Enquanto Ikarus se aproximava lentamente de Okhus, o restante do mundo havia aprendido a sobreviver a uma guerra que ninguém sabia quando terminaria.
As hordas de mortos-vivos não pertenciam mais a uma única região. Elas surgiam em diferentes pontos do continente, às vezes milhares de quilômetros umas das outras, como se alguma coisa invisível estivesse espalhando a morte pelo mundo.
Reinos que durante séculos haviam sido inimigos começaram a lutar lado a lado.
Humanos marchavam ao lado de elfos.
Anões fechavam suas cidades subterrâneas para proteger refugiados humanos.
Orcs lutavam nas mesmas muralhas que soldados que, poucos anos antes, teriam sido seus inimigos.
Não havia amizade entre todos.
Não havia paz verdadeira.
Havia necessidade.
Os mortos não se importavam com fronteiras.
Não reconheciam reis.
Não respeitavam tratados.
E não negociavam.
Quando uma horda aparecia, todos tinham apenas duas escolhas:
Lutar.
Ou morrer.
As grandes cidades começaram a construir muralhas ainda maiores. Torres de vigia foram erguidas nas estradas. Mensageiros atravessavam reinos inteiros levando notícias sobre movimentações de mortos-vivos.
Pequenas vilas foram abandonadas.
Outras se transformaram em fortalezas.
Campos inteiros deixaram de ser cultivados porque ninguém ousava permanecer neles depois do anoitecer.
E, mesmo assim, a humanidade resistia.
Em Lenória, soldados eram enviados constantemente para as fronteiras.
Em Kallon, navios patrulhavam as águas.
Em Sefrion, antigos conhecimentos mágicos voltaram a ser estudados.
Em Gallen, guerreiros montavam cavalos durante dias inteiros para alcançar comunidades ameaçadas.
Em Valeth, arqueiros guardavam as montanhas.
Em Khsandra, os sobreviventes protegiam as florestas que ainda permaneciam intocadas.
Até mesmo os reinos que haviam perdido seus antigos Guardiões continuavam lutando.
Porque os Guardiões haviam morrido.
Mas os povos continuavam vivos.
E talvez essa fosse a maior herança que haviam deixado.
A resistência não era organizada por um único rei.
Não havia um grande comandante.
Não existia um exército mundial.
Era simplesmente uma sucessão interminável de pessoas recusando-se a morrer.
Um ferreiro que passava a noite fabricando espadas.
Uma criança levando água para soldados feridos.
Um camponês escondendo uma família dentro de seu celeiro.
Um velho que se recusava a abandonar sua casa.
Uma mulher que segurava uma lança diante da porta enquanto seus filhos estavam escondidos atrás dela.
O mundo inteiro estava cansado.
Mas continuava de pé.
E então havia Angarkor.
Ninguém conseguia entender Angarkor.
Ele não comandava as hordas como um general comum.
Não parecia interessado em conquistar territórios.
Não exigia tributos.
Não buscava tronos.
Ele simplesmente aparecia.
E destruía.
Às vezes, uma vila inteira desaparecia durante uma única noite.
Não havia batalha.
Não havia aviso.
Apenas morte.
Uma manhã, uma pequena comunidade foi encontrada completamente destruída. As casas estavam em ruínas. Os animais haviam desaparecido. Os poucos sobreviventes não conseguiam explicar exatamente o que havia acontecido.
Todos repetiam a mesma coisa.
— Ele veio.
— Quem?
— Angarkor.
Depois daquele ataque, esperaram.
Esperaram o próximo.
Um dia.
Uma semana.
Um mês.
Nada.
Dois meses.
Nada.
Três meses.
Nenhum ataque.
Os sobreviventes começaram a reconstruir.
As crianças voltaram a brincar.
As plantações foram refeitas.
As casas começaram a ser erguidas novamente.
Então, certa noite, Angarkor apareceu em outro lugar.
A centenas de quilômetros dali.
Outra vila.
Outra destruição.
E depois desapareceu.
Sem deixar uma ordem.
Sem enviar uma mensagem.
