sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Dez

 Depois de deixar Okhus, Ikarus caminhou durante dias.


Não havia mais estrada.


Apenas pedras.


Montanhas.


Vento.


E uma dor constante que parecia ter se tornado parte de seu corpo.


Cada passo lembrava-lhe Angarkor.


As costelas ainda doíam.


O ombro direito mal conseguia levantar.


Havia cortes que ainda não haviam cicatrizado completamente.


Sua respiração permanecia pesada.


E, mesmo assim, ele continuava.


Dez dias.


Doze.


Quatorze.


Ikarus já havia perdido a conta.


Os nove fragmentos permaneciam em seu peito.


Às vezes brilhavam.


Às vezes ficavam completamente silenciosos.


Depois de tudo o que havia acontecido em Okhus, Ikarus já não sabia se aquilo era um bom sinal.


No décimo sexto dia, as montanhas apareceram.


E com elas veio uma mudança.


O vento ficou mais forte.


O céu ficou mais claro.


E, pela primeira vez em muito tempo, Ikarus viu algo que não via desde antes da guerra.


Um animal voando.


Era pequeno.


Uma espécie de ave branca.


Ikarus parou.


Olhou para o céu.


Por alguns segundos, apenas observou.


Então continuou.


Ao atravessar a primeira passagem montanhosa, viu o reino.


Thimos.


Era diferente de tudo que conhecia.


Grandes vales verdes se espalhavam entre as montanhas.


Cidades construídas nas encostas.


Pontes de pedra atravessando precipícios.


Torres brancas.


E, acima de tudo, criaturas aladas.


Pégasos.


Centenas deles.


Alguns selvagens.


Outros usados por cavaleiros.


Ikarus ficou olhando.


— Então é aqui...


O décimo reino.


Os nove fragmentos começaram a emitir uma luz fraca.


Ikarus colocou a mão sobre o peito.


— Eu sei.


Ele continuou caminhando.


Mas alguma coisa estava errada.


As cidades estavam cheias.


As pessoas trabalhavam.


Crianças corriam pelas ruas.


Comerciantes gritavam.


Cavaleiros passavam.


Mas todos olhavam para Ikarus.


Não com admiração.


Com medo.


Ikarus entrou na primeira cidade.


Um homem reconheceu imediatamente os fragmentos.


— É ele.


Outro respondeu:


— O portador.


Uma mulher puxou a criança para perto.


Ikarus continuou caminhando.


Até que um soldado se aproximou.


— Você precisa falar com o Guardião.


Ikarus parou.


— Onde ele está?


O soldado apontou para a montanha.


— No Templo do Céu.


— Quanto tempo?


— Um dia.


Ikarus assentiu.


E continuou.


Naquela noite, dormiu fora da cidade.


Não conseguiu descansar.


Sonhou com Angarkor.


Acordou antes do amanhecer.


Sentou-se perto de uma fogueira pequena.


Olhou para as mãos.


Ainda tremiam.


— Eu quase morri.


A frase saiu sozinha.


Ele nunca havia dito aquilo em voz alta.


Talvez porque dizer tornasse aquilo real.


Ikarus olhou para o céu.


— Mas estou vivo.


Levantou-se.


Pegou a espada.


E começou a subir a montanha.


---


Ao meio-dia, Ikarus chegou ao templo.


Era gigantesco.


Construído no topo da montanha.


Colunas brancas subiam até desaparecer nas nuvens.


E no centro havia uma estátua.


Um cavalo alado.


O Pégaso de Thimos.


Ikarus entrou.


O salão estava vazio.


Ele caminhou lentamente.


— Guardião!


Sua voz ecoou.


Nenhuma resposta.


Ikarus avançou.


Então ouviu passos.


Um homem apareceu no outro lado do salão.


Armadura dourada.


Manto branco.


Cabelos negros.


Olhos dourados.


Uma lança dourada nas mãos.


Ikarus parou.


O homem também.


— Você é Ikarus.


Não era uma pergunta.


— Sou.


— Meu nome é Asterion.


Ikarus olhou para o fragmento dourado que brilhava atrás dele.


— O décimo.


Asterion assentiu.


— Sim.


Ikarus desembainhou a espada.


Asterion fez o mesmo com a lança.


Nenhum dos dois disse mais nada.


Então Asterion falou:


— Antes de começarmos...


Ikarus esperou.


— Quero que saiba uma coisa.


— O quê?


Asterion olhou para os nove fragmentos.


— Eu não vou facilitar.


Ikarus respondeu:


— Eu não esperava que facilitasse.


Asterion assentiu.


— Então venha.


Ikarus avançou.


Asterion também.


As armas se chocaram.


CLANG!


O som atravessou todo o templo.


Ikarus atacou primeiro.


Um corte horizontal.


Asterion bloqueou.


Ikarus girou.


Segundo golpe.


Asterion desviou.


Terceiro.


A lança interceptou.


Ikarus recuou.


Asterion atacou.


A ponta da lança veio diretamente para seu peito.


Ikarus desviou.


Mas não completamente.


A ponta abriu um corte em sua lateral.


Ele sentiu o sangue escorrer.


Asterion não parou.


Outro golpe.


Ikarus bloqueou.


O impacto quase derrubou sua espada.


Outro.


Ikarus recuou.


Outro.


Sua respiração começou a falhar.


Asterion percebeu.


— Você está ferido.


Ikarus avançou.


— E você está falando demais.


Asterion sorriu.


A luta continuou.


Ikarus tentou usar velocidade.


Mas seu corpo não acompanhava.


Tentou força.


Mas os músculos ainda estavam destruídos.


Tentou os fragmentos.


A luz apareceu.


Asterion recuou.


Ikarus invocou o Grifo de Lenória.


