O décimo segundo fragmento flutuou lentamente acima do altar.
Ikarus não se moveu.
Thomas também não.
A luz dourada que emanava da pequena esfera iluminava todo o templo, enquanto os onze fragmentos presos ao corpo de Ikarus respondiam como se finalmente tivessem encontrado aquilo que procuravam desde o princípio.
Thomas olhou para o fragmento.
Depois para Ikarus.
E sorriu.
Não era um sorriso de felicidade.
Era o sorriso de alguém que finalmente havia compreendido o fim.
— Então era isso...
Ikarus franziu a testa.
— O quê?
Thomas respirou profundamente.
— Durante todos esses anos eu achei que tinha tomado aquele poder para proteger Aldora.
Ele olhou para o fragmento.
— Mas talvez eu só estivesse guardando aquilo que precisava voltar para você.
Ikarus deu um passo.
— Thomas...
— Não.
Thomas levantou os dois montantes.
— Não diga meu nome desse jeito.
— Que jeito?
— Como se ainda houvesse uma saída.
Ikarus ficou em silêncio.
Thomas fechou os olhos.
— Você sabe o que precisa fazer.
Ikarus apertou a espada.
— Não.
— Sabe.
— Não vou matar você.
Thomas abriu os olhos.
— Então não terá os doze.
O silêncio foi absoluto.
Ikarus sentiu as pernas perderem força.
— Deve existir outra maneira.
— Talvez.
— Então vamos encontrá-la.
Thomas balançou a cabeça.
— Eu já procurei.
— Quando?
— Desde que matei Dravion.
Ikarus ficou imóvel.
Thomas continuou:
— Passei anos tentando descobrir se existia uma maneira de ser Guardião sem carregar esse fragmento. Não existe.
Ele apontou para o próprio peito.
— O fragmento não é uma arma.
Pausa.
— É um juramento.
Ikarus abaixou lentamente a espada.
Thomas sorriu.
— E agora você está diante do mesmo juramento que todos os outros estavam.
— Mas eles eram estranhos.
— E eu não sou?
Ikarus não respondeu.
— É justamente por isso que dói.
Thomas avançou.
O primeiro golpe veio sem aviso.
Ikarus bloqueou.
CLANG!
O segundo atingiu sua espada.
CLANG!
O terceiro quase abriu seu ombro.
Ikarus recuou.
— Thomas!
— LUTE!
Thomas atacou novamente.
Ikarus desviou.
O montante passou diante de seu rosto.
— Eu não quero lutar!
— EU SEI!
Thomas girou o corpo e golpeou.
Ikarus bloqueou, mas foi lançado contra uma coluna.
A pedra explodiu atrás dele.
Thomas avançou.
— Então me mate!
Ikarus arregalou os olhos.
— Não!
— ME MATE!
Thomas desferiu outro golpe.
Ikarus desviou.
— Você é meu amigo!
— E VOCÊ É O MEU!
Outro golpe.
— Então por que está fazendo isso?!
Thomas parou por uma fração de segundo.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Porque alguém precisa terminar isso!
O dragão atrás dele rugiu.
Thomas avançou novamente.
Dessa vez, Ikarus não recuou.
As duas armas se encontraram.
A força dos dois fez o chão rachar.
Thomas pressionou os montantes contra a espada de Ikarus.
— Você acha que eu quero morrer?
Ikarus respirava com dificuldade.
— Não.
— Claro que não!
Thomas chorava agora.
— Eu tenho um reino!
Ele empurrou Ikarus.
— Tenho pessoas!
Outro golpe.
— Tenho uma vida!
Outro.
— Tenho coisas que ainda quero fazer!
Ikarus bloqueou.
— Então viva!
Thomas gritou:
— NÃO POSSO!
O golpe seguinte quebrou uma das colunas.
— Porque eu sou o Guardião!
Ikarus sentiu os onze fragmentos queimarem.
Thomas continuou:
— E você veio buscar o último!
Silêncio.
Os dois se afastaram.
Thomas respirava pesadamente.
Ikarus também.
Thomas olhou para os montantes.
Depois para Ikarus.
— Lembra quando éramos jovens?
Ikarus não respondeu.
— Você sempre dizia que não importava de onde alguém vinha.
Thomas sorriu entre lágrimas.
— Que o que importava era aquilo que escolheríamos fazer com aquilo que recebemos.
Ikarus sentiu os olhos arderem.
— Thomas...
— Eu escolhi Aldora.
Ele tocou o fragmento.
— Você escolheu continuar.
Ikarus balançou a cabeça.
— Eu escolhi minha família.
Thomas sorriu.
— Então volte para ela.
E atacou.
Dessa vez, Ikarus não tentou convencer Thomas.
Não tentou fugir.
Não tentou desarmá-lo.
Ele entendeu.
Thomas não estava tentando vencer.
Estava tentando garantir que Ikarus não precisasse carregar a culpa de escolher.
Os dois lutaram uma última vez.
Sem ódio.
Sem raiva.
Sem desejo de vingança.
Apenas dois homens tentando cumprir aquilo que acreditavam ser seu dever.
Thomas atacou pela esquerda.
Ikarus desviou.
O montante direito veio imediatamente.
Ikarus girou.
A espada encontrou uma abertura.
Por um instante...
Thomas ficou completamente exposto.
Ikarus parou.
Poderia recuar.
Poderia abaixar a espada.
