas precisavam apenas que alguém permanecesse ao lado delas.
Os anos passaram.
Um.
Depois dois.
Depois três.
Depois quatro.
Quando o quinto ano chegou, Ikarus já não era o mesmo homem que havia deixado Arteph.
Seu cabelo estava maior.
Seu rosto carregava novas cicatrizes.
Sua armadura apresentava marcas que nenhuma restauração havia conseguido apagar completamente.
E os oito fragmentos haviam se tornado parte de sua própria existência.
Ele conseguia sentir quando algum deles reagia.
Conseguia ouvir, em sonhos, ecos das vidas daqueles que havia matado.
Sahrion.
Eryon.
Darven.
Aren.
Kaeron.
Serenya.
Arenos.
E o primeiro Guardião.
Eles não estavam vivos.
Ikarus sabia disso.
E jamais permitiria que alguém dissesse o contrário.
Nenhum livro.
Nenhuma magia.
Nenhuma necromancia.
Nenhum poder existente naquele mundo poderia trazê-los de volta.
Eles haviam cumprido seu dever.
E haviam morrido.
Cinco anos depois de deixar Arteph, Ikarus finalmente alcançou a região onde os mapas começavam a ficar antigos.
O céu estava diferente.
As noites eram mais longas.
O vento era mais frio.
As árvores desapareciam pouco a pouco, substituídas por enormes extensões de pedra e terra escura.
Ikarus caminhou durante horas.
Até encontrar uma placa de pedra quase completamente coberta pela neve.
Ele limpou a superfície com a mão.
Havia uma única palavra gravada nela.
OKHUS.
Ikarus permaneceu imóvel.
Atrás dele estava o caminho que havia percorrido durante cinco anos.
Cinco anos de guerras.
Cinco anos de aldeias.
Cinco anos de mortos.
Cinco anos ajudando pessoas que provavelmente jamais saberiam o que ele realmente carregava.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu os oito fragmentos reagirem simultaneamente.
Um brilho dourado atravessou seu peito.
Ikarus levou a mão até o lugar.
— Então é aqui...
O vento soprou.
Ao longe, no horizonte, surgiu uma cidade.
Muros negros.
Torres altas.
E uma quantidade absurda de luzes acesas, apesar de ainda ser dia.
Ikarus estreitou os olhos.
Ele havia ouvido histórias sobre aquele lugar.
Okhus.
A terra onde a noite durava mais do que o dia.
A terra marcada pelo símbolo do Beholder.
A terra onde, segundo os poucos viajantes que haviam conseguido sair de lá, ninguém deveria permanecer sozinho depois que o sol desaparecesse.
Ikarus começou a caminhar.
Um passo.
Depois outro.
Até que percebeu algo.
Havia uma figura observando-o do alto das muralhas.
Imóvel.
Muito distante para que seus olhos identificassem o rosto.
Mas Ikarus sentiu os fragmentos reagirem.
Um.
Dois.
Três.
Todos os oito.
Então o homem sobre a muralha levantou lentamente a mão.
E, atrás dele, alguma coisa abriu um único olho gigantesco.
Ikarus parou.
O olho desapareceu.
A figura também.
Durante alguns segundos, não houve absolutamente nenhum som.
Então, vindo das profundezas de Okhus, um sino tocou.
Uma vez.
Duas vezes.
Três.
Ikarus apertou a espada.
— O nono...
Ele olhou para os oito fragmentos.
— ...está aqui.
E entrou em Okhus.
Sem saber que, naquela cidade, pela primeira vez desde o início de sua jornada, ele não seria recebido por um Guardião.
Seria recebido por alguém que já sabia exatamente quem ele era.
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