A criatura surgiu no salão.


Asterion ergueu a lança.


Atrás dele surgiu uma luz branca.


Um Pégaso colossal apareceu.


O choque entre as duas criaturas fez o templo estremecer.


O Grifo avançou.


O Pégaso respondeu.


Garras contra cascos.


Asas contra asas.


Ikarus aproveitou.


Atacou Asterion.


Asterion bloqueou.


A lança atingiu sua espada.


Ikarus girou.


Asterion desviou.


Ikarus acertou sua armadura.


Uma rachadura apareceu.


Asterion respondeu imediatamente.


A haste da lança atingiu Ikarus no peito.


Ele foi lançado contra uma coluna.


A pedra rachou.


Ikarus caiu.


Tentou levantar.


Asterion avançou.


A lança desceu.


Ikarus rolou.


A arma atravessou o chão.


Ikarus se levantou.


Atacou.


Asterion bloqueou.


Ikarus atacou novamente.


Asterion bloqueou.


Mais uma vez.


Asterion desviou.


Então atacou.


A lança atingiu o ombro de Ikarus.


Ele gritou.


Caiu de joelhos.


Asterion recuou apenas o suficiente para preparar o próximo golpe.


Ikarus percebeu.


Ele estava ficando mais lento.


Muito mais lento.


A luta contra Angarkor havia deixado marcas que nem os fragmentos conseguiam esconder.


Asterion avançou.


Ikarus bloqueou.


O impacto fez seu braço inteiro tremer.


Outro golpe.


Bloqueou.


Outro.


A espada quase escapou.


Asterion atacou novamente.


A ponta da lança atravessou sua coxa.


Ikarus caiu.


O sangue escorreu pelo chão.


Asterion retirou a arma.


— Levante.


Ikarus respirava com dificuldade.


— Você não vai me dar descanso?


— Não.


— Por quê?


Asterion respondeu:


— Porque os outros não tiveram.


Ikarus ergueu os olhos.


Asterion continuou:


— Você quer o meu fragmento.


— Quero.


— Então terá que pagar por ele.


Ikarus segurou a espada.


Tentou levantar.


Uma vez.


Caiu.


Tentou novamente.


Levantou.


Asterion avançou.


Ikarus também.


As duas armas se chocaram.


Ikarus atacou.


Asterion defendeu.


Asterion atacou.


Ikarus desviou.


A luta tornou-se cada vez mais violenta.


O chão estava coberto de sangue.


Parte era de Asterion.


A maior parte era de Ikarus.


Os nove fragmentos brilhavam cada vez mais.


Ikarus sentiu algo dentro de si.


Força.


Não suficiente.


Mas força.


Ele avançou.


Asterion bloqueou.


Ikarus girou.


Asterion tentou acompanhar.


Ikarus mudou o golpe no último instante.


A lâmina atingiu seu braço.


Asterion recuou.


Ikarus avançou.


Outro corte.


Asterion bloqueou.


Ikarus bateu com o punho em seu rosto.


Asterion cambaleou.


Ikarus levantou a espada.


Asterion reagiu.


A lança atravessou o abdômen de Ikarus.


O mundo parou.


Ikarus olhou para baixo.


A ponta dourada havia atravessado sua armadura.


Asterion puxou a lança.


Ikarus caiu de joelhos.


O Guardião respirava pesadamente.


Também estava ferido.


Mas ainda estava de pé.


— Acabou.


Ikarus ergueu os olhos.


Asterion levantou a lança.


Ikarus olhou para os nove fragmentos.


Depois para a espada.


Depois para Asterion.


Não havia força suficiente.


Então percebeu.


Não precisava de força.


Precisava apenas de uma oportunidade.


Asterion atacou.


Ikarus desviou para o lado.


A lança passou.


Ikarus agarrou o braço de Asterion.


Puxou.


Asterion tentou se libertar.


Ikarus aproximou a espada.


Asterion levantou o joelho.


Atingiu o peito de Ikarus.


Ikarus perdeu o ar.


Mas não soltou.


Com o último resto de força que possuía...


cravou a espada.


A lâmina atravessou a armadura dourada.


Atravessou o peito de Asterion.


E saiu pelas costas.


Asterion ficou imóvel.


Ikarus também.


O Guardião olhou para baixo.


Depois olhou para Ikarus.


— Você...


Sua voz falhou.


Ele respirou.


— ...venceu.


Asterion caiu.


O Pégaso desapareceu.


Ikarus permaneceu de pé por mais alguns segundos.


Então caiu de joelhos.


A espada escapou de sua mão.


Ele tentou respirar.


Não conseguiu.


Levou a mão ao ferimento.


Estava coberta de sangue.


— Ainda...


Ele fechou os olhos.


— ...faltam dois.


O décimo fragmento surgiu sobre o corpo de Asterion.


Flutuou pelo salão.


E entrou no peito de Ikarus.


Os nove fragmentos reagiram.


Dez luzes douradas iluminaram o templo.


Uma voz ecoou:


— DEZ.


Ikarus tentou levantar.


Não conseguiu.


A voz continuou:


— AINDA FALTAM DOIS.


Ikarus sorriu fracamente.


Então perdeu a consciência.


O corpo de Asterion permaneceu no chão.


O décimo Guardião estava morto.


E Ikarus...


estava vivo.


Por muito pouco.


Naquela noite, uma tempestade cobriu Thimos.


E, no templo destruído, entre o sangue de dois guerreiros, dez fragmentos brilhavam silenciosamente.


Ikarus havia conseguido.


Mas ainda havia dois.


E o próximo reino seria ainda mais difícil.


Porque, depois de Thimos, restava apenas um reino antes de Aldora.


E Aldora era o fim.

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