Poderia deixar Thomas viver.
Thomas percebeu.
E apenas sussurrou:
— Faça.
Ikarus fechou os olhos.
Pensou em Raella.
Eiran.
Lyra.
Gillian.
Pensou em todos os mortos.
Então abriu os olhos.
E atacou.
A espada atravessou a defesa de Thomas.
O impacto fez o corpo do meio-dragão recuar alguns passos.
Os montantes caíram.
Um deles bateu no chão.
Depois o outro.
Thomas permaneceu de pé por alguns segundos.
Ikarus não conseguia respirar.
— Thomas...
Thomas olhou para ele.
Não havia raiva.
Apenas paz.
— Você conseguiu.
Ikarus segurou Thomas antes que ele caísse.
Os dois ficaram assim por alguns segundos.
Ikarus segurando o antigo companheiro.
Thomas apoiando-se nele.
— Eu sinto muito.
Thomas respirou lentamente.
— Não sinta.
— Eu matei você.
Thomas sorriu.
— Não.
Ele olhou para o fragmento.
— Você me libertou.
O corpo de Thomas começou a perder força.
Ikarus o segurou com mais força.
— Eu não queria isso.
— Eu sei.
— Eu não queria matar você.
— Eu sei.
Thomas fechou os olhos.
— Então faça uma coisa por mim.
Ikarus chorava.
— Qualquer coisa.
— Proteja Aldora.
Ikarus assentiu.
— Eu prometo.
Thomas abriu os olhos uma última vez.
— E quando encontrar seus filhos...
A voz falhou.
Ikarus aproximou o rosto.
— O quê?
Thomas sorriu.
— Diga a eles que o pai deles voltou.
Ikarus fechou os olhos.
— Eu vou.
Thomas respirou uma última vez.
E não respirou novamente.
O templo ficou silencioso.
Ikarus permaneceu ajoelhado, segurando o corpo de Thomas.
O rei de Aldora.
O Guardião.
Seu amigo.
Morto.
Por muito tempo, Ikarus não se moveu.
Então colocou lentamente o corpo de Thomas no chão.
Pegou os dois montantes.
Colocou-os sobre o peito dele.
— Você foi um bom rei.
Ikarus engoliu o choro.
— E um bom Guardião.
Ele se levantou.
O décimo segundo fragmento ainda flutuava sobre o altar.
Ikarus caminhou até ele.
Parou diante da esfera dourada.
Por onze vezes ele havia feito aquilo.
Por onze vezes havia tomado um fragmento de um morto.
Mas aquela vez era diferente.
Ele estendeu a mão.
O fragmento tocou seus dedos.
E desapareceu.
Os doze fragmentos explodiram simultaneamente.
Uma onda de luz atravessou o templo.
Ikarus caiu de joelhos.
Todas as vozes vieram ao mesmo tempo.
Ranur.
Sahrion.
Eryon.
Darven.
Aren.
Kaeron.
Serenya.
Arenos.
Dhaeron.
Asterion.
Baltar.
Thomas.
Doze vidas.
Doze mortes.
Doze juramentos.
Doze fragmentos.
Ikarus gritou.
Não de dor.
De algo muito mais profundo.
As luzes penetraram seu corpo.
As paredes do templo começaram a desaparecer diante de seus olhos.
Ele viu coisas que não compreendia.
Um mundo antigo.
Uma batalha.
Doze figuras.
Uma única presença.
Uma divisão.
Uma queda.
E então...
uma criança.
Ikarus.
Mas não como ele se lembrava de si mesmo.
Muito mais jovem.
Muito mais antigo.
E alguém estava diante dele.
Uma voz falou:
— Agora você está inteiro.
Ikarus tentou responder.
— Quem é você?
A figura se aproximou.
— Eu sou aquilo que você esqueceu.
Então tudo ficou branco.
Ikarus caiu.
Quando abriu os olhos...
estava sozinho.
O corpo de Thomas permanecia diante dele.
Os dois montantes repousavam sobre seu peito.
O décimo segundo fragmento havia desaparecido.
E, no corpo de Ikarus...
não havia mais onze.
Havia doze.
Ikarus olhou para as próprias mãos.
Pela primeira vez, sentiu o conjunto completo.
E percebeu algo terrível.
Os fragmentos não estavam apenas lhe dando poder.
Eles estavam devolvendo memórias.
Memórias que não pertenciam aos Guardiões.
Memórias que pertenciam a ele.
Ikarus levantou-se lentamente.
Olhou uma última vez para Thomas.
— Eu vou voltar.
Ele caminhou até a saída.
Parou na porta.
— Eu prometi.
Então saiu do templo.
Do lado de fora, Aldora permanecia silenciosa.
O reino ainda não sabia.
Seu rei estava morto.
Seu Guardião estava morto.
E o homem que havia matado os dois papéis em uma única pessoa carregava agora os doze fragmentos.
Muito longe dali, Angarkor abriu os olhos.
Dessa vez, não sorriu.
Ele apenas levantou-se.
— Finalmente.
A presença ao redor dele mudou.
— Agora ele está completo.
Angarkor pegou suas duas katares.
— Agora...
Seus olhos vermelhos brilharam.
— ...podemos lutar.
E, pela primeira vez em muitos anos, Angarkor deixou seu esconderijo.
A caça havia terminado.
A verdadeira batalha estava prestes a começar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário