Angarkor não respondeu imediatamente.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
Ikarus permanecia diante dele, encharcado, coberto pelo sangue dos inimigos que havia atravessado para chegar até ali. A água escorria de seus cabelos e pingava da ponta de sua espada sobre o chão de pedra.
Atrás de Angarkor, o Necromante permanecia sentado.
Observando.
Esperando.
Ikarus deu um passo.
— Você matou Raella.
Angarkor sustentou seu olhar.
— Matei.
— Por quê?
Silêncio.
Um relâmpago iluminou as enormes janelas do salão.
Angarkor caminhou lentamente para o lado, deixando o trono para trás.
— Antes que eu responda...
Ele parou.
— Você se lembra dos três desertores?
Ikarus franziu a testa.
— Neutro. Ordekh. E você.
Angarkor assentiu.
— Exatamente.
Ikarus apertou a empunhadura da espada.
— Eu conheço essa história.
— Conhece?
Angarkor olhou para ele.
— Ou conhece aquilo que restou dela?
Ikarus não respondeu.
Angarkor caminhou até uma das janelas.
Lá fora, a tempestade continuava destruindo o céu.
— Durante a Guerra dos Duzentos Anos, três irmãos abandonaram aquilo que o mundo esperava deles.
— Os três desertaram.
— Foi assim que passaram a ser chamados.
Angarkor olhou novamente para Ikarus.
— Desertores.
Ele pronunciou a palavra lentamente.
— Mas ninguém perguntou por que eles desertaram.
Ikarus permaneceu imóvel.
— Neutro, Ordekh e eu lutamos juntos durante anos. Vimos homens morrerem. Vimos cidades desaparecerem. Vimos reis mandarem milhares para a morte enquanto permaneciam atrás de muralhas.
Angarkor fechou os olhos por um instante.
— E então percebemos uma coisa.
— O quê?
— A guerra nunca termina para quem aprende a viver através dela.
Ikarus estreitou os olhos.
— E vocês abandonaram tudo.
— Não.
Angarkor abriu os olhos.
— Nós abandonamos aqueles que acreditavam que poderiam controlar o resultado.
Um trovão explodiu do lado de fora.
— Cada um dos três seguiu um caminho diferente. Cada um acreditava possuir uma resposta.
Angarkor tocou levemente o próprio peito.
— Eu escolhi a espada.
Então apontou para o chão.
— Outros escolheram conhecimento.
E finalmente olhou para o Necromante.
— Outros escolheram a morte.
O Necromante não reagiu.
Ikarus percebeu.
Havia algo naquela história que ainda não lhe havia sido contado.
— E onde Raella entra nisso?
Angarkor ficou em silêncio.
Ikarus deu outro passo.
— Eu perguntei por que você a matou.
— Porque ela era a última corrente.
— Corrente?
— Sim.
Angarkor voltou-se completamente para ele.
— Você passou anos procurando poder. Os fragmentos. Os Guardiões. Os reinos. Tudo isso tinha um objetivo.
— Chegar até você.
— Não.
A resposta veio imediatamente.
— Seu objetivo era voltar.
Ikarus congelou.
Angarkor continuou:
— Voltar para Lenória. Voltar para seus filhos. Voltar para Raella. Voltar para a vida que havia deixado para trás.
Ele caminhou lentamente em direção a Ikarus.
— Toda vez que você avançava, havia alguma coisa esperando por você no fim da estrada.
Ikarus cerrou os dentes.
— E daí?
— Daí que você nunca lutou até o fim.
— Eu matei doze Guardiões.
— Porque precisava.
— Atravessei continentes.
— Porque precisava.
— Reuni os doze fragmentos!
— Porque precisava.
Angarkor parou diante dele.
— Mas quando chegou diante de mim...
Silêncio.
— Você ainda queria voltar.
Ikarus abaixou ligeiramente a espada.
Não por fraqueza.
Por reconhecimento.
Angarkor continuou:
— Quando lutei contra você em Aldora, você tinha tudo.
Os olhos vermelhos se fixaram nos dele.
— Os doze fragmentos.
— O poder dos Guardiões.
— A força que procurou durante anos.
— E ainda assim havia alguma coisa faltando.
Ikarus levantou os olhos.
— Então você matou Raella.
— Sim.
— Para me fazer sofrer.
— Não.
Angarkor respondeu calmamente.
— Para tirar de você a última razão para voltar.
Ikarus ficou imóvel.
— Você queria que eu não tivesse mais nada.
— Não.
Angarkor balançou a cabeça.
— Eu queria descobrir o que você faria quando não tivesse mais nada.
A mão de Ikarus começou a tremer.
A espada subiu lentamente.
— Você não sabe nada sobre mim.
Angarkor olhou para a lâmina.
— Sei mais do que você imagina.
— Então sabe que vou matar você.
Angarkor sorriu.
— Agora eu sei.
Ikarus avançou.
Angarkor desapareceu.
O golpe de Ikarus cortou apenas o ar.
Um segundo depois, Angarkor surgiu atrás dele.
Ikarus girou.
As duas katares foram desembainhadas.
O primeiro choque fez o salão inteiro estremecer.
CLANG!
Ikarus recuou um passo.
Angarkor permaneceu imóvel.
CLANG!
Outro golpe.
Ikarus atacou novamente.
Angarkor bloqueou.
CLANG!
Mais uma vez.
Os dois se afastaram.
A chuva batia contra as janelas.
O Necromante observava em silêncio.
Ikarus respirou profundamente.
Então percebeu algo.
Angarkor não estava atacando.
Estava esperando.
— O que você está fazendo?
Angarkor ergueu uma das katares.
— Contando uma história.
Ikarus franziu o rosto.
— Enquanto lutamos?
— É a única maneira de você entender.
Angarkor avançou.
Ikarus bloqueou.
Os dois desapareceram em um borrão.
As lâminas se chocaram repetidamente.
Então Angarkor falou entre os golpes:
— Três irmãos...
CLANG!
— ...três caminhos...
CLANG!
— ...três desertores...
CLANG!
Ikarus conseguiu afastá-lo.
— E qual deles você era?
Angarkor parou.
Por um instante, o sorriso desapareceu.
— Essa...
Ele baixou lentamente as katares.
— ...é a pergunta errada.
Ikarus ergueu a espada.
— Então qual é a certa?
Angarkor olhou para ele.
— O que aconteceu com o quarto?
Ikarus congelou.
O salão ficou em silêncio.
Até o Necromante levantou lentamente os olhos.
Angarkor encarou Ikarus.
— Porque a história dos três desertores começa muito antes de existirem três.
Um relâmpago iluminou o palácio.
E, pela primeira vez naquela noite, Ikarus percebeu que talvez tivesse entrado naquele palácio acreditando que estava perseguindo Angarkor...
quando, na verdade, Angarkor estava esperando que ele finalmente fizesse a pergunta certa.
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