sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: O quarto

 Angarkor não respondeu imediatamente.


O sorriso desapareceu de seu rosto.


Ikarus permanecia diante dele, encharcado, coberto pelo sangue dos inimigos que havia atravessado para chegar até ali. A água escorria de seus cabelos e pingava da ponta de sua espada sobre o chão de pedra.


Atrás de Angarkor, o Necromante permanecia sentado.


Observando.


Esperando.


Ikarus deu um passo.


— Você matou Raella.


Angarkor sustentou seu olhar.


— Matei.


— Por quê?


Silêncio.


Um relâmpago iluminou as enormes janelas do salão.


Angarkor caminhou lentamente para o lado, deixando o trono para trás.


— Antes que eu responda...


Ele parou.


— Você se lembra dos três desertores?


Ikarus franziu a testa.


— Neutro. Ordekh. E você.


Angarkor assentiu.


— Exatamente.


Ikarus apertou a empunhadura da espada.


— Eu conheço essa história.


— Conhece?


Angarkor olhou para ele.


— Ou conhece aquilo que restou dela?


Ikarus não respondeu.


Angarkor caminhou até uma das janelas.


Lá fora, a tempestade continuava destruindo o céu.


— Durante a Guerra dos Duzentos Anos, três irmãos abandonaram aquilo que o mundo esperava deles.


— Os três desertaram.


— Foi assim que passaram a ser chamados.


Angarkor olhou novamente para Ikarus.


— Desertores.


Ele pronunciou a palavra lentamente.


— Mas ninguém perguntou por que eles desertaram.


Ikarus permaneceu imóvel.


— Neutro, Ordekh e eu lutamos juntos durante anos. Vimos homens morrerem. Vimos cidades desaparecerem. Vimos reis mandarem milhares para a morte enquanto permaneciam atrás de muralhas.


Angarkor fechou os olhos por um instante.


— E então percebemos uma coisa.


— O quê?


— A guerra nunca termina para quem aprende a viver através dela.


Ikarus estreitou os olhos.


— E vocês abandonaram tudo.


— Não.


Angarkor abriu os olhos.


— Nós abandonamos aqueles que acreditavam que poderiam controlar o resultado.


Um trovão explodiu do lado de fora.


— Cada um dos três seguiu um caminho diferente. Cada um acreditava possuir uma resposta.


Angarkor tocou levemente o próprio peito.


— Eu escolhi a espada.


Então apontou para o chão.


— Outros escolheram conhecimento.


E finalmente olhou para o Necromante.


— Outros escolheram a morte.


O Necromante não reagiu.


Ikarus percebeu.


Havia algo naquela história que ainda não lhe havia sido contado.


— E onde Raella entra nisso?


Angarkor ficou em silêncio.


Ikarus deu outro passo.


— Eu perguntei por que você a matou.


— Porque ela era a última corrente.


— Corrente?


— Sim.


Angarkor voltou-se completamente para ele.


— Você passou anos procurando poder. Os fragmentos. Os Guardiões. Os reinos. Tudo isso tinha um objetivo.


— Chegar até você.


— Não.


A resposta veio imediatamente.


— Seu objetivo era voltar.


Ikarus congelou.


Angarkor continuou:


— Voltar para Lenória. Voltar para seus filhos. Voltar para Raella. Voltar para a vida que havia deixado para trás.


Ele caminhou lentamente em direção a Ikarus.


— Toda vez que você avançava, havia alguma coisa esperando por você no fim da estrada.


Ikarus cerrou os dentes.


— E daí?


— Daí que você nunca lutou até o fim.


— Eu matei doze Guardiões.


— Porque precisava.


— Atravessei continentes.


— Porque precisava.


— Reuni os doze fragmentos!


— Porque precisava.


Angarkor parou diante dele.


— Mas quando chegou diante de mim...


Silêncio.


— Você ainda queria voltar.


Ikarus abaixou ligeiramente a espada.


Não por fraqueza.


Por reconhecimento.


Angarkor continuou:


— Quando lutei contra você em Aldora, você tinha tudo.


Os olhos vermelhos se fixaram nos dele.


— Os doze fragmentos.


— O poder dos Guardiões.


— A força que procurou durante anos.


— E ainda assim havia alguma coisa faltando.


Ikarus levantou os olhos.


— Então você matou Raella.


— Sim.


— Para me fazer sofrer.


— Não.


Angarkor respondeu calmamente.


— Para tirar de você a última razão para voltar.


Ikarus ficou imóvel.


— Você queria que eu não tivesse mais nada.


— Não.


Angarkor balançou a cabeça.


— Eu queria descobrir o que você faria quando não tivesse mais nada.


A mão de Ikarus começou a tremer.


A espada subiu lentamente.


— Você não sabe nada sobre mim.


Angarkor olhou para a lâmina.


— Sei mais do que você imagina.


— Então sabe que vou matar você.


Angarkor sorriu.


— Agora eu sei.


Ikarus avançou.


Angarkor desapareceu.


O golpe de Ikarus cortou apenas o ar.


Um segundo depois, Angarkor surgiu atrás dele.


Ikarus girou.


As duas katares foram desembainhadas.


O primeiro choque fez o salão inteiro estremecer.


CLANG!


Ikarus recuou um passo.


Angarkor permaneceu imóvel.


CLANG!


Outro golpe.


Ikarus atacou novamente.


Angarkor bloqueou.


CLANG!


Mais uma vez.


Os dois se afastaram.


A chuva batia contra as janelas.


O Necromante observava em silêncio.


Ikarus respirou profundamente.


Então percebeu algo.


Angarkor não estava atacando.


Estava esperando.


— O que você está fazendo?


Angarkor ergueu uma das katares.


— Contando uma história.


Ikarus franziu o rosto.


— Enquanto lutamos?


— É a única maneira de você entender.


Angarkor avançou.


Ikarus bloqueou.


Os dois desapareceram em um borrão.


As lâminas se chocaram repetidamente.


Então Angarkor falou entre os golpes:


— Três irmãos...


CLANG!


— ...três caminhos...


CLANG!


— ...três desertores...


CLANG!


Ikarus conseguiu afastá-lo.


— E qual deles você era?


Angarkor parou.


Por um instante, o sorriso desapareceu.


— Essa...


Ele baixou lentamente as katares.


— ...é a pergunta errada.


Ikarus ergueu a espada.


— Então qual é a certa?


Angarkor olhou para ele.


— O que aconteceu com o quarto?


Ikarus congelou.


O salão ficou em silêncio.


Até o Necromante levantou lentamente os olhos.


Angarkor encarou Ikarus.


— Porque a história dos três desertores começa muito antes de existirem três.


Um relâmpago iluminou o palácio.


E, pela primeira vez naquela noite, Ikarus percebeu que talvez tivesse entrado naquele palácio acreditando que estava perseguindo Angarkor...


quando, na verdade, Angarkor estava esperando que ele finalmente fizesse a pergunta certa.

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