O brilho que havia surgido nos fragmentos de Ikarus aumentou.
Mas não foi Ikarus quem se levantou.
Foi Angarkor quem recuou.
Um som profundo atravessou o salão.
Como se alguma coisa muito antiga tivesse acabado de despertar sob o palácio.
O Necromante olhou para as paredes.
— Não...
Então uma voz surgiu atrás de Angarkor.
— Já chega.
Angarkor parou.
Outra voz respondeu, vindo do lado oposto:
— Você foi longe demais.
Ikarus ergueu os olhos.
Duas silhuetas estavam surgindo das sombras.
A primeira caminhava lentamente pelo salão.
A segunda vinha pelo corredor lateral.
Angarkor permaneceu imóvel.
Então seus olhos se estreitaram.
— Vocês...
O primeiro homem parou.
Neutro.
O segundo aproximou-se.
Ordekh.
Os dois encaravam Angarkor.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Então Neutro ergueu sua arma.
— Você não deveria mais existir.
Ordekh completou:
— Mas sempre foi assim com você.
Angarkor abaixou a cabeça.
Um sorriso surgiu em seu rosto.
— Quanto tempo.
Neutro respondeu:
— Tempo demais.
Ikarus tentou se levantar.
— Quem...
Sua voz falhou.
Ordekh olhou para ele.
— Fique no chão.
Ikarus tentou protestar.
— Eles...
— Depois.
Ordekh voltou os olhos para Angarkor.
— Agora temos outro assunto.
Angarkor desembainhou lentamente as duas katares.
O som metálico atravessou o salão.
Neutro apertou a própria arma.
— Ragnarok.
Ikarus olhou para ele.
A palavra pareceu estranha.
Ordekh repetiu:
— Ragnarok.
Angarkor ficou completamente imóvel.
— Não me chamem assim.
Neutro deu um passo.
— Esse foi o nome que recebeu quando deixou de ser apenas Angarkor.
Ordekh avançou.
— O nome daquele que não deveria voltar.
Angarkor levantou o rosto.
Os olhos vermelhos brilhavam.
— Vocês ainda acreditam que podem me impedir?
Neutro respondeu:
— Não.
Ordekh completou:
— Mas podemos tentar.
Angarkor desapareceu.
O choque seguinte quase derrubou o salão.
CLANG!
Neutro bloqueou a primeira katar.
Ordekh interceptou a segunda.
Angarkor girou.
Os três desapareceram em uma sucessão de movimentos rápidos demais para Ikarus acompanhar.
As lâminas colidiam.
O chão rachava.
As colunas tremiam.
Ikarus observava, ainda ajoelhado.
Mas então ouviu uma voz.
— Eiran.
O garoto virou-se.
O Necromante estava atrás dele.
Eiran imediatamente levantou a espada.
— Não chegue perto da minha irmã.
Lyra segurou o braço do irmão.
O Necromante não atacou.
Apenas os observou.
— Vocês não deveriam ter vindo.
Eiran respondeu:
— Viemos pelo nosso pai.
— Eu sei.
O menino hesitou.
O Necromante olhou para Lyra.
Depois para Eiran.
— Vocês sabem quem são?
Eiran franziu a testa.
— Somos filhos de Ikarus.
— Não foi isso que perguntei.
O silêncio caiu entre os três.
O Necromante aproximou-se lentamente.
Eiran levantou a espada.
— Pare.
O Necromante parou.
— Seu pai passou anos procurando respostas.
Ele olhou para Ikarus, caído no centro do salão.
— E nunca percebeu que algumas delas estavam diante dele.
Lyra perguntou:
— Que respostas?
O Necromante não respondeu.
Seus olhos estavam fixos nela.
Então alguma coisa aconteceu.
Uma pequena luz surgiu na mão de Lyra.
Ela recuou assustada.
— O que é isso?
Eiran olhou para a mão da irmã.
— Lyra...
A luz aumentou.
Ao mesmo tempo, um dos fragmentos de Ikarus brilhou novamente.
Depois outro.
Angarkor percebeu.
Mesmo lutando contra Neutro e Ordekh, virou o rosto.
Seus olhos encontraram Lyra.
E, pela primeira vez, sua expressão mudou completamente.
— Não.
Neutro aproveitou a distração e atingiu Angarkor.
Ragnarok foi lançado contra uma coluna.
A pedra explodiu.
Ordekh avançou.
— Olhe para nós!
Angarkor levantou-se.
Mas continuava olhando para Lyra.
— Então era ela...
Eiran se colocou diante da irmã.
— Não sei do que você está falando.
O Necromante aproximou-se da menina.
Eiran apontou a espada.
— Eu disse para não chegar perto!
O Necromante parou novamente.
— Eiran.
O garoto congelou.
— Como sabe meu nome?
O Necromante não respondeu.
Em vez disso, olhou para os dois como se estivesse diante de algo que havia esperado durante muito tempo.
— Um deles carrega a chave.
Eiran apertou a espada.
— Chave para quê?
O Necromante finalmente respondeu:
— Para aquilo que o seu pai jamais deveria encontrar.
Atrás deles, um estrondo sacudiu o palácio.
Angarkor havia atravessado uma parede.
Neutro e Ordekh avançaram juntos.
— RAGNAROK!
Angarkor surgiu dos escombros.
Sangue escorria pelo rosto.
Ele sorriu.
— Vocês ainda têm esse nome na boca...
Então ergueu as duas katares.
— ...mas esqueceram o que ele significa.
Os três se lançaram novamente um contra o outro.
Enquanto isso, a luz na mão de Lyra crescia.
Eiran olhou para a irmã.
— Lyra... o que está acontecendo?
Ela começou a chorar.
— Eu não sei.
O Necromante aproximou-se mais uma vez.
Dessa vez, não para atacá-los.
Ele estendeu a mão.
— Venha comigo.
Eiran imediatamente ficou entre os dois.
— Não.
O Necromante olhou para ele.
— Se permanecer aqui, seu pai poderá morrer.
Eiran hesitou.
O Necromante então acrescentou:
— E se vier comigo...
Ele olhou para Lyra.
— talvez eu consiga impedir que ela descubra o que realmente é.
E, naquele instante, Ikarus ouviu a voz.
Mesmo quase inconsciente.
— Não...
Ele tentou se levantar.
— Não toque nos meus filhos.
O Necromante virou lentamente o rosto.
Ikarus estava de pé novamente.
Mal conseguia permanecer equilibrado.
Mas estava de pé.
Os doze fragmentos brilhavam ao redor dele.
E Ikarus encarava o Necromante.
— Se quiser chegar até eles...
Ele ergueu a espada.
— ...vai ter que passar por mim.
O Necromante sorriu pela primeira vez.
— Finalmente.
E atrás dele, a luz que envolvia Lyra explodiu.
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