Sem explicar absolutamente nada.
Durante meses, não fazia coisa alguma.
Então voltava.
Uma cidade.
Uma caravana.
Uma aldeia.
Às vezes um posto militar.
Às vezes simplesmente uma estrada onde havia viajantes.
Era impossível prever.
Os estrategistas começaram a tentar encontrar um padrão.
Não encontraram.
Os magos tentaram rastreá-lo.
Falharam.
Exércitos foram enviados para caçá-lo.
Quando chegavam ao lugar onde ele havia sido visto, já não havia ninguém.
Angarkor simplesmente havia desaparecido.
Alguns começaram a dizer que ele estava testando o mundo.
Outros diziam que queria espalhar medo.
Alguns acreditavam que ele procurava alguma coisa.
Mas ninguém sabia.
Nem mesmo aqueles que lutavam contra ele conseguiam compreender por que alguém com tamanho poder se comportaria daquela maneira.
E o pior era justamente isso.
Angarkor não precisava destruir tudo.
Ele poderia tentar.
Mas não tentava.
Ele destruía quando queria.
E parava quando queria.
Meses podiam passar sem que uma única cidade fosse atacada.
Então, sem qualquer aviso, uma região inteira podia ser devastada.
Era como se a própria destruição tivesse vontade própria.
As pessoas começaram a viver com medo do silêncio.
Porque quando Angarkor atacava, havia sinais.
Quando ele desaparecia, não havia nada.
E ninguém sabia qual dos dois momentos era pior.
Em uma vila próxima às fronteiras do norte, um grupo de soldados conversava diante de uma fogueira.
— Faz quatro meses.
— Eu sei.
— Talvez ele tenha ido embora.
O soldado mais velho balançou a cabeça.
— Não.
— Como sabe?
— Porque monstros como ele não vão embora.
O jovem soldado olhou para o céu.
— Então o que ele está fazendo?
O veterano permaneceu em silêncio.
Depois respondeu:
— Esperando.
— Esperando o quê?
O velho olhou para o horizonte.
— Nós.
Enquanto isso, as histórias sobre Ikarus também começaram a atravessar as mesmas terras.
Os soldados falavam sobre um homem que havia aparecido em vilas ameaçadas.
Os camponeses diziam que ele lutava sozinho.
Alguns afirmavam que ele carregava oito poderes diferentes.
Outros diziam que ele era imortal.
Ninguém sabia a verdade.
Mas, pouco a pouco, surgiu um rumor.
Angarkor e Ikarus haviam se encontrado.
Era mentira.
Ainda.
Mas o mundo começou a esperar esse encontro.
De um lado, uma criatura que destruía quando queria e desaparecia por meses.
Do outro, um homem que atravessava guerras e fronteiras carregando oito fragmentos que ninguém compreendia.
E, enquanto o mundo resistia às hordas de mortos-vivos, Ikarus finalmente alcançava as terras de Okhus.
Cinco anos depois de sua partida.
Cinco anos depois de ter deixado Lenória.
Cinco anos depois de ter abraçado sua família pela última vez.
À distância, as muralhas de Okhus surgiram diante dele.
Ikarus parou.
Os oito fragmentos começaram a vibrar.
Mas, desta vez, havia algo diferente.
Não era apenas o próximo Guardião.
Era uma presença.
Uma presença que Ikarus já havia sentido antes.
Muito distante.
Muito brevemente.
Como uma sombra atravessando seus pensamentos.
Ele apertou os olhos.
— Angarkor...
O vento soprou.
Nenhuma resposta.
Ikarus continuou caminhando.
Sem saber que, enquanto ele entrava em Okhus, muito longe dali, em algum lugar que nenhum mapa conseguia identificar, Angarkor também havia aberto os olhos.
E, pela primeira vez em meses, levantou-se.
Não porque uma vila o havia chamado.
Não porque um exército o havia provocado.
Não porque alguém o havia encontrado.
Mas porque, naquele momento, alguma coisa havia mudado.
Angarkor olhou para o vazio.
E sorriu.
Então voltou a caminhar